Johann Moritz Rugendas

Auto Retrato de Rugendas, via Wikimedia Commons

João Maurício Rugendas nasceu em Augsburg, em 1802, e morreu em Weilheim an der Teck, em 1858. Pertencia a uma família de artistas. Nada menos de quatro Rugendas passaram à posteridade como pintores e gravadores, no século XVIII. O primeiro conhecido (George-Lourenço, 1666-1742), tataravô de João Maurício, celebrizou-se como pintor de batalhas e caçadas e foi diretor da Academia de Augsburg. João Maurício estudou com seu pai que era professor e diretor da escola de desenho de sua cidade natal. Nada sabemos acerca dos primeiros anos de vida de nosso pintor. Devia, já, entretanto, ter um certo nome na Alemanha, quando o destino o fez empreender a sua primeira grande viagem.

Estava, então, na Europa, de volta de uma excursão aos Montes Urais, o diplomata Langsdorff. Acabava de obter do Czar, o crédito necessário para realizar, pelo sertão brasileiro, uma expedição científica de grande estilo. Rugendas foi contratado como desenhista da missão. Aqui chegando, logo abandonou os companheiros e pôs-se a viajar por conta própria. É muito provável que se tivesse desavindo com Langsdorff. De fato, nessa época, o chefe da missão já devia estar com a saúde perturbada, cada vez mais agitado e lunático. Rugendas foi substituído no posto de desenhista da expedição por Amado Adriano Taunay.

É conhecida a história dessa malfadada expedição. Depois de muita demora, seguiu para Mato Grosso, via São Paulo, dividiu-se em dois grupos, alcançou o Amazonas e voltou ao Rio, desfalcado de Taunay, que se afogara no Rio Guaporé, e carregando o seu chefe, que enlouquecera, em pleno sertão. Parte do material colhido perdeu-se, e parte foi remetida para São Petersburgo, onde ainda deve existir, escondida em algum museu à espera que um erudito a descubra. Consta que muito desenho de Rugendas foi remetido para a Rússia, antes da saída da expedição, do Rio de Janeiro.

Bem fez, portanto, Rugendas em abandonar Langsdorff e agir por sua conta.

Não possuímos um itinerário das excursões de Rugendas. Em vez de descrever a sua viagem, preferiu redigir, para acompanhar a publicação de seus desenhos, um longo estudo geral sobre as condições do Brasil, onde, entre muita ideia obscura e errada, existem observações interessantes e de incontestável valor, que merecem ser mais conhecidas.

De volta à Europa, Rugendas tratou de reunir cem dos desenhos feitos no Brasil, e publicá-los numa edição suntuosa, que apareceu no mesmo ano de 1835, em francês e alemão, em Paris, na litografia de Engelmann, talvez, o melhor e mais célebre estabelecimento desse gênero, que jamais houve.

Mais tarde, tornou ao Brasil, percorreu a América do Sul e o México, e voltou para sua terra natal levando uma enorme coleção de desenhos e pinturas. Publicou uma obra sobre o México, no gênero da que existe sobre o Brasil, e pintou, a pedido do rei da Prússia, uma série de vistas da América do Sul.

Depois de sua morte, muitos de seus desenhos foram para o Museu de Munich, onde ficaram guardados.

Em 1928, quando a Alemanha atravessava uma época terrível de crise financeira, Clovis Ribeiro e Wast Rodrigues, adquiriram do museu inúmeros desenhos originais de Rugendas e trouxeram-nos para São Paulo. Oferecido o lote ao governo federal, este não os pôde adquirir por falta de verba… Foram vendidos a particulares daqui todos os referentes a assuntos brasileiros, (cerca de 400) a colecionadores argentinos e uruguaios, aqueles que tratavam de assuntos rio-platenses (cerca de 200). Dispersou-se assim uma coleção única, inestimável, oferecida ao governo por uma soma muito inferior ao valor que hoje teria.

De Rugendas, existem muitas pinturas a óleo, aquarelas, retratos e composições, em mãos de particulares, na América do Sul e na Alemanha. É lamentável que não se tenha feito, até hoje, um estudo completo da obra de Rugendas, e que não se possua uma relação do conjunto dela, pelo menos da parte brasileira que existe nos museus da Alemanha, nas mãos de particulares, e possivelmente na Rússia. De fato, o pouco que se conhece do grande artista, tem para o estudo de nossa terra um valor documental inigualável. Rugendas não era somente um artista hábil, possuía um sentido muito agudo do pitoresco, sabia escolher a cena curiosa e característica e a paisagem típica. São justamente famosas as pranchas retratando cenas da escravidão e tipos raciais dos nossos escravos, documentos preciosos para o estudioso. Não menos apreciadas são as gravuras representando cenas de costumes regionais, compostas com mão de mestre, cheias de um sabor romântico, tão ao gosto do tempo, e tão cheias de encanto, hoje em dia.

É bem merecida a fama da “Viagem Pitoresca através do Brasil”, e o alto preço que alcançam os exemplares completos e perfeitos, bem demonstra quanto é apreciada a obra do grande artista.

Escolhendo-a para reeditar, em primeiro lugar, nesta “Biblioteca Histórica Brasileira”, cremos não ter errado.

Rubens Borba de Morais

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