A Aclamação

(12 de outubro de 1822)

Proclamada em 7 de Setembro de 1822 a Independência do Brasil, o príncipe D. Pedro dirigiu-se, logo após, de São Paulo ao Rio de Janeiro.

Em menos de oito dias transpôs a cavalo a imensa distância, que separa estas duas localidades.

Tal foi a pressa da viagem, que foi deixando em caminho extenuados de fadiga e com os cavalos estropiados e caídos os personagens do séquito.

Quase só, chegou a esta cidade e na noite de 15 de Setembro apresentou-se no real Teatro São João, levando no braço esquerdo a legenda em letras de ouro – Independência ou Morte.

Descrevem os jornais do tempo o júbilo e o entusiasmo da população, vendo de perto o homem considerado então o primeiro dos patriotas, o defensor perpétuo desta grande terra.

Não se calculam as explosões de dedicação, de quase fanatismo, com que era saudado o herói do Ipiranga, como lhe chamavam todos quantos haviam contribuído para os sucessos que se vinham desenrolando desde a partida do rei D. João VI.

Fundado o Império, era urgente a aclamação do monarca. O Senado da Câmara composto de José Clemente Pereira, juiz de fora e presidente dos vereadores, João Soares de Bulhões, José Pereira da Silva Manuel, Domingos Vianna Gurgel do Amaral, do procurador José Antônio dos Santos Xavier, reuniu-se em sessão extraordinária em 10 de Outubro de 1822.

A esta importante reunião estiveram presentes os homens bons, que no Senado haviam servido, bem como os mais dignos cidadãos de todas as classes civis e militares. Dirigiu-lhes a palavra José Clemente, dizendo-lhes ser necessário quanto antes a aclamação de D. Pedro como imperador do Brasil, e que o Senado, à vista do consenso de diversas Câmaras não só do Rio de Janeiro, como de Minas, Espírito Santo e São Paulo, havia deliberado escolher o dia 12 de Outubro para aquele soleníssimo ato. Convocava o povo para receber sua definitiva opinião com absoluta franqueza e plena liberdade. Foi tudo aprovado, e os populares que enchiam o Largo de São Francisco de Paula, ao saberem da resolução, prorromperam em vivas.

Ficou assentado que o Senado e os procuradores das Câmaras aclamariam em público o imperador. Devia-lhe ser grata a escolha dessa data, porque em tal dia completava o príncipe 24 anos. E eis porque a cidade do Rio de Janeiro ansiosamente esperava o amanhecer de 12 de Outubro.

Para tal fim vestiu-se de galas. Juncavam as ruas folhas e plantas aromáticas; colchas de seda pendiam das janelas. Por toda parte bandeiras e galhardetes.

Aqui e ali erguiam-se arcos triunfais, sendo os mais notáveis: o da Rua de São Pedro, no Campo de Sant’Anna, dedicado à nova pátria de Pedro; o da Praça da Constituição, dedicado ao Gênio brasileiro; o da Rua do Ouvidor na embocadura da Rua Direita, dedicado ao amor conjugal; o da Rua do Ouvidor ao sair ao Largo de São Francisco, dedicado ao comércio; o da Rua Direita, dedicado à prosperidade do Brasil. Em diversas ruas viam-se coretos, que a seu tempo seriam ocupados por bandas de música.

Para a cerimônia fora escolhido o palacete do Campo de Sant’Anna, convenientemente reedificado, e de cujas janelas e varanda pendiam alcatifas de veludo com franjas de ouro. Tudo estava prestes para o ato que se ia realizar. “Nesse dia suspirado que, no dizer de um dos órgãos da imprensa, devia pôr o selo à glória do Brasil. Assomou nos seus horizontes uma radiante luz, que afugentou para sempre as trevas da sua escravidão. Dardeja do seu zênite um novo astro, eclipsando as estrelas que esmaltam o firmamento. Dia afortunado, tu alvoroças os corações dos verdadeiros amigos da pátria; tu fazes a vergonhosa confusão dos seus infames contrários! É supérfluo dizer: o faustíssimo dia 12 de Outubro, origem da nossa felicidade, desempenho do nosso patriotismo.”

