3 de Maio de 1823

Cadeia Velha – Programa – Missa do Espírito Santo – Deputação – O dia 3 – O préstito – Entusiasmo – O “Diário do Governo” – Teatro de São Pedro – Maria Graham – Explicações – Alvará – Os carros – Os brilhantes da viscondessa – D. Pedro – Martim Francisco – Dissolução

Nesta data, há oitenta e um anos, inauguraram-se os trabalhos da primeira Assembleia Legislativa do Brasil.

Escolhido para sede das sessões o velho casarão da Cadeia, graças a Martim Francisco e ao chefe Biancardi, o antigo edifício sofrera grandes modificações internas e externas, no intuito de torná-lo apto para tão importante mister; foi demolido o passadiço que o ligava ao palácio; resgaram-se janelas, construíram-se nova escadaria, tribunas, galerias e o grande salão ainda existente. Em poucos meses estava tudo concluído; de sorte que, celebradas as sessões preparatórias, se efetuou a sessão imperial como estava marcada, em 3 de maio de 1823.

No dia 28 de abril publicava o Diário do Governo meticuloso programa da solenidade, que devia ser feita com grande pompa e aparato. No dia 1º de maio, na Capela Imperial, celebrou-se com esplendor a missa do Espírito Santo, prestando os deputados em mão do bispo D. José Caetano, presidente da Constituinte, o juramento da lei.

No dia 2, às 10 horas da manhã, saiu do recinto da Assembleia a comissão, que deveria ir a São Cristóvão receber ordens do imperador. Para esse fim foram postos à disposição dos deputados três ricos coches da Casa Imperial, puxado cada um por três tiros elegantemente ajaezados e precedidos por um piquete de cavalaria; fechava o préstito numerosa guarda também de cavalaria, comandada por um capitão.

Dois coretos se haviam levantado junto à porta do Paço da Assembleia. Muitos foguetes, salva de vinte e um tiros dada pelas fortalezas, anunciara a partida da comissão. Chegada ao Paço da Boa-Vista, dirigiu José Bonifácio, deputado e ministro do Império, pequeno e eloquente discurso. Respondeu o monarca, que, com extremo prazer iria abrir os augustos trabalhos da Assembleia, a cujo seio chegaria das onze horas e meia ao meio-dia. Novas salvas assinalaram o regresso da comissão, e o dia terminou no meio de grande contentamento e ansiedade pelo alvorecer do sábado seguinte, 3 de maio.

Às 11 horas e meia uma salva de cento e um tiros, de todas as fortalezas, anunciou que D. Pedro I partira de São Cristóvão. Desde a ponte dos Marinheiros à Rua São Pedro da Cidade Nova, o Rocio Pequeno, o Campo da Aclamação, a Rua dos Ciganos, a Praça da Constituição, as ruas do Ouvidor, Direita e Largo do Paço juncadas de flores e folhas odoríferas, ornadas todas as portas e janelas de colchas de damasco e veludo. Por toda a parte viam-se senhoras trajando ricos vestuários e ostentando custosas joias.

A tropa formava duas alas ao longo das referidas ruas e praças. Vinha o imperador, tendo a seu lado a esposa, em um rico coche puxado por oito animais ricamente ajaezados; estava colocada a coroa no assento da frente, em riquíssima salva de prata. Em outro carro ia a princesa D. Maria da Glória. Seguiam-se numerosas carruagens, com diversos funcionários e as damas de honor. Vivas e aplausos retumbavam nos ares, ao passar o cortejo, sendo sobre ele lançadas flores em profusão. Em sinal de prazer e entusiasmo, homens e senhoras agitavam os lenços.

Entrando no salão os monarcas, e preenchidas as formalidades da etiqueta e do cerimonial adotado pelo regimento da Câmara, tomou D. Pedro assento no sólio e leu a Falla do throno – “a qual (diz o Diário do Governo), posto que levasse escrita, foi contudo pronunciada com tal desembaraço e competente acionado, que mais parecia repetida de cor, do que lida; o que, como todos sabem, concorreu sobremaneira para produzir nos espectadores o mais vivo efeito, excitando, em todos, os sentimentos de respeito e admiração, de que se faz credor o Heroísmo, Virtudes Sociais e Patrióticas que Sua Majestade possui em tão elevado grau”.

