A Causalidade e o Trânsito do Barroco

Barroco teve a sua época de grande esplendor, na Itália, devido à ação de seus criadores Bernini e Borromini.

Da Itália, ele se introduz na Espanha pela mão de italianos e espanhóis que lá tinham vivido.

O mesmo ocorreria indiretamente em Portugal, devido aos arquitetos e artistas italianos para o mesmo levados. Mas da Espanha, o Barroco passa diretamente para Portugal. Dois fatores contribuíram para isso: a vizinhança e, por consequência, a facilidade de intercâmbio artístico; a colaboração de arquitetos e artistas espanhóis. E se da antiga Metrópole o Barroco veio para o Brasil, da Espanha também viria para as suas possessões americanas, pela atuação dos que dela provieram.

Entretanto, cumpre esclarecer se esse trânsito, essa passagem, do Barroco para o Brasil, ocorreu por mimetismo ou por imposição oficial. Se assim não ocorreu, por que razão preponderou o Barroco em nossa terra? Porque, na lição de Lafuente Ferrari, – no ensaio preliminar à formidável obra de Weisbach: “La obra de arte, considerada como producto material, está sujeta a una dependencia causal cuyo valor queda reconocido sin duda alguna”.

Dessa sorte, torna-se claro que o motivo causal do Barroco foi na Europa e, consequentemente, no Brasil, o antes citado: de ter sido a arte da Contrarreforma. Se a Reforma fora um movimento religioso de fundo espiritual, a Contrarreforma constituiria um movimento espiritual de fundo religioso. Ora, sendo o Barroco a expressão de uma luta religiosa, o Brasil, católico, teria de expressar-se barrocamente nas artes plásticas; e de relevo na arquitetura e na escultura. O Barroco foi, pois, adotado alhures e aqui por ser uma arte essencialmente cristã. Isso deu origem a que Emílio Male não vacilasse em dizer que existe uma arte cristã do Barroco.

Exercendo uma missão apostólica através da arte, o Barroco tornou-se mais fundal e perenemente espanhol do que italiano. E o Barroco espanhol não é somente o de maior riqueza de todo o mundo, como também aquele que apresentou inúmeras modalidades: barroco renascentista, barroco andaluz, barroco indigenista (na América Hispânica).

A capela da Sorbonne, sob neve, via Wikimedia Commons.

E aquela antes citada missão apostólica do Barroco, o tornou variadamente nacional. Não dissemos, propositadamente, internacional – apesar de sua disseminação na Europa, além da Itália, Espanha e Portugal, na Alemanha do Sul, Baviera, Áustria, Polônia, ChecoEslováquia e até na Bélgica (através do Barroco espanhol) – pois apresentou em vários países múltiplas modalidades. Outros países não sentiram de maneira integral a verdadeira frásica do Barroco. Isso ocorreu, por exemplo, na França, onde a evolução do Barroco se processou lentamente, custando muito para libertar-se de certos detalhes que adotara sem sentimento, para poder atingir o nível do Val-de-Grâce e da Capela da Sorbonne. Assinale-se, mais, que a maior projeção do Barroco na França, ocorreu na ornamentação de interiores. Mas foi um Barroco Renascentista, posto que constituiu uma adaptação do Barroco italiano (o que ocorreu pela ação de artistas vindos da Itália) às tendências e ideias clássicas que, empolgando a sociedade, por isso se apresentavam dominantes. Aquele relativo afastamento dos franceses pelo emprego do Barroco e compreensão de seu significado religioso está magistralmente explicado por Lafuente Ferrari, ao escrever que: “La vocación estética nacional y una serie de causas históricas apartaron a los franceses de una participación activa en la formación del arte barroco, entendido en su intimo sentido, que es el que le da Weisbach, es decir el de expresión del contenido espiritual de la contrarreforma.” Desta sorte, o cartesianismo dominante na França – antes assinalado – contribuiria para que a arte da Renascença passasse, através do estilo Regência, para o Rocalha (o Rocaille, ou Estilo Luís XV ou Estilo Pompadour). Da glorificação do Homem (um dos objetivos da Reforma, através do Humanismo), passara a França a dar preferência à glorificação da Realeza. A tal ponto chegara aquele propósito, que vários estilos, além do Luís XV, receberam os nomes de soberanos. E, assim, houve os denominados Luís XIV e Luis XVI. Fundamentalmente frio, o inglês não poderia aceitar o arrebatamento, a incontinência do Barroco. Por isso, o pouco que pode ser apontado na Grã-Bretanha como de sentido barroco, foi devido ao que de italiano proviera dos Países Baixos ou decorrera das obras de Inigo Jones (Sala de Festas do Whitehall), de Christopher Wren (Catedral de São Paulo, em Londres) e de Vanfrugh, que se abalançou a empregar o barroco em edifícios de certa magnitude. Não obstante o restrito emprego do Barroco naquele país, ele se faz notar na persistência, em muitas padieiras de portadas de mansões, com discretas volutas afrontadas, entre as quais não poucas vezes aparece um motivo ornamental ou escudo de feição barrocal.

Na Bélgica caberia ao arquiteto barroco Jacques Francquart, de nacionalidade belga, publicar em 1617 a obra Livre d’Architecture, no qual tratou da arte e da estética barroca, divulgando os cânones barroquistas do arquiteto espanhol Juan Gomes de Mora. Contribui, assim, para que a escola do mesmo – ornatos avultados e proporções desmedidas – tivesse difusão em Flandres, na Baviera, na Renânia e na Áustria.

O Barroco no Brasil