A Glória

Por esse tempo, em 1823, acompanhado por sua família e corte, subia o pitoresco outeiro da Glória o imperador D. Pedro I.

Dirigia-se à capela fundada por Antônio Caminha, para dar graças à padroeira desse antigo santuário: pois grave acidente pusera em risco os dias do jovem monarca.

A propósito deste fato devo acrescentar que circulou por muito tempo entre as classes do povo curiosa anedota atribuída ao Dr. Antônio Ferreira França, ou Dr. Francinha, como era vulgarmente conhecido.

Examinado por diversos médicos do Paço, todos eles atribuíram à violenta queda os traumatismos que D. Pedro sofrera.

O imperador quis ouvir a opinião do tão ilustre quão excêntrico Dr. Francinha. Este, com a franqueza que lhe era peculiar, pediu permissão ao egrégio doente para falar com toda consciência.

Anda, dize o que pensas – Não, nada do que Vossa Majestade apresenta é devido à queda. Penso ser o resultado de alguma coça de pau.

Foste o único a acertar, respondeu-lhe D. Pedro. Os teus colegas são uns alhos. Tu, sim, és um grande e verdadeiro médico. E por isto foi nomeado médico da Imperial Câmara o Dr. Ferreira França.

Pondo em dúvida a realidade da anedota, vejamos o que sobre o desastre disseram os jornais do tempo, os boletins dos facultativos, e os que se ocuparam do acontecimento.

Em 30 de Junho de 23, recolhia-se D. Pedro I, da fazenda do Macaco. Eram mais de 6 horas da tarde, e, ao chegar à ladeira do Paço de São Cristóvão o cavalo em que montava o imperador espanta-se. Para a garupa do animal, arrebentadas as silhas, correu o selim. O cavalo começa a corcovear e correr desabridamente. D. Pedro, perito cavaleiro, viu o perigo e, não podendo conter o animal, deixou-se cair para o lado esquerdo.

Bateu com o dorso em cheio sobre o barro da ladeira. Tentou levantar-se. Não o conseguiu. Feitos novos esforços, pôde erguer-se e teve forças para gritar por socorro.

Nesse momento chegava a imperatriz também a cavalo. Ficara distanciada de seu esposo. Como é sabido, cavalgava ele sempre a galope sem esperar pelos que iam em sua companhia.

Apoiado em uma bengala, pôde o enfermo com muita dificuldade subir a escada em frente ao pátio e chegar ao torreão da Quinta da Boa Vista.

Reconheceram os médicos de serviço haver fratura direta da sétima costela esternal do lado direito no ponto de reunião do terço médio com o posterior, fratura por contra pancada na terceira costela do lado esquerdo compreendendo o terço anterior, luxação incompleta da extremidade esternal da clavícula esquerda, grande contusão no quadril com forte distensão dos músculos que cercam a articulação femuro-ilíaca, e dores gravativas, principalmente no nervo ciático.

À meia noite foi sangrado o imperador. Às duas da madrugada foram-lhe aplicadas 19 sanguessugas no quadril. Ao amanhecer aventou-se a sangria. No mesmo dia 1º de Julho à noite sofreu D. Pedro a aplicação de 12 sanguessugas na região torácica. Continuou o enfermo de cama, sendo-lhe por vezes renovados os aparelhos contentivos das fraturas.

Causou o desastre grande abalo na cidade. No dia 10 de Julho dirigiu-se ao Paço de São Cristóvão uma comissão de sete membros da Assembleia Constituinte para testemunhar ao imperador a mágoa sentida pelos representantes da nação.

Durante a moléstia de D. Pedro não deixou a imperatriz D. Maria Leopoldina de ir à igreja da Glória para ouvir missa e pedir a proteção de Nossa Senhora.

No dia 17 de Agosto vestiu-se o enfermo e deu ligeiro passeio nos jardins da Quinta. Antes, no dia 7, o Dr. Guimarães Peixoto havia retirado os aparelhos.

No dia 19 resolveu-se D. Pedro a dar audiência, às 10 horas da manhã, no Paço da Cidade, tendo-se dirigido antes à Glória, acompanhado de numerosa comitiva.

Aí ouviu missa e em seguida, depois da audiência, visitou os arsenais de guerra e marinha. Em sinal de regozijo a cidade iluminou na noite deste dia.

Em 11 de Agosto, nova comissão da Assembleia Constituinte foi a São Cristóvão felicitar o imperador pelo seu restabelecimento. Ao discurso do orador respondeu D. Pedro pelo modo seguinte: “As provas de amor à minha Imperial Pessoa e de Interesse pela minha saúde, que a Assembleia Geral Constituinte deste Império tem dado, são tantas além desta, que penhoram meu imperial coração e o obrigam a agradecer-lhe e certificar-lhe que, enquanto vida tiver, hei de defender a pátria dos inimigos internos e externos, as atribuições que de direito me competem como imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil, e os interesses da briosa nação brasileira, que tão credora é de todos os sacrifícios que puderem fazer aqueles que verdadeiramente amarem ao Brasil e forem tão Brasileiros como eu o sou e me prezo ser”.

