A Lagoa Rodrigo de Freitas

A denominação de Socopenopan (do tupi “praia batida pelos socós”, na opinião do emérito Dr. Theodoro Sampaio), é muito antiga e figura em várias sesmarias concedidas logo após a fundação da cidade do Rio de Janeiro.

Tem esta praia, hoje, o nome de Copacabana. Não é verdadeira a opinião dos que sustentam seja Copacabana corruptela de Socopenopan.

A imagem de Nossa Senhora, sob esta invocação, venerada na Misericórdia, veio muitos anos depois ocupar o pequeno monte, onde foi levantado o respectivo santuário. A devoção de Nossa Senhora de Copacabana nos veio do Peru, e a imagem da Virgem trazida por negociantes que comerciavam do Rio de Janeiro para o Peru, por via do Rio da Prata.

Situada nas proximidades da referida praia, a Lagoa de Rodrigo de Freitas teve a princípio o nome de Socopenopan.

Foi também conhecida pela denominação de lagoa Diogo de Amorim Soares, de Sebastião Fagundes Varella.

Não longe desta lagoa e por ordem do rei de Portugal, o governador Antônio de Salema construiu um engenho com o título de Nossa Senhora da Conceição, o qual, com vasta zona de terras, foi comprado por aquele a Diogo de Amorim e depois passou ao citado Varella.

Dos sucessores deste último passaram o engenho e as terras de Rodrigo de Freitas Castro, Fidalgo da Casa Real, falecido (segundo notícia da Gazeta de Lisboa) em 1748. De Rodrigo foram estes imóveis herdados por João de Freitas Castro, casado com D. Leonor Maria de Mello Pereira Sampaio, falecida em estado de viuvez, no ano de 1779.

Por morte dos dois tornaram-se proprietários do engenho da Conceição: Rodrigo de Freitas Mello e Castro, casado com D. Josepha Margarida Leonor Thomásia Cardoso de Menezes. Já viúvo, Rodrigo de Mello faleceu em 22 de dezembro de 1803. Dentre seus herdeiros ficou senhor do Engenho D. Maria Leonor de Freitas de Mello e Castro, mediante acordo feito com a irmã D. Maria do Ó.

O decreto de 13 de Junho de 1808 mandou incorporar o Engenho e terras da Lagoa, para ali se estabelecer uma fábrica de pólvora e oficinas de fundição de peças de artilharia e canos de espingarda.

Como é sabido, teve origem neste local o nosso Jardim Botânico. Para o competente processo de habilitação correram anos, e isso durou até 1826, conforme se lê na preciosa Collecção Nabuco. Somente em 1827 receberam os proprietários a quantia pela desapropriação de 42:193$430.

Conforme o processo de adjudicação tão vasta propriedade compreendia todo o distrito, que corre do Forte de São Clemente até o Morro dos Dois Irmãos, e do Nascente, tudo que corria desde a praia do mar até a Serra da Lagoa, inclusive a mesma Lagoa e pesca, que era privativa do Engenho, bem como todas as vertentes, desde suas nascentes, na Serra até suas barras, na Lagoa.

Seria longo dar todas as linhas divisórias. Constam de uma planta levantada pelo capitão Cony, ajudante de ordens do general Napioss, trabalho topográfico aproveitado por Gaicoux (1844), o qual mediu e demarcou este importantíssimo imóvel incorporado desde 1825 aos bens nacionais.

Em 1868, essa planta foi ainda adotada pelo engenheiro Francisco Pereira da Silva.

Estes terrenos eram foreiros à Câmara e pagavam de foro 6$500 anuais. O Governo remiu os foros, dando à Câmara 50 apólices da dívida pública, por escritura de 18 de dezembro de 1869, de conformidade com a disposição do artigo 14 da lei n. 1.245, de 28 de Junho de 1865.

O primitivo caminho para a Lagoa fazia-se contornando o Morro do Secretário, caminho do Pasmão, hoje Rua da Passagem, Rua Berquó, hoje General Polidoro. O último trecho dessa via de comunicação ficou inutilizado. Os transeuntes começavam então a servir-se do caminho de São Clemente, por meio da vastíssima propriedade do Dr. Clemente Martins de Mattos.

Ainda hoje nos fundos de um prédio particular, se encontra uma capela ereta por aquele Mattos, em honra de seu santo onomástico.

Thomas Ender – Fábrica de pólvora no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, vendo-se a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Capela de Nossa Senhora da Conceição.

Na praia, por onde trafegam os bondes da Light, existia a pedra santa. Inclinava-se para a estrada então beijada pelas águas da Lagoa. O príncipe D. João, quando ia visitar a fábrica de pólvora e depois Jardim Botânico, tinha medo de ver cair sobre si o grande penedo; no sítio da Piaçaba tomava uma galeota e com seus semanários evitava o perigo, fazendo o percurso por via marítima.

Esta pedra foi demolida para dar maior largura à estrada, que a pouco e pouco foi sendo melhorada, teve calçamento, iluminação, etc.

Em uma memória apresentada pelo Dr. Balthazar da Silva Lisboa ao ministro Martinho de Mello e Castro, escreveu em 1788:

“Segue-se a lagoa de Rodrigo de Fretas, aonde correm as águas da serra do Corcovado e D. Martha: tem dois terços de légua de comprido, um de largo; tem muito pescado; a sua pesca é particular.”

Que a lagoa se comunicava com o oceano, é fato provado. Pouco a pouco as areias foram-se acumulando e a barreta da comunicação desapareceu.

Para renovar as águas da Lagoa, abria-se anualmente profundo sulco e tinha-se o almejado fim.

Composta de águas doces e salgadas a Lagoa constituiu formidável pântano, prejudicando a salubridade das redondezas. Seu fundo, composto de algas e de lodo, dava lugar a emanações da pior espécie. A Câmara Municipal, no tempo do Império, com solicitude procurou sempre remover tantas causas de mefitismo. Não dispondo, porém, de largos recursos, nunca pôde conseguir o almejado desideratum de melhorar as condições desse paul, perigoso foco de moléstias, de acordo com os melhoramentos da higiene moderna.

Nesse intuito se têm apresentado vários projetos, sendo principais os do Barão de Tefé, de I. Revy, do engenheiro inglês W. Milnor Roberts, de Antônio Moreira Filho, de Limpo de Abreu, do engenheiro Hargreaves, do Dr. Francisco Alves de Lima Filho e outros.

Quem quiser minúcias sobre tais projetos, consulte, com vantagem a excelente monografia do Dr. Saturnino Cardoso, impressa em 1903.

É preciso, entretanto, completar estas notas com o que por parte da Prefeitura se tem feito, nestes últimos anos.

21 de Julho de 1914.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Lagoa Rodrigo de Freitas próximo ao Parque da Catacumba.

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