Águas do Monte

(1811)

Quem se lembra, hoje, mesmo quando ronca a trovoada, de Santa Bárbara e São Jerônimo, advogados contra relâmpagos, raios, coriscos e tempestades? Entretanto, em tempos idos, foram esses santos objeto, entre nós, de profunda devoção!

Rara era a casa que, em oratório, não possuísse as imagens dos dois bem-aventurados. Desses móveis havia-os e de muitas qualidades: desde a simples caixa de pinho com suas portas, encimada por simples cruzinha, até os luxuosos – feitos de jacarandá, com magnífica obra de talha, guarnições e puxadores de prata.

Ao fuzilar do primeiro relâmpago, ricos e pobres prostravam-se ante as miraculosas efígies, implorando a intervenção delas junto ao trono do Criador.

Acendiam-se velas bentas, que assim eram conservadas enquanto durava o perigo. Passado este, tudo voltava ao antigo estado, e todos esqueciam Santa Bárbara e São Jerônimo, para deles se lembrarem no dia seguinte, se por acaso no horizonte se apresentavam sinais de nova trabuzana.

E isto era quase infalível, porque das observações de Bento Sanches Dorta e de outros resulta que as trovoadas, acompanhadas de fortes aguaceiros, eram muito mais frequentes outrora do que em nossos dias.

Várias têm sido as causas assinaladas pelos competentes para explicação desse fato.

Não vem aqui a pelo referi-las, pois isto nos afastaria do nosso fim principal. Calculando pelo que ainda hoje se dá, poderemos imaginar o que seria então o Rio de Janeiro – logo depois de uma enxurrada.

Situada parte da cidade em plano inferior ao do mar, e recebendo as grandes massas d’água que desciam dos morros, máxime do Castelo e Santo Antônio, apresentava-se ela, em poucos minutos, completamente inundada.

Os primitivos fundadores haviam, é verdade, conservado ao longo das ruas, valas e valetas para escoamento das águas pluviais. Com o andar dos tempos esses meios de esgoto foram desaparecendo, e ao findar do século XVIII só existiam a vala, que corria na direção da rua, hoje, de Uruguaiana, e a que deu o nome à atual Rua Sete de Setembro, antigamente do Cano. Além dessas havia outras, mas todas insuficientes ao mister pelas tortuosidades, pouco declive e pela aglomeração de imundícies nelas arremessadas e pouco a pouco acumuladas. É tudo isso perfeitamente descrito nos pareceres dos médicos consultados, em 1799, pelo Senado da Câmara com o fim de estudar os meios de modificar as condições higiênicas da cidade e explicar a natureza e causas das diversas endemias e epidemias reinantes.

O povo, porém, desde longa data, habituara-se às tremendas trovoadas que, em tempo de calor, se desencadeavam sobre a antiga São Sebastião. As do Norte, principalmente, eram poucas e fortes, e sempre acompanhadas de medonhas descargas elétricas. As longas e constantes descrições, que nos dão hoje os jornais sobre o alagamento das nossas ruas, o desabamento desta ou daquela casa ou muro velho, o transbordamento do canal do Mangue e o arrastamento do barro dos morros, eram, para nossos maiores, fatos comezinhos, a que desde muito se haviam acostumado. E porque, nesses bons tempos, não havia imprensa, é-nos hoje impossível conhecer as minúcias dos fatos ocorridos. Entretanto, compulsando velhas crônicas, podemos conhecer, além dessas inundações, os sustos de desastres por elas produzidos e calcular os prejuízos causados em tão longa série de anos.

Assim, por exemplo, refere Balthazar Lisboa:

“As trovoadas ocasionavam na cidade grandes inundações.

Em 14 de abril de 1756, depois de 1 hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa chuva, precedida de veementes concussões do ar e espantosos furacões, por três dias, sem interrupção, que o temor e o susto se apoderou de tal sorte do ânimo dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as quais caíram, fugindo sem tino para as igrejas; desde então as águas cresceram por tal maneira, que inundaram a Rua dos Ourives e entraram pelas casas dentro, por não caberem pela vala. No dia 15, saindo o Santíssimo da Sé, o sacerdote, que levava o Senhor, foi descalço, e bem assim os irmãos da Irmandade do Santíssimo; todo o campo parecia um lagamar, vadeavam-se as ruas de canoas, no dia 16 uma navegou desde o Valongo até a Sé (que estava na igreja do Rosário, dos pretos) com sete pessoas.”

