A Lage

Não vem fora de propósito um resumido retrospecto histórico sobre a antiga fortaleza da Lage, principalmente agora que vai ela passando por transformação radical, segundo informou há dias A Notícia, dando minuciosa conta dos melhoramentos, que tornarão este forte importante praça de guerra, de acordo com os progressos da técnica militar moderna.

Do ilhéu denominado da Lagem, onde mais tarde foi edificada a fortaleza, fazem menção geógrafos, historiadores, e cronistas quando se referem a acontecimentos que se deram nas proximidades dessa ilha, que divide a barra do Rio de Janeiro em dois canais, e cujos recifes constituem perigos aos navegantes que demandam o nosso porto.

A excelência da posição, porém, foi reconhecida desde tempos antigos, e o próprio Villegagnon, ao chegar em 10 de Novembro de 1555, procurou aí fortificar-se contra os Portugueses, que naturalmente os viriam desalojar.

Minúcias deste fato são encontradas nas obras de Thévet, João de Lery, Gaffarel e Heuslhard.

Abandonada logo pelos Franceses, conservou a ilha da Lagem o nome de Ratier, equivalente de armadilha, ou antes, ratoeira; – Muscipulum é o termo empregado por Lery, na edição latina (1586) da sua Viagem, muito conhecida e citada.

Expulsos os Franceses e transferido o assento da cidade não escapou a Salvador Corrêa de Sã a conveniência de fundar na Lage pequeno fortim, como meio de defesa da barra; mas foi demovido desse propósito por sugestões, dizem, de um engenheiro espanhol. Nas aventuras, porém, de Knivet prisioneiro da expedição Cavendish, escritas em inglês, e traduzidas em holandês e mais tarde para o português pelo Dr. José Higino (Revista do Instituto Histórico), encontramos a narração de um fato que, até certo ponto, justifica haver Salvador tentado fortificar a Lage – Diz Knivet: “por esse tempo veio de Portugal a notícia de que uma frota inglesa estava a partir para o Brasil.

“Essa nova levou o governador (S. de Sá) a mandar levantar um forte sobre certa altura, à boca do porto. Levantaram-no tão sobre as águas, que, três meses depois de concluído, o mar o comeu com toda a artilharia que nele havia. Estava também por esse tempo no Rio de Janeiro como prisioneiro André Tower, que tinha conhecimentos da arte de curar e tratando de alguns doentes, fez muito boas curas. Como Tower dizia saber predizer o futuro, era considerado pelos Portugueses como feiticeiro. Assegurou ele que havia de descobrir meios de tirar a artilharia do fundo do mar. Só tinha um olho e no lugar do outro, diziam os Portugueses ter o feiticeiro um demônio familiar. Mandou fazer uma veste de couro, e tão bem a breou e engordurou que ficou toda impermeável. Preparou depois uma grande cabeça toda breada e munida de enorme nariz e colocou diante do nariz três bexigas e duas diante da boca. Feito isto, convidou-me a entrar naquele aparelho e descer ao fundo do mar. Respondi que só aventuraria a minha vida em semelhante empresa, se fosse bem recompensado. Chamou-me então o governador e me disse que se eu fosse prender um anel ao ouvido de uma das peças, dar-me-ia 10.000 coroas e um passaporte para onde eu quisesse ir. Prometi que com o adjutório de Deus, faria a diligência por servir.

“Achando-se tudo prestes, levaram-me os Portugueses com muita solenidade e orações ao lugar, em que se perdera a artilharia. Enverguei o vestuário de couro, e tendo-se-me atado ao corpo uma grande pedra fui lançado ao mar em 18 braças de profundidade.

“Como era, porém, enorme a cabeça de couro e estava bem breada e alcatroada, sucedeu impelirem-me as águas para cima, ao passo que a pedra pesada como era, puxava-me para baixo, do que me resultava uma sensação tão penosa, que me parecia que a corda da pedra por-me-ia o corpo em pedaços. Tendo eu atado uma faca em uma das mãos, cortei a corda, assomei à tona d’água, dei-me pressa em arrancar do rosto as bexigas e a lacerar o couro, pois estava quase sufocado Um mês inteiro andei tonto.”

