Projeto de Nicolau Villegagnon de fazer no Rio de Janeiro um asilo dos protestantes perseguidos na Europa

Projeto de Nicolau Villegagnon de fazer no Rio de Janeiro um asilo dos protestantes perseguidos na Europa, que efetuou, obtida a licença do governo francês. Expulsão dos franceses que ocupavam a fortaleza que ele edificou, por Mem de Sá, e sua total derrota por Estácio de Sá, que fundou a nova cidade do Rio de Janeiro.

1555

A exportação dos produtos naturais e industriais do Brasil, apenas foram aos mercados da Europa, que excitou a inveja das nações, e começaram a frequentar seus portos os corsários armados dos normandos, franceses e outros povos, roubando, assolando, e destruindo a nossa nascente indústria e civilização. Fundeavam audaciosamente não só no vasto porto da cidade da Bahia, como no Recife de Pernambuco e Cabo Frio. As descrições que faziam os viajantes mais ou menos exageradas dos portos em que, penetrando, fundeavam, comerciando com os indígenas, excitaram entre os seus compatriotas vivas comoções de adquirirem copiosas riquezas, estabelecendo-se nos climas doces, férteis e que produziam variados ramos de riqueza.

Persuadiram-se ser contra as vistas do Criador, que tudo criou para utilidade dos homens, desprezarem estes tão magníficos donativos, e menos fazer só privativos de Espanha e Portugal, com exclusão de outros povos, tão vastíssimos impérios.

O papa Alexandre VI, induzido pela política do tempo, que lhe dava o eminente e universal império do mundo, com as atribuições de repartir e dá-lo como bem quisesse, quando Cristóvão Colombo fez a descoberta do Novo Mundo em 1492, entrando nas ilhas Lucaias, Cuba e S. Domingos, chamada Haiti, deu à Espanha os grandes reinos do Peru, Popaian, Caracas, Terra Firme ou Castela de Ouro, Granada, o Chile, Paraguai, Andaluzia nova, Tucumã, Venezuela.

O Brasil foi dado aos portugueses com as mesmas condições de enviar a esses remotos países missionários instruídos e pios que promovessem o conhecimento de Deus e a fé católica, entre as nações bárbaras que os reis de Portugal, com grandes despesas de armamentos, conquistaram e civilizaram por meio do evangelho, que fizeram levar aos povos antropófagos por intermédio dos jesuítas e franciscanos, sendo atraídos pelo desempenho do sagrado ministério apostólico os indígenas, a custo de muitos trabalhos e sacrifícios dos missionários, que pelas suas virtudes e auxílios de Deus, favor e proteção do governo, propagaram a fé católica, trazendo os habitantes ao cumprimento dos seus deveres, e civilizaram e engrandeceram tão férteis países, mormente o Rio de Janeiro, que bem se pode comparar com o Éden.

Tendo sido esse século tão singular pelo desenvolvimento e esforços do espírito humano, que tanta glória coube aos portugueses que sulcaram desconhecidos mares, levando ao cabo tormentoso e ao império da Ásia as quinas reais, plantando nele a religião católica romana, descobrindo em suas derrotas para aquele império do Brasil, florescendo pessoas de muito esclarecida fama, em todo o gênero de heroísmo, tendo as luzes penetrado os espíritos de sabedoria, como se denegriu o político horizonte, confundidos, arrastados os povos a um furor desmedido, por causa das seitas que insurgiram de Calvino e Lutero, sustentadas com desvarios da sã razão, com furioso encarnecimento pela temerária ousadia de seus instituidores, que se proclamaram libertadores do fanatismo das nações, a quem horrivelmente atormentaram, que fizeram correr rios de sangue, com eclipse da sabedoria humana, ruína dos bons costumes e horror da humanidade, proclamada a incredulidade que se transformou em sistema político, e que parecia conduzir as nações à sua antiga barbaridade o calvinismo ramificado na Europa rebentou logo em guerras civis e religiosas, e as chamas daquele vulcão levaram até às províncias da França suas devastadoras lavas.

Não eram desconhecidos a Henrique II os partidos violentos que abalavam já o seu trono e o seu reino. Apareceu Nicolau Villegagnon, cavalheiro de Malta, vice-almirante de Bretanha, conhecido pelas proezas de Argel em 1541, o qual, ocultando os seus malignos desígnios, buscou a proteção do almirante Coligny, um dos egrégios protetores do calvinismo, para que o ajudasse fundá-lo no Rio de Janeiro, cujo país dizia conhecer, por ter estado nele, negociando com os indígenas, formando uma colônia dos prosélitos daquela doutrina, gozando ali os seus partidistas dos benefícios da Reforma, e assegurando que em nenhum outro lugar havia para aquele estabelecimento mais favorável asilo, aos perseguidos na França por opiniões religiosas.

Com esse especioso motivo, obteve o armamento, navio e gente. Esperava fazer-se muito poderoso no Brasil, armando os indígenas, não só contra os portugueses, mas também contra os seus compatriotas, projeto que, tendo felizes auspícios, foi inteiramente aniquilado por causa da sua imprudência e inconduta, que atraiu contra si a indignação dos mais exaltados da seita.

1556

Henrique II anuiu a insinuação do seu ministro a favor do projeto de Villegagnon, ao qual mandou entregar dois navios de 200 toneladas e uma chalupa de metade da carga; e permitiu que ele levasse, além de solados, artífices, pessoas nobres e aventureiros, segundo testifica o abade Lery, cap. VI da sua Historia navigationis in Brasilicum. E se fez à vela de Havre de Grace, antigamente Franciscopoli, em honra de Francisco I, seu fundador. Sucedendo abrir o navio água, ele se viu forçado a entrar em Dieppe. Aí vieram os habitantes em seu socorro, como era seu louvável costume, os quais conduziram o navio a reboque. Ocasionou o desembarque de algumas daquelas pessoas que, enjoando, recusaram prosseguir a viagem, o que serviu de grave transtorno à expedição. Beauchamp, na sua História do Brasil, disse fora em maio de 1555 feita aquela derrota.

É certo que chegando ao Rio, entrou por entre os dois altos rochedos, entre o estreito de meia milha de largura que segurava o porto, que continha uma rocha em torno, de cem pés de comprido, e sessenta de largo, onde tomou posse, e denominou o país França Antártica. Levantou ali uma fortaleza de madeira, imediatamente. Observando, porém, que o rochedo era pouco elevado sobre a superfície do mar, e lhe impedia a ressaca as obras, seguiu mil passos adiante [1], onde demorava uma ilha inculta de 1000 passos de circunferência, de largura seis vezes maior, circulada de cachopos à flor d’água, o que impedia a aproximação dos navios; e era o lugar de sua natureza inexpugnável, não permitindo entrar senão pequenos vasos do lado oposto do oceano. Ele a guarneceu com oitenta homens, que fez desembarcar, que a sua posição resistia a qualquer desembarque, ou ser assaltada e destruída. Corria na extremidade eminente do outeiro um cume, e ali edificou a casa para a sua residência [2].

Tinha a rocha em torno cincoenta pés de alto, abrindo-se nela o lugar para o arsenal. Dignificou a fortaleza com o nome de Coligny, expediu imediatamente um correio ao almirante Coligny, dando-lhe relação assim da sua chegada, como da riqueza do continente e da feliz disposição dos indígenas, ao seu recebimento, e entre os reforços que exigiram, era a remessa de alguns teólogos de Genebra [3].

O citado Beauchamp, na História do Brasil, fez encantadora pintura deste país, que os franceses penetraram e habitaram. É sem dúvida que a elegante descrição, como descreveu aquele escritor deste admirável lugar, não a podiam ver os franceses fora da sua majestosa posição formada pela natureza, para o maior dos impérios. Do mar em grande distância se avista o monte da Gávea, que representa um gigante, hieróglifo do seu poder e prosperidade. Se os franceses tivessem o mais pequeno conhecimento das vantagens da sua localidade, não teriam lançado os fundamentos da França Antártica na ilha que perpetuou a memória daquele aventureiro, lugar impróprio para a fundação de um novo império teriam buscado nas vizinhanças da costa algum lugar mais agradável e importante.

Quando Estácio de Sá, com seu tio Mem de Sá, lançou os fundamentos desta cidade, onde se persuadiram ser mais proporcionado, encontraram uma vargem paludosa cercada de altos morros, que lhe ofereciam fortificações, como eram os de S. Antônio, Conceição, Livramento e S. Bento. Fundaram, por isso, a cidade da parte do sudoeste, da ponta da Misericórdia até à Prainha. Os habitantes fizeram valas e aterros para esgotar o vasto pântano de sua vargem, e se encaminharam pela praça, onde levantaram os abrigos e comodidades para habitação que facilitassem o seu comércio pela estrada que, suposto se chamasse rua Direita, [4] era desigual e tortuosa.

Penetrava o mar o pantanal, e tanto que no lugar onde hoje está a freguesia de N. S. da Candelária, esteve antigamente ali encalhada uma nau daquele nome, de cujas madeiras foi organizada aquela igreja. Formava uma ilha o morro de S. Bento, e a rua dos Pescadores, [5] alagada, servia de habitação aos pescadores em choças cobertas de palha de sapê, expostas as ruas a frequentes inundações, porquanto o mar cobria os terrenos da Gamboa até à Prainha. Da vala para o campo só se achavam lagoas e charcos, na famosa Pavuna onde se iam lavar os negros novos, no lugar em que hoje foi formado o bairro das Pedreiras.

A lagoa da Sentinela [6] era tão grande que se criavam jacarés. O largo da Lampadosa [7] foi começado a entulhar-se no vice-reinado do marquês do Lavradio, e dele se formalizou uma rua à esquerda daquela capela. Foi também tremendo brejal, habitação de crocodilos, a rua que depois se denominou do Propósito ou Bobadela, [8] e semelhantemente a rua que é hoje das mais belas da cidade, denominada do Lavradio, em honra do vice-rei de quem tomou o título, que a fez desaguar e aterrar.

Além daqueles lagos, havia o grande boqueirão, onde se ajuntavam as águas doces das enxurradas, de mistura com as das enchentes das marés, que, apodrecidas pela sua estagnação, empestavam a cidade de vapores mefíticos, com gravíssimo prejuízo dos habitantes dela, suas vítimas, e onde, com pasmo e glória, o vice-rei Luiz de Vasconcelos ali formou o elegante Passeio Público. No vice-reinado do conde de Rezende, a Câmara foi que, com as rendas da Municipalidade, se empenhou em entulhar os vastos pantanais dos campos de Sant’Ana e S. Domingos, em que despendeu para mais de trinta mil cruzados.

As elevadas montanhas dos Órgãos, na cordilheira majestosa que torneia a cidade, a qual tem quase constantemente no estio sobre o seu cume densas nuvens, donde rompem os raios que se subvertem nas vastas profundidades daqueles vales, rebentando de seus rochedos de pedras agregadas, o enxofre nativo e diversos metais, e semi-metais, são cobertas em diversos pontos de frondosas e altíssimas árvores que purificam o ar atmosférico, pela abundante cópia das substâncias que absorviam e que difundiam uma respiração malsã, por efeito da decomposição dos seus diferentes sais, pelo calor e umidade que faziam pouco agradável sua próxima habitação, incomodada até pela copiosa quantidade de insetos como o pulex subintrans, vulgarmente bichos dos pés, e horríveis répteis.

A cidade está edificada abaixo do nível do mar. Pela configuração local, parece haver sofrido grave mudança em sua conformação, de ter sido antigamente uma imensa lagoa, pelo despenho de muitas águas que lhe serviam de barreira, que o mar banhava até às fraldas das montanhas dos Órgãos, que pela sua semelhança se lhe deu aquele nome. Circulam toda esta baía as altas e escabrosas penhas da cordilheira que tomam sua direção para o sul. São infectados os habitantes da umidade e podridão das águas estagnadas por falta da devida correnteza para o mar.

