Histórico da Floresta da Tijuca

A menos de vinte quilômetros do centro da cidade encontra-se o mais pitoresco recanto do Rio de Janeiro, que é a Floresta da Tijuca.

Ocupa grande área de terra na vertente meridional dos picos da Tijuca e do Papagaio; seus limites partem do Alto da Boa Vista, seguem em ascensão para a Pedra do Conde e os picos citados, e descendo atingem o Açude da Solidão na estrada do açude. Dali defrontam-se com propriedades particulares, até fecharem o círculo no Alto da Boa Vista.

Ao invés da quase totalidade das florestas brasileiras esta não é de mata virgem nem se formou espontaneamente, pois foi toda plantada em obediência a um plano de reflorestamento que previa a total cobertura da área para preservação dos mananciais.

Densa floresta cobria as encostas da Tijuca quando ali chegaram os colonizadores, mas, à medida que a cidade se expandia, os troncos seculares iam tombando aos golpes dos lenhadores, na dupla faina de produzirem lenha e carvão e abrirem áreas ao cultivo de hortas e pomares, e mais tarde, do café. As terras eram despidas da sua primitiva vegetação, ao passo que decrescia o volume dos cursos d’água.

Cascatinha Taunay, na Floresta da Tijuca

É provável que aquela floresta, de incalculável beleza, permanecesse íntegra durante quase todo o século XVIII, pois as plantações dos sitiantes que abasteciam a cidade ainda se restringiam à orla da zona urbana, em terrenos onde surgiria mais tarde a Cidade Nova.

Diz-se que José Alves Maciel, ao contemplá-la em companhia do Tiradentes, maravilhou-se ao ponto de afirmar ao companheiro sua decisão de tomar parte em um movimento que visava tornar independente a terra em que se admirava tão surpreendente espetáculo (Álvaro Silveira).

Paulatinamente, porém, a região foi sendo dividida e subdividida em fazendas e sítios, graças às boas condições de acesso que ofereciam as encostas da serra.

A preferência dos pequenos agricultores deve ter sido também norteada pela abundância de água, que é a principal condição para se cultivar cereais. Diversos riachos desciam, serpenteando, as encostas, e convergiam para o Rio Cachoeira, que tomava o rumo oeste ao atingir o Alto da Boa Vista e desembocava na Lagoa Camorim, banhando terras hoje ocupadas pelo clube de golfe Itanhangá.

Efetuada por homens dedicados ao trabalho da terra, a posse se processava, a bem dizer, despercebidamente; mais tarde foi a Tijuca atraindo o interesse de pessoas abastadas, que ali edificaram casas de campo, atraídas pelo encantador cenário e sobretudo pelo clima ameno, que lhes permitia evitarem o rigor do verão carioca sem os inconvenientes de uma longa viagem. Lembre-se a propósito que àquela época ainda não existiam as cidades de veraneio da Serra dos Órgãos. É de supor que tais facilidades atraíssem de preferência europeus inadaptados ao clima, donde encontrarmos uma colônia deles ali residindo, à qual se referem as notícias dos arredores do Rio que na época fizeram alguns visitantes estrangeiros.

Só após haver o pintor Nicolas Antoine Taunay adquirido um sítio fronteiro à Cascatinha da Tijuca e lá fixar residência com sua família, começou a ser citado o recanto como local de grande beleza natural e clima favorável.

Nicolas Antoine Taunay chegou ao Brasil em março de 1816, membro preeminente da Missão Artística Francesa que D. João VI, aconselhado pelo Conde da Barca, mandara contratar na França.

Muito se tem falado sobre a Missão. Entretanto, cabe aqui fazer uma observação que escapou aos comentaristas.

O início das suas atividades mostrava-se promissor. Pouco depois da chegada e da apresentação dos artistas ao Regente, levados pelo Conde da Barca, falecia a Rainha Dona Maria I e logo foram eles chamados a preparar a parte decorativa das cerimônias fúnebres.

