Influências, no Barroco, da Terra e da Gente Brasileira

Igreja de Santo Alexandre em Belém do Pará, via Wikimedia Commons.

Verificado ficou, pelo anteriormente exposto, que a Contrarreforma tivera no Barroco, sob o ponto de vista artístico, o seu maior aliado, a sua mais valiosa e duradoura contribuição. Essa duração foi grande no Brasil, onde segundo acertadamente assinala outro notável arquiteto e professor Benjamim A. de Carvalho – autor da valiosa obra Igrejas Barrocas do Rio de Janeiro, ao escrever: “o barroco no Brasil foi uma verdadeira apoteose que perdurou dois séculos”.

O meio geográfico contribuiu não só no Rio de Janeiro, como também em Minas Gerais e na Bahia, para propiciar inigualável ambiente à arquitetura Barroca. O surpreendente curvilinismo das costas molhadas pelo mar, o serpenteante traçado dos rios com as suas surpreendentes voltas, as corcovas e ondulações das montanhas, o gigantismo dos penhascos surgidos qual arrojadas cúpulas proporcionavam, nas suas formas naturais, o quadro esplêndido e monumental onde os arquitetos podiam encastoar suas obras. E o fizeram maravilhosamente.

Acrescente-se, como detalhe digno de atenção, que se as formas retorcidas do Barroco tiveram, às vezes, na Europa, sua fonte de inspiração na própria natureza ou na adaptação, no sentido ornamental, de elementos do reino vegetal, o mesmo ocorreu no Brasil. Mas, com múltiplas diferenças. É o Rococó dos templos do Rio de Janeiro, que impôs as colunas salomônicas um maior passo da hélice, para, nas concavidades daí resultantes, encaixar elementos florais da natureza brasileira, cujos relevos ficaram propositadamente acentuados. E se observarmos o que ocorre em certas colunas salomônicas de templos austríacos – em que os elementos florais estão achatados, qual faixas –, verificar-se-á a felicidade da ideação dos artistas patrícios e a excelência na execução. Vestindo os cavados das colunas salomônicas e, também, as corolíticas, com tais ornatos, eles obtiveram, com essas ampliações e ornatos, um aumento no dinamismo das formas, uma vitalidade marcante, e uma luminosidade acentuada, decorrente do claro-escuro entre os elementos florais, salientes, e os cavados donde eles promanavam.

Mas, o que torna valioso o trabalho dos artistas e arquitetos patrícios é a sua interpretação do Barroco vindo de fora, ao plasmar um Barroco brasileiro. Imbuídos da religiosidade que empolgava o meio social da Carioca, a presença dessa religiosidade se faz artisticamente sentir na feliz disposição e distribuição das plantas; na acertada escolha dos pontos de vista; na atenuação de exageros barrocais; na própria e apropriada colocação dos altares colaterais (não poucas vezes enviesados, como que ligando mais intimamente a nave com o altar-mor); na conjugação do Divino com a Realeza (ao adotar, em alguns templos, tipo chamado de Igreja de Salão, ou seja, com balcões); na luminosidade tropical das naves (quem ia à igreja, não o fazia somente para orar, mas também para ser visto…); na escultura das imagens e nos painéis pictóricos, onde o barroco brasileiro cumpre, a igual do barroco espanhol, uma missão psico-fisiológica, ao avivar sentimentos religiosos, suscitar piedade e provocar paixão.

E tudo isso feito com poucas fontes inspiradoras e sem os recursos materiais de que se dispunha na Europa.

A realização do verdadeiro milagre, que constitui o Barroco brasileiro – em que cada obra é única na sua concepção e realização – teve o seu apoio financeiro, no que se refere ao Rio de Janeiro e terras fluminenses, nas esmolas, dádivas, heranças e, para certas Ordens religiosas, como as dos Jesuítas, Beneditinos e Carmelitas, sua origem no produto da lavoura colhida nas respectivas fazendas e engenhos, com o auxílio da mão de obra escrava. E não fosse isso, aliado a riqueza dos fazendeiros do Vale do Paraíba, o número e o esplendor das igrejas barrocas do território da Carioca deixaria de existir.

Seja dito, ainda, que o Barroco genuinamente brasileiro é o de Minas Gerais como mais impermeável às influências não barrocais de além-mar. Não obstante, tal influência se apresenta às vezes. Sirvam de exemplo, as características gotizantes dos projetos de Congonhas, denotadores de uma frásica germânica ou austríaca, e o sentido militar dado às cúpulas das torres de São Francisco de Assis de Ouro Preto.

Para compreender o Barroco são necessários olhos de bem ver, coração de muito sentir, dedos de extrema sensibilidade, mão de saber apalpar. Esse poder de apalpamento, digamos assim, os negros lavrantes, o mestiço carpinteiro ou canteiro, o luso construtor trabalhando entre nós, o tiveram em alto grau ao moldar a pedra, lavrar a madeira, fazer obra torêutica. Examinai por baixo um móvel ou uma cadeira de fase barroca do estilo colonial, obras desses artífices, e verificareis que os roliços visíveis não apresentam solução de continuidade em relação ao roliçamento da parte invisível.

O Barroco no Brasil