As virações são escassas no estio e não podem conservar a elasticidade do ar natural, o que faz insuportável o calor abrasador, principalmente no mês de fevereiro, apenas momentaneamente mitigado com as chuvas das trovoadas, o que faz ser a atmosfera sempre variável e alterada diversamente no mesmo dia. O que tudo prova ter sido pouco agradável este local, no princípio da fundação, além de malsão, e que a umidade superabundante enervava e destruía o mais vigoroso temperamento. A ela se atribuíam as moléstias endêmicas da lepra, morfeia, erisipela, febres nervosas e inflamatórias, tubérculos, langores, hidropisia, que faziam levar ao túmulo milhares de pessoas. Com a mudança da corte de Portugal, se achou por experiência ficar o clima mais saudável, por efeitos dos melhoramentos que se sucederam, e com a limpeza, benfeitorias e cultura dos subúrbios.

Era bem fundada a expectação de Villegagnon, denominando o país a França Antártica, reconhecendo, pela posição majestosa da sua foz, a grandeza e futura prosperidade de tão admirável localidade. Aquela ilha, que fortificou sem dúvida, oferecia uma bela posição militar, suposto que diminuía a sua força o inconveniente da falta d’água. Os erros que cometeu em sua administração, e sua imprudência a muitos respeitos, nos trouxe grande bem. Porque, mesmo que não houvesse partido para a França, não podia sustentar-se no comando pelo ódio que se apoderou em todos os ânimos, desde que ele suprimiu as rações de aguardente e biscoito, no intento de acostumar a privações a sua gente, desejando e pondo em execução mantê-los segundo o regular estado da terra.

Não obstante não estarem reduzidos à penúria, pela copiosa quantidade que ainda tinha dos mantimentos europeus, crescia dia a dia a indignação dos seus súditos e companheiros, pela proibição que lhes fez de se comunicarem com as mulheres do país, fora do caso de matrimônio, o que excitou a rebelião dos artistas e mercenários, que se propunham a matá-lo e fazer voar pelos ares o arsenal. Intento que teriam efetuado, se a alguns lhes não inspirasse o horror de sua posição, privados por tão fatal sucesso dos gêneros com que podiam traficar com os indígenas, e manter a sua amizade.

Deveu, todavia, Villegagnon a sua salvação à fidelidade de três escoceses da sua guarda, que os conjurados não puderam corromper, os quais lhe comunicaram a traição premeditada. E ele fez enforcar a alguns cabeças da conjuração e condenou outros aos trabalhos, como escravos, tendo-se evadido alguns para os indígenas, o que por algum tempo lhe deu grande cuidado, por haverem semeado a desconfiança dos selvagens e por lhes haver persuadido que a febre contagiosa que os assolava fora pelo mesmo Villegagnon maliciosamente trazida, para inoculá-la, no país.

Porém ele soube prevenir o fatal golpe que o ameaçava, caindo na indignação dos indígenas, porque só buscou ganhá-los por carícias, fazendo-lhes vários presentes e cuidadosamente providenciando para que não fosse alguém entre eles molestado pelos franceses.

Ao abade Lery deveu, por esta ocasião, a França grande obrigação, pelos bons serviços que fez, ganhando a benevolência das hordas pela sua sabedoria e boa conduta, obtendo pela religião, que empregou em sua política com os tamoios, muita propensão dos naturais para com os franceses e todo o favor no projetado estabelecimento e nas facilidades das produções naturais, para serem transportadas à França. E conhecendo que os índios tinham ideias de um Deus e da eternidade dos espíritos, soube aproveitar a oportunidade que lhe oferecia a singeleza de um ancião a quem, por intervenção de intérpretes que já tinham aportado a este lugar, ele explicou como fora o mundo criado por Deus, o qual sobre a terra enviara a seu Filho único [9] que morrera para salvar os homens.

Nessa entrevista, em que se tinha acauteladamente solicitado uma boa carregação do Pau-brasil, além do conhecimento das localidades do interior, lhe perguntou o ancião se na sua terra não havia lenha para queimar. E sendo-lhe respondido que havia, mas que não era daquela qualidade aquela que se queimava, pois que esta servia para extrair a tinta e com ela pintar os panos, da maneira semelhantemente como eles pintavam as penas dos pássaros e aves, e que na França um só homem tinha dos panos que lhes apresentara maior cópia de todos aqueles que haviam conduzido os navios.

Maravilhado dessa riqueza perguntou de que servia a esse homem tanta riqueza, e se ele não morria. Como lhe fosse respondido que morria, porém que a sua fortuna passava à mulher e aos filhos, com esta resposta pareceu indignar-se o ancião, e disse: “Sois uns loucos, franceses! De que servem essas riquezas, se todos morremos? Temeis que a terra os não sustente, como pratica conosco?”

O mesmo Lery nos transmitiu, naquela sua referida relação, que, ouvindo os indígenas falar das grandezas de Deus e maravilha das suas obras, e das suas antigas misericórdias, em transporte proferiram que se recordavam que os seus antepassados, havia muitas luas, de quantas se não recordavam, contavam que entre eles estivera um homem barbado como Lery, o qual dizia coisas admiráveis de Deus, e porque os seus o não escutaram, ele os amaldiçoara, e que depois tiveram, de passar por desassossego e penalidades das guerras, com a dispersão das suas tribos, ficando vagabundas, com grande ódio a seus inimigos, cujos cadáveres comiam, caindo prisioneiros, o que praticavam com grande festim e alegria, nutrindo desde a infância o insaciável ódio contra os inimigos.

Mas com que lástima da humanidade, que se não pode exprimir, esses mesmos franceses louvaram a crueldade dos tamoios, subministrando-lhes correntes de ferro para que as suas vítimas não escapassem de tão feroz carnificina, quando outrora alguns, soltando-se das cordas com que estavam manietados, se evadiam de tão crua morte. É do mesmo Lery, donde extraímos o que fica dito; bem como que suposto não prestassem algum culto a Deus, acreditavam na imortalidade da alma, esta única consolação das criaturas que no sofrimento das suas desgraças esperam o alívio e felicidade noutra vida. Eles observavam o canto das aves, persuadidos de que vinham avisar do que de além se mandava dizer.

Tinham seus augures e sacerdotes, queixavam-se de serem atormentados pelos demônios, falavam do dilúvio, suposto dele tivessem ideias confusas. Corria entre eles a tradição de que os seus antepassados se haviam salvado da morte, que ele causara, agarrados ao cume das altas árvores. Viviam segundo a lei natural que Deus imprimiu nos corações de todos os homens: “Não faças aos outros o que não queres que te façam”.

Eram, portanto, indesculpáveis na crueza de comer os cadáveres de seus inimigos, depois de lhes fazer sofrer cruéis tormentos. A vista desta e de muitas outras informações havidas de pessoas sensatas, aparece quão contrário seja da verdade o que afirmam recentes filósofos sobre o estado das primitivas sociedades, em que os homens gozavam de plena liberdade e independência em que a natureza os constituiu, quando esta igualdade é apenas nas lágrimas, torpor, fraqueza e dependência dos pais, a cujo cuidado e materna solicitude foi imposta a obrigação moral de prover na conservação da espécie humana.

Desde o primeiro estado natural e conjugal, crescendo com a razão o desenvolvimento dos seus órgãos e sentimentos, o céu e a terra, com os seus resplendores e maravilhas, são os mestres primitivos do conhecimento de Deus, pai de infinita bondade e misericórdia, que nos mostra o poder de um Deus Senhor independente unicamente, que do nada criou todas as coisas com um — Faça-se — criando os céus, os astros e planetas, sujeitos como a terra, com seus montes e vales, às leis eternas da sua criação, entregando o homem para se poder criar e crescer à sujeição dos pais na sociedade patriarcal o modelo do fraternal governo das monarquias, representadas ainda no estado de selvageria pelos caciques e chefes das diversas tribos, os quais a experiência da senectude fazia recomendáveis à veneração geral que lhes granjeava a virtude e o amor pela felicidade da sua associação.

Nas tribos indígenas constantemente se nota que os mais velhos, valentes e experimentados são os chefes que os conduzem na paz e na guerra, e a quem obedecem em suas determinações, pelo instinto da mesma natureza que criou aos homens desiguais em talentos, indústria e força física, mostrando visivelmente a experiência que a multidão não é capaz de governar, e só de ser governada. É representado por alguns sábios o governo de um só homem como o homem racional, dotado de sã razão, que destrói os vícios que atacam a sua organização; e o governo popular, como a paixão da concupiscência, que destrói a constituição a mais bem formada do homem e o leva ao padecimento de insuportáveis dores e à morte desonrosa, ou como a força e violência das águas que nas tempestades saem do seu recinto, inundam, alagam e destroem as propriedades e culturas que com tanto trabalho se prepararam.

É comparada a monarquia bem governada com o piloto prudente e sábio que suposto o navio sofra o impulso de um vento rijo e tempestuoso, o conduz por encapeladas ondas ao porto do seu destino; e o governo popular aos ventos tempestuosos que sopram com violenta exploração de todas as partes do horizonte, que apesar da experiência e sabedoria dos seus pilotos, é soçobrado debaixo das supostas vagas.

Assim é o povo agitado pelos tumultos violentos, matando, roubando e incendiando os monumentos da sua fortuna e prosperidade por veementes paixões de ambiciosos, que a pretexto do mau governo, tem submergido na miséria o país, excitando contra ele o furor da canalha volúvel e ciosa, que não quer honestamente trabalhar, e que julga segura a sua fortuna com a destruição do governo, sendo os seus agentes malvados que, não sabendo como repudiar os males públicos ambicionam o poder e a riqueza, exasperando a causa do seu mal, condenando e expatriando os melhores servidores da nação. O que sucede nos mesmos governos representativos, quando não estão em equilíbrio os três elementos de que se compõem.

Aqueles mesmos franceses da propagada independência e liberdade dos indígenas, que em suas palavras afetavam interesse pela sua civilização, haviam altamente projetado levar ao cumprimento seus planos de dominação, ambição e desumanidade, que conceberam naquele mesmo tempo em que tinham sido acolhidos benignamente entre as tribos que trocavam os seus produtos por vestiário de variegada cor, pelo ferro e diversas bugiarias, as quais pareciam mais desejosos adquiri-las os homens do que as mulheres, que só apreciavam a liberdade natural de seus membros, banharem-se frequentemente, desprezando os atrativos da civilização europeia e seus ornatos pelo gozo da natureza [10]. Villegagnon, tendo comprado algumas brasileiras, as fazia açoitar por se negarem a andar vestidas. Ele não pôde conseguir delas, não obstante os castigos, que à noite se não desembaraçassem da opressão que sentiam vestidas, para gozarem, durante ela, passearem nuas em torno da ilha, para sentirem o ar fresco antes de se deitarem a dormir.

Para ganhar a afeição dos indígenas, absteve-se Villegagnon de negociar com os brasileiros, pondo todo o seu esmero em fazer guardar suas coisas e contratos, exercendo os atos da mais rigorosa justiça contra os violadores. E como era de seu particular interesse dominar no Brasil, de prevenção começou a exercitar os indígenas no manejo das armas, pois que os achava robustos e valentes, para os ter adestrados e aptos a invadir e destruir os nossos estabelecimentos no sul e atacar por mar o nosso comércio da Índia. Não poupou a sedução e calúnia que em diversos recontros facilitou para excitar o ódio dos selvagens contra os portugueses, a quem movia tomar parte nos seus interesses, carregando os navios de pau-brasil e produtos naturais, que remetia à França por amostras que excitavam, pela sua curiosidade e novidade, à pública consideração de lançar mão de todos os meios de conservação da nova França.

