A Segunda Imperatriz

Gentilmente convidado pelo emérito artista Sr. Aurélio de Figueiredo, tive o prazer de contemplar o seu mais recente trabalho.

Refiro-me ao quadro histórico representando Dom Pedro I, no palácio da Boa Vista, entregando a Miguel de Frias Vasconcelos o decreto de abdicação, na madrugada de 7 de Abril de 1831.

Esta tela vai figurar em um dos salões da Prefeitura Municipal.

Do escrúpulo e consciência, com que Aurélio de Figueiredo estudou os documentos, jornais da época, retratos de vários personagens e, enfim, todos os detalhes para dar ao quadro, quanto fosse possível, toda a verdade, posso dar testemunho.

Nem é fácil, passados tantos anos, a um artista reproduzir fatos, cujas testemunhas desapareceram. Guiar-se só pela imaginação é um perigo, pois a crítica histórica implacável não o deixaria incólume. Vencidas todas as dificuldades, creio que o Sr. Aurélio terá o aplauso dos entendidos.

As figuras dos ministros, do imperador, de Frias são verdadeiros retratos. Quanto à execução artística não me compete, baldo de conhecimentos profissionais, analisar obra de tão grande fôlego.

Destaca-se porém na tela figura verdadeiramente empolgante, a da imperatriz Amélia, tendo sobre os joelhos o futuro Dom Pedro II. A esposa de Pedro I chora e em um lenço de fina cambraia enxuga sentidas lágrimas.

Sabia eu ter sido Dona Amélia aos dezessete anos, simpática senhora. Mas o laureado artista a representa tão formosa, que a gente sente-se comovido ante a desgraça a pesar sobre o espírito dessa atribulada esposa, naquela noite de angústias. Ela, que 18 meses antes aqui entrara em triunfo, saudada pelas aclamações do povo, via de repente as risonhas esperanças da vida converterem-se nas negras nuvens de iminente catástrofe.

Chega-se, ante atitude tão desoladora, a reprovar a revolução formada no Campo de Sant’Anna. Ante o espetáculo de tanta amargura, essas lágrimas em momento tão crítico exprimem quiçá o perdão da posteridade pelas faltas cometidas pelo primeiro imperador contra o povo, que o aclamou seu chefe e o fez seu Perpétuo Defensor.

Não são para estas ligeiras notas analisar o grau de desmoralização a que chegou Dom Pedro, pela sua conduta irregular, como chefe de família. Admira, porém, que, cercado de tantos varões de idade avançada, ilustres pelos talentos e serviços, não houvesse um que apontasse o bom caminho ao jovem imperador. Parece que naquela época o aulicismo tinha invadido todos os carácteres. Não seguiram a máxima de desobedecer do rei para melhor servir ao rei. Se o fizessem, quantos desastres morais não se teriam evitado, e a nossa História não registaria erros políticos, dando em resultado o divórcio entre a nação e o imperante e crises revolucionárias oriundas de ódios ruins e paixões mesquinhas.

Cansado de amores fáceis, Dom Pedro, viúvo desde 1826, resolveu tornar a casar. Com o fim de arranjar alguma princesa europeia foi comissionado o Marquês de Barbacena. À vista da vida irregular de Dom Pedro, vários monarcas recusaram a mão de suas filhas. Conhecido jurisconsulto, distinto colecionador de documentos, possui uma carta autógrafa, testemunho do referido. É escrita e assinada por Dom Pedro I, pedindo ao rei da Suécia a mão de uma de suas filhas. Foi naturalmente recusada.

Ao marquês impunha o imperador quatro condições: a noiva devia ser bela, inteligente, de nascimento ilustre e virtuosa. Depois de inauditos esforços, Barbacena conseguiu obter a mão de Dona Amélia Augusta Eugênia Napoleão, filha do príncipe Eugênio de Beauharnais (enteado de Napoleão e Duque de Leuchtenberg), e da princesa Augusta Amélia, filha de Maximiliano I, rei da Baviera, apontada pelos contemporâneos como a mais virtuosa e mais bela princesa do seu tempo.

Nascera a futura segunda imperatriz do Brasil em Munique aos 31 de Julho de 1812. Disse-me por vezes o Visconde de Barbacena que seu pai havia cabalmente satisfeito os desejos a Dom Pedro I. Dona Amélia, além de cheia de virtudes nunca desmentidas, era inteligente, ilustrada e de rara formosura. Em pouco tempo aprendeu a língua portuguesa; a sua conversação era animada e espirituosa. A todos encantava pelos dotes do coração. Sua beleza causou assombro a todos quantos pela primeira vez a viram.

O próprio Dom Pedro, apaixonado, compôs um soneto encomiástico aos dotes da sua gentil desposada, na primavera da vida.

Mello Moraes pai não se mostra muito simpático à nova consorte de Dom Pedro I. Pessoas amigas afirmam, porém, ter sido ela sempre a protetora dos pobres e desvalidos, não só aqui como em Portugal, quando o esposo descendo os degraus do trono foi, na terra de seus maiores, pugnar pelos direitos de sua filha Dona Maria da Glória, nossa patrícia, nascida no Rio de Janeiro de 1819.

