O Barroco

MODALIDADES E CARACTERÍSTICAS, INDISPENSÁVEIS CONFRONTOS

Barroco constitui a antítese do Clássico, da Renascença (que lhe antecedeu) e do Neoclássico (que lhe sucedeu). O estilo Clássico e o sentido do classicismo nasceram na Grécia, nos séculos V e VI A.C. Correspondiam não somente a uma paisagem social, como também a um ambiente mental representado por uma ideologia baseada num sentido de perfeição, de harmonia.

Barroco e o sentido do barroquismo eclodiram na Itália, expandindo-se na Europa da segunda metade do Século XVII até os princípios do XVIII. Vinham a atender aos reclamos de novas ideias, a exigências de outros meios sociais, a ideais religiosos e políticos.

Neoclássico, ou Acadêmico, viria por sua vez a ser a antítese do Barroco, porquanto, ao representar uma volta ao passado, nele predominaria o módulo, a simetria, a calma, as formas puras, as divisões bem definidas. Constituiria, assim, um estilo do mais puro convencionalismo.

Já com o Barroco ocorrera o contrário. É o imprevisto, a assimetria, a tortura das formas. Sua frásica apresenta as mais variadas modulações. Por mais incrível que se possa imaginar – dados os fatores que lhe deram origem –, o Barroco é, em matéria de arte, a retomada da bandeira da liberdade plasmada nas grutas e cavernas do homem primitivo. Foi este quem criou a expressão barroquista.

No Clássico e no Neoclássico predominaram o retilinismo. No Barroco, o curvilinismo.

A curva, elemento inseparável do Barroco, atua nas formas tectônicas, plásticas e espaciais; infinitamente reproduzidas, ampliadas, modificadas. E assim surgem as mais caprichosas ondulações, espiralados, torçais e trançados. Os corpos são surpreendentemente balanceados, escalonados ou superpostos. Os entablamentos, frequentemente quebrados, pela brusca mudança de direção. As cornijas e as molduras se apresentam ascendentes, encurvadas. Os elementos sustentantes apresentam seções de vários aspectos e dimensões. As cartelas são festonadas; os painéis decorativos são curvilíneos. Os óculos de iluminação ou são de olho de boi, ou elipsoidais, ou em forma de naveta.

Curvas e contracurvas a granel; circunvalações nas volutas dos capitéis e das padieiras. Revoluções constantes se apresentam, baseadas na rotação de um corpo longiforme sobre o seu eixo, tal e qual ocorre com as colunas corolíticas e salomônicas. Ambas representativas do ilogismo construtivo, posto que proporcionam a impressão de cederem sob o peso das cornijas. Entretanto, essas e outras formas retorcidas, de inquieta movimentação do Barroco, não ultrapassam os indispensáveis ritmos de equilíbrio e ordenação.

Entrelaçamentos e enrolamentos sem fim. Abundância de lambrequinsbambinelas, panos pregueados e cairéis. Até alguns capitéis tiveram avental. Não faltavam os ornatos organográficos de natureza vegetal. Altares e retábulos, com verdadeiras orgias de formas.

As plantas das naves são circulares, ovais, elipsoidais ou quadrangulares; as fachadas se apresentam côncavas, convexas, lineares ou com panos alternadamente recuados. As cimafrontes, em movimentos ascensionais. Os coroamentos das torres das igrejas são em forma de campainha, de umbela, de bulho ou de pião achatado ou alongado, mas sempre invertido. E as portadas são onduladas, concheadas, com sobreportas suntuosas e de extrema originalidade. Ainda mais: no Barroco, as ordens arquitetônicas sofrem transformação. As colunas são agrupadas por meio de novas combinações ou disposições. A complicação que as linhas construtivas apresentam, se faz notar. A riqueza ornamental atinge ao paroxismo, quer nos interiores, quer nos exteriores. Ocorre o uso dos tetos e cúpulas internamente ordenados pictoricamente.

Mas tudo isso não se apresenta esparsamente disposto, porquanto no Barroco o conjunto é tudo: o elemento decorativo ou ornamental isolado nada representa como ruptura de uma frásica. Nele, Barroco, predomina o fusionismo e a frondosidade. E em ambos os fatores, não existe solução de continuidade.

Acrescente-se, mais: O Clássico e o Neoclássico são artes da régua e do compasso de ponta seca; o Barroco é a arte do lápis livre, do compasso de traçar e do pistolé. Os valores dinâmicos que os rolamentos imprimem ao Barroco – com o auxílio da escultura e da pintura – formam as condições óptico-impressionistas, em que os jogos de luz e de claro-escuro proporcionam efeitos os mais surpreendentes e os mais interessantes contrastes.

Tais foram e são as características gerais do Barroco na Europa e transplantadas para o Brasil. A esfera de influência do Barroco se fez sentir na Europa mais além: numa urbanística caracterizada pela irradiação, o que vale dizer, por um sistema completo de vias públicas radiais, partidas de um núcleo central. Aí estão, como exemplos, as praças de São Pedro e Navona, na Cidade Eterna.

A grandiosidade que foi – como já ficou assinalado – um dos apanágios do Barroco, se estendeu à música, pois barroca passou a ser considerada a que apresentasse, como características, o floreado e a pompa. E o Brasil teve a fortuna de possuir na pessoa do padre José Maurício, o grande compositor e músico barroco. Um dos maiores do mundo.

O ocorrido com a música se reproduziria na literatura. Escritores e poetas se comprazeram em torturar o seu pensamento por meio de uma escrita bizarra, em substituir expressões correntes por outras alambicadas, em lançar mãos de hipérboles ou de imagens de uma frivolidade espantosa. Assim agindo, atendiam às futilidades de uma sociedade.

Resta conhecer o significado do vocábulo Barroco. Segundo Hartmann, o nome derivou do português Barroco, que serve para designar certas espécies de pérolas aproximadamente ovaladas, pois os seus contornos se apresentam irregulares. Os espanhóis as chamam “barruecas”.

E recordemos que existe certa analogia entre o citado vocábulo e alguns do vocabulário topográfico do Brasil, onde: barroco, é um penedo irregular; barroca, um monte de barro, uma cova produzida pela enxurrada; barrocal, é lugar cheio de barrocas; barroqueira, garganta funda no centro de um vale.

Imagem destacada

  • 2 – Feição Churrigueresca do revestimento da nave da Igreja do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. As vedações de influência Manuelina.

O Barroco no Brasil