Ajuda

Protetora dos homens do mar sob a invocação de Nossa Senhora d’Ajuda, não admira fosse levantada nesta cidade, apenas se fundou, modesta ermida desse título, por devotos marinheiros – que frequentavam o nosso porto.

Que existiu antiga irmandade, não há a menor dúvida, porquanto, segundo lemos nas Publicações do Archivo Publico, tomo 1º, encontramos um requerimento (1688) da confraria, pedindo privilégio, afim de ter tumba própria para o enterro dos confrades, independente da que fornecia a Misericórdia, a qual, como sabemos, pertencia o serviço funerário.

Antigo Convento da Ajuda na Cinelândia – P. G. Bertichem – 1856

Juízes desse sodalício foram os governadores João da Silva e Sousa, Luiz César de Meneses e Duarte Teixeira Chaves, que partindo para a colônia do Sacramento levou a bordo do navio, que o conduzia, pequena imagem da Senhora d’Ajuda, igual em tudo a que era venerada na antiga capela.

Entre os bens patrimoniais a ela pertencentes contavam-se, legadas por José Serrão e Manuel do Rosário, terras situadas em Campos, constantes dos currais de Mandú, do Aleixo do Jacaré, do Sacco e dos Culumins.

Entretanto, segundo conta o autor do Sanctuário Marianno (frei Agostinho de Santa Maria) foi esta Senhora (d’Ajuda) “servida com muita grandeza; porque os cristãos novos, de cujos corações não acaba de cair aquele véu da sua obstinação, que os tem cegos, os quais ou por enganarem, aos verdadeiros e fiéis cristãos limpos daquele péssimo sangue, ou por se justificarem, lhe faziam grandes festas e lhe solicitaram um solene jubileu.” Descobrindo-se porém, que os descendentes dos Judeus dedicavam tal culto a certa Maria de Judá, foram perseguidos e presos.

Todos quantos têm copiado frei Santa Maria nada adiantaram sobre tão extraordinário fato.

Dos Dialogos Geographicos e Chronologicos de José Barbosa de Sá, escritos da Vila do Bom Jesus de Cuiabá (1769), manuscrito da Biblioteca do Porto e do qual existe cópia no Instituto Histórico, colhemos mais alguma causa. O corifeu dessa profanação foi um certo Alexandre Rodrigues Flores, e entre os perseguidos pela Inquisição contaram-se médicos, negociantes, advogados e até sacerdotes, cujos nomes devem figurar nas listas dos condenados pelo Santo Ofício (1707-1712), impressas na Revista do Instituto e enviadas a esta associação pelo historiador Varnhagen.

Sobre a criação do antigo Recolhimento e Convento da Ajuda, além do que referem Balthasar Lisboa, Pizarro, Mello Moraes e Moreira de Azevedo, encontramos, no códice pertencente ao arquivo do Instituto Histórico, Consultas do Conselho Ultramarino (1674-1700), os seguintes e curiosos subsídios:

Desejando o povo desta cidade fundar convento para mulheres, a exemplo do que já existia na cidade da Bahia, e sendo prelado Manuel de Sousa e Almada, não foi por diante tal projeto, apesar das muitas esmolas recolhidas. O sucessor de Almada, Francisco da Silveira Dias, e seu irmão frei Cristóvão da Madre de Deus, guardião do Convento de Santo Antônio, procuraram ao menos estabelecer um Recolhimento, o qual foi concluído em dois meses, junto à antiga capela d’Ajuda; a ele se recolheram Dona Cecília, viúva, filha do mestre de campo Luiz Barbalho Bezerra e irmã de Jerônimo Barbalho. Fernando Barbalho e Agostinho Barbalho com três filhas e duas meninas de famílias distintas.

Essas senhoras receberam, o título de conversas. Logo em seguida a Câmara dirigiu à metrópole um requerimento para fundação de um mosteiro. Ouvido o Conselho, negou este a licença, alegando que o convento da Bahia sofria misérias, e as religiosas dele, pela exiguidade de meios, padeciam até fome! Pretextava Dona Cecília a impossibilidade de casar bem no Rio de Janeiro suas filhas e dificuldade de as enviar a Portugal pelos riscos da viagem, como se no Rio de Janeiro não houvesse mancebos dignos das descendentes dos Barbalhos!

Sem esperar resposta de Lisboa, sendo governador Mathias da Cunha, era lançada a pedra fundamental do novo convento.