Em 24 de Agosto realizou-se solene “Te-Deum” na igreja de São Francisco de Paula mandado celebrar pela Guarda de Honra do imperador, em ação de graças pelo restabelecimento do soberano. Subiu ao púlpito frei Francisco de Monte Alverne.

Aludindo à vinda do imperador à cidade e à visita dos arsenais escreveu o Dr. Moreira de Azevedo: “por esses fatos prova-se a atividade extraordinária do fundador do Império, que no primeiro dia que saía, depois de longa enfermidade, já se achava com forças para fazer exercício tão prolongado.”

O ilustre e consciencioso cronista ignorava a verdadeira imprudência cometida por D. Pedro I, ainda não de todo restabelecido.

Aludo à dissolução do “Apostolado”, que funcionava no edifício hoje ocupado pelo Liceu de Artes e Ofícios, na Rua Treze de Maio, antiga da Guarda Velha. Desse fato dá pormenores o conselheiro Drummond.

Para contrabalançar a influência da Maçonaria, José Bonifácio e seus partidistas fundaram uma associação secreta com o título de “Apostolado”, tendo por chefe o próprio imperador com o título de archote rei.

Tais e tantas foram as intrigas políticas, que o imperador dissolveu em Outubro de 1822 o Grande Oriente, do qual era grão-mestre.

Sobre o ânimo do príncipe ganhava influência a gente do Apostolado. Por sua vez José Bonifácio sofreu o combate das paixões do tempo. Os intrigantes puderam fazer com que a pouco e pouco o monarca perdesse a confiança, que lhe havia merecido até então seu ministro e amigo.

Durante a enfermidade recebeu o imperador uma carta anônima, na qual se lhe garantia que no Apostolado se conspirava até contra a vida do imperante.

Entre D. Pedro e José Bonifácio tinha havido sérias discussões acerca dos acontecimentos políticos de São Paulo. O imperador estava resolvido a conceder plena anistia. José Bonifácio opunha-se, e atribuía a benevolência do imperador a sugestões do uma senhora, com quem D. Pedro mantinha íntimas relações.

Em certa noite de Julho de 23, ao ter conhecimento o imperador da referida carta, mandou José Bonifácio conversar com a imperatriz, saiu do leito, fez-se seguir de alguns soldados de cavalaria e dirigiu-se à cidade, entrando inesperadamente no recinto das sessões do “Apostolado”. Fez dispersar os Apóstolos e apoderou-se dos papéis, que estavam sobre a mesa do presidente.

Em 17 de Julho pede demissão José Bonifácio. Ele e seus amigos começam a fazer no seio da Constituinte parte da oposição ao Governo. Os acontecimentos precipitaram-se, dando afinal em resultado a dissolução, em 12 de Novembro, da nossa primeira Assembleia Legislativa. Tudo isto são coisas conhecidas e sabidas.

Mas o que tem tais velharias e a queda de D. Pedro I com a capela da Glória, dirá o leitor? Vou explicar e entro em matéria. Tenho um velho amigo muito devoto de Nossa Senhora da Glória e assíduo frequentador das missas celebradas na manhã do dia 15 de Agosto de cada ano.

Desde muito notava ele ao lado esquerdo da capela-mor um grande painel, cuja significação ignorava. Este ano a chuva afugentou muita gente, e o meu devoto pôde, à vontade, contemplar o quadro, que tanto o intrigava. Dei-lhe a explicação.

Você deve ter visto um indivíduo fardado sustido por um anjo, que com seu ósculo afugenta a morte que procura aproximar-se do cavalheiro protegido pela graça divina. Trata-se de D. Pedro I amparado pelo anjo Custódio do Império. Ao lado direito está uma senhora a cavalo. É a primeira imperatriz D. Maria Leopoldina, que implora a proteção da Virgem da Glória em favor do marido. Na parte superior da tela divisa-se entre nuvens a imagem de Nossa Senhora, reprodução da que é venerada no alto do trono. O quadro pintado por um artista francês, cujo nome ignoro, foi colocado em 1827, a princípio na sacristia, e depois removido para o lugar de honra em que até hoje permanece.

Quanto às letras que se notam embaixo do quadro, nada posso dizer. Há quarenta e um anos que não subo o lendário outeiro, pertencente outrora ao Dr. Claudio Gurgel do Amaral, dono aí da chácara do “Oriente”.

Deve ser uma inscrição em latim, alusiva ao desastre sofrido pelo primeiro imperador.

O meu amigo e devoto da Glória ficou de lá ir para copiar o dístico e m’o transmitir.

Até á última hora de hoje não apareceu. Fiquei, pois, “in albis”.

22 de Agosto de 1909.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Mapa – Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro