Gastão Cruls

O Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, onde Gastão Cruls nasceu a 4 de maio de 1888 – era àquela época um local feio e pobre, amontoado de casinhas humildes, onde sobressaía o grande edifício do Observatório Astronômico – construção pesada, erigida com a finalidade inicial de servir de convento. Dirigia o Observatório o seu próprio pai, o cientista belga Luís Cruls; e ali residia ele com a família – a mulher (D. Maria de Oliveira) e os sete filhos.

Foi naquele ambiente que o futuro escritor passou os primeiros anos, numa vida quieta e quase solitária. Mais tarde, ele relembraria:

“Não tinha amigos, e minha distração era brincar com o irmão Otávio, falecido pouco depois, e os dois filhos do porteiro. No jardim, ou no grande salão situado no andar térreo, depois de encerrado o expediente do Observatório, andava de bicicleta – presente que um amigo de meu pai me trouxera da Europa.”

Foi ainda na companhia do irmão que fez os estudos primários no Colégio Rush, localizado num sobrado da Rua São José. Posteriormente, tendo a família se transferido para Petrópolis, foi matriculado no Ginásio Fluminense, recém-fundado, e onde cursou os quatro anos dos preparatórios (de 1899 a 1902). Mas o ginásio teve vida efêmera, sendo o menino transferido para o Colégio São Vicente de Paulo, na mesma cidade, concluindo os últimos exames (parceladamente) no Pedro II, no Rio de Janeiro.

Desde a meninice, foi o romancista muito dado às leituras, e entre as primeiras obras que leu encontrava-se um romance de aventuras juvenis – A Casa do Saltimbanco –, narrativa ingênua, que no entanto lhe ficaria gravada até o fim da vida. Ao tempo do colégio, lia tudo o que conseguia adquirir nos “sebos” da cidade – volumes em português, francês e espanhol. Foi a essa época que tomou conhecimento da obra de Alencar – literatura proibida para a sua idade, e que devorava às escondidas. Ao contrário dos de sua geração, nunca suportou muito Júlio Verne, talvez porque – conjecturaria mais tarde – lhe fosse imposto como literatura adequada à idade. No entanto, embora lesse muito, o rapaz não pensava em escrever.

Em 1905, matriculou-se Gastão Cruls na Faculdade de Medicina. E até 1910, quando concluiu o curso, foi interno na enfermaria do Professor Miguel Couto (onde teve por companheiro ao escritor Miguel Ozório de Almeida), havendo frequentado, no terceiro ano, a enfermaria do Professor Pais Leme. Ainda no sexto ano, como auxiliar acadêmico, entrou para o quadro da Assistência Pública, nele permanecendo até 1921, aí exercendo, sucessivamente, as funções de subcomissário e comissário médico.

Embora o amor à carreira abraçada, e apesar de ter feito o curso de maneira exemplar, o escritor não se adaptaria à Medicina no seu exercício profissional. Assim, depois de tentativas em setores diversos da carreira – como a clínica médica e a dermatologia – e tendo mesmo montado mais de um consultório (um deles com Miguel Ozório), acabou por abandoná-la. Conservou, entretanto, o gosto do estudo e da pesquisa científica, gosto que, unido aos seus profundos conhecimentos na matéria, deixaria transparecer nas obras que escreveria mais tarde, de ciência ou de ficção.

Foi somente depois de concluído o curso que Gastão Cruls pensou em fazer literatura. E seriam justamente a visão do hospital e das enfermarias da Faculdade, o contato com os doentes, os casos clínicos – que lhe dariam o cenário e material para suas obras de ficção. “Seio de Rosaura”, seu primeiro conto, tinha já aquela temática. Mas não chegou a publicar a página, lida apenas por amigos mais íntimos. O segundo – “Desencantamento” – também se manteve inédito: remetera-o, sob pseudônimo, para um concurso literário de uma revista de Portugal, mas dele nunca mais teve notícias. Não guardou cópia, ignorando mesmo se o trabalho chegou a seu destino.

Depois dessas duas primeiras experiências, escreveu outros contos, publicados inicialmente na Revista do Brasil (fase de Monteiro Lobato), sob o pseudônimo de Sérgio Espínola: “A Noiva de Oscar Wilde”, “G.C.P.A.”, “A Morte do Saci” e “Cipó Braúna”. E foi a boa acolhida que tiveram que o animou a enfeixá-los juntamente com outros no volume Coivara, publicado pelo editor Castilho, em 1920. O livro teve a melhor aceitação, havendo se pronunciado sobre ele, entre outros, Lima Barreto e Tristão de Athayde. Na verdade, abordando casos clínicos, ou temas fantásticos – uns e outros de grande conteúdo dramático – mostrava-se Gastão Cruls excelente contador de histórias, e apesar de certo preciosismo de linguagem e da minúcia descritiva dos ambientes, sabia conduzir o leitor absorvido até o desfecho, através de uma trama muito bem urdida e valorizada pelo clima de suspense.