Em seguida o presidente, o Bispo D. José, em curta alocução respondeu ao discurso do imperador e ergueu os vivas do estilo, que foram repetidos por todos os demais deputados e espectadores, que enchiam as galerias.

Concluído o ato solene, regressou o préstito, seguindo o mesmo itinerário.

À noite houve iluminação geral, espetáculo de gala no Teatro São Pedro, tendo sido ali destinados quatro camarotes para os deputados, junto da tribuna imperial. Muitas luzes, flores, etc., davam brilhantismo à sala.

Foi representada a peça Tártaros na Polônia, antecipada por um elogio em verso dirigido ao imperador e à Constituinte. Terminou a função com uma dança alegórica – o Descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral.

O que aí fica referido é pálido e resumido sumário dos jornais do tempo, os quais se ocuparam do assunto em longas colunas, cheias de minúcias e frases bombásticas.

Nesse tempo estava no Rio de Janeiro, pela segunda vez, a viajante inglesa Maria Graham, autora da obra Journal of a Voyage to Brazil. Depois de ausente por espaço de um ano e três dias regressara do Chile e aqui chegara em 13 de março de 1823 no mesmo navio que trouxera Lord Cochrane, chamado por D. Pedro I para tomar o comando das forças navais do novo Império.

Admitida no seio das mais ilustres famílias do tempo, Maria Graham conquistou a amizade de D. Ana Francisca Rosa Maciel da Costa, viúva do antigo capitalista Braz Carneiro Leão e mais tarde Baronesa de São Salvador de Campos. Na chácara, em Botafogo, da filha da precedente, D. Anna Vidal Carneiro da Costa, casada com o desembargador Luiz José de Carvalho e Mello (mais tarde Visconde de Cachoeira), tomou parte a escritora em sarau realizado em 28 de abril, por ocasião do aniversário natalício de D. Anna Vidal. No seu diário registrou Graham as impressões dessa noite, fazendo justiça à riqueza e conforto da casa de campo de Carvalho e Mello, bem como às qualidades intelectuais de todos os jovens da família.

Merecera-lhe, porém, mais afetuosa amizade D. Carlota Cecília Carneiro de Carvalho e Mello (que casou mais tarde com Eustáquio Adolfo de Mello Mattos), porque, além de falar perfeitamente o francês, conhecia o idioma inglês, citando nomes de escritores e poetas compatriotas de Maria Graham. Prestava-lhe também grande consideração a Viscondessa do Rio Seco, esposa de José Joaquim de Azevedo, visconde do mesmo título e mais tarde Marquês de Jundiaí. Com essa senhora passou ela o dia 30, nas Laranjeiras. No seu diário mencionou com todas as particularidades até o cardápio do jantar. Sobre nossos usos e costumes fez a escritora considerações, que não vêm ao caso.

Estando próximo o dia da abertura da Constituinte, manifestou a inglesa desejos de ver passar o préstito e por isso foi convidada para estar no dia 3 na casa da cidade, de Carvalho e Mello, à Rua do Ouvidor, onde mais tarde esteve estabelecido o Hotel Ravot.

Não reproduzirei aqui a descrição do quanto aqui viu: seria repetir o que acima foi referido. Comentarei apenas alguns fatos de fácil explicação, os quais feriram a atenção da viajante.

No préstito, refere ela, a imperatriz ia como que encolhida (1). Naturalmente, essa senhora havia se levantado do leito, onde a retivera, por alguns dias, enfermidade não muito grave. Tal circunstância pode ser colhida no Diário do Governo, e tanto isso é verdade, que a imperatriz não compareceu ao espetáculo no São Pedro.