Perante o governo francês, escrevendo para este fim energicamente ao almirante Coligny, que se mostrou o mais interessado de prover a Villegagnon de todas as coisas necessárias para esse novo estabelecimento, assim no que respeitava ao temporal como ao espiritual, de conformidade com Calvino, que para tal objeto convocou os anciãos, entre os quais se nomearam a Pedro Richer e Guilherme Chartier, teólogos protestantes, pela importância que deram a esta missão. Reuniu igualmente diversos aventureiros à mesma missão, pessoas muito notáveis, para acompanharem aqueles ministros do culto reformado, que de boa vontade se prestaram.

Por conta do governo se fretaram três navios, que receberam em seu bordo 290 pessoas [11], além de seis moços para aprender a língua dos habitantes e seis meninas debaixo da direção de uma mestra, o que causou aos indígenas suma admiração. O conde Bois [12], sobrinho de Villegagnon, foi o comandante dessa expedição. Esse, na viagem para o Rio de Janeiro, foi roubando os navios que encontrou, e havendo em Tenerife tomado um navio português, prometeu ao mestre deixar seguir sua viagem, se aprisionasse outra embarcação. Largou-o em um bote para aquele efeito, com vinte homens, e acontecendo tomarem então um navio espanhol, naquele bote lançaram os portugueses e espanhóis apresados; não lhe metendo provisões e apenas lhe dando panos rotos, os largaram à mercê dos mares [13].

De atrocidade a mais horrível era manchada a Marinha daquele tempo, e aquele conde todavia excedia em atrocidade ao velho viking, que condenava à morte os prisioneiros que fazia, com suma crueza. Parecia que tinham dentro de seus corpos os espíritos infernais pela atrocidade com que se assinalaram. E tal era naquela época o caráter dominante dos franceses. Ainda agora estremece de horror a humanidade pelo que praticaram com tomada de um navio português em 1526, na derrota da Índia, que frequentavam os piratas, que lhe puseram fogo, quando em seu bordo tinham mil pessoas que todas morreram queimadas vivas [14].

Coligny mesmo fez escolha e nomeação de Corquillerai para seguir nessa expedição, como um dos principais colaboradores da profissão de Calvino no Rio de Janeiro, glória que ele preferia a todos os gozos do seu país, prestando-se de boa vontade acompanhá-lo diversos partidistas daquela seita, não obstante falar-lhes Corquillerai com franqueza nos sacrifícios e incômodos que tinham de passar, assim na viagem do mar, como depois que houvessem de chegar ao lugar de seu destino, tendo de viver de frutas e raízes, ao princípio com renúncia absoluta do vinho e mais comodidades da Europa, além de sentirem a mudança do clima e os ardores da zona tórrida.

Embarcaram-se com firme resolução do cumprimento de sua promessa em Honfleur, seguindo por Rouen, onde se lhes agregaram muitos outros prosélitos, aportando ao Rio de Janeiro no ano de 1557, onde desembarcaram naquele forte de Coligny, recebendo-os Villegagnon com afetada benevolência. Abraçou os ministros Richer e Chartier, com Corquillerai e Dupon, aos quais dirigiu o seguinte discurso: “Meus filhos (pois quero ser vosso pai), agora que estamos juntos é necessário, por trabalhos comuns, fortificar-nos nesta região. Tenho tenção de estabelecer aqui aos pobres fiéis perseguidos em França, Espanha e outras partes, um refúgio tranquilo, onde, sem temer potência alguma humana, possam servir a Deus, segundo a sua vontade”. Concluído este discurso, na sala da fortaleza da ilha, o ministro Richer invocou a Deus, entoando ao mesmo tempo um cântico; o que feito, seguiu-se a oração do padre protestante, tomando por tema o salmo XXII: Ad te Domine clamabo Deus meus, ne sileas a me: ne quando taceas a me, et assimilabor descendentibus in lacum. Despediu depois Villegagnon os circunstantes, mandando ficar os recém-vindos, aos quais mandou dar uma refeição de raízes e peixe assado, de que usavam os selvagens com água salobra verde-negra da cisterna. Foram depois alojados em uma choça coberta de ervas, dormindo em suas macas suspendidas.

Foram seguidos àquele recebimento tão desabrido os árduos trabalhos da extração e condução da pedra e terra para as obras, desde o despontar da aurora até o ocaso. Ele soube enganar a Coligny, que estava persuadido ter nele o maior pregador e propagador da religião reformada, para cuja fundação no Brasil concorrera com a sua influência no governo e com o seu dinheiro [15], ficando iludido em sua expectativa, por tomar Villegagnon outra diversa direção, lançando-se nas mãos do cardeal Guise, para ganhar o conceito e estima do rei Henrique II.

Traindo ambos os partidos, seguiu o prospecto que julgou mais favorável à sua fortuna, pois desde que se julgou seguro da proteção do cardeal, tirou a máscara, desgostou-se com os ministros genoveses, adotou em sua conduta um caráter duro, intolerante e tirânico, o que produziu grandes bens aos nossos estabelecimentos pela dissidência e intriga entre os franceses que ocasionaram o feliz êxito da expedição da Bahia para sua expulsão do Rio de Janeiro, e que privou a França do seu projeto de engrandecimento e poder no Brasil.

E com efeito, logo que os franceses se viram privados da liberdade de consciência, pressentiram a grandeza horrível de males que os precipitavam na maior de todas as misérias, havendo sacrificado por aquela a expatriação e todas as privações e incômodos. Pediram imediatamente licença para voltarem à Europa, que lhes foi dada por escrito, com direção à França, permitindo-se-lhes um navio em tão mau estado que cinco deles imediatamente desembarcaram. Lery, com alguns outros, preferiu, indo nele, morrer submergido das ondas, a viver debaixo da autoridade daquele que os traíra, suportando, além dos perigos iminentes do mar, todas as misérias da fome.

Tiveram a fortuna de aportar a Henesbone, levando cartas de Villegagnon para os principais magistrados de qualquer dos portos de França onde ancorassem. Denunciou os portadores delas que tinham sido convidados para no Brasil exercitar o culto e regras da religião reformada, como hereges e merecedores dos maiores castigos. Mas aconteceu efeito contrário, por serem da mesma seita os magistrados daquela cidade, que, espavoridos da feia e indiscreta traição de Villegagnon, os protegeram em tudo quanto puderam contribuir para melhorar a sua desgraça.

Coube em verdade muito adversa sorte aos que desembarcaram no Rio de Janeiro, por isso que sofreram tanto que pereceram uns, e outros fugiram para os portugueses, entre os quais se viram, para obter segurança, obrigados a professar a religião católica. Quando todas essas coisas assim se passavam, insensível aos seus mais urgentes interesses, o governo português deixou aos franceses, durante quatro anos, fortificarem-se neste ponto tão inexpugnável, e que força alguma poderia impedir depois a sua conservação, se a Providência não salvasse o país, mediante os planos em que se ordenava a sua execução com a premeditada expedição próxima a largar dez mil franceses, além de um grande corpo de aventureiros flamengos, esperando-se somente, para mandar sair, a chegada das boas notícias. Foi quando se publicaram as relações de Lery sobre a traição de Villegagnon, o que desanimou a seus autores progredirem sem ulterior informação.

Os jesuítas, porém, penetrando a grandeza deste negócio, incansavelmente instavam e aconselhavam a sua corte se precaucionasse contra tão poderoso inimigo, cabendo nisto muita glória ao padre Nóbrega, pela sua discrição, sinceras e zelosas persuasões, as quais puderam acordar o governo de seu funesto letargo nos negócios do Brasil, que estavam quase perdidos, representando-se quanto antes não se obstasse aos perigos que ameaçavam os franceses, pois sua perda e aniquilação seria certa, desde que os franceses aí se fortificassem, povoando o país interno, estando já adestradas as tribos indígenas.

Passariam não só a assenhorear-se dos estabelecimentos de S. Vicente, mas empecer e destruir o comércio da Ásia, tendo, como esperava, copiosos reforços e suprimentos de todo o gênero da França, o que assas provara quão iminentes estavam os nossos perigos, tanto mais inseparáveis pela confederação dos tamoios com as nações vizinhas, empenhadas pelos huguenotes na aniquilação da religião cristã, que procuravam desarraigar dos naturais convertidos para ela, fazendo-lhes odioso o nome de cristão, lisonjeando e acariciando os seus mais grosseiros vícios, para os ter favoráveis ao desempenho do seu projeto de particular engrandecimento.

Para realizar suas tão altivas pretensões de apoderar-se das possessões de Portugal e de seu comércio, partiu Villegagnon para a França com o desígnio de formar uma esquadra de diversos navios armados, para tomar a frota da Índia, aniquilando o nosso comércio, e assolar e destruir as colônias portuguesas que começavam a florescer, persuadido que nada poderia embaraçar o cumprimento de suas empresas, e até ousadamente afirmava que nem todo o poder de Espanha e do grão-turco o poderia lançar para fora do Rio de janeiro.

Nesta ocasião, teve ordem Mem de Sá, 3.° governador geral do Brasil, desembargador da Casa da Suplicação, para que empenhasse todos os seus esforços de trazer à santa fé os índios do Brasil, dizendo-se no regimento que se lhe mandou dar que a principal parte de seu ofício consistia em destruir os embaraços que o afastassem daquele fim, tendo sempre em vista a liberdade dos índios, a quietação do estado e a expulsão dos franceses do Rio de janeiro.

Tinha pago o tributo da humanidade o rei d. João III, o qual foi quem decretou com sabedoria a expulsão dos franceses. A sua morte foi desastrosa, não menos a Portugal que ao Brasil, ficando, pela menoridade de d. Sebastião, regendo o reino a rainha d. Catarina, que fez expedir ao governador geral as ordens daquela expulsão. Mem de Sá achava grande dificuldade no seu desempenho, pela fraqueza e insuficiência das forças disponíveis, tendo em vista a sua dignidade, e quão vergonhosa seria a sua derrota, pois que, segundo as notícias que se acreditavam, eram poderosas as forças do inimigo, pelos sucessivos reforços mandados pela sua nação; porém, confiando na Providência que subministra grandeza de espírito nas empresas grandes, como sejam as fundações dos impérios, que para gloriosos fins solidifica, resolveu seguir viagem, não obstante se compor a sua esquadra apenas de três navios de guerra e de oito transportes, a conselhos de Nóbrega, além de haver prestes várias canoas de guerra, com gente e munições, que adquiriu das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo.

Levantando âncora na Bahia em 10 de janeiro de 1560, ele aportou ao Rio de janeiro em 21 de fevereiro com o plano formado de tomar por assalto a fortaleza de Villegagnon; fundeou na barra, onde esperou pela reunião das forças de socorro que de Santos e S. Vicente esperava, havendo para aquele efeito, para sua breve expedição, enviado o padre Nóbrega. Não executou o seu premeditado desígnio de surpreender aquela ilha, atacando de noite, por ter sido pressentido das sentinelas inimigas, tendo aportado mais cedo do que esperava, e por isso fundeou fora da foz; e imediatamente os franceses correram às fortificações da ilha, desamparando os seus navios, acompanhados de 800 sagitários tamoios.

Nóbrega, no desempenho da sua comissão, despediu um bergantim, canoas e lanchas carregadas de munições de boca e guerra, e de portugueses; mamelucos e indígenas, que conheciam a costa e sua navegação, debaixo dos condutores padres jesuítas Fernão Luiz e Gaspar Lourenço. Apenas chegava aquele reforço tão oportunamente, Mem de Sá mandou levar os ferros e soltar as velas, e entrando pela foz dentro, ganhou o desembarque na ilha, que toda ela formava seguidas fortificações, que horror causavam de perto a quem de longe parecia fácil e acessível.

Abateu por dois dias sucessivamente, em todas as muralhas e baluartes de sólida rocha, com suma coragem dos combatentes, que olhavam com indignação o haverem de voltar as costas ao inimigo, não conseguindo o êxito da expedição; e por isso obraram prodígios de valor, conseguindo o assalto dela, escalando o monte pelo lado do arsenal, que senhorearam, o que causou tanto temor aos franceses, que na seguinte noite desampararam os seus postos, e nos botes que apanharam, fugiram já para as embarcações, já para o continente. Foi muito notável o comportamento valoroso neste assalto do índio que no batismo tomou o nome de Martim Afonso, que sendo recomendado ao governo da corte de Lisboa, foi condecorado com o hábito da Ordem de Cristo [16].

