Prefácio do livro “A Floresta da Tijuca”, de Raymundo Ottoni de Castro Maya

A Floresta da Tijuca, de Raymundo Ottoni de Castro Maya

Prefácio

Quando carreira de homem público se inicia e completa no âmbito da cidade em que nasceu, recebendo expansões da inteligência do povo, anseios que deseja realizar, reivindicações que procura atender, vínculos se mantêm a vida inteira. É precisamente o meu caso. Nascido na Rua do Catete, em estabelecimento científico fundado por meu avô e dirigido por meu pai, o Instituto Vacínico Municipal, desígnios da Providência marcaram-me o rumo do destino: cidadão, deputado e prefeito do Distrito Federal, professor catedrático do Colégio Pedro II, atuação permanente nos meios educacionais, intensamente diversificada em outras oportunidades. Seguindo o roteiro assim traçado, muitas vezes sem intenção preconcebida, vi-me, repentinamente, em plena Floresta da Tijuca.

Ante o abandono, sensível aos meus olhos, da riqueza com que a constituíram, resolvi, de imediato, intervir no sentido de aprimorá-la em alto nível.

Não será descabido dizer, a título de comentário geral, que a defesa dos encantos da terra carioca foi corajosa e pertinaz pessoalmente penosa, oficialmente temerária.

A luta não atingiria apenas os que os exploravam. Havia autoridades múltiplas a serem enfrentadas, que entesouravam reservas opulentas de suscetibilidade, intenções vaidosas de predomínio, julgando-se instância definitiva nas deliberações.

A disposição obstinada de eliminar da cidade os que a prejudicavam por atentarem contra as mais significativas condições em que lhe resplandecia a beleza, fez ruir os óbices, com mão de golpe certo, embora sublevando contra mim repartições e ministérios.

Teve início a incorporação ao patrimônio da Prefeitura de grandes parques, como o da Cidade, na Gávea. As relíquias do Império, aí existentes, foram doadas ao Governo Federal por meu intermédio, constituindo o acervo inicial do Museu de Petrópolis. Brocoió, edifícios e lugares históricos de Paquetá, Pedra da Moreninha, Avenida da Tijuca, Quinta da Boa Vista, tornada mais atraente com jardim Zoológico, Passeio Público, Praia Vermelha, apreensão de blocos de granito preto arrancados das encostas para exportação ilícita, preservação da Lagoa Rodrigo de Freitas e da Fonte da Saudade, continuada vigilância contra extinção das matas e pedreiras clandestinas que ferem a paisagem, remodelação da Estrada do Cristo Redentor e circunvizinhanças para restabelecer o objetivo inicial da aparição divina entre luzes de refletores invisíveis.

Impõe-se, no entanto, a chegada ao local cujas tradições e fascínio dois regimes políticos veneraram.

Já escrevi sobre a opulência da flora indígena: “A floresta se estende chão afora dando a impressão de grandeza imensurável. O trópico estabelece a confusão das espécies, entrelaçando uns aos outros vegetais nascidos aos caprichos da natureza, formando obstáculo hostil à transposição aventureira, sujeita a esforço demorado e árduo. Dominando o ambiente, o silêncio, realçado de quando em vez por folhas desprendidas, caminhar cauteloso de animais, canto de pássaros glorificando a solidão e a vida.

“À noite, por entre as árvores, o luar desenha imagens que o vento anima, e entre o céu e a terra se estabelece a linguagem do mistério dos mundos, perscrutado há séculos e inacessível sempre.”

Na Floresta da Tijuca, remodelação de estradas, cascatas, lagos, açudes, represas, pontes, praças, casas. A Capelinha do Mayrink, reconstituída e valorizada por tríptico de Portinari, representando Nossa Senhora do Carmo, São Simão Stock e São joão da Cruz. Esquilos, barracão, fazenda. Trilha seguida, discretamente, por legião de sectários, em busca de lugares ermos para práticas supersticiosas, substituída pelo “Caminho das Almas”.

No conjunto, ressurgimento da obra da Monarquia com insígnias da República, pela magia de Raymundo de Castro Maya, quando de 1937 a 1945 estive à frente do governo da cidade. Imperava, porém, a mão divina, iluminando santuários esquecidos.

Documentos oficiais, publicações de historiadores, manifestação pública de autoridades consagraram o trabalho.

A Floresta da Tijuca, em meio ao pau-brasil, cedro, maria-preta, canela, pau-ferro, angico, vinhático, fumo, café, é povoada de crenças e lendas. A pedra do sacrifício, de uso atribuído aos índios, a bola de fogo, rolando, antes da aurora, de montanha a montanha, grutas que despertam bons pressentimentos, plantas que tocadas conferem imunidades contra males.

Mas o que de fato existe para quem lá se encontre é a evocação emocionada dos nomes de Pedro II, José de Alencar, Taunay, Barão d’Escragnolle, Visconde do Bom Retiro, Tiradentes, José Alves Maciel, Manuel Gomes Archer, cultores todos do mesmo ideal, muitos deles semeadores de árvores e flores, promessas de suntuosidade e encantamento.

Decênios idos, Raymundo de Castro Maya e eu, em peregrinação pelos mesmos lugares de nosso enlevo, sem honrarias nem voz de comando, reencontramo-nos.

Ele, com êste livro, feliz por continuar a enriquecer o patrimônio literário e artístico. Quanto a mim, tão somente algumas folhas, à guisa de prefácio, olhos luzindo de orgulho do dever cumprido, pés sangrando do inglório caminho na rota administrativa do Brasil.

Juntos, novamente devíamos partir. Em derredor, recordações apenas.

Cintilação das primeiras estrelas adormecia anjos de asas fatigadas. Distante e emudecido, o sino da capelinha, no esplendor da Floresta.

Henrique Dodsworth

A Floresta da Tijuca