Passado o período do luto realizaram-se duas grandes celebrações: a aclamação de D. João VI como monarca do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e o casamento do herdeiro do trono, D. Pedro, com a Arquiduquesa Leopoldina, filha do Imperador Francisco I da Áustria.

O Conde da Barca aproveitou estes eventos para mostrar o talento dos artistas que o Marquês de Marialva conseguira reunir na França, e a eles coube projetar a ornamentação dessas importantes cerimônias.

Simultâneamente estudavam o projeto do Palácio da Academia das Belas Artes que deveria dar início aos serviços para os quais tinham sido contratados.

Inesperadamente, porém, em junho de 1817, pouco mais de um ano após a chegada da Missão, falecia o seu protetor, Conde da Barca.

Começaram então as intrigas, a ciumada dos artistas portugueses; qualquer providência era protelada indefinidamente.

Parece que diante desta situação os artistas também se desentenderam entre si; tanto é assim que cada um foi morar no seu canto. O chefe da Missão, Joachim Lebreton, ficou no Flamengo, Debret em Catumbi, Grandjean de Montigny na Gávea e os Taunay no Alto da Tijuca. É fácil imaginar o que representava, no início do século XIX, uma viagem da Gávea à Tijuca: o único meio de transporte para galgar a serra era o cavalo, uma viagem de Montigny aos Taunay levava um dia inteiro.

Deduz-se daí que os artistas franceses não mantinham no Rio a união que seria de esperar. Outra prova está no precioso documentário que adquiri em 1939, na França: em todo o acervo de J. B. Debret não figura uma só aquarela ou desenho da Cascatinha da Tijuca, apesar de ser ele um companheiro de missão de Taunay; no entanto retratou diversas vezes a Cascata Grande abaixo das Furnas, conforme pode ser visto na Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya.

Mas, voltando à Floresta: sua história começa portanto com o sítio que, a instâncias de seu filho Carlos, Nicolas Antoine Taunay adquiriu no Alto da Tijuca, nele construindo um rancho de palha que mais tarde foi transformado na casinha fronteira à Cascatinha, como se vê nas gravuras de Rugendas, Fisquet, Arago… Como até então nunca se ouvira falar na cascata é de presumir que ela deveria estar encoberta pela mata, e só quando se abriu a clareira apareceu em toda a sua beleza; justifica-se portanto o nome que lhe foi dado, de Cascata Taunay.

Nas imediações formara-se urna concentração de nobres franceses que se dedicavam principalmente à cultura do café. Seus sítios estavam situados ao longo do rio Cachoeira. Acima da Cascatinha ficava a Baronesa de Rouan, abaixo – na garganta que dá para leste – o Príncipe de Montbéliard, do outro lado o Conde de Scey, o Conde de Gestas e a Senhora de Roquefeuil.

Num quadro de Taunay que meu pai adquiriu no leilão do espólio de Arago em Paris em 1892 e que hoje se encontra na Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya, pode-se ter uma ideia do que era a vida naquele local no princípio do século XIX. Os nobres expatriados – bonapartistas – guardavam a tradição, montavam a cavalo, de casaca vermelha, e as senhoras vestiam-se com muita elegância. São provavelmente alguns dêles que Taunay retratou no quadro (v. Pr. 5).

Todos dedicavam-se ao plantio do café bourbon, que dava muito bem na região: ao fim de três anos já começava a frutificar e com seis estava em plena produção. Foi uma das razões que provocaram a devastação das matas em todas as cercanias da cidade.

As mudas de café que o Sargento-Mor Palheta trouxera da Guiana Francesa foram plantadas em Belém do Pará mas não se deram muito bem. Transportadas para o Rio resultou aqui encontrarem condições ideais nas encostas da serra da Tijuca.