A possibilidade de ser o Rio de Janeiro invadido pelos Holandeses mostrou a urgente necessidade de ser fortificado o antigo Ratier. Este pensamento, diz Haddock Lobo, ficou, porém, adiado, em consequência da tenuidade dos cofres públicos e ser a execução daquela obra assas dispendiosa. Todavia, em 2 de Novembro de 1641, reunidos em Câmara o governador Salvador Benevides, os oficiais e os homens bons do povo, ficou deliberado atender-se à melhor fortificação da cidade. Nomeada uma comissão, foi ela de parecer se construísse a fortaleza da Lage, obra que podendo ser feita à custa do Estado se fizesse à custa do povo, não por meio de tributo, mas sim por meio de subscrição voluntária e pelo da venda, em hasta pública, de todos os chãos da marinha da cidade. Com a retirada de Benevides, não teve execução tão momentoso projeto, que tornou a ser assunto de estudos no governo de Francisco de Souto Maior, ficando ainda por essa vez adiado.

Entre os muitos e importantes documentos publicados no Archivo do Distrito Federal, encontramos no tomo 4º, página 545, a carta régia de 2 de Agosto de 1644 – para se fazer a fortaleza da Lage, aplicando-se para as despesas da sua obra metade do cunho das patacas, – e para que esta obra (diz a carta, além de muitas outras coisas) de tanta utilidade ao bem comum e em particular aos moradores dessa cidade se faça com mais comodidade lhes significareis da minha parte que a ajudem com os seus criados e escravos e com o mais que puderem, que lhes haverei o serviço, e ainda que nisto devem!

Em virtude da aprovação régia, o governador Duarte Corrêa Vasqueanes, em reunião da Câmara, a 26 de Novembro de 1646, deliberou de novo a fortificação da Lage, pondo-se em hasta pública os chãos da marinha. Que esses foram vendidos, não há a menor dúvida; mas as obras da fortaleza ficaram ainda adiadas; de sorte que, apesar da sua boa vontade, pouco ou nada pôde fazer Vasqueanes. À pág. 132 do – Tombo das Terras Municipais está por extenso o auto e assento de 1646.

Nas Publicações do Archivo Público, tomo 1º, lemos a carta régia de 5 de Dezembro de 1698, acusando o estado da obra de Santa Cruz e declarando que a projetada obra da fortaleza da Lage não era por enquanto possível!

Ficaria tudo para as calendas gregas, se terrível acontecimento não viesse despertar a atenção da metrópole, apesar das reclamações de todos os governadores, inclusive o infeliz Francisco de Castro Moraes, cuja memória vai sendo reabilitada, graças às investigações do Sr. Barão do Rio Branco e aos estudos do Dr. Felisbello Freire, que teve entre mãos, na Biblioteca Nacional, os autos da devassa tirada por ocasião da segunda invasão francesa comandada por Duguay-Trouin (1711). Passado o perigo tratou o Governo de melhorar o sistema de defesa do Rio de Janeiro. Vários projetos foram apresentados; vieram engenheiros de Portugal, e entre eles João Macé, que teve a infeliz ideia de defender a cidade pela parte do sertão levantando uma muralha entre os morros da Conceição e Castelo, a qual corria na direção da hoje Rua da Uruguaiana e antigamente da Vala ou de Pedro da Costa.

Foi, pois, D. Francisco de Távora quem, em virtude da carta régia de 26 de Janeiro de 1713, deu começo à regular edificação da fortaleza, sendo aplicados à obra 40.000 cruzados dos direitos da Alfândega.

Em 1718 ainda não estava a Lage artilhada, e isso se depreende da conta sob a fortificação e artilharia e mais fortalezas da praça e armazéns do Rio de Janeiro, enviada pelo governador Antônio de Britto Meneses, o qual dizia em data de 2 de Março: “a fortaleza da Lage acha-se hoje com uma diferente planta da que desenhou o brigadeiro Massé, porque esta era uma figura oval, cujo maior diâmetro tinha 180 palmos e o menor 100, e a planta que remeto é a que se segue; nela se vê a obra, que está feita, que ainda para chegar à primeira bateria lhe faltam nos quatro lados seis fiadas de enxilharia, como fiz presente a Vossa Majestade, em outra carta, e na figura 3ª se vê que forma um hexágono.”