Em 1917, veio Gastão Cruls a conhecer Antônio Torres, de quem se tornou grande amigo e cuja roda, no Bar Nacional, passou a frequentar. Através do polemista de Verdades Indiscretas começou a ter contato com outras figuras do ambiente literário, sobretudo Gilberto Amado – a quem ficaria ligado até o fim da vida. Até então, não tinha Cruls, praticamente, contato com escritores, a não ser Alberto Rangel – a quem conhecera em 1903 e que fora discípulo do velho Luís Cruls, na Escola Militar da Praia Vermelha. Voltara a encontrá-lo em 1912, já autor de Inferno Verde, firmando-se então a amizade. Conheceu também Monteiro Lobato e Lima Barreto, chegando a trocar correspondência com o primeiro.

Em 1923, publicou o escritor uma segunda coletânea de contos – Ao Embalo da Rede – resultado das observações feitas durante sua estada na Paraíba, para onde fora dois anos antes integrando uma Comissão de Saneamento Rural; e nela fixou temas e cenários nordestinos, dentro das mesmas diretrizes de sua obra de estreia.

Em 1925, apresentava o seu primeiro romance – A Amazônia Misteriosa – baseado, como a maioria dos contos, em tema científico. Mas desta vez imprime à obra um caráter de romance de aventuras, na apresentação da história de um estranho cientista que, ultrapassando aquele Dr. Moreau, de Wells, faz surpreendentes experiências de cruzamento entre diferentes tipos animais, contradizendo a teoria da fixação das espécies.

Tal livro – que dará ao escritor grande repercussão – teve gênese curiosa. A ideia de sua feitura partiu de uma conversa entre ele e Miguel Ozório de Almeida, combinando os dois escritores fazer o romance em colaboração. Mas, acabando o amigo por desistir do projeto, resolveu Cruls levá-lo a cabo sozinho. Decidiu, então, localizar a história na Amazônia, o que não sucedia no projeto primitivo. Acontece que o conhecimento que o escritor possuía da região, embora grande, era exclusivamente teórico. Pôs-se, então, a fazer exaustivas consultas na biblioteca, para dar toda a veracidade ao cenário onde a obra se desenrolaria. E, na verdade, apesar do cunho fantasista – ou por isso mesmo – terá esse romance (que se constituirá uma isolada experiência do gênero em nossa literatura) a melhor acolhida popular, sucedendo-se as suas edições pelo tempo afora (encontrando-se hoje na oitava).

Explicaria mais tarde o romancista que o seu interesse pela Amazônia, demonstrado não só em A Amazônia Misteriosa mas em vários outros trabalhos escritos posteriormente, lhe veio menos do pai (que já a visitara e sobre ela escrevera um trabalho de caráter científico) do que da leitura de Euclides da Cunha, e principalmente do Inferno Verde, de Alberto Rangel.

Em 1926, passou o escritor oito meses na Europa, conhecendo então a França, Itália, Inglaterra e Bélgica – pátria paterna, tendo oportunidade de visitar, em Diest, a casa onde o cientista nasceu. Dessa viagem recolheu várias anotações pessoais, que não chegou a publicar.

Em 1927, inspirado na leitura de uma obra de Morton Prince, que estudara o caso de uma rapariga com seis personalidades, Gastão Cruls escreveu Elza e Helena – romance onde apresentou a história de uma jovem de dupla personalidade. Pelo tema, novo àquela altura, e fascinante, a obra teve a melhor acolhida, fato que não deixou de se repetir com a publicação, em 1928, de A Criação e o Criador – também romance, e para cuja feitura partiu de uma ideia igualmente singular: o pirandeliano tema das relações de um romancista com os seus próprios personagens. Essas obras, entretanto, e ainda Vertigem, aparecida em 1934, se deram ao escritor uma muito particular posição literária, situando-o como um dos raros representantes do romance de caráter científico ou fantástico, com implicações psicológicas – valerão mais pela singularidade da temática e, ressentindo-se de um maior aprofundamento literário, logo envelhecerão. (Vinte anos decorridos de seu aparecimento, Elza e Helena será aproveitado pelo nosso cinema, mas aí já o livro não resistirá a uma releitura.) Por outro lado, apesar da procura de fixação de ambientes brasileiros, os temas de exceção desses romances como que falsearão a nossa realidade, e os afastarão das conquistas que o Modernismo vinha tentando impor, de uma redescoberta da alma brasileira. É verdade que a identificação do escritor com essa realidade se fará. Mas só a partir de então, e sobretudo no campo sociológico ou de pesquisa naturalista, que palmilhará a seguir.

A Amazônia que Eu Vi, publicado em 1930, é o primeiro marco dessa nova fase que dará ao escritor uma posição das mais relevantes e que se manterá inalterada até o fim de sua carreira. Sua paixão pela Amazônia levara-o, em 1928, a participar da Comissão Rondon, na viagem que fizera o famoso general através da região. Publicou, então, aquele documentário em forma de diário, resultado das observações feitas, apresentando-nos uma Amazônia já bem distante daquela de seu romance de estreia. E este livro, que será o de sua predileção, será também o que dará a primeira real medida no escritor sociológico e do apaixonado pela botânica – matéria que aprofundará em trabalhos posteriores.