Por muito tempo perdurou na tradição carioca a lembrança da sinistra noite de 21 para 22 de setembro de 1711.

Foi no tempo da invasão francesa capitaneada por Duguay-Trouin. Forçada a barra do Rio de Janeiro e apoderando-se da ilha das Cobras. Iniciou o célebre marítimo o bombardeio da cidade.

“Noite espantosa, noite terrível (diz testemunha ocular)! O seu silêncio repentinamente se perturba pelas descargas de toda a artilharia. Ao mesmo tempo se cobre o céu com horrorosa tempestade. O fogo dos relâmpagos se confunde com o fuzilar dos canhões, e o ribombar destes junto aos formidáveis estrondos dos trovões repercutindo pelos ecos das montanhas davam aos míseros habitantes a sinistra ideia do fim do mundo.” “Estes (acrescenta insuspeito contemporâneo), se foram metendo por esses caminhos e matas, onde se se houveram de individuar os desarranjos, fomes, mortes de crianças, desamparo de mulheres e toda a qualidade de misérias, fora um nunca acabar. Mulher houve que se achou morta abraçada com uma criança de peito, e outra assentada junto dela, à qual perguntando-se, o que fazia ali, respondeu: estava esperando que sua mãe e irmã acordassem. Ajuntando-se a mais terrível noite de chuva e escuridão, que pôs os caminhos de sorte que em algumas pontes se passava com água pelos peitos, e pareciam os passageiros o espetáculo do um naufrágio.”

Contam os antigos: em certa Quarta-feira de Cinzas caiu tão repentina trovoada acompanhada de chuva torrencial, que pôs em debandada a procissão, que saíra da Ordem da Penitência. Alguns andores foram conduzidos para a Cruz e Candelária, ficando O Santo Lenho no oratório de dona Joanna Maria, na Rua dos Pescadores.

Tornaram-se tradicionais as chuvas que caíram nos primeiros tempos do governo de Luiz de Vasconcellos, chegando a arrombar os encanamentos do aqueduto da Carioca. As da célebre noite do enterro do príncipe D. Pedro Carlos, genro de D. João, também ficaram memoráveis. As tropas marcharam de São Cristóvão até ao Convento de Santo Antônio com água acima dos joelhos, e o fardamento delas, de propósito feito para tal cerimônia, ficou completamente estragado! As trovoadas, por ocasião da aclamação de D. Pedro I, bem como o medonho aguaceiro da tarde de 30 de março de 1862, logo após a inauguração da estátua equestre do 1º imperador, também merecem ser lembrados.

São de nossos dias os desmoronamentos do Morro do Castelo, em 6 de Janeiro de 1860, em que desapareceram as varandas construídas pelo coronel Gabizo, junto ao jardim da antiga fortaleza. São de recente data as enxurradas de 1896, que causaram o desmoronamento de várias casas da antiga ladeira do Carmo e a ruína total da grande chaminé de uma serraria da Rua da Misericórdia, bem como a da célebre noite de 11 de maio de 1897, em que teve lugar o baile dado no Itamarati, em honra aos Chilenos.

Nunca se me apagará da memória o espetáculo de ver muitos convidados de casaca e claque, molhados como pintos, calças arregaçadas, levando à mão as botinas e sapatos rasos!

Mas tudo foi nada, comparado às célebres águas do monte (10 a 17 de fevereiro de 1811). Depois de tremenda trovoada choveu incessantemente durante sete dias.

Os rios das redondezas da cidade, avolumando por maneira nunca vista o contingente das águas, inundaram completamente os arrabaldes.

Os Campos dos Ciganos e de Santa Anna tornaram-se verdadeiro mar de água barrenta.