Por tão assinalada vitória, no seguinte dia fez render o governador geral graças a Deus, celebrando os jesuítas o sacrifício da missa, ao qual todos devotamente assistiram, banhados de lágrimas de reconhecimento ao divino favor. O que, sendo concluído, convocado o conselho dos mais notáveis oficiais e pessoas nobres, que tiveram por seus esforços tanta parte na glória daquele dia, propôs-se se seria melhor serviço del-rei constituir a ilha em perfeito estado de resistência, deixando-lhe guarnição bastante, ou desampará-la, arrasadas as suas obras, por não ter suficiente cópia de combatentes. Foi tomada aí a resolução de a deixar, ficando desguarnecida de artilharia, demolidas e destruídas as fortificações, pela regra de que as forças divididas se enfraqueciam, e que no tempo e circunstâncias presentes, não se fazia praticável segurar o presídio, resistir aos inimigos internos e externos que ficavam em seus navios, quando se fazia urgente a necessidade de acudir à defesa e segurança da capital à cidade da Bahia.

Sendo assim ajustado, reembarcaram-se na esquadra com as peças da fortaleza rendida e despojos do inimigo, fazendo-se exata relação à rainha d. Catarina, segundo a carta que vem impressa nas memórias del-rei d. Sebastião [17], na qual se inculcava o justificado receio de voltarem os franceses a ocupar aquela ilha, e o perigo da sua preponderância sobre as nossas colônias. A esquadra, fazendo-se de vela, seguiu ao sul para S. Vicente, para ali obter os fornecimentos convenientes de que abundava, lançando a âncora no porto de Santos no último de março de 1560, onde o vencedor da França Antártica se congratulou com os seus amigos os padres Nóbrega e Anchieta [18] pela felicidade que de Deus recebera de voltar com glória à sua capital, havendo por conselho de Nóbrega batido completamente a ilha.

Visitou a vila de S. André, e ordenou ali a mudança do pelourinho para defronte do colégio, tomando a vila o nome de S. Paulo de Piratininga. Então, os guaianases seus oriundos, vendo serem devassadas e frequentadas pelos portugueses as suas terras, largaram o lugar da situação da vila de S. Paulo, indo arranchar-se nas duas aldeias que povoaram, uma da invocação da Senhora dos Pinheiros e a outra intitulada de S. Miguel [19], para as quais o donatário doou seis léguas em quadro. Descendo o governador geral para a marinha, depois de dar as providências que os negócios do tempo exigiam, se fez de vela para a Bahia em 25 de junho, onde lançou âncora no princípio de agosto entre vivas e públicas aclamações de festejos de touros, segundo o uso daquele tempo.

Retirando-se para a Bahia o governador geral, o susto e o alarme se difundiu pelos habitantes de S. Vicente, Piratininga e S. Paulo, vendo-se inopinadamente cercados de poderosos inimigos, por causa da rebelião dos tupis do sertão, que se declararam por implacáveis inimigos dos portugueses. Desde que souberam que os tamoios ajudados e conduzidos pelos franceses erravam fugitivos e dispersados, reuniram-se em milhares de sagitários, sitiaram os portugueses para talar e assolar suas habitações, fortificações e lavouras, dando-lhes assalto geral em vingança de seus aliados e amigos. E para cujo efeito derrubaram as mais grossas árvores para construir, cavando o âmago, canoas de tal força que pudessem conduzir 150 pessoas com 40 remos por cada lado, que servissem de trincheira e de arma a seus adestrados sagitários e a soldados franceses e normandos armados com arcabuzes, com cujo preparativo eles reuniam todas as suas forças, que todas as povoações pela costa ficaram ameaçadas da invasão.

Estas desagradáveis relações chegaram ao conhecimento dos jesuítas aos 3 de julho de 1562, estando estes em S. Vicente, os quais, pondo sobre seu Deus sua confiança, ordenaram se fizessem procissões públicas de penitência, nas quais pregavam e exortavam aos habitantes se emendassem arrependidos em sua conduta de vida, buscando a Deus na contrição e humilhação. Persuadiu-lhes quão perigosa e contrária era, a bem da sua segurança e felicidade, o abuso que se fazia da liberdade dos índios, pois não satisfeitos de levarem o seu ouro, suas pedrarias e tudo que concorria a fazer seus interesses, os tratavam como escravos, fazendo-se odiosos aos indígenas, testemunhas e vítimas de sua crueldade, dissolução de costumes e de todos os vícios, o que tanto os afastava da crença da nossa santa fé a conduta de pessoas cristãs no nome, e que obravam tão contra seus próprios interesses e da religião, tantos escândalos, presenciados pelos índios. Inflamando, por outra parte, aos habitantes a sua honra e zelo pelo serviço de seu soberano, que excitou os afetos e brios dos portugueses, além dos mesmos indígenas cristãos, assim dos já convertidos, como dos neófitos em defesa do país, tomando vigorosamente as armas contra os inimigos que os vinham atacar nos seus mesmos lares.

Isto produziu efeitos tão maravilhosos, que sete aldeias se armaram debaixo das nossas bandeiras, fazendo voto de morrerem pela causa dos padres. O cacique Tibiriçá, chefe dos índios de Piratininga, obrou façanhas nobres e prodígios de valor e coragem, que coroaram seus novos esforços. Mandou, antes de tudo, com admirável política, destruir as roças de mandioca e mais víveres, arrasar as choças das aldeias de seu comando, para que perdessem a esperança de ali voltarem, e os inimigos, se vencessem, não encontrassem o menor asilo, pelo que assim falou [20]: “Vede que vou convosco contra meu próprio irmão Araraig, e meu sobrinho, que seguem ao inimigo dos portugueses; vou pelejar pela fé de Cristo, que uma vez tomei e que os padres me ensinaram. Por ela arrisco a mulher, filhos e tudo o que possuo. Esta obrigação é geral para nós todos que somos cristãos, e os que ainda o não são; porque a todos Deus tem dado o desejo de querer sê-lo”. Eis o efeito poderoso e prodigioso da conversão dos índios, que tinham muito grande confiança nos jesuítas, admirados de não quererem deles nem ouro, nem prazeres, pretendendo somente que conhecessem a Deus e se salvassem.

Sendo este zelo desinteressado, e sobre o modelo e pisadas dos santos apóstolos, no exercício das suas funções de instruir os indígenas nas verdades da religião, o que muito penetrou a sensibilidade dos selvagens, que observaram de perto o caráter destes novos apóstolos, sua doçura, sua conduta virtuosa, que pusesse neles toda a confiança pelas verdades que lhes anunciavam, abraçando-a com firmeza.

Com efeito, Araraig, magoado por vir dar batalha a seu tio, levado pelos sentimentos da natureza, veio procurar a Tibiriçá para lhe expor os males e ruína a que seria exposto, não se reunindo à multidão dos arcos que se dirigiam contra S. Paulo, quando já atroavam os campos de suas algazarras e alaridos, e não ter que opor força bastante, sendo vão e sem proveito o seu sacrifício pela amizade dos portugueses.

A firmeza, todavia, daquele generoso amigo em resistir às seduções de seu sobrinho colocou seu nome nos altares da virtude, e com decente circunspeção lhe disse que tendo posto a sua confiança em Deus, estava certo de que havia de vencer, matando e dispersando aquele exército que o vinha atacar. Ainda que fosse de superior poder ao dele, porquanto pelejava com duplicada força na fé, e por defesa da igreja santa. Acabando de falar, arvorou a sua bandeira, levando-a diante de si, vestiu-se de gala e tomou suas melhores armas.

Retumbavam os alaridos dos inimigos, nuvens de pó escureciam os ares, e o furor dos indígenas se manifestava nos seus pavorosos gritos de independência, que lhes haviam inspirado os franceses. Eles vinham animados daquele pressentimento de sofrerem pela sua recuperação todos os riscos da luta, e de se não retirarem antes de assolar, e desde os fundamentos arrasar todos os estabelecimentos dos portugueses. Haviam pintado aqueles guerreiros seus corpos, estando diversos outros ornados de penas. Voaram na mais inexplicável rapidez as setas. Pavorizava o som do bater dos pés. Vinham em sua retaguarda as velhas para preparar, assar [21], coser os cadáveres dos cativos, segundo era costume recebido da sua ferocidade.

Tibiriçá e os portugueses desvelaram os violentos golpes da multidão com firmeza e denodado valor, o que desbaratou, matou e pôs em desconcertada fuga os inimigos. Foi inexplicável a alegria com que, alcançada tão próspera vitória, se abraçavam uns aos outros, rendendo ações de louvores e agradecimentos a Tibiriçá. Durante a batalha, os jesuítas oravam como Josué, indo com todo o exército vitorioso render graças ao Senhor dos Exércitos por tão feliz acontecimento, de tão completa vitória.

Os indígenas, não obstante o revés que sofreram, não desistiram do ressentimento de vingança, esperançados de obter mais feliz êxito. Vorazes chamas do ódio abrasavam os corações dos tamoios. A sua máxima população se dilatava ao sul de S. Sebastião, desde a última ponta da enseada de Maramonis, que fica fronteira à ilha dos Porcos, e compreendia as enseadas de Vubatiba (19) e Laranjeiras até entestar com o grande Cairuçú, penedia disforme, que sempre pavorizou aos navegantes.

Formavam as suas habitações centrais tremendo cerco, por entre aquelas tão elevadas serranias, escarpadas e incultas, que serviam pela natureza de muralhas impenetráveis. Daquele tremendo foco rebentavam os ódios e vinganças. Contra os portugueses do Cairuçú colocaram os tamoios o ponto da reunião das canoas guerreiras e das sagitárias coortes, vindas do interior, rompendo impenetráveis brenhas com inexplicável celeridade, por distantes e monstruosas rochas, impenetráveis às armas e aos braços valentes dos portugueses.

Em tão perigosa situação, eram em socorro dos portugueses aqueles dois veneráveis jesuítas Nóbrega e Anchieta, penetrando indômitas matas habitadas de povos selvagens e sumamente atrozes, sem outras armas que a confiança em Deus, com as doces palavras de paz, sem auxílios e proteção fora da virtude, e de conformidade com a vontade de Deus, que deu força às palavras de seus servidores, como de espada de dois gumes, com que feriram com a sua doçura os corações dos indígenas, que em vez da. indignação, furor e vingança de que estavam penetrados, se tornaram à paz, harmonia, boa fé e inteligência para com os portugueses. Tão poderosa é a força da santidade!

Na verdade foi coisa maravilhosa que sem ter exército, sem externa mediação, conseguiram aqueles padres fazer a paz com os ferozes Abarés, inclinados ao parecer do velho Pindobuçú, à quem os padres ganharam a benevolência, pelas virtudes que ele observou praticavam, no empenho somente de os trazer à fé de Cristo, assim pelas instruções que davam de palavra, como pelo bom exemplo com que os excitava a se conformar com o evangelho, que nos ordena amar a Deus e ao próximo, prometendo a vida eterna aos que guardassem a lei, como o castigo de fogo eterno aos que matavam, roubavam e cometiam outros pecados, principalmente o de comerem os cadáveres, quando as feras não faziam isso aos de sua raça.