Com as cerimônias do estilo foram em 2 de Agosto de 1829 celebrados os esponsais em Munique, na capela do palácio da princesa viúva Dona Augusta da Baviera, mãe da noiva. No dia 4 partiu a comitiva para o porto de Ostende, de onde saiu a 25, a bordo de um barco de vapor. Em 27 chegou Dona Amélia a Portsmouth. Ali as fragatas brasileiras Imperatriz e Isabel aguardavam a desposada de Dom Pedro I. Embarcou no primeiro navio trazendo em sua companhia Dona Maria da Glória, a qual voltava ao Brasil por ordem de seu progenitor e para escapar a dificuldades e intrigas diplomáticas.

Em 16 de Outubro as salvas das fortalezas da barra anunciavam a chegada dos régios viajantes.

Dom Pedro I embarca em um pequeno barco de vapor e vai ao encontro da tão esperada esposa. Demora-se a bordo até à tardinha e regressa para a Quinta da Boa Vista. Nesta noite houve iluminação geral da cidade.

A população ansiosa aguardava o dia seguinte, destinado às bênçãos nupciais. Às 10 horas da manhã, embarca o imperador no galeão Dom João VI e dirige-se para bordo da fragata Imperatriz.

Ao meio-dia desembarca no Arsenal de Marinha.

Em coches da casa imperial, saiu o cortejo, com a pompa do cerimonial.

Além de Dona Maria da Glória, fazia parte da comitiva o príncipe Dom Augusto, depois Duque de Santa Cruz, irmão de Dona Amélia e futuro esposo da mesma Dona Maria, rainha de Portugal. Celebradas as cerimônias do ritual foi entoado pelo bispo solene Te-Deum, alternado, sendo a música composição do próprio Dom Pedro. Houve jantar de gala no Paço da Cidade.

Chovia a cântaros. Apesar do mau tempo o povo enchia literalmente o antigo Largo do Paço, procurando ver os monarcas e admirar a jovem imperatriz, que graciosamente correspondia às saudações.

As deslumbrantes iluminações particulares duraram muitos dias.

Não estando de todo acabados os monumentos construídos, adiou-se a iluminação deles para o dia 24, em que os imperantes deviam assistir, no Arsenal de Marinha, ao ato de ser lançada ao mar a corveta Amélia. Na noite desse dia assistiram os recém-casados a espetáculo de gala no teatro São Pedro.

Entre os monumentos erguidos então, tiveram a palma um arco de triunfo, perto da porta do Arsenal de Marinha, homenagem da Armada Nacional. Na Rua Direita, canto da dos Pescadores, outro arco, devido aos negociantes desta localidade. Outro no canto da Rua do Sabão, lembrança de negociantes alemães. Mais um, perto da Igreja do Carmo, mandado fazer por uma subscrição particular. No Largo de São Francisco, os franceses, auxiliados pelo almirante Grivel, fizeram levantar alta coluna imitando a de Trajano, em Roma. No fim da Rua dos Ciganos para o Campo, não ficaram os ingleses suplantados. Um largo arco triunfal ocupou toda a largura da rua. O Rocio pelos negociantes da Rua do Rosário fora transformado em belíssimo jardim. No Largo do Palácio, próximo ao cais, erguiam-se dois templos, um dedicado ao Amor e outro ao Himeneu, obra do arquiteto francês Grandjean de Montigny. Foi homenagem prestada pela Guarda de Honra. Quem quiser melhor conhecer minúcias de todas as festividades, leia o opúsculo nesse tempo publicado por Pedro Plancher Seignot.

Para comemorar o seu segundo casamento o imperador criou a Ordem da Rosa. Tinha por lema Amor e Felicidade. A cor de rosa tornou-se moda. Vestidos das senhoras, coletes de homens, laços de gravata tudo era feito com fazendas dessa cor. Foi mania, como qualquer outra.

Passaram como nuvens fugazes os dias de alegria da jovem imperatriz. Da infelicidade ela já sofrera duros golpes. Vira seu pai abandonar o trono de Milão e seguir os destinos de Napoleão, que o arrastou na queda.

Pouco tempo depois de casada escapou Dona Amélia do morrer, devido a um desastre ocorrido na Rua do Lavradio e causado por imprudência de Dom Pedro I. Depois teve de descer os degraus do trono brasileiro, arrebatado pela revolução. Em 24 de Setembro de 34 viu morrer seu marido aos 36 anos de idade, não tendo de todo consolidado a vitória da causa liberal. O irmão Dom Augusto casa com Dona Maria II. Um ano depois ficava esta viúva. Tuberculosa e na flor da idade morre a princesa Dona Maria Amélia, único fruto do consórcio com o ex-imperador. Em 1853 assiste ao falecimento da rainha de Portugal. Depois seguem-se os quatro falecimentos prematuros da rainha Dona Estefânia, esposa do rei Dom Pedro V, e dos irmãos do dito monarca, os infantes Dom Fernando e Dom João, todos três netos de Pedro I. Tantas desgraças não lhe abateram o ânimo. Conservou-se viúva, vivendo de recordações e de saudades e exercendo a caridade. Faleceu a 26 de Janeiro de 1873 em Lisboa no Palácio das Janelas Verdes, propriedade outrora de Salvador Benevides, governador, que foi por três vezes da Capitania do Rio de Janeiro. Morreu a ex-imperatriz de uma lesão do coração.

Eis a vítima da adversidade, que o pincel de Aurélio de Figueiredo reviveu, e cujo, martírio moral começou nessa noite memorável, conhecida pelo nome Noite de agonia.

Domingo, 24 de Setembro de 1911.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • A abdicação do primeiro Imperador do Brasil, D. Pedro I, por Aurélio de Figueiredo, via Wikimedia Commons.

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