Não eram somente os franceses acima citados que se dedicavam à sua cultura: na outra vertente hoje denominada Gávea Pequena, o Sr. Lecesne, associado ao Duque de Luxemburgo, tinha uma grande plantação, cerca de 60.000 pés; a sede da sua fazenda foi mais tarde adquirida pelo Dr. Thomás Cochrane e hoje pertence à Senhora E. G. Fontes. Ao lado havia outra, denominada Nassau, do holandês Van Mook, e para o lado do Corcovado, perto do Silvestre, existia a fazenda New-Syon, do General Conde de Hogendorp, também holandês, que ocupara postos elevados no seu país. Era homem de confiança e oficial do Estado-Maior de Napoleão, tendo exercido o cargo de governador da Silésia e de Hamburgo em cujo desempenho foi acusado de proceder com rudeza. Dedicado de corpo e alma ao imperador, o acompanhou fielmente na fase final da sua carreira, e após a derrota de Waterloo resolveu exilar-se no Brasil e aqui montou uma fazenda de café.

Quase todos os viajantes que aportaram naquela época referem-se a Hogendorp; era pelos Taunay chamado o “Ermitão do Corcovado” onde faleceu em 1830. Ainda existe sua casa na Ladeira do Ascurra, é hoje de propriedade do governo.

A Tijuca foi, assim, o marco inicial do ciclo do café no nosso país. Dali se propagaram as plantações para a Província do Rio de Janeiro e penetraram em São Paulo subindo pelo vale do Paraíba, de onde se irradiaram para toda a região cafeeira do Sul.

É curioso que nada se saiba a respeito da desagregação da colônia bonapartista: apenas que o Conde Gestas (cônsul da França) pereceu afogado quando a embarcação em que viajava a Niterói foi colhida por súbito temporal.

O sítio de Taunay na Cascatinha atraiu muitos visitantes ilustres. Jacques Arago, durante sua estadia no Rio a bordo do Urania, descreveu em Souvenirs d’un aveugle a visita que fez ao local, tendo encontrado os irmãos Taunay muito desanimados por não conseguirem vencer a resistência passiva dos seus opositores. O escultor Augusto Marie Taunay conta que lhe tinham encomendado um busto de Camões, que ele representara zarolho. Assim não quiseram os portugueses, tinha que ser tirado “êste defeito”; o autor acabou destruindo a estátua de mármore que já estava concluída.

Outros nomes famosos relatam sua passagem por aquêle recanto, como o naturalista Príncipe Maximiliano zu Wied Neuwied, Freycinet, o sábio Auguste Saint Hilaire. Os botânicos Carlos Frederico von Martius e João Batista Spix contam que fizeram uma longa excursão, subindo a serra pelo lado do Andaraí, e, guiados por um riacho, chegaram a um salto de cerca de cem pés de altura, abaixo do qual havia uma casinha hospitaleira onde moravam os irmãos Taunay e seus familiares.

Nicolas Antoine Taunay regressou à pátria em 1821 com a mulher e os filhos Carlos e Hipólito, deixando no sítio da Tijuca o seu irmão Auguste Marie e seus filhos Félix Émile, Theodoro e Adriano.

Em 1824 Auguste Marie Taunay falecia repentinamente. Escreve o Visconde de Taunay: “meu tio-avô, depois de ler um pouco, encostou a cabeça nos braços, quando foram chamá-lo estava morto.”

Se esta foi uma morte suave o mesmo não aconteceu a Adriano. Moço de grande talento e muito atirado, depois de ter viajado com Arago e naufragado nos baixios das ilhas Malvinas, regressou ao Brasil. Quando excursionava pela província de Mato Grosso, participando da expedição organizada pelo Barão Langsdorff, Consul-Geral da Rússia no Brasil, apartou-se da comitiva e pereceu afogado nas águas correntosas do rio Guaporé, ao atravessá-lo a nado. (Existem na Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya 3 aquarelas de Adriano com visto de Arago; nelas se vê o grande talento desse moço que pagou com a vida sua temerária audácia.)

Félix Émile, Barão de Taunay, chefe de ilustre família brasileira e diretor da Academia de Belas Artes – pretensão. que não realizara seu pai – conservou por longo tempo a propriedade da Cascatinha; mas não tardou a mudar a residência para o centro da cidade. Nas memórias de seu filho, Visconde de Taunay, há referências ao sítio, uma das quais merece ser citada: em 1862 a família ali permaneceu algum tempo, enquanto o seu chefe e Job Justino de Alcântara encarregavam-se de obras para o governo;. uma delas foi a ponte em frente à Cascatinha, que hoje tem o nome de seu construtor.