A enchente levou diante de si todas as pontes de madeira, inclusive a da Bica dos Marinheiros, por onde transitava o príncipe regente, e inutilizou o chamado caminho das lanternas, na direção da atual Rua Senador Euzébio. O que seria então o célebre Mangue de São Diogo, é fácil de imaginar pelo que ainda hoje observamos no ano da graça de 1903. As ruas da cidade velha transformaram-se em verdadeiros rios caudalosos navegados por muitas canoas de pescadores. O chefe do Governo ficou isolado na chamada Quinta da Boa Vista, antiga propriedade de Elias Antônio Lopes. Foram sem conta os desabamentos de casas antigas e casebres, máxime da Rua da Vala para o Campo. Esta teve os lajedos, que a cobriam, completamente deslocados, procurando as águas sair pelas ruas que vão ao mar.

Desabou grande parte da barreira chamada do Povo (Morro de Santo Antônio). As igrejas e capelas estiveram sempre abertas, acesos os altares, e os sacerdotes entoavam preces para cessação de tão tremenda calamidade. O povo corria para ali espavorido, pedindo a proteção divina. Na Rua da Ajuda, refere Meneses, o velho cirurgião do Exército, as águas barrentas do Castelo jorravam pelas janelas dos primeiros andares. Crer-se-ia a reprodução de novo dilúvio universal, se no Velho Testamento não estivesse exarada a solene promessa de Deus, feita a Noé, de que jamais destruiria o mundo por meio d’água.

Por falta de dados especiais não podemos hoje calcular o número de vítimas. Houve-as e em grande número. A aba do Morro do Castelo, que olha para a ilha das Cobras, derrocou-se em grande parte, causando a total destruição de quase todas as casas do antigo Beco do Cotovelo. Nas ruínas ficaram sepultados vários indivíduos, inclusive o célebre Bitu, como já mostramos em anteriores apontamentos.

Muito sofreram nessa ocasião os terrenos junto à fortaleza do Castelo, os quais, em 30 de junho de 1808, o Capitão Pedro Cypriano de Abreu Lima comprara ao padre Joaquim José Saldanha, dividindo, por um lado com a Ladeira do Colégio e pelo outro com a Rua da Ajuda, com os herdeiros do capitão-mor Anacleto Elias da Fonseca. Nessa chácara, conhecida pelo nome de seu último proprietário, Dr. Salles Rosa, e, antes de Antônio Fernandes Coelho, estabeleceu o Dr. Bento Mure uma casa de saúde para tratamento das pessoas que se quisessem medicar pela homeopatia.

Passada a tremenda crise, e receoso o príncipe regente de algum desabamento, mandou arrasar parte da muralha do antigo forte de São Sebastião.

Em todas essas terríveis emergências, contou sempre D. João com o zelo e atividade do infatigável Paulo Fernandes Vianna, intendente geral da Polícia. Data desse tempo o projeto do arrasamento do Morro do Castelo, ideia que, patrocinada pelo bispo Azeredo Coutinho, tem sido até nossos dias verdadeira utopia. Sobre a utilidade higiênica estão todos de acordo. Somente o eminente historiador Varnhagen se alistou na oposição.

“A demolição (diz o Visconde de Porto Seguro) seria obra gigantesca, dispendiosa e que, longe de utilizar, como ainda hoje se crê, iria quanto a nós fazer a cidade mais monótona e menos fresca do que se em suas encostas se plantassem árvores, destinando-as para passeio público da Cidade, – local mil vezes preferível a esse outro sombrio e abafadiço, bem que junto ao mar, com que tanto se tem gasto e ao qual melhor fora derrubar os muros que o cercam, reduzindo-o a uma simples alameda (só de árvores e sem jardins), transitável às carruagens e gente a cavalo, sobretudo se pelo lado do mar e da igreja da Lapa se lhe abrisse passo à calçada, que dominando a praia vai à Glória.”

O conselho não pegou, nem cremos pegará. Contra isso protestariam os manes de Luiz Vasconcellos, do mestre Valentim, do Xavier dos Pássaros e do Xavier das Conchas, duas entidades distintas que muita gente reúne em um só indivíduo!

17 de fevereiro de 1903.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Morros do Castelo Santo Antônio no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional“.

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