Introdução do livro “A Floresta da Tijuca”, de Raymundo Ottoni de Castro Maya

Introdução

Somente agora, passados muitos anos das obras de restauração da Floresta da Tijuca – por mim planejadas e dirigidas, resolvi publicar este livro, com o duplo objetivo de reunir os poucos dados existentes da sua história e de retificar idéias errôneas veiculadas pela imprensa, rádio e televisão, sobre a natureza da participação daqueles que, no Império, fizeram nascer este formoso recanto da nossa cidade, que após o reflorestamento tomou o nome de Floresta da Tijuca.

Convidado pelo meu particular amigo Prefeito Henrique Dodsworth para auxiliá-lo nos melhoramentos do Rio de Janeiro, aceitei o encargo da restauração da Floresta da Tijuca,condicionando-o a não receber remuneração alguma e também fugir das normas comuns, por tratar-se de obras de orçamento imprevisível. Com efeito, como fazer concorrência pública para restauração de caminhos, conserto de casas velhas, plantio de árvores, abertura de picadas? Obras, enfim, de tão variada natureza que só podem ser feitas por administração bem fiscalizada.

Henrique Dodsworth concordou com minha sugestão e sempre aplaudiu as iniciativas e atos que ia praticando, demonstrando grande interesse pelos trabalhos e prestigiando-os com sua presença no duplo caráter de autoridade e amigo.

Meu desejo era mostrar ao público o que é um parque nacional; a Floresta da Tijuca seria o exemplo em miniatura do que se poderia fazer em todo o país, aproveitando as belezas naturais e defendendo-as da “civilização” que entra como machado devastador, derrubando as matas e aproveitando o húmus da terra para pouco depois abandoná-la.

Conhecendo desde a infância este maravilhoso recanto da terra carioca e tendo assistido ao crescente abandono em que ia caindo, foi com entusiasmo que iniciei os trabalhos, começando por demarcar os seus limites.

Meu roteiro obedeceu a um folheto do Visconde de Taunay publicado em Viagens de Outr’ora, tendo, porém, em vista que os hábitos são hoje bem diferentes dos que imperavam no século passado.

Nossos avós percorriam as estradas a cavalo ou a pé; para êles a contemplação da natureza era um incessante encantamento. A excursão prosseguia, vagarosamente, até os pontos mais afastados, Bom Retiro ou Excelsior e lá se refaziam os excursionistas, sentados em alguma pedra, o farnel aberto sobre os joelhos. Terminado o piquenique e repetida a lenta caminhada já estava a findar o dia.

Hoje, o visitante atravessa velozmente a Floresta no seu automóvel, visita em poucos minutos os seus principais logradouros e nem se detém, apenas diminui a marcha diante de alguma árvore de maior porte ou de uma perspectiva numa clareira aberta na mata.

Necessário é então oferecer-se-lhe boas estradas e atrações nos pontos de parada; donde o requisito de restaurantes bem aparelhados que por si sós constituam objetivo de uma excursão. Para os pedestres, que de certo modo perpetuam a tradição, foram mantidas as picadas e os atalhos e preparados outros sítios de permanência.

Ao afastar-me do posto em 1947 fiz publicar uma exposição das obras efetuadas sob minha responsabilidade, que me parece oportuno reproduzir. É a seguinte:

AO PÚBLICO

“No momento de deixar a direção da Floresta da Tijuca,venho romper a praxe e dar satisfação ao público das obras que realizei durante o período da minha administração.

Convidado em 1943 pelo Prefeito Dr. Henrique Dodsworth, aceitei a incumbência de remodelar a Floresta da Tijuca, tendo-se criado o primeiro exemplo de one dollar man, isto é, recebido um cruzeiro por ano.

Não desejo culpar ninguém pelo abandono em que se encontrava a Floresta. O que acontecia é que ela não tinha um responsável, e, como uma filha enjeitada, mudava de pai constantemente. Do Ministério da Viação passou ao da Educação e finalmente para o da Agricultura. As estradas, entretanto, sempre estiveram a cargo da Prefeitura. Com estas contínuas mudanças, com a dualidade na administração e sem verba, era natural o seu abandono. Justiça seja feita aos seus antigos administradores, eles sempre se esforçaram ao máximo para defender as matas e os mananciais.

Iniciei os trabalhos em junho de 1943 e desde essa data todo o pessoal encarregado da conservação, cerca de 60 homens (pois a Prefeitura só mantém ali um feitor e o guarda do portão do Alto da Boa Vista) foi sempre custeado por mim, prestando eu, depois, contas à Prefeitura.