Desaparecidos os artistas da Missão, a zona do Rio Cachoeira entrou em nova fase de plácida obscuridade.

Certo é, porém, que os proprietários dos sítios continuavam auferindo bons proveitos das suas lavouras, principalmente do café. Ora, é de todos conhecido o ciclo desta cultura no nosso país: após a derrubada, um período de exploração intensiva das terras, sua exaustão e o êxodo dos plantadores para terras virgens, ficando para trás as extensões desnudadas, em que a macega e o pasto medram raquiticamente nas encostas onde outrora se alteavam os troncos soberbos da floresta. Assim se deu em Vassouras e no norte de São Paulo e o mesmo haveria de caber também à Tijuca, não ocorresse providencial e fortuita intervenção do Poder Público, interessado em resolver problemas surgidos longe dali.

É que o rápido crescimento da cidade em torno do palácio imperial de São Cristóvão impelira a autoridade a aplicar medidas de urbanização, entre as quais prevalecia e era inadiável o abastecimento de água. Os mananciais preexistentes, captados nas encostas de Santa Teresa e do Corcovado, mal davam para a alimentação de chafarizes públicos (Carioca e Marrecas). Dentre os cursos de água passíveis de utilização avultava o Rio Cachoeira, cuja posição permitia fácil suprimento do líquido após pequenas obras de regularização.

E assim, por volta de 1857, sendo Ministro do Império do Gabinete Paraná o Deputado Luís Pedreira do Couto Ferraz (futuro Barão e Visconde do Bom Retiro) baixou-se ato desapropriando as propriedades existentes na bacia daquele rio, a fim de ser afastada a poluição das suas águas. Desapropriados, entre outros, foram os sítios “Caveira” e “Floresta” ou “Midosi”. O curso do rio foi parcialmente desviado embaixo do salto Taunay e dirigido para leste, despejando suas águas em reservatório situado no meio da serra.

Ficou assim muito reduzido o primitivo Cachoeira, que hoje recebe apenas as sobras da Cascatinha e alguns veios de água que o encontram no lugar denominado Cachoeira. A Cascata Grande da Tijuca, sita abaixo das Furnas de Agassiz, só lembra o antigo salto quando ocorrem períodos de fortes aguaceiros.

A devastação das matas havia contudo acarretado grande diminuição da água corrente; urgia fazê-la voltar ao primitivo nível, restabelecendo-se a cobertura vegetal da área, transformando esta em reserva florestal. Foi então escolhido para este fim e nomeado em 1861 o Major Manuel Gomes Archer, grande entusiasta da nossa flora, o qual possuía um sítio em Guaratiba, no caminho de Cabuçu, com grande quantidade de mudas das nossas essências florestais.

Archer fixou residência no sítio Midosi, trazendo como auxiliares alguns escravos que alojou em prédio fronteiro ao seu.

O reflorestamento a cargo do major ocupou treze anos, No decorrer desse período foram plantadas acima de 100.000 árvores, trazidas do sítio do Cabuçu. A seleção e o agrupamento das espécies não obedeceram a um plano definido; como podemos apreciar hoje, somente os eucaliptos foram dispostos em aléia à margem dos caminhos; as demais espécies estão misturadas. Aqui e ali há grupos de cambucazeiros, que também gozavam das preferências do major. Seja como for, cobriu ele quase todas as terras da bacia do Cachoeira com variadas essências e reproduziu, pelas mãos dedicadas dos seus auxiliares, a floresta que tanto havia encantado José Alves Maciel. Entre outros, lá estão hoje, a atestar sua continuada atenção, o ipê, a urucurana, a sapucaia, os cedros, o pau-brasil, a peroba, o pau-ferro, o vinhático, a canela, o angico e a maria preta, além das árvores frutíferas, jabuticabeiras, cambucazeiros, jaqueiras, etc.

Em 1874 Archer afastava-se da Tijuca por ter sido incumbido de similar reflorestamento em Petrópolis. Como este resumo histórico não tem o rigor de uma crônica, abstenho-me de citar algumas datas e nomes dos que ocuparam postos de mando na Floresta: é um estudo do desenvolvimento da região que só comporta citação daqueles que participaram dos seus episódios. Vista sob este aspecto a história poderia ter sido encerrada quando Archer se afastou da direção das matas, que passariam a ser daí por diante mais uma reserva da Repartição de Águas, onde não seria permitido ao bulício do mundo perturbar o marulho das águas e os sibilos das aves do mato. De tal destino escapou porém a Floresta da Tijuca graças ao Imperador Dom Pedro II, que resolveu entregar sua administração a um fiel servidor e amigo, o Barão d’Escragnolle.

Gastão Luís Henrique de Escragnolle descendia de franceses de estirpe nobre, que a Revolução Francesa forçara ao exílio. Seu pai e o avô materno aportaram ao Rio na frota do Regente D. João e não acompanharam a Corte no regresso a Lisboa: proclamada a Independência, passaram a servir nas forças armadas do Império e aqui viveram até o fim dos seus dias. Como eles, Gastão seguiu a carreira das armas; entrou para o Exército e tomou parte nas campanhas pacificadoras do 2.º Império. Chegado à inatividade, dedicou-se com mais empenho à leitura, que era o seu passatempo preferido. Conhecia bem as obras mestras e os grandes nomes das literaturas francesa e inglesa.

Além de homem de cultura e educação possuía o principal título para o encargo, pois antigos laços o prendiam à Tijuca. Uma de suas irmãs casara-se com Félix Émile Taunay, de cuja casa tornou-se ele comensal. Tonton Bodó, como o tratavam familiarmente os sobrinhos, conhecia de longa data a Cascatinha e arredores. Portanto, não é demais admitir-se que, entregando-lhe o tranquilo pôsto no qual poderia recuperar a saúde alterada, Dom Pedro não estivesse simplesmente premiando um amigo.

Restaurante Os Esquilos, na Floresta da Tijuca

Escragnolle mudou-se para a Floresta, indo morar no prédio onde está hoje o Restaurante dos Esquilos, e não descurou do plantio de árvores, pois até 1885 a faina ainda não havia terminado: restavam por plantar terrenos de pequena fertilidade que exigiam cuidados especiais.

Seu maior empenho foi, contudo, o de embelezar a Floresta; e nisto contou com a colaboração do grande paisagista francês Glaziou. Tão notável veio a ser sua contribuição que o antigo horto transformou-se em encantador passeio público. O visitante de hoje encontra inúmeras reminiscências do velho barão. Ora é uma picada em suave ascensão, ora um pontilhão tosco de pedra roliça; e sobretudo os variados acidentes naturais que ele aproveitava ou, mesmo, compunha. E lá estão os nomes que lhes deu e que recordam suas simpatias literárias – gruta de Paulo e Virgínia, lembrando o romance de Bernardin de Saint Pierre; Excelsior, por causa do poema de Longfellow. Porque considerava a Floresta como o seu parque, empregou também nomes familiares: Ponte da Baronesa, sua mulher; Cascata Gabriela, sua irmã (casada com Félix Émile Taunay); Vista do Almirante, Almirante Beaurepaire, seu avô; também Fonte Piraiú, a lembrar o longínquo rincão onde perdeu a vida, num trágico acidente, o seu único filho.

Amante da natureza, conservava a beleza da selva exuberante, mantendo-lhe intacto o caráter silvestre. Usou como elementos decorativos a pedra roliça, árvores e arbustos plantados como ao acaso; não lançava mão do cimento e da cantaria nos pousos que ia preparando para os que gostam de descansar à sombra do arvoredo. Quis, enfim, que a Floresta se transformasse em lugar de passeio.

Alfredo d’Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay, descreveu em 1885 uma visita feita aos seus tios, que está publicada em Viagens de Outr’ora. Aponta o trabalho do Barão e se refere ao estado da Floresta naquela ocasião. Para conhecimento do leitor, julguei útil reproduzir-lhe aqui os trechos principais:

A FLORESTA DA TIJUCA

‘Conheceis, por acaso, a Floresta da Tijuca?

Mui naturalmente não, pois a população do Rio Janeiro, por mais inteligente e ilustrada que seja, no geral se distingue pela sua falta de curiosidade e de interesse, por quasi invencível torpôr, em assumptos de arte e belleza naturaes.

Ide á Floresta da Tijuca.

Veja o texto integral em Floresta da Tijuca, por Visconde de Taunay

Três anos depois, falecia o Barão de Escragnolle; passado outro ano era o Império que se findava, o Imperador seguia para o exílio. Foi a Floresta inicialmente entregue a Luís Pedreira de Magalhães Castro, amigo e antigo companheiro de armas de Deodoro e Floriano. Qualificava-o ainda o fato de ser sobrinho e afilhado de Bom Retiro, com quem na mocidade passara temporadas na Solidão.

Magalhães Castro continuou a obra do seu antecessor, cuidando do parque e procurando embelezá-lo: plantou grupos de juçaras, que ainda existem, e deu a uma gruta o nome do auxiliar que descobrira a sua entrada: Luís Fernandes. Permaneceu quatro anos no posto (1890-1894).

A seguir, porém, a administração do lindo parque sofreu os efeitos de uma descentralização de poder. O trato das estradas foi entregue à Prefeitura do Distrito Federal, ao passo que as matas e águas estiveram a princípio sob a responsabilidade do Ministério da Viação, mais tarde passaram para a Educação e finalmente vieram ter ao Ministério da Agricultura.

Em consequência ao dualismo, aliado ao desinteresse dos primeiros republicanos, a Floresta entrou em longa fase de decadência: o mato cresceu, tomou conta das picadas, encobriu os mirantes; os recantos que o barão mantinha com especial carinho ficaram abandonados à ação do tempo, as pontes ameaçavam ruir e seus balaústres apodreceram. Desapareceu o favor do público, que do Alto da Boa Vista seguia para as Furnas ou Vista Chinesa, depois de uma breve pausa na Cascatinha, onde já não existia a casa dos Taunay.

Conforme relatei na Introdução, fui assíduo frequentador dos seus caminhos, que percorria, ainda menino, quando morávamos na chácara em que está hoje o Colégio do Sacré Coeur.

Mais tarde meu pai comprou um sítio na Estrada do Açude, que depois passou à minha propriedade, e foi durante muitos anos minha residência de verão. Hoje pertence à Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya e está transformado em Museu.

Fui portanto testemunha habitual do abandono. Percorri inúmeras vêzes a cavalo os antigos caminhos imperiais – era mesmo um passeio cotidiano. Andava-se a passo, trotava-se, e no Alto do Mesquita a montada disparava num galope esperto. Tudo em perfeita solidão, apenas quebrada por um outro esquálido cantoneiro.

Entre os Prefeitos do Distrito Federal, só Pereira Passos e Antônio Prado Junior se interessaram pelo parque e seu passado. Aquele reparou algumas estradas e este teve a iniciativa de plantar marcos recordando Taunay e o Barão de Escragnolle, que mãos de vândalos danificaram após a revolução de outubro de 1930. Efetuou-se também a restauração de algumas pontes, embora o concreto tomasse o lugar da pedra e da madeira, num desafio à tradição; devo entretanto ressaltar que, até minha administração, essas foram as únicas mostras de cuidado partidas de autoridades republicanas.

Foi quando em 1943 o Prefeito Henrique Dodsworth convidou-me para promover a restauração da Floresta. Na Introdução já relatei os pormenores da minha gestão; resta-me dizer que os objetivos em vista eram: restaurar o parque e criar novos locais ao agrado do turista de nossa época.

Tudo estava por fazer: as estradas em péssimas condições, as picadas e atalhos já não existiam, foi preciso descobri-los, e os prédios – mesmo os que serviram de residência a personagens do Segundo Império – estavam praticamente em ruínas. Pouco foi aproveitado. Para lhes dar o mesmo caráter que tinham no século passado, adquiri materiais nas demolições que se efetuavam para abertura da Avenida Presidente Vargas e contratei nos subúrbios os mestres-de-obras, carpinteiros e pedreiros a fim de, com sua ingenuidade, obter-se adequada restauração nas casas que iam sendo reconstruídas.