Manda a verdade histórica declarar que, pelo contrário, o dia esteve carrancudo. Negras nuvens anunciavam próxima borrasca. E é isto tão verdadeiro que, terminada a cerimônia e dirigindo-se o préstito para a Capela depois Imperial, desabou formidável aguaceiro. O novo imperador teve, pois, de caminhar sob um dilúvio de água e de flores, segundo expressão de várias testemunhas. Essa mudança meteorológica está assinalada na estampa da obra de Debret. Nela se nota com precisão o grande numero de chapéus de chuva abertos pelo zé povinho, que nas redondezas do palacete assistia a grandiosa cerimônia.

Houve, logo pela manhã, salvas das fortalezas. Às 9 horas entravam no Campo os corpos da 1ª e 2ª linha, a primeira comandada pelo brigadeiro José Maria Pinto Peixoto e a segunda pelo coronel Lázaro José Gonçalves. Já a este tempo era imenso o concurso de povo e de espectadores, que ocupavam as janelas da grande praça, os telhados e os morros de Santo Antônio e Castelo.

Pelas 10 horas da manhã, saiu D. Pedro do Paço da Boa Vista, acompanhado de sua esposa, da princesa D. Maria da Glória. Precedia os carros de gala uma guarda de honra composta de Paulistas e Fluminenses. Seguiam-se três moços da estribeira, sendo um índio, outro mulato e o terceiro negro.

“Apenas entraram na mencionada praça, diz o jornal do tempo, do qual extraio estas notícias, começaram os mais altos e frequentes vivas, escassos testemunhos do júbilo que dominava em todos os corações. O inumerável concurso de povo que se disputava a preferência em fiéis demonstrações, seguia seu augusto soberano, que, apeando-se junto ao palacete, subiu ao mesmo e com a sua costumada afabilidade correspondeu aos porfiosos vivas pela sua glória e prosperidade.”

Chegado o momento do ato, dirigiram-se D. Pedro e família, os ministros, e Senado da Câmara e camaristas para a Varanda. Na estampa de Debret vê-se perfeitamente a posição de cada um dos personagens. Tomou a palavra José Clemente e dirigiu a D. Pedro extenso, eloquente e patriótico discurso. Diz Vasconcellos de Drummond, que o juiz de fora presidente do Senado mostrara a José Bonifácio a minuta do discurso, que este a aprovou, e que José Clemente alterara em muitos lugares a mensagem, introduzindo expressões pouco convenientes. Entretanto, quem lê as palavras de José Clemente nada encontra que não esteja de acordo com a solenidade.

D. Pedro respondeu: “Aceito o título de imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil, porque tendo ouvido o meu Conselho de Estado e de procuradores gerais, e examinando as representações das Câmaras das diferentes províncias, estou intimamente convencido que tal é a vontade geral de todas as outras, que só por falta de tempo não têm ainda chegado.”

“A esta resposta, diz o jornal contemporâneo, de que pendia a sorte do Brasil, seguiu-se a cena mais tocante que os olhos viram nem jamais verão. Quem será capaz de descrevê-la, por mais que seus talentos superem os nossos ou ainda dos gênios mais abalizados? O coração não cabia no peito; queria saltar fora do seu estreito recinto; estavam todos como abafados do peso do prazer; uns se abraçavam; outros se davam os parabéns; lágrimas sinceras corriam dos olhos de todos e iam se misturar com as do nosso grande imperador, que dava pleno desafogo à sensibilidade da sua alma, oprimida da aluvião de paixões que a assaltavam.”

A artilharia começou logo a salva imperial de 101 tiros seguidos de boas descargas da infantaria. Então José Clemente ergueu os seguintes vivas: à nossa Santa Religião, ao imperador constitucional, à imperatriz, à dinastia de Bragança, à Independência, à Assembleia Geral Constituinte Legislativa e ao povo constitucional do Brasil. Acabado o pomposo ato, a imperatriz seguiu de carro para a Capela (hoje arqui-catedral).

O imperador preferiu seguir a pé, apesar da muita chuva que então caía. Na grande multidão que acompanhava o préstito viam-se os patriotas levando ao peito folhas da independência. Destacavam-se as casacas verdes com balões amarelos e os vestidos também verdes e amarelos de cetim ou seda da Índia.

Caminhava o imperador sob rico pálio, feito para a festividade, e cujas varas eram sustentadas pelos procuradores das câmaras das diferentes vilas. Na frente levava o procurador do Senado do Rio de Janeiro o estandarte da mesma, inteiramente novo. Após caminhavam os vereadores presentes e passados, os chamados bons. Depois do pálio seguiam-se os grandes, o ministério, os altos funcionários e as grandes patentes da marinha e guerra. Em seguida marchava toda a tropa.