Em carta de 22 de Junho de 1679 renovou a Câmara seu pedido, alegando haver Dona Cecília oferecido toda sua fortuna para realização de seus desejos. Ouvido ainda o Conselho em 23 de Novembro, o procurador da coroa foi de opinião se negasse o consentimento, pois que nas colônias era necessário o aumento das povoações, e para este era de mais conveniência o estado conjugal, em que se podia fazer a Deus muitos serviços. Salvador Benevides, antigo governador do Rio, foi de parecer que continuasse apenas o Recolhimento, tendo sempre em vista os fatos da Bahia.

Em Julho de 1694 volta de novo à Câmara, já então amparada pelo prestígio do reitor dos Jesuítas, o padre Francisco de Mattos, que para subvenção da nova casa religiosa pedia à metrópole um peixe da pescaria das baleias. O Conselho, em sessão de 16 de Outubro de 1694, sustentou a ideia da continuação apenas do Recolhimento, sujeitando-o, todavia, à jurisdição do governador, independente do bispo, ampliando a idade para o ingresso (de 12 a 40 anos) e dando licença às recolhidas para sair quando suas famílias quisessem. Tudo isso à custa dos recursos dos habitantes, sem subvenção alguma do Governo, inclusive a da baleia, pois não era licito defraudar as rendas públicas!

Continuaram as coisas neste pé até que, a pedido do Bispo Dom Frei Francisco de São Jerônimo, foi permitida a construção de um convento de religiosas pela provisão de 11 de Fevereiro de 1705, assinada pela rainha Dona Catharina, viúva do rei da Inglaterra e regente de Portugal, na moléstia do irmão de Dom Pedro II.

Por esta lei foi concedido o ingresso a 50 freiras, podendo contemplar-se nesse número algumas das conversas. “As freiras não podiam herdar nem adquirir bens por título algum, seriam dotadas vitaliciamente, dando-se para sustento anual de cada uma 80$, cuja quantia se estabeleceria em bens seguros e permanentes para não sofrerem diminuição, e por morte de cada uma passaria à casa de seus pais, parentes ou pessoas, as quais se devesse o dote fixado. O convento seria sujeito ao Ordinário, as freiras professariam a regra capucha e não teriam criadas consigo, por ser assim conveniente ao serviço de Deus.” (Moreira de Azevedo).

Para não tornar prolixos estes simples apontamentos, não mencionaremos aqui os embaraços criados pelo Cabido, até que o bispo Dom Frei João da Cruz ajudou a Câmara em novo pedido ao rei, e obtida afinal definitiva faculdade régia, lançou nova pedra fundamental, em lugar diferente do antigo. Esse prelado fez aquisição de diversos terrenos, como se verá quando escrever notas sobre a topologia do antigo bairro d’Ajuda, baseadas em velhos documentos autênticos, já de difícil leitura.

Tomando conta da diocese o bispo Dom Frei Antônio do Desterro, concluiu em quatro anos a maior parte do edifício, dedicando-o à Conceição de Nossa Senhora, sob o título da Ajuda. A antiga ermida foi demolida. Esteve ela para dar pousada aos Capuchinhos italianos, em 1738; mas a Câmara protestou, e esses religiosos que andavam também sempre de Herodes para Pilatos obtiveram (1739) hospício próprio, na rua hoje Evaristo da Veiga, por isso chamada dos Barbonos, no local em que está hoje o quartel de Polícia.

Conforme vimos em antiga crônica, o risco do novo convento foi dado pelo engenheiro brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim.

Obtido o breve pontifício de 24 de Janeiro de 1748, tratou o bispo de receber as novas religiosas, admitindo-as à profissão da regra de Santa Clara.

Vindas da Bahia quatro freiras do Convento do Desterro (diz Mello Moraes pai), com elas começaram seu noviciado as recolhidas d’Ajuda.

Em 28 de Maio de 1751 realizou-se a primeira eleição, sendo eleitas: abadessa, a madre Maria Leonor do Nascimento; vigária, a madre Marianna da Penha de França, mestra de noviças, a madre Catharina dos Anjos, e porteira, a madre Francisca Custódia das Chagas.

Muita gente que passa pela frente do Convento d’Ajuda ignora o que significa sobre a entrada da portaria a existência de um chapéu – encimando antigo brasão –; são as armas do bispo Dom Frei Antônio do Desterro, e o chapéu distintivo episcopal.

O que não pode continuar é o estado vergonhoso do terreno do lado do Passeio Público, compreendido entre os dois ressaltos do edifício. Esse terreno, hoje verdadeiro esterquilínio, pertence às religiosas e foi cedido, no tempo do intendente geral da Polícia Paulo Fernandes Vianna, para ali se estabelecer a 3ª companhia da guarda da Policia; e o Governo que considera próprio nacional essa pequena nesga de terra, nem a beneficia nem a entrega às suas legitimas proprietárias!