Porém Parabuçú, filho de Pindobuçú, irritado da condescendência de seu pai para com os padres, concebeu matar aqueles ministros de Deus, embaixadores da paz, por serem pessoas prejudiciais aos interesses da sua nação, buscando oportunidade de exercitar tão grande maldade. Mas desde que ouviu fazer o pai a relação da boa conduta dos padres que tinha em sua casa, de suas virtudes, da constância do ânimo e sua presença de espírito, e ao mesmo tempo mostrando um semblante alegre e sereno; desprezo constantemente pelos bens e pelos prazeres que aborreciam; fugindo do que o comum dos homens mais empenhadamente solicitavam conseguir das mulheres, que ensanguentavam os seus corpos com as disciplinas; e enfim pessoas que falavam com Deus, criador de todas as coisas, que sabiam os seus segredos mudou de intento, abraçou os padres, a quem Pindobuçú, louvando e falando com o filho, disse: “Vede, meu filho, se os tamoios quiserem fazer mal aos padres, eles hão de fazer descer do céu sobre eles a morte de peste, pois se nós outros tanto temor tomamos dos nossos pais [22], que não ousamos ofendê-los, quanto maior não devemos ter dos abarés [23], que falam com Deus?”

Tal foi a situação daqueles ministros de Jesus Cristo, tão difícil de sua mesma natureza e exposta a tão graves perigos, sustentada, porém, pela virtude do Todo Poderoso, que abençoava os seus trabalhos, fazendo-se entender dos indígenas no seu ministério apostólico. Então eles se aproveitaram da boa disposição e natural bondade do chefe a quem obedeciam os índios, para os instruir sobre a existência de Deus e criação do mundo, a queda do primeiro homem e a redenção prometida.

Pindobuçú, convocando os anciãos das aldeias circunvizinhas, para concordarem nas condições da paz geral, lhe escaparam várias queixas contra os portugueses, dizendo serem eles os primeiros a hostilizar e a quebrantar as pazes estabelecidas, tomando-os sem provocação, reduzindo-os a cativeiro, tratando-os com maior desprezo do que se praticavam com as bestas de carga; sobre o que o padre Nóbrega, com expressões de doçura, acudiu, dizendo-lhe que por isso Deus se tinha irado contra eles, que agora estavam arrependidos e pediam a paz, a qual por coisa alguma quebrantariam, para o que em refém oferecia a sua cabeça e a de seu companheiro, acrescentando, porém: “Se vós outros as violarem, estai certos de que a ira de Deus cairá sobre vós, e sereis perdidos”.

Partiu então Nóbrega para S. Vicente, afim de tratar das condições de paz, ficando Anchieta em refém, o qual se houve tão felizmente que conseguiu as pazes com os de Itanhaém, Piratininga, tamoios do Rio de Janeiro, Paraíba, e Mairanhaia.

Como chegasse o prometido resgate, partiu então o venerável Anchieta para S. Vicente no exercício de seu apostólico ministério, convertendo assim os infiéis, como os fiéis, desassombrados dos terrores e calamidades daquela tenebrosa guerra, que tão eminentemente os ameaçara da mais hórrida destruição.

Chegando a Portugal as festivas notícias das pazes, nomeou a rainha d. Catarina a Estácio de Sá, para não só correr a costa, tomando exato conhecimento das suas localidades cosmológicas e geográficas, mas também para de uma vez expelir do Rio de Janeiro os franceses, fundando ali uma cidade debaixo das determinações do governador geral Mem de Sá. Fizeram-se prestes para tão grande empresa dois galeões de guerra, os quais chegaram à Bahia no princípio do ano.

Na carta régia expedida àquele governador geral em glória de seu nome, louvava a rainha os seus primeiros feitos da tomada da fortaleza Coligny, insinuando-lhe quanto convinha à dignidade e interesses da coroa sujeitar aquele país, deixando desenganados os franceses, de que não poderiam jamais possuí-lo, e menos prová-lo, com gente da sua nação. Ordenava que Estácio de Sá, reunindo as forças que comandava a outras que o Brasil pudesse dar, obrasse com tal ordem e disposição que segurasse para a coroa tão rica possessão.

Prestou-se a todas as determinações reais o governador geral, ajuntando os navios que pôde, com a soldadesca disponível e os necessários mantimentos. O fez partir sem demora na esquadra, com assas recomendação de entrar no Rio de Janeiro com bélico aparato, chamando o inimigo para o mar, e que por todos os sacrifícios se conservasse em paz com os tamoios. Apenas tocava Estácio de Sá as raias do Rio de Janeiro, quando soube, por um francês que havia tomado, que os tamoios haviam quebrantado as pazes e estavam de guerra conosco. Notícia esta que foi confirmada imediatamente, vendo correr sete canoas de tamoios sobre os batéis da esquadra que iam fazer aguada, flechando a quatro dos marinheiros. Eles se mostravam nos portos e em suas canoas e praias, armados, em grandes grupos empenados, batendo o chão, despedindo setas aos ares, assim significando o rompimento da guerra, ensaiados e adestrados pelos franceses, que lhes excitavam os mais vivos ressentimentos hostis.

O governador chamou a conselho os seus oficiais, por não descobrir meio favorável de os chamar para a peleja naval, segundo as instruções que trazia. Por outra parte reconhecia que a sua força não era suficiente para suster-se em terra, por lhe faltarem embarcações miúdas. Corria igualmente a notícia, dada por um dos tamoios que se aprisionou, de que os indígenas de S. Vicente estavam igualmente em guerra. Com tais inesperados sucessos, pareceu ao governador mais conveniente dirigir-se para aquela capitania, afim de a socorrer com a sua instantânea presença e prover-se de embarcações miúdas e de mantimentos de boca.

Tomado este acordo, levantou âncora e se fez de vela para Santos, onde verificou a falsidade da notícia da infidelidade dos tamoios de Iperoig, com quem Nóbrega e Anchieta estiveram e converteram a fé. Soube igualmente que constantemente aos portugueses ofereciam os seus serviços, mormente Cunhambele, com toda a sua nação, que avizinhava aos tupis, mantendo toda a boa afeição para conosco, tendo-se aliás declarado contrário aos tamoios do Rio de Janeiro, por infestarem com suas canoas armadas toda a costa.

Propuseram-lhe algumas pessoas que vinham na armada a imprudência da empresa, propendendo seus ânimos para o temor, pois consideravam superiores em força os inimigos, que em seu país tinham os recursos necessários de reforços e de mantimentos que nos faltavam. Porém, os padres Nóbrega e Anchieta, pelo mais exaltado amor do bem do seu soberano e da causa da salvação dos brasileiros, com discursos sábios e eloquentes, confundiram a opinião contrária, concluindo que a não serem então destruídos os franceses, seguramente toda a capitania ficava perdida, e o inimigo, com a nossa retirada e fraqueza, mais insolente e intratável.

Alegavam que se não podia considerar a força que nos opunham, superior à de um soberano tão poderoso, como o nosso, interessado em debelar os inimigos para manter com segurança tão importante porção do seu reino, com a prosperidade do Brasil, glória do seu real diadema e segurança dos seus povos, que não convinha malograr-se uma ação premeditada e sábia pelos reinos estranhos, e preparada com tão grandes dispêndios. “Que diriam (votaram estes ilustres atletas da religião) Portugal, o Brasil e os mesmos inimigos, vendo que sem sentirmos ainda os desastres da guerra, e a sua má fortuna, abandonáramos uma empresa de cujo bom sucesso dependia a nossa conservação, a glória do soberano e a fama tão justamente bem lograda de suas armas em todo o mundo, e havemos de voltar as costas, sem serem sangrentas na peleja? Havemos de julgar formidável um inimigo sem muralhas, e cujas armas não levam, como as nossas, o raio seguido do trovão, a morte e o estrago nas suas coortes desordenadas? Concluíram que pusessem todos em Deus a sua esperança, que eles seguravam da parte do mesmo Deus um resultado venturoso”.

A tão poderosa razões, Estácio de Sá não só anuiu, mas as tomou por oráculo e bom presságio, o que determinou decisivamente saísse do ancoradouro da esquadra e seguisse a demandar o Rio de Janeiro, onde entrou a 20 de março, havendo mandado de prevenção vir da capitania do Espírito Santo os disponíveis auxílios de boca e guerra.

Desembarcada a infantaria, começou a fortificar-se com trincheiras e fossos junto à penedia, que tomou o nome de Pão de Açúcar, onde nos posteriores tempos se construiu a fortaleza de S. João, para defender a entrada daquela foz. Esta penedia tem geometricamente cento e oito braças. Correm para ela da cordilheira muitos rios. Trinta e três conhecidos por seus nomes, e por boca de cinco se reúnem ao oceano.

A cordilheira em forma de muralha impenetrável cerca e fecha um prodigioso e vasto terreno que tem, de nordeste a sudoeste, dezoito léguas em linha reta, de serra a serra, e dez escassas de sueste a noroeste, donde faz a sua maior grossura, com o vazio ao sueste que, estreitando-se em pontas, remata em duas grandes penhas ou pilares, fronteiros um do outro, em distância de tiro de canhão. O da parte do norte, pelo seu agudo cume, tomou o nome de Pico, que tem duzentas e setenta e quatro braças e meia de altura, e na sua raiz se formou a fortaleza do Registo, que se ficou chamando de Santa Cruz.

Enquanto se esmeravam todos em acudir às obras das fortificações, defendidos os trabalhos pela esquadra, José Adorno e Pedro Martins Namorado, que acompanharam de Santos ao conquistador Estácio de Sá, abriram na areia um poço para dele extraírem a água para as necessidades da vida.

Acabada a fortificação, assim falou o governador: “Soldados e companheiros, poucas palavras bastam para os ânimos briosos e resolutos. Não é de ontem a empresa. Depois de vário tempo e larga fortuna, vemos o que havemos de gozar. Chegamos à extremidade, ou de perder a vida com honra no campo da imortalidade, ou havemos de ganhar os louros que hão de cingir as frontes de glória, tirando a vida aos que opuserem a menor resistência, pelo cumprimento das ordens reais de consolidar nos domínios da coroa este terreno que os inimigos ocupam. Não há tempo nem oportunidade para recuarmos, porque de um lado nos cercam estas penhas, e do outro as águas do oceano. E pela direita e esquerda os inimigos, só podemos romper o cerco debandando-os. Eles não são tão difíceis de serem vencidos, como aqueles penhascos, nem recusam dificultosa passagem, como o oceano. Os seus estrondosos alaridos soam desagradavelmente em nossos ouvidos, mas não amedrontam nosso constante valor, pois o trovão da nossa mosquetaria lhe atroará logo os ouvidos, crivando-lhes de balas os peitos, que os vereis imediatamente cair, ou fugirem desordenadamente. Estai certos de que os arcos e flechas, ainda que velozes, não nos hão de causar mui grandes danos. Ninguém ignora já o fim para que estão os aqui. Não intimide a jactância arrogante dos míseros selvagens licenciosos. Lembremo-nos da justiça dos nossos motivos, para o castigo e escarmento seu, afim de que conheçam quão caro lhes custa a infidelidade e má fé com que faltaram aos pactos de união e amizade conosco, preferindo a dos huguenotes, nossos horríveis inimigos e da nossa santa religião, que têm em seus corações a nossa ruína, assaltando esses inimigos por mar e terra aos pacíficos habitadores, perturbando e destruindo a nossa comunicação pela costa com os vizinhos, roubando os nossos haveres, bebendo como tigres o seu sangue, do qual jamais se saciam. Rompam já os ecos da vitória que sobre eles alcançaremos, por cima daquelas altas montanhas que a órgãos se assemelham, e o seu sonoro eco chegue já às extremidades da terra, levando-lhes o nosso braço forte a mortandade e estrago até às mais incógnitas brechas. Conheça el-rei, a pátria, o Brasil e o mundo todo o nosso denodado valor. Levantemos esta cidade, que ficará por memória do nosso heroísmo e de exemplo de valor às vindouras gerações, para ser a rainha das províncias e o empório das riquezas do mundo”.

Atacaram os franceses e tamoios em 6 de março os nossos entrincheiramentos, segundo o seu costume, empenados com algazarras estrondosas. E a peleja se travou de ambos os partidos vigorosa. Perdemos um índio cristão e se puseram em desordenada fuga aqueles, deixando a praia juncada de cadáveres dos seus e dos próprios aliados [24]. Depois se puseram de cilada com vinte e sete canoas e duas lanchas francesas com remos, que saíram a atacar os nossos no dia 12. Uma das canoas caiu em nosso poder, e as mais fugiram. Cessaram as hostilidades do inimigo até o dia 1.° de junho de 1567, em que apareceram à vista do nosso arraial três navios franceses, chegados de Cabo Frio, com 30 canoas de guerra.

A capitânia inimiga começou o seu fogo vivo. E destruindo o nosso a sua mastreação, caiu sobre a Lage e custou muito a salvar-se; bateram-lhe os nossos tão denodadamente, que pôs em fugida os inimigos, ocultando-se por algum tempo para se refazerem dos danos sofridos.

Da fé de ofício que deu o governador Estácio de Sá a Belchior de Azeredo, extraída da Torre do Tombo de Lisboa, constava o seguinte: “Estácio de Sá, capitão-mor da armada que el-rei nosso senhor mandou a correr a costa do Brasil, e a povoar o Rio de Janeiro, e nela estou ora fazendo a fortaleza em nome do dito senhor: Faço saber aos que esta minha certidão corrente, dela como direito pertencer, virem, que havendo alguns dias que não tinha novas dos contrários tamoios deste dito Rio, nem dos franceses, como estavam, e o que determinavam fazer, mas antes os via andar mui ousados e atrevidos, que aqui junto desta cidade me vieram por duas vezes fazer ciladas, de que em uma delas mataram um moço que desmandando-se foi flechar peixe, e da outra mataram um moço índio. E desejando eu saber donde lhe vinha este atrevimento, disse-se era vindo algum socorro de Cabo Frio, ou naus de França. Mandei oito canoas de gente para ver se podia fazer alguma presa, e tomar língua e posto que lá andaram dois dias, e fizeram nisso todo o seu dever, não trouxeram nada, pelo que vendo eu, como necessário me era língua, mandei a Belchior de Azeredo, cavalheiro da casa do dito Senhor, provedor de sua real fazenda na capitania do Espírito Santo, que na dita armada andava por capitão da galé S. Tiago, da maneira que já em outras certidões tenho dito, por ser homem que por sua pessoa, qualidade, e ânimo, se lhe podia encarregar toda a coisa do serviço de Deus e de Sua Alteza que quisesse fazer uma presa, o que ele com boa vontade e melhor ânimo se me ofereceu, que iria, fazendo-se logo prestes com sua gente e escravos, e amigos que acompanharam em uma canoa que ele tem a seu cargo, mandando eu fazer prestes e esquipar oito canoas, com sua gente que para isso era necessário, dando-lhe logo, donde havia de ir, por ter dele informação, posto que era muito longe, e parte aonde ainda não foram canoas da nossa gente, e por ser distância de 6 a 7 léguas da cidade. Ele foi ontem à noite, que foram 12 do dito mês de julho indo ter em dita noite, ao lugar que tinham nomeado, donde se pôs em cilada aos 13 dias do dito mês no mar, estando nele com espias em terra, lhe deram nova como vinha uma canoa de guerra bem equipada e preparada de gente, a qual ele logo fez esperar com muita quietação, que emparelhando com ela no lugar onde estava, remeteu a ela com as mais canoas, o que vendo os contrários se puseram em defesa, pelejando valentemente, e derrubando ele ao principal da dita canoa com uma setada que lhe deu, ajudando os mais companheiros. Pelo que a dita canoa foi logo rendida, e a gente dela tomada, e morta alguma, e a mais cativa, sem escapar nenhum dos que neta vinham. E sendo assim feita a dita presa, pôs sua gente em ordem de caminhar. E porque soube logo dos ditos cativos, como se vinham pela se ajuntar com muitas outras canoas de guerra que adiante estavam juntas, pela dali virem fazer ciladas à esta cidade, vendo o dito Belchior de Azeredo a tal nova, e ajuntamento dos contrários, e o muito dano que podiam fazer, juntou também as que levava a cargo, fazendo-se prestes. Pelo que sendo assim que os cativos diziam pelejar com eles, vindo-os buscar, e vendo assim caminhando, houve vista das ditas canoas, de que lhe tinham dito, o qual em as vendo, tornou a falar com a gente que nas mesmas vinham matassem aos cativos que traziam, para despejarem as ditas canoas, para se poder pelejar com os contrários mais despejadamente, e também para lhes não ser por eles feito alguma traição. O que assim fez sem ficar mais do que um ou dois dos cativos na canoa, os quais fez logo por em bom recato. E satisfeito com isto fez fala à sua gente, dizendo-lhes que confiassem em Nosso Senhor que lhes havia de dar outro maior vencimento, do que tinha já havido com a dita presa. Porque Nosso Senhor não fazia as suas coisas como os homens, porque não dava se não coisas grandes, e que lhes havia dali mostrar seu poder com as muitas canoas que se lhes ofereciam diante, como lhes mostrou com uma, e que com esta confiança pelejassem todos como bons cristãos, e Deus daria o vencimento. Ao que todos responderam com bom ânimo, que essa confiança tinham, e que pelejariam e morreriam com ele como bom capitão que também os animava e ordenava. E vendo assim com este alvoroço e grandes gritos os ditos contrários, se repartiram em três partes, um magote de três canoas, outro de oito, e outro de nove, e logo o primeiro magote se veio a ele, o que vendo ele se foi com as suas canoas a eles. O que vendo os ditos contrários, se tornaram fugindo pela terra, com tenção de levar a sua gente a terra, e que depois de os lá terem darem as outras canoas na traseira, ou nas costas, e os desbaratassem. O que entendendo o dito Belchior de Azeredo sua tenção, mandou se pusessem todos em caminho, e seguissem a sua viagem para onde iam, e vendo os contrários que já atrás ficavam, vieram logo após deles, tirando-lhes muitas flechadas e arcabuzadas. Pelo que ele mandou remar pelo largo do dito rio. E vindo assim, houve vista de outras canoas que lhe saíram detrás de umas poucas que vinham a eles. O que ele vendo mandou virar as suas sobre as que ficavam atrás, por não o tomarem no meio de todas. O que logo se fez; animando ele sua gente, remeteram tão animosamente com as ditas canoas que atrás vinham que as poderiam pôr em fugida, ferindo-os de tal maneira que se vendo tão maltratados, puseram a sua salvação na terra. E chegando a este tempo as outras dez contra as quais mandou logo virar. E acabando de virar, viu que o principal delas vinha muito soberbo em uma poderosa canoa, e bem equipada, diante de todas as outras, animando a sua gente direito contra as dele. O que vendo o dito Belchior de Azeredo seu muito atrevimento e ousadia, mandou a sua gente, que arremetessem com os do dito principal, e que o deixassem com aquela em que ele vinha muito soberbo, como de efeito assim se fez. E remetendo ele dito Belchior de Azeredo ao dito principal que assim vinha muito soberbo, ainda que tiveram muitas flechadas e arcabuzadas, mandou aos de sua canoa que não remassem, e não atirassem mais que os arcabuzes, e a sua besta, o que eles assim fazendo, investiu com a dita canoa e abalroou à dos contrários, e a todos meteu as espadas, e as flechadas, tomando no tal tempo uma espada e rodela arremeteu com eles, pelejando de tal maneira que matou seis dos ditos contrários, ficando ali todos mortos e cativos, sem deixar nenhum deles, e o capitão e principal da dita canoa foi ali morto juntamente com os mais nomeados, sendo morto por um escravo do dito Belchior de Azeredo, a quem ele mandou que o matassem por desprezar os contrários. E acabando de matar e cativar a gente da dita canoa foi acudir às suas que andavam pelejando com os outros. O que vendo os contrários se puseram em fugida, indo-se ajuntar com os mais que atrás ficavam, que não ousaram a chegar pelo dano que lhes já era feito. O que vendo o dito Belchior de Azeredo tornou a ajuntar a sua gente sem lhe ser feito dano que feriram um escravo e três índios. Tornando outra vez a reforçar a sua gente para a peleja, porque os contrários se tornavam a ajuntar para tornar a eles, porque tanto que chegassem as outras que estavam diante, pelo que ele começou a pôr logo todos em ordem diante de si, e se pôs em caminho direito, onde vinham as que ainda não tinham havido castigo, começando também os contrários que atrás ficavam de caminhar para eles e chegando ao lugar, onde foi a dita peleja, vendo tantos mortos, e o mar tão tinto em sangue, se puseram a apanhar e recolher os mortos, deixando de o seguir. E vendo os da dianteira que os outros não vinham, se puseram em fugida e acolhendo-se logo a terra que tem por mui certa colheita, por serem senhores dela. Que vendo o dito Belchior de Azeredo, e que lhe não podiam fazer nenhum mal nem dano, se pôs em caminho direito pela cidade, onde houve muitos cativos, deixando muitos mortos, e outros muitos mais feridos. E porque de todo o sobredito mandei e tomei informações miudamente, de como se passara, dos que com ele iam, e pelo que dele conheço, e tenho visto nesta viagem, que há dezoito meses, e vai por dezenove que anda na minha companhia nesta armada o fazer assim, e mo pedir esta certidão por mim assinada lhe mandei passar três, todas deste teor, pela mandar ao reino, uma cumprida, as outras não valham. O que certifico assim. Feita nesta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro a 14 de julho. Pedro Fernandes, escrivão da armada a fez. 1566 anos. – Estácio de Sá”.

Como uns sobrereveses não afrouxavam as hostilidades, em 20 de julho fez partir o governador a Belchior de Azeredo no navio Santa Clara para a capitania do Espírito Santo, afim de que, como provedor da fazenda real dela, se provesse ali do necessário em auxílio da nova cidadela e sua defensão, voltando com os socorros necessários o capitão da mesma armada. Em 15 de outubro fez sair sete canoas nossas armadas em busca dos inimigos, as quais toparam sessenta e quatro em cilada, e estas foram atacadas com um valor prodigioso que, sendo tão desiguais em forças e quantidade, tomaram quatro dos tamoios, e o grande número que restava tomara a fugida por salvação.

Depois de tão memoráveis sucessos, se determinou Estácio de Sá atacar as naus francesas pela abordagem, o que executou com grande estrago de feridos e mortos que se renderam à discrição. Então, alcançada tão grande vitória, despediu esquadras para atacar as aldeias inimigas e canoas de pescarias, fazendo muitas presas, arrasando e assolando duas aldeias [25].

No fim daquele ano de 1566 saiu ele mesmo com um troço de soldados a investigar e destruir uma aldeia, sabendo que ali estava congregado um grande número de gentes, para celebrarem a sua devoção que se intitulava – A Santidade – Marchando contra a mesma, a bloqueou, e de improviso caiu sobre ela a ferro e fogo, e poucos escaparam com a fugida, matando e aprisionando a mais de trezentas pessoas, morrendo dos nossos unicamente o soldado Antônio de Lagêa.

Coroado de glória, Estácio de Sá recorreu ao Deus dos exércitos com os jesuítas e o povo para render ações de graças, entoando-se o cântico da escritura – Laqueus contritus est, et nos liberati sumus. Foram despedaçados os seus laços, partidos os seus arcos, e fomos revestidos de força pelo braço do Todo Poderoso. Todo o restante do ano se passou em choques, em ataques. e pelejas, mais ou menos vigorosas, e em diversas escaramuças e correrias, e o ilustre vencedor não perdia um instante de aumentar as fortificações, povoando a vargem, para a qual se passou, e murando a cidade da madeira que as fortificações daquele tempo exigiam.

Criou as justiças ordinárias, e Pedro Martins Namorado, que em o 1.º de março de 1544 fora o primeiro juiz pedâneo de Santos [26], foi também o primeiro juiz ordinário da nova cidade, que se dignificou com o título de S. Sebastião, a quem os seus habitantes invocaram desde o princípio da fundação por padroeiro, e por ser aquele o nome do seu soberano.

A ele se dirigiu a provisão de 9 de setembro de 1566, ordenando a suspensão [27] do curso das causas, que diante dele corressem, por jogos de cartas, dados e bola, e em outros que fossem compreendidos em pregões cíveis ou crimes, que havia mandado lançar. Porque, sendo a cidade recentemente fundada de muitos giros e trabalhos, que atualmente sentiam, pelo grande número de gentios e luteros franceses que os mais dos dias vinham combater, andando os moradores e soldados aluídos e enfadados sem haver tempo ao descanso, deviam também ocupar alguma parte dos sentidos, o que não poderiam fazer em outras ocasiões, julgando assim serviço de Deus e de sua alteza, e por tão urgentes e justos motivos, mandou que lhe fossem remetidas as culpas para prover o que julgasse mais conforme ao serviço público e de Deus. E que havia por soltos e livres das penas aqueles que nas mesmas tivessem incorrido, e bem assim os que sem sua licença tivessem ido a partes defesas. Porém que, dali em diante, os que praticassem ações proibidas por seus pregões e mandados pagariam cem mil réis de condenação para a confraria de S. Sebastião, que tinha criado, e que se avisassem a todos para não caírem em outra, porque em tal caso, o juiz fizesse o seu ofício como tinha jurado e prometido.

Murada e fechada a cidade, deu posse de alcaide-mor dela a Francisco Dias Pinto, cavalheiro fidalgo e capitão que tinha sido da capitania de Porto Seguro, provido pelo governador geral Mem de Sá, por provisão dada na Bahia a 10 de dezembro de 1565, pelos serviços que havia feito no edificamento da cidade e por ações militares praticadas em mar e terra na enseada do Rio de Janeiro.

Do auto da posse de 13 de setembro de 1566 constava [28] que, apresentando o alcaide-mor o seu provimento ao capitão-mor Estácio de Sá, estando presente o juiz Pedro Martins Namorado e o alcaide pequeno Domingos Fernandes, pediu que o empossasse, segundo o que el-rei mandava em suas ordenações. Detendo-se o governador com as mais pessoas à porta principal da cidadela e fortaleza, lhe disse que cerrasse as portas, o que fez o alcaide-mor com as suas próprias mãos, bem como os dois postigos sobrepostos neles com suas aldravas de ferro. E ficando Estácio de Sá fora das portas e muros, lhe perguntou o alcaide-mor, que estava dentro, se queria entrar, e quem ele era. Ao que respondeu que queria entrar, e que era o capitão da cidade de S. Sebastião em nome de el-rei nosso senhor, e imediatamente lhe foi aberta a porta, dizendo o alcaide-mor que reconhecia por seu capitão, em nome de sua alteza, cuja cidade e fortaleza era. Tais foram as cerimônias da posse do alcaide-mor, escrita pelo tabelião Pedro da Costa.

Este Pedro da Costa foi provido pelo mesmo governador geral, por provisão de 9 de setembro de 1565, escrivão das sesmarias e tabelião de notas, referindo-se nela ser pelo serviço de o haver acompanhado na sua primeira conquista de Villegagnon e haver-se portado muito animosamente. Tendo desistido daqueles ofícios, o mesmo governador geral, em provisão de 30 de janeiro de 1567, lhe deu o de tesoureiro dos defuntos e ausentes, entrando naqueles Gaspar Rodrigues de Góes por provisão do capitão-mor Estácio de Sá, de 16 de dezembro de 1566, pelos serviços feitos na armada e capitania de S. Vicente, dando em 6 de novembro de 1566 ao mesmo Pedro da Costa o ofício do selo das armas da cidade.

Nomeou alcaide carcereiro, por provisão de 15 de setembro do mesmo ano, a Francisco Fernandes, e a Batista Fernandes, por provisão de 19 de setembro do mesmo ano, porteiro e pregoeiro. Os outros ofícios de justiça e fazenda foram providos pelo governador geral, o qual, em provisão dada na Bahia a 2 de dezembro de 1565, deu a Miguel Ferrão os ofícios de tabelião de notas, pela desistência de Pedro da Costa. Na vila de S. Jorge dos Ilhéus, em 3 de dezembro de 1766, promoveu a Estevão Peres, provedor da fazenda real.

Como chegasse à Bahia o venerável padre José de Anchieta, para se ordenar de ordens sacras pelo bispo d. Pedro Leitão, soube por ele circunstanciadamente o governador geral, além do que lhe participara seu sobrinho, do estado da fundação do Rio de Janeiro, e que em tão crítica situação precisava de muitos superiores reforços de boca e de guerra, e de braços, para pôr em respeitável segurança tão bem começados estabelecimentos, pois que a ousadia dos tamoios, excitada e exaltada pelos franceses, os expunha a iminentes perigos, se recebessem os reforços que de França esperavam.

Tendo-se passado quase dois anos em continuados choques e incômodos, sentia-se grande falta de víveres e de munições de guerra. Tão verídicas relações fez no patriótico coração do governador geral a devida impressão, como pediam a causa pública, a honra nacional e o serviço de el-rei. Fez, portanto, aprestar a esquadra, embarcando nela assim os soldados veteranos como os recrutas, e partiu da Bahia em novembro de 1566 para S. Jorge dos Ilhéus, para castigar, como fez, os aimorés, valorosamente batendo-os, por haverem assaltado e destruído aquela florescente vila, queimando quatro dos seus principais engenhos. Dali mesmo comunicou à rainha d. Catarina tão gloriosas ações, e que demandava o Rio de Janeiro, tendo deixado em paz os indígenas.

Restabelecida a segurança pública, providenciadas as coisas do bem comum, mandou surgir a esquadra, soltando as velas no 1.º de janeiro de 1567 para esta recém fundada cidade, onde fundeou aos 19 de janeiro, véspera do mártir S. Sebastião acompanhado do venerável Anchieta e de várias pessoas nobres, além das tropas que pôde ajuntar. Chamou a conselho, apenas fundeado, a Estácio de Sá e aos principais oficiais e pessoas nobres e condecoradas, concertando com eles o plano de atacar os inimigos no dia seguinte, que era do santo padroeiro solenizado.

Teve a sua extremada confiança em Deus que lhe havendo dado tão propícia viagem, o esperançava nos sucessos gloriosos das ações bélicas. Sabia-se que os inimigos se tinham fortificado em duas aldeias, abastecidas de gente, fossos e cavas com estrepes, e com artilharia dos franceses assestada, as quais se chamavam Uruçumirim [29] e Paranapucuí [30]. Unanimente foi resolvido se partissem a atacá-las, fazendo deprecações a Deus pelo feliz resultado das armas reais, selando o acordo tomado de se investir ao inimigo com um voto solene ao mártir S. Sebastião.

Descansados a soldadesca e os demais valorosos combatentes no dia da chegada, ao romper do seguinte, depois de ouvirem todos muito devotamente a missa, invocaram o auxílio divino, porque só ele é quem guarda as cidades e protege as ações virtuosas. Ficando os missionários jesuítas em oração, o capitão-mor Estácio de Sá, à frente dos batalhões formados da flor da infantaria da armada e dos habitantes povoadores da cidade, falou aos soldados, animando-os para a próxima ação, segurando-lhes que com a ajuda divina teriam gloriosos resultados, pois que Deus não havia de permitir que os huguenotes luteranos vencessem, profanassem os nossos templos e altares e perpetuassem nas futuras gerações do Brasil os delírios da sua reforma, que armou os governos e os povos com tantas guerras; e que tendo todos a confiança em Deus, tivessem na boca e no coração o seu santo padroeiro, que rogaria pelo bom sucesso da causa.

A voz do assalto na principal praça de Uruçumirim foi respondida com os gritos da vitória, pois que os soldados, com briosa ostentação de valor, a tomaram imediatamente por assalto, não escapando um só dos franceses que defendiam os entrincheiramentos, com os tamoios, os quais ficaram mortos, aprisionando-se cinco [31], que padeceram o último suplício.

Dirigiram-se imediatamente os vencedores para a praça fortificada, denominada, como se disse Paranapucuí [32] na Ilha rasa dos gatos, e para ela conduziram o seu parque de artilharia, com o qual começaram a bater as cercas que eram duplicadas e fortíssimas, e que em pouco tempo caíram, sendo instantaneamente tomadas igualmente por assalto, com grande número de prisioneiros, escapando-se outros na ação com os franceses pela fugida.

Tão grande vitória, porém, foi misturada dos mais pungentes sentimentos de dor e tristeza, por ficar ferido o capitão-mor, que tão dignamente soube levar os seus valentes soldados ao campo da glória, recebendo na cara uma setada, e de cuja ferida sobreveio a gangrena e a morte, deixando uma memória sempre agradável e digna de ser recomendada à posteridade, pelas suas virtudes cristãs e políticas, gênio e talento militar, e tendo sempre mostrado, em tão árdua comissão, uma grande constância, paciência nos trabalhos e firmeza nas suas deliberações.

Faleceu como herói, e herói cristão, deixando já fundada uma cidade que nas idades vindouras pressentira viria ser a corte de um dos maiores impérios que a história descreverá com admiração do mundo.

O padre Anchieta disse assim em seu louvor. Nesta conquista que durou alguns anos andavam os homens como religiosos, confiados em Deus na presença do capitão-mor Estácio de Sá, o qual, além do seu grande esforço e prudência, era citado como exemplo de virtude e religião.

Paróquia de São Sebastião – Frades Capuchinhos – Campa de Estácio de Sá

Celebraram-se as exéquias na capela do arraial da Vila Velha, onde foi sepultado, e depois se transladaram os seus ossos para a nova igreja de S. Sebastião com lágrimas que o amor e a piedade derramaram pelo ilustre herói, que até os mesmos bárbaros mostraram parecer sentir a sua morte. E na campa que os cobriu, se lê gravado o epitáfio seguinte:

Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador desta terra e cidade. E a campa mandou fazer Salvador Corrêia de Sá, seu primo, segundo capitão e governador, com as suas armas. E essa capela acabou no ano de 1583.

Pela derrota de Paranapucuí até pediram os indígenas a paz, prometendo jamais quebrantá-la. Ela lhes foi dada por Mem de Sá. Fugiram os franceses que escaparam da morte, e represália para Cabo Frio, e aterrados, perdidos, e castigados da temeridade.

O governador geral, depois de dar à natureza, por momento, os tributos da sua sensibilidade pelo sobrinho morto, com a maior serenidade de espírito se entregou aos desvelos e trabalhos que pediam os negócios do governo. Na provisão de 9 de março de 1567, nomeou a Cristóvão Monteiro ouvidor da cidade. E por juiz de órfãos a Manuel Freire, e a Baltazar Fernandes, um dos primeiros povoadores, com mulher e filhos ali, deu os ofícios de escrivão e tabelião das notas que vagaram por morte de Miguel Ferrão. Nomeou meirinho da cidade a João da Silveira, dando por motivo da mercê os serviços feitos desde a primeira fundação da cidade. A mestre Vasco o de porteiro e pregoeiro. A Clemente Pires o de escrivão da Câmara. A Jorge da Mota o de distribuidor, inquiridor, contador e escrivão da almotaçaria. A Francisco Fernandes, reposteiro de sua alteza, o de escrivão do público e judicial. E para alcaide-mor, vitaliciamente, a Francisco Dias Pinto, tomando por fundamento da graça ter estado na companhia de Estácio de Sá na edificação e povoamento da nova cidade, achando-se em todas as guerras e batalhas com muito valor, despendendo grandes somas de sua fazenda [33]. E finalmente a Rui Gonçalves, criado de sua alteza, feitor da fazenda real.

Ele se demorou por tempo de dois meses pelos interesses do real serviço, nesta cidade, afim de deixar todas as coisas bem ordenadas. Chamou depois disso a conselho os principais membros da cidade, em 4 de março do mesmo ano de 1567, aos quais propôs a sua partida para a Bahia, porque estavam satisfeitos os seus desejos, cumprida a disposição real, deixando a terra em paz, destruídos e expulsos os franceses. E que, portanto, cumpria partir sem demora, para correr a costa e fazer remeter da Bahia os mantimentos e homiziados que lá tinha em auxílio da povoação e prosperidade da nova cidade de S. Sebastião. Além disso, ele devia ir acudir à cidade de S. Salvador, para destruir as rixas em que viviam os seus habitantes que reduziram a cidade aos extremos de ruína. E que, atendendo às unânimes solicitações do povo, a favor de seu sobrinho Salvador Correia de Sá e Benevides, o nomeava por segundo governador da cidade de S. Sebastião, concedendo-lhe todos os poderes de que ele usava [34] e tinha por sua alteza, assim nas coisas de justiça, como da fazenda real, e que o autorizava para mandar dar cartas de seguro e alvarás de fiança, naquela quantidade que lhe parecesse, à exceção dos três casos reservados por sua alteza. E para mandar pagar da fazenda real os soldos, ordenados ou mantimentos que sua alteza devesse na cidade e capitania, e em tudo o que fosse concernente ao real serviço. E para mandar fazer as obras necessárias aos provimentos dos navios, armando-os em guerra e dirigindo-os para onde conviesse ao real serviço, bem da cidade e sua defensão. E que poderia igualmente prover os ofícios em quem bem lhe parecesse que o mereciam, e dando os chãos e terras a quem julgasse que as merecia, obrando em tudo em nome de sua alteza. E finalmente ordenou que todos lhe obedecessem como a ele próprio. E dando a todo o povo um saudoso adeus, soltas as velas, navegou para a capital da Bahia de Todos os Santos.

Laet, na descrição das Índias Ocidentais, 1. 15, cap. 18, e outros escritores, referem que fora Mem de Sá quem traçara sobre a praia ocidental do rio o plano da nova cidade. Tendo aliás sido Estácio de Sá, o qual na sua laboriosa tarefa mudou a povoação das praias do Pão de Açúcar para a ponta da Misericórdia e morro do Castelo, onde edificou a capela de S. Sebastião. Este foi quem, na nova cidade, já murada, deu posse (como já se referiu) ao alcaide-mor, estando Mem de Sá na Bahia, o qual somente aperfeiçoou os seus trabalhos.

Com os índios aliados e catecúmenos dos jesuítas, fez todas as obras necessárias àquele primeiro governador, sem alguma despesa do estado. O machado e o fogo abriram os bosques impenetráveis aos raios do sol. As árvores que pareciam disputar na grandeza maravilhosa, qual primeiro oferecia o seu cume aos raios do sol, e que só sucumbiam debaixo do peso dos séculos, cederam o lugar aos edifícios e à lavoura. As suas madeiras eram de tal incorruptibilidade, que ainda depois de dois séculos, mandando tirar o vice-rei conde de Rezende o batente da porta principal da igreja de S. Sebastião, de louro casca preta, para o substituir de pedra, se achou aquele (com geral espanto) tão perfeito como se tivesse sido poucos dias antes cortado, não obstante estar exposta a fronteira à foz e à impetuosidade das tempestades. A pedra de cantaria, obra de arte, foi substituída pelas cabanas rústicas cobertas de folhas de palmeira. das quais então se formaram as casas dos seus habitantes.

Para a glória do Eterno, foram, antes de todas as casas, erigidas a capela e igreja matriz. Circunvalou o governador a cidade de muralhas, fez romper as matas para se facilitarem as comunicações e tirar aos inimigos o abrigo das suas ciladas. Então a terra recebeu no seio o sopro dos ventos, para dar elasticidade ao ar, e até as águas por um tal benefício adquiriram muito maior perfeição e salubridade. A natureza, resplandecendo nos terrenos amanhados pelo braço e indústria dos homens, os recompensou peia sua fertilidade com abundantes frutos.

Tais foram os desvelos incomparáveis do primeiro governador do Rio de Janeiro, protegidos e seguidos, depois do seu falecimento por seu tio Mem de Sá, varão insigne pela sua sabedoria e valor, dotado de muita piedade e de um espírito transcendente e superior às suas circunstâncias. Foi também o maior dos bem feitores dos jesuítas, assim como sua filha d. Felipa, condessa de Linhares.

Faleceu na Bahia, e foi enterrado na igreja do Colégio daquela corporação, cheio de serviços feitos ao estado e à religião. Para memória de seu nome e de seus grandes feitos nos primeiros ensaios da conquista, e interesse que tomou pela causa que vencera, recomendando e pedindo providência para que os franceses se não fortificassem, transcreverei a carta que dirigiu à sua corte.

“Torre do Tombo, gaveta 20, março 10.

Senhor,

A armada que V. A. mandou para o Rio de Janeiro chegou à Bahia no derradeiro dia de novembro, tanto que o capitão-mor Bartolomeu de Vasconcelos deu as cartas de V. A, pratiquei com ele, com os mais capitães e gente da terra, o que faria, se fosse mais serviço de V. A. A todos pareceu que o melhor era ir cometer a fortaleza. Porque o andar pela costa era gastar o tempo, e monção em coisa muito incerta. Eu me fiz logo prestes o melhor que pude, que foi o pior que um governador podia ir e parti aos 16 dias de janeiro da Bahia e cheguei ao Rio de Janeiro aos 21 dias do mês de fevereiro e chegando soube que estava uma nau pelo rio dentro do próprio monsenhor de Villegagnon, que lhe mandei tomar pela galera Isaura que V. A., cá tem. Quando o capitão-mor, e os mais da armada viram a fortaleza, as suas fortificações, a aspereza de sitio, a muita artilharia e gente que tinha. A todos pareceu que todo o trabalho era debalde, e como prudentes receavam de cometer coisa tão forte, com tão pouca gente. Requereram-me que lhes escrevesse primeiro uma carta, e os admoestasse que deixassem a terra que era de V. A. Eu lhes escrevi. Me responderam soberbamente. Prouve a Nosso Senhor que nos determinamos de a combater, e a combatemos por mar por todas as partes na sexta feita 15 de março, e naquele mesmo dia entramos a ilha, onde a fortaleza estava posta, e todo aquele dia e o outro pelejamos sem descansar de dia, nem de noite, até que Nosso Senhor foi servido de a entrarmos com muita vitória, e morte dos contrários, e dos nossos poucos. E se esta vitória me não tocara tanto, poderei afirmar a V. A., que há muitos anos que se não fez outra tal entre os cristãos. Porque suposto que vi muito, e li menos, a mim me parece que se não viu outra fortaleza tão forte no mundo. Havia nela 74 franceses ao tempo que negociei, e alguns escravos. Depois entraram mais de 40 dos da nau, e outros andavam em terra, havia muito mais de mil homens dos do gentio da terra, tudo gente escolhida, e tão bons espingardeiros como os franceses. E nós seriamos 120 homens portugueses, e 140 dos gentios, os mais desarmados, e com pouca vontade de pelejar. A armada trazia 18 soldados moços que nunca viram pelejar. A obra foi do Senhor que não quis que se nesta terra plantasse gente de tão maus zelos e pensamentos. Eram Luteros e Calvinos, o seu exercício é fazer guerra aos cristãos, e dados a comer a gente, como tinham feito poucos tempos havia em S. Vicente. O monsenhor de Villegagnon havia 8 ou 9 meses se partira para a França, com a determinação de trazer gente e naus, para ir esperar as de V. A., que veem da índia, e destruir ou tomar todas estas capitanias, e fazer-se um grande senhor. Pelo que parece muito serviço de V. A., mandar povoar este Rio de Janeiro para segurança de todo o Brasil, e dos outros maus pensamentos, porque se os franceses o tornam a povoar hei medo que seja verdade o que o Villegagnon dizia que todo o poder de Espanha, nem do Gran Turco o poderá tomar. Ele leva muito diferente ordem com os gentios do que nós levamos, é liberal em extremo com eles, e faz-lhes muito justiça, enforca franceses por culpas sem processos, com isto é muito dos seus, e amado dos gentios. Manda-os ensinar a todo o gênero de ofícios e de armas, ajuda-os nas suas guerras, os gentios são muitos e dos mais valentes da costa, em pouco tempo se pode fazer muito forte. Por outra via escrevi a V. A., do estado da terra, e do que foi no Percaçú. O que peço agora a V. A, é que me mande ir, porque já sou velho, e sei que não sou para esta terra. Devo muito, porque guerras não se querem com miséria, e perder-me-ei se mais cá estiver. Nosso Senhor a vida, e estado real de V. A., acrescente.

De S. Vicente, a 16 dia do mês de junho de 1560.

MEM DE SÁ.”

Notas

  1. Nic. Parré na Carta ad Flumen Generbara Guanabara in Brasilia Franciae Antarticae Província. Thevet, no L. das Antilhas. Les singularités de la France Antarctique, autrement nommée Amérique.
  2. Anchieta L. 2.º, cap. 1.º, § 2.º. Pimentel, pag. 303.
  3. Lery – cap. 6.º. Thuanus, 1461. Vaecone cap. 2.º, § 77. Vasconcelos, Crônica da Companhia, cap. 2.º, § 77.
  4. Primeiro de Março. N. do r.
  5. Visconde de Inhaúma. N. do r.
  6. Uma das lagoas que existiam no centro da cidade antes da construção do Passeio Público e da abertura de algumas ruas que as secaram.
  7. Próximo à rua do mesmo nome, hoje Luiz de Camões, onde existia a igreja da Lampadosa.
  8. (em branco)
  9. Relação de Lery na sua Histo. navigationis in Braziliam.
  10. Lery. 16.
  11. Lery, Thuanos, 16-461.
  12. Bois-le Comte.
  13. Lery L. II.
  14. Andrade, Crônica dei-rei d. João III. I, 67.
  15. Thuanus.
  16. Vasconcelos, Crônica, cap. II, § 77. Anchieta, cap. 3.
  17. Barbosa, tit. I, pag. 438.
  18. Anchieta nesse campo predisse havia dali formar-se um jardim das mais belas plantas, que se realizou com a fundação do convento de mulheres virtuosas que seguem a regra de S. Caetano, debaixo da Senhora da Luz.
  19. L. 2.º do Arquivo de S. Paulo.
  20. Vida do padre Anchieta, L. 4.º, pag. 71 e seguintes.
  21. Idem.
  22. São os seus augures ou feiticeiros.
  23. Chamam assim aos padres.
  24. Vasconcelos, pag. 34l.
  25. Idem, pag. 344 § 83.
  26. Arquivo de S. Vicente, L. de Vereança de 1544, sem numeração das folhas.
  27. Arquivo do Rio de Janeiro, L. 1.º de Vereança de 1566.
  28. Idem, pag. 6 e seguintes.
  29. Praia do Flamengo. N. do r.
  30. Paranapucú, nome primitivo da ilha do Governador. N. do r.
  31. Vasconcelos, na Vida do padre Anchieta, cap. 13 por todo ele Brito, Nova Lusitânia, L. 1.º, n. 75.
  32. Quer dizer, na língua geral, mar grosso.
  33. Arquivo do Rio de Janeiro, L. 1.º, pag. 20 e seguintes.
  34. D° L° e Arquivo, pag. 42.

Fonte

  • Lisboa, Balthazar da Silva. Anais do Rio de Janeiro: A descoberta e conquista deste país, a fundação da cidade, com a história civil e eclesiástica, até a chegada d'El Rei D. João VI; além de notícias topográficas e botânicas. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal, 1941. (Obra reeditada pelo Serviço de Museus da Cidade, do Departamento de História e Documentação, da Secretaria Geral de Educação e Cultura).

Imagem destacada

  • La France Antartique autrement le Rio Janeiro: tirée des voyages que villegagnon, et Jean de Leri ont faits au Brésil les années 1557 et 1558, via Biblioteca Nacional.

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