Por este importante documento vemos ainda que: em 1718, as diferentes fortalezas estavam guarnecidas do seguinte modo:

Santa Cruz, 53 peças; São João, 43; Vargem, 6; Praia Vermelha, 12; Boa Viagem, 10; Gragoatá, 10; Santa Luzia, 5; São Januário, 11; Prainha, 4; Ilha das Cobras, 26; Villegagnon, 24; Conceição, 36; Castelo ou São Sebastião, 24; Santiago (hoje Arsenal de Guerra), 8 e mais 11 nos armazéns, somando tudo 279 bocas de fogo.

Encheríamos largo espaço, se intentássemos dar os extratos da correspondência dos governadores com relação aos melhoramentos da Lage, mudança de planta, reparações e concertos mal feitos e destruídos constantemente pelo mar; tudo isso constituiu o incessante cuidado de Aires de Albuquerque, Luiz Vahia MonteiroBobadela, Silva Paes, Alpoim e Conde da Cunha.

Em carta de 10 de março de 1768, o marquês do Lavradio, a quem tanto deveu o Rio de Janeiro, falando das fortificações, assim se exprimia quanto à da Lage: “Esta da forma que está é quase inútil, por ser muito apertada e pequena, e quando faz mareta as ondas saltam as muralhas por cima e me dizem que até a artilharia tem chegado a deitar das muralhas abaixo; pelo que nem guarnição, nem munições suficientes pode acomodar; mas alargando-se mais e dando-lhe melhor forma, há de ser de grande importância, pois cruza a sua artilharia com Santa Cruz e São João, e tem a vantagem de não poder ser atacada por nenhuma parte; porém esta obra pede mais despesa e tempo; por ora é necessário cuidar em outras, de que se necessita mais.” O que Lavradio previu no começo de seu governo foi por ele realizado. A ele deve sem dúvida a Lage os importantes melhoramentos que chegaram até nossos dias e foram conservados pelos que lhe sucederam.

E isto não é de difícil prova. Os antecessores de Lavradio descansaram porque, como é sabido, por ordem da metrópole era a barra fechada por uma grossa corrente de ferro que ia de Santa Cruz a São João; mas este vice-rei acabou com tal sistema, que se garantia, durante a noite, a cidade, de uma invasão inimiga, para nada servia se ela fosse intentada de dia, como praticou Duguay-Trouin.

Lavradio fez, no seu tempo, tudo quanto lhe foi possível para a melhor defesa desta cidade.

Entretanto, um dos seus antecessores, o conde de Resende, julgava a fortaleza da Lage inútil no tempo de paz e bem pouco defensável para o da guerra. Mandou desguarnecê-la, reduzindo as despesas da guarnição de 648.456 anuais para 267.120. Consta isto da carta de 26 de Julho de 1791, enviada ao ministro Martinho de Mello e Castro. Em 1799, era comandante da Lage o sargento-mor Caetano Pimentel de Vabo, almoxarife Domingos de Siqueira, e capelão Joaquim José de Bastos.

O que foi a Lage durante o século XIX poderá ser estudado na leitura dos relatórios do Ministério da Guerra e na Coleção de leis, desde 1808.

Considerada fortaleza de 2ª classe, era ela artilhada com 28 canhões. Prisão de Estado, em suas horríveis masmorras estiveram presos: o patriota Barata, o liberal Miguel de Frias e o capitão Pedro Ivo, cuja personalidade foi magistralmente estudada pelo general Mello Rego em seu trabalho A Rebelião Praieira. Quanto aos assassinos da Coqueirada, é digna de ser lida a memória Os Criminosos Célebres do operoso e infatigável Dr. Moreira de Azevedo.

Como outrora, é ainda hoje difícil o acesso à ilhota da Lage pela forte arrebentação das vagas; o mar é ás vezes tão forte (diz o Sr. Agenor de Noronha), que torna quase impossível atracar qualquer embarcação na fortaleza. Foi o que, ainda há dias, experimentou o Sr. ministro da Guerra, a quem são devidos os últimos melhoramentos.

Já não existe, pois foi destruída, a célebre pedra – o caboclo –, terror do Arsenal de Guerra; mas funciona ainda a clássica caçamba, que obriga quem desembarca a fazer prodígios de ginástica para não quebrar a cabeça de encontro às pedras ou, pelo menos, tomar um banho de água salgada.

14 de Agosto de 1902.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Ligação externa

Imagem destacada

  • Forte da Lage, visto do Pão de Açúcar.

Mapa