A primeira medida foi demarcar os limites do parque; para assinalar seus acessos pedi o auxílio de meu amigo arquiteto Wladimir Alves de Sousa, que com rara felicidade, demonstrando seu grande bom gosto, desenhou e projetou os dois portões simbólicos, um no Alto da Boa Vista e o outro no Açude da Solidão.

Esse local foi totalmente transformado, não entraram aí as reminiscências do Barão de Escragnolle; tudo foi criado por mim; a começar pela saída da Floresta, que não era naquele local. Abriu-se novo caminho e com o auxílio do paisagista Roberto Burle Marx transformou-se a antiga represa, que era sujeita a poluição das águas, em um recanto encantador, realçado ainda pelas antigas grades do Campo de Santana, que estavam no Depósito Público e foram cedidas à Floresta pelo Prefeito Henrique Dodsworth. As águas do abastecimento, que até então eram captadas no açude, foram canalizadas muito acima dele, evitando-se assim a contaminação direta pelos visitantes.

O antigo sítio da Cascatinha também foi todo remodelado; limpou-se a área em frente à Ponte Job de Alcântara, que não se via mais, e foi reformado o prédio do restaurante – parecia uma fábrica – dando-se-lhe cunho colonial. Infelizmente nada mais existia da casa dos Taunay, pois fôra demolida no princípio do século.

Interior da Capela Mayrink na Floresta da Tijuca, com a reprodução do tríptico de Cândido Portinari

A Capela de Mayrink também foi por assim dizer feita de novo, com a fachada desenhada por Wladimir Alves de Sousa, que ainda projetou o campanário. Faz-se um romance em torno da capela, que é relativamente recente: provavelmente da segunda metade do século XIX, construída no sítio da Baronesa de Rouan que mais tarde veio a pertencer ao Conselheiro Mayrink. Hoje o seu maior atrativo está nos magníficos painéis de Portinari, que nasceram por um imprevisto. Quando entrou em reconstrução, nada havendo no seu interior, consegui do Patrimônio Histórico um altar antigo vindo de uma capela de Minas Gerais. Na hora de colocá-l o verifiquei que houvera engano nas medidas: o altar não cabia na capela. Desisti então dele e recorri a meu amigo Cândido Portinari, para que aceitasse a encomenda de pintar três painéis representando Nossa Senhora do Carmo ladeada por São Simão Stock – que teve a visão de N. Sr.ª no Monte Carmelo – e São João da Cruz, fundador da Ordem do Carmo. Serviu de modelo a irmã do artista; o menino Jesus é o seu filho João Cândido. Custou tudo 40.000 cruzeiros; alguns moradores do Alto da Boa Vista auxiliaram-me no pagamento dos painéis. A primeira missa foi oficiada pelo Cardeal D. Jaime Câmara em 16 de julho de 1944. Outra obra efetuada com muito carinho foi a do restaurante que batizei de “Esquilos”, na antiga residência do Barão de Escragnolle. Além das obras de restauração projetei um jardim que podia ser transformado em Teatro da Natureza, e para isso levei até lá a iluminação elétrica. A fim de não prejudicar as árvores foram os fios conduzidos em cabo armado subterrâneo.

A casa da Solidão, que era residência preferida pelo Visconde do Bom Retiro para repousar da sua faina cotidiana, foi totalmente reformada; e para dar vida às picadas e alamedas circundantes, foi cedida à Sociedade Hípica que lá mantém uma filial da sua sede.

O ponto chamado Bom Retiro (onde está um obelisco dedicado ao Visconde do Bom Retiro), que era também chamado bambus, foi transformado em playground, criando-se um local novo, pois o que existia era simplesmente alguns bancos sob touceiras de bambus. Ali montei um pequeno bar com cobertura de sapé, no trecho que dá acesso aos picos.