Outro fato despertou a curiosidade da escritora: no cortejo, só a carruagem que conduzia os monarcas era puxada por oito animais, as outras só por dois! O imperador (Diário do Governo de 1823) havia mandado por em rigorosa e geral observância o alvará de 2 de abril de 1762. Por esta lei nenhuma pessoa de qualquer condição podia andar pelas ruas da cidade de Lisboa em carruagem de mais de duas bestas, sob pena de perdimento da carruagem e bestas que nela forem, e de um ano de degredo para fora da Corte na distância de vinte léguas, sendo os transgressores moços fidalgos, ou daí para cima e para o presídio de Mazagão, sendo de menor foro. Excetuavam-se da regra os coches da Casa Real, dos embaixadores, cardeais, patriarcas, arcebispos e bispos. E a ordem de 26 de abril de 1823 estava assinada pelo ministro José Bonifácio de Andrada e Silva! Devemos convir que tal lei não era muito edificante no começo de uma monarquia constitucional representativa!

Em seguida, a escritora faz a crítica das carruagens do préstito, dignas de figurar nos museus de Londres e de Paris (2) . Excetua, porém, o coche todo pintado de verde como uma ervilha, o qual conduzia os imperantes. Não deixa, porém, de admirar a muita prataria, de que todos eles estavam com profusão ornamentados, bem como a riqueza das librés dos criados, cocheiros, et reliqua.

Enquanto esperavam a volta do cortejo, ela e D. Carlota entretiveram-se lendo versos do poeta Antônio Diniz da Cruz e Silva, fazendo Maria Graham o elogio da biblioteca de Carvalho e Mello, composta de muitas obras de Direito, Literatura e Religião.

Para o espetáculo aceitou o gracioso convite, que lhe fizera a Viscondessa de Rio Seco para seu camarote. Não tendo vindo prevenida, manda às pressas em uma modista comprar alguns adornos para não fazer figura triste junto da fidalga, cujas joias, fora as que ficaram em casa, avaliava a escritora em 150.000 libras esterlinas.

A peça não lhe mereceu grandes elogios. Quanto à alegoria do Descobrimento do Brasil, assim a descreve:(3) os Portugueses tendo plantado a Cruz queriam obrigar os indígenas a ajoelharem-se. Estes, por seu turno, intimam Cabral e seus companheiros a venerar as divindades da terra. Ia travar-se luta, quando mediante grosseiro mecanismo aparece um gênio e desenrola sobre as cabeças de uns e outros, grande bandeira, na qual estavam escritas as palavras Independência ou Morte.

Nesse momento, o teatro parecia vir abaixo com os vivas, aplausos e agitar de lenços. A escritora ficou tão entusiasmada que chegou a chorar, e deixou cair o lenço sobre a cabeça de um figurão, que estava em camarote de 1ª ordem. O entusiasmo continuou, à proporção que eram ouvidos vivas à Pátria, ao imperador, aos deputados.

Durante a representação D. Pedro parecia fatigado e submerso em profundas cogitações. Por momentos apoiava a fronte sobre o espaldar de uma cadeira, que para junto de si puxara. Outras vezes levava a mão aos olhos, procurando diminuir o efeito das luzes, que, parecia, o incomodavam.

No fim da função o delírio chegou ao auge, quando Martim Francisco, chegando-se à frente do camarote e agitando o lenço gritou com todo o entusiasmo – Viva o povo leal e fiel do Rio de Janeiro. À saída, o imperador é ainda aclamado, ouvindo-se por muito tempo continuados vivas e palmas.

E, assim, terminou o dia 3 de maio de 1823.


Seis meses e alguns dias depois, essa mesma Assembleia é cercada por tropas, dissolvida pelo imperador, como perjura, sendo alguns de seus membros presos e apupados pela molecagem!

(4 de maio de 1904.)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Antiga Cadeia Velha, onde funcionou a Câmara dos Deputados até a construção do Palácio Tiradentes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB- Volume 272 – Julho-Setembro – 1966.

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