O cortejo tomou pelas ruas hoje da Constituição, Praça Tiradentes, Sousa Franco, Largo de São Francisco de Paula, Ouvidor e Rua Primeiro de Março. No adro da Capela aguardava a comitiva o bispo Coutinho e o Cabido. D. Pedro beijou de joelhos o Santo Lenho e dirigiu-se ao trono armado na capela-mor. Foi celebrado Te-Deum. Findo este, dirigem-se o monarca e o numeroso cortejo ao Paço da cidade. Aí chegados, repetiram-se as salvas de 101 tiros e as descargas festivas. Houve beija-mão dado a todos quantos quiseram participar de tal honraria, e “concorreram a felicitar a D. Pedro I pelo seu faustíssimo natalício e oferecer os leais votos de inabalável adesão, respeito e fidelidade, pela alta dignidade a que suas incomparáveis virtudes o elevaram, sustentando o majestoso trono que assombrava o universo, sobre o amor de um povo que adotou por irmão e que jurou defender como pai e amigo”.

Durante este tempo repicavam os sinos de todas as igrejas e foguetes e girândolas cortavam o ar. Houve iluminações. Duraram seis dias. Na noite de 12 compareceu o imperador e sua corte ao espetáculo de gala no Teatro de São João. Representou-se o drama Independência da Escócia. Entusiasmos, vivas, flores, foram a síntese desta noite memorável.

No dia seguinte continuaram as festas. D. Pedro assiste na Capela à missa pontifical celebrada pelo prelado. Pregou frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio, patriota e político e um dos corifeus da Independência. Falou nos Assírios, Persas, Macedônios e Romanos, em Cristóvão Colombo, nos impérios do México e do Peru, em Pizarro e em Cortez. Seguiu-se outro Te-Deum.

À noite gozou-se no teatro do mesmo espetáculo do dia precedente, sendo somente novas as composições poéticas e o drama, que, neste dia, foi outro. “Sua Majestade, diz o jornal Espelho, resumindo o entusiasmo, havia sido conduzido em grande estado, como fica dito, e o brilhante concurso esmaltava esta noite de júbilo. A iluminação foi mais brilhante que na noite precedente, em razão do tempo mais favorável, e os fogos de artifício se sucederam com a mesma frequência.”

Reverso da medalha –7 de Abril de 1831. Povo e tropa estavam em atitude hostil neste mesmo Campo da Aclamação. Nove anos depois perdera D. Pedro a simpatia de todos quantos derramavam lágrimas de contentamento no dia 12 de Outubro tão cheio de esperanças. Perseguiu e desterrou os patriarcas da Independência, dissolveu a Constituinte, entregou-se a desmandos amorosos, afrontando a opinião pública. Cercado de maus conselheiros esqueceu os seus juramentos de ser o perpétuo defensor da nação, que o elevou ao cargo do seu primeiro magistrado. Os verdadeiros liberais afastaram-se do monarca. Houve até “corcundas” que aconselharam ao trêfego e inexperiente moço a declarar-se absoluto. Os implicados na Confederação do Equador, sujeitos a comissões militares, enforcados e fuzilados, pagaram a audácia de ter querido a pátria livre e independente prometida pela Constituição de 1824.

Negras nuvens amontoavam-se no horizonte político. A tempestade era iminente. Estalou o raio das iras populares; o quase semideus de 22 embarcava-se, abandonado na ponte de São Cristóvão, para buscar abrigo a bordo de navio estrangeiro.

Chorou de arrependimento, dizem, nesta memoranda madrugada. Na hora extrema teve ao menos um rasgo cavalheiroso. Entregou o berço do filho, que dormia inocentemente nos paços da Boa Vista, ao velho José Bonifácio, a quem ele imperador expulsara do Brasil, no meio das vaias dos moleques e capadócios.

A história é considerada mestra da vida. Se as lições que oferece pudessem servir de ensinamento, quantos erros, quantas calamidades e até quanto sangue poupados!

Domingo, 9 de Outubro de 1910.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Aclamação de Dom Pedro I Imperador do Brasil no Campo de Santana no Rio de Janeiro, por Jean Baptiste Debret, via NYPL.

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