As obras por mim realizadas assim como o cuidado com a conservação das estradas e caminhos e o replantio de espécies decorativas foram recompensados, não só pelo público, que afluía com entusiasmo aos logradouros, onde encontrava, a par dos passeios encantadores, vários playgrounds feitos para êste fim, como pela autoridade municipal que sempre prestigiou os trabalhos que ia executando.

Em 22 de julho de 1944 o Presidente Getúlio Vargas, acompanhado do Prefeito Henrique Dodsworth e do Ministro da Agricultura Apolônio de Sales, visitou toda a Floresta e almoçou no pequeno restaurante “A Floresta”. Lá o Presidente me entregou uma medalha de ouro representando o cruzeiro simbólico que deveria receber por ano – peça única que aqui vai reproduzida. Mais tarde, em 1945, o então prefeito Ministro Filadelfo de Azevedo honrou-me dando o meu nome a uma rua transversal da Avenida Edison Passos.

Não posso concluir esta exposição sem ressaltar o grande alcance que teve o decreto 7.182 de 21 de dezembro de 1944, que passou para a Prefeitura a administração, fiscalização e vigilância da Floresta da Tijuca. A medida foi, de grande alcance, pois, como já ficou dito, da dualidade de administração é que resultou o abandono. Seria de toda conveniência o atual Estado da Guanabara pleitear, ainda, do Governo Federal, a transferência da propriedade dessas terras. Não há razão para que, da área tão pequena que tem atualmente o Estado da Guanabara, grande parte pertença à Federação, como é o caso dos morros que cercam a cidade.

Também cumpre deixar aqui patente o meu reconhecimento ao feitor Eugênio Fernandes da Silva, que serviu comigo durante todo o período da remodelação; também ao chefe dos trabalhadores Orcelino Pires, que ainda hoje me presta serviços na Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya.

Açude da Solidão, na Floresta da Tijuca

Termino fazendo nova referência ao Visconde do Bom Retiro, a quem se deve a Floresta da Tijuca. Tinha ele o hábito de se isolar em lugares retirados a fim de trabalhar em sossego. A todos preferia a casa da Solidão, conforme já referi linhas acima.

Embora fosse homem de muita atividade, encerrou sua carreira na administração pública depois de exercer a pasta do Império durante os quatro anos do famoso Gabinete Paraná (1853-1857); e viveu ainda 29 anos como amigo dedicado do Imperador e frequentador assíduo do Palácio de S. Cristóvão. Dele diz Nabuco em Um Estadista do Império: “Mais leal, verdadeiro e discreto amigo. o Imperador não teve nunca.” Morreu em 1886. Ainda Nabuco: “A morte de Bom Retiro foi para o Segundo Reinado no Brasil uma perda muito parecida com a do Duque de Morny para o Segundo Império em França.”

Pode-se conjeturar que a desapropriação da bacia do Cachoeira não tenha sido um episódio isolado da ação governamental do visconde mas, sim, lhe ofereceu a oportunidade de fazer algo mais pelo seu retiro predileto; tanto é assim que os moradores do Alto da Boa Vista mandaram em 1857 lavrar em seu louvor uma placa de mármore, que está assentada no muro do Colégio Sacré Coeur, ao lado do Lampião Grande.

Como ficou dito no início da Introdução, era meu desejo apresentar ao público uma amostra de um Parque Nacional, como os que existem nos Estados Unidos, Canadá e Argentina. Naturalmente era uma miniatura; mas em vez de encontrar receptividade entre os representantes do Serviço Florestal, foi justamente ali que esbarrei em sistemática oposição, que só foi resolvida com o decreto acima citado, por força do qual passou a Prefeitura do Distrito Federal a administrar, com poderes de fiscalização, a Floresta da Tijuca.

É de lastimar que até hoje os Parques Nacionais não passem de áreas reservadas sem atrativos turísticos, nem neles se observem medidas de defesa da fauna e flora, cuja preservação é o motivo de sua existência.

Fonte

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  • Lago das Fadas, na Floresta da Tijuca.

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