Na conservação de uma área de cerca de 5 milhões de metros quadrados, com 16 quilômetros de estradas e outro tanto de caminhos, foi despendida durante os anos de 1943 a 1946 a importância de Cr$ 3.945.610,70. Os trabalhos efetuados nesse período foram os seguintes:

  1. Construção do portão da cascatinha e casa do guarda.
  2. Remodelação da Ponte Job de Alcântara e construção da represa e lago.
  3. Ampliação da Praça da Cascatinha, colocação na ponte e belvedere de grades ao lado da cascata e painel em azulejos.
  4. Reconstrução da Capela do Mayrink, onde foram colocadas pinturas de Cândido Portinari.
  5. Playground na Praça do Mayrink.
  6. Reconstrução de duas casas para guarda no mesmo local.
  7. Construção dos viveiros (obra não concluída).
  8. Pista de obstáculos no Alto do Mesquita.
  9. Reconstrução completa do “Barracão”, constando de duas casas de moradias para guardas e escritórios de administração, garagem e depósitos.
  10. Reforma do local denominado “Excelsior”, canalização de ferro para levar água ao local e construção de duas casas novas para guardas.
  11. Reconstrução completa da antiga casa do Barão de Escragnolle, transformada em grande restaurante com jardim (falta concluir as cozinhas).
  12. Cabo subterrâneo para levar força e luz ao novo restaurante numa extensão de 1.200 metros, com subestações transformadoras.
  13. Abertura de uma nova estrada para o sítio pitoresco denominado “Cascata Gabriela”.
  14. Reconstrução completa da casa denominada “A Fazenda”, transformada em duas casas de residência para guardas.
  15. Abertura de uma nova gruta no mesmo local.
  16. Remodelação da gruta Paulo e Virgínia.
  17. Reforma completa e construção do Sítio “Bom Retiro”, com playground e bar.
  18. Reconstrução da casa “A Floresta”, transformada em pequeno restaurante, funcionando desde 1944.
  19. Reconstrução de uma represa e colocação de 800 metros de canalização de ferro a fim de evitar a contaminação das águas no Açude da Solidão.
  20. Reforma completa do Açude da Solidão, transformado em um lago e jardins.
  21. Construção de um portão, fechamento com grades e casa de vigia.
  22. Casa para o guarda no mesmo local.

Além dessas obras, foram completamente reformadas todas as estradas, abertos novos caminhos para cavaleiros e pedestres e novos acessos aos picos. Foram construídos pontilhões, muralhas de sustentação e colocados inúmeros bueiros, tanto assim que, apesar das fortes chuvas, as estradas se conservam em perfeito estado.

Todas essas obras foram feitas com o máximo de economia e, a não ser o auxílio do arquiteto Vladimir Alves de Sousa, autor dos projetos dos portões, e do paisagista Roberto Burle Marx com a remodelação do Açude da Solidão, todo o resto foi feito e projetado por mim.

Abandonando meus negócios particulares, dediquei todas as manhãs à Floresta e posso orgulhar-me de ter realizado uma obra realmente interessante, com o mínimo de despesas para os cofres públicos. Dificilmente poder-se-ia fazer obras de tanto vulto com uma despesa tão pequena. Na Administração pública é impossível; com o regime de concorrência e pagamentos retardados qualquer obra custaria muito mais.

O maior prêmio que tive neste longo esforço é o reconhecimento do povo. As alamedas e os sítios pitorescos da Floresta viviam quase desertos; mesmo aos domingos não se contava mais de uma centena de visitantes. Agora, aos domingos e feriados, o parque tem uma afluência de mais de 5.000 pessoas. Nelas eu sinto gratidão por ter feito alguma coisa de útil e proporcionado algumas horas de prazer sadio, em contemplação da nossa natureza. Este reconhecimento anônimo me toca profundamente.

Ao povo carioca os meus agradecimentos por ter compreendido o que eu estava realizando para ele. Tanto é assim que nunca mais houve depredações, respeitavam as ordens, não arrancavam as plantas, não escreviam nas paredes, não pisavam nos gramados, sentiam que havia alguém sempre preocupado em proporcionar tudo que desejavam: playground, recantos para piqueniques e churrascos, restaurantes, etc.

Se alguns dizem que o nosso povo não tem educação, é porque não sabem conduzi-lo. Aí está o exemplo.”

Quanto ao segundo objetivo desta obra, decorre de noções errôneas, surgidas não se sabe onde, e que vão tomando a feição de dados históricos. Sustentam elas que a Floresta da Tijuca, tal como se nos apresenta hoje, deve-se preeminentemente ao Major Manuel Gomes Archer. Não é bem isto: nela colaboraram o arboricultor e o paisagista. O Major Archer foi designado para reflorestar a área devastada. Sua intervenção visava apenas proteger os manadeiros da água que fôra captada para abastecimento da cidade, após a desapropriação e desocupação das terras. Desempenhou-se a contento, como podemos verificar pelas espécies brasileiras de que se utilizou. Mas sua intervenção ficou nisto; foi o criador do horto florestal. O parque com seus locais de recreio, ao qual forneci a contribuição acima citada, foi obra do Barão de Escragnolle, que com carinho preparou para uso e deleite dos visitantes as pontes toscas, os pequenos lagos e cascatas, os mirantes e até um labirinto; o conjunto, afinal, de caminhos e de pontos pitorescos que constituem o que se chama hoje a Floresta da Tijuca, e não Mata, como são as demais do Estado da Guanabara.

É isto o que iremos ler com maior detalhe nas páginas seguintes, quando será feito o histórico da região.

A Floresta da Tijuca