História Puxa História, volume de contos publicado em 1938, se retomou a linha de sua ficção, mostrou por outro lado um ficcionista maduro e em seu melhor estágio. Na coletânea aparecerão, pelo menos, duas peças de grande categoria literária: “A Patativa” e “Meu Sósia”, esta incluída nas Obras-Primas do Conto Brasileiro, de Edgard Cavalheiro, o que veio impor ainda mais a sua consagração. Na verdade, mais do que em toda a sua ficção anterior, esses dois pequenos trabalhos de temática tão característica de sua obra constituem o que melhor nos deu no gênero. Escritor de estilo sempre agradável e linguagem correta, soube se superpor, nesses contos, através do excelente tratamento psicológico, da boa dosagem dos elementos dramáticos, do feliz desenvolvimento da trama – ao insólito dos temas que os motivaram bem como ao tradicionalismo da técnica, conservando-se tais páginas ainda hoje antológicas, a imporem a presença do autor na mais exigente seleção que se faça do conto brasileiro.

Em 1938, tornou Gastão Cruls a visitar o Norte do Brasil, agora com fito de recolher material para Hileia Amazônica – volume lançado em 1944 em edição limitada, e onde mostrou, à eloquência, os seus conhecimentos de naturalista. Por outro lado, o escritor está sempre presente na obra, onde inexiste qualquer possível ranço dos trabalhos científicos. E prova disso é que o volume, republicado pouco depois em edição popular, teve esgotada em seis meses a sua tiragem. Mas talvez seja a Aparência do Rio de Janeiro – editado pela José Olympio em 1949, em dois volumes e com prefácio de Gilberto Freyre – a obra mais importante de Gastão Cruls. Fruto de pacientes pesquisas e talvez o mais belo e completo roteiro histórico e sociológico com que conta o Rio de Janeiro, constituiu tal trabalho o preito de amor à sua cidade, e com ele arrebatou o Prêmio Vieira Fazenda, da Prefeitura do então Distrito Federal.

Em 1950, publicou Gastão Cruls – Antônio Torres e Seus Amigos (notas biobibliográficas seguidas de correspondência) e em 1954, seu último romance – que foi também seu último livro: De Pai a Filho – obra alentada e sua contribuição mais expressiva no terreno da ficção. Coroamento feliz de uma carreira, com tal livro (cuja personagem Teresa, na opinião do ensaísta Eugênio Gomes, é uma das mais completas criações de nossa ficção) arrebatou o Prêmio Luísa Cláudio de Souza, do Pen-Clube.

Em 1951, publicou a Editora José Olympio os seus Contos Reunidos (Coivara, Ao Embalo da Rede, História Puxa História, a que acrescentou mais quatro contos ainda inéditos em volume – Quatuor) e, em 958 – 4 Romances, que incluiu A Amazônia Misteriosa, Elza e Helena, A Criação e o Criador e Vertigem.

Falecido a 5 de junho de 1959, deixou Gastão Cruls um romance inacabado – Angra – passado na localidade fluminense de Angra dos Reis, e a cuja feitura dedicou os últimos anos de sua vida; pretendia ainda escrever outro romance – Glória –, projeto antigo, que desejou retomar nos últimos tempos. Mas sua realização já se tornava problemática, pois tendo também como cenário a Amazônia, obrigá-lo-ia a nova viagem ao extremo-norte do Brasil, estendendo-se às Guianas, viagem que não mais permitiam a sua idade e o seu precário estado de saúde.

Gastão Cruls, que era funcionário público estadual (chefe da Divisão de Biblioteca do Cinema Educativo, cargo hoje extinto), foi, de 1931 a 1939, diretor do Boletim de Ariel, revista bibliográfica que tinha por redator-chefe Agrippino Grieco. Juntamente com a editora, homônima, representou tal publicação papel dos mais importantes no desenvolvimento de nossa atividade literária e editorial, havendo sido editados, sob o seu selo, uma série de escritores até então praticamente desconhecidos e que se projetaram no âmbito nacional: Raul Bopp, Oswald de Andrade, Cornélio Penna, Murilo Mendes, Marques Rebelo, José Lins do Rêgo, Jorge Amado, Graciliano Ramos.

Solteiro, residia com a mãe (falecida em 1955) num antigo e agradável casarão na Rua das Laranjeiras, de quintal sombreado por velhas árvores. Morou no bairro 37 anos (até sua morte), cuidando de seus pássaros e suas plantas, pelos quais tinha grande carinho.

De grande probidade intelectual, era Gastão Cruls um dos homens mais respeitados e queridos de nosso ambiente literário. Nos últimos anos, vivia afastado desse ambiente; no entanto, quando morreu, não foram poucos os escritores que vieram a público prestar a sua homenagem, através de depoimentos que atestavam a sua grandeza como homem e sua dignidade como escritor.

(Renard Perez no livro Aparência do Rio de Janeiro)