Não falaremos também da desapropriação da antiga cerca do convento, por onde hoje corre a rua do Senador Dantas. É assunto de história moderna, sendo preferível tratar das coisas mais alegres, ainda que antigas, como por exemplo das festas inaugurais do convento, cuja descrição sucinta encontramos na Gazeta de Lisboa (1750), e cujas minúcias lemos, há anos, em duas memórias anexas ao velho livro de tombo d’Ajuda.

Convento de Nossa Senhora da Ajuda em Vila Isabel

Antes, porém, daremos os nomes dos cidadãos que auxiliaram os bispos nas obras do convento, como administradores delas; quem sabe se os leitores não encontrarão entre eles o de algum de seus antepassados? – João Carneiro da Silva, Lourenço Antunes Vianna, José Duarte Figueiró, Braz Vianna, Manuel dos Santos Pinto, Antônio Rodrigues Souto, João Martins Britto e Ignácio da Silva Medella.

As religiosas vindas da Bahia aqui chegaram às 3 horas da tarde de 21 de Novembro de 1749, sendo o navio que as conduzia saudado por salva das fortalezas.

O governador interino Mathias Coelho da Cunha (na ausência de Gomes Freire de Andrade) mandou seu filho o capitão Paulo Caetano e o juiz de fora Dr. Luiz Antônio Rozado da Cunha, no bergantim oficial, cumprimentá-las e receber ordens.

O bispo, que estava no Rio Comprido, em seu palácio (hoje Seminário Arquiepiscopal), permitiu o desembarque, que se efetuou já de noite.

A abadessa foi conduzida em cadeirinha e as outras religiosas em seges, acompanhadas por uma guarda de honra.

Foram-lhes destinados aposentos no Hospício da Terra Santa, onde às 10 ¾ chegaram, sendo cumprimentadas por todas as pessoas gradas da cidade. Houve iluminação, sobressaindo as da casa do capitão João Mascarenhas Castelo Branco, o qual, para obsequiar as recém-vindas, organizou em sua residência uma serenata ou concerto composto dos mais afamados músicos do Rio de Janeiro.

Regressando ao Rio Gomes Freire, realizou-se a inauguração do convento no sábado, 30 de Março de 1750. A abadessa, por doente, recolheu-se à Ajuda, e as outras foram para S. Bento, de onde devia sair a solene procissão.

Desde pela manhã formavam as tropas da guarnição, incluindo a companhia dos estudantes. Folhas de mangueiras pelas ruas, colchas de damasco nas janelas, grande alegria e contentamento do povo, foguetes, descargas das tropas e repique incessante dos sinos. O préstito, formado por todas as irmandades e ordens terceiras, pelo clero regular e secular, percorreu várias ruas em direção à Ajuda.

O novo convento esteve exposto durante o dia. O bispo mandou celebrar um tríduo, em que tomaram parte Jesuítas, Beneditinos, Franciscanos e Carmelitas, havendo missas cantadas, pontifical, sermões e Te-Deum, final. Dom Antônio do Desterro permaneceu durante três dias no Seminário de São José, onde foi cumprimentado pelo clero, nobreza, e povo, tratando a todos com o maior afeto e urbanidade. Gomes Freire foi incansável, e à sua custa mandou armar um elegante palanque ali perto do ponto onde está hoje o Conselho Municipal. Nele (palanque) foi representada uma comédia de Metastasio.

Na igreja d’Ajuda, que, segundo o padre Luiz Gonçalves dos Santos, nos princípios do século passado XIX era de telha vã, guardavam-se os cadáveres da infanta Dona Marianna e da rainha Maria I. E foram eles mais tarde transladados para Portugal, em 1821, quando o rei Dom João VI se retirou para Portugal. O túmulo, que serviu para Dona Maria I, guarda hoje o cadáver da primeira imperatriz Dona Maria Leopoldina [1]. O desenho desse modesto monumento pode ser visto na obra de Debret. No coro baixo também estão os sarcófagos da princesa Dona Paula, falecida em 1833, e o da filha primogênita do Sr. conde d’Eu.

No tempo da revolta, foi a Ajuda alvejada por diversas balas, causando uma delas grandes avarias no templo e convento; estes ultimamente passaram por grandes e importantíssimas reformas.

Hoje a igreja d’Ajuda é considerada uma das mais belas e suntuosas desta capital.

É digna de ver-se a imagem de Nossa Senhora da Piedade. No domingo, 8 de Julho de 1900, depois de restaurado, foi o templo aberto ao culto para celebração da festa do Coração de Jesus, e em 5 de Agosto desse mesmo ano teve lugar a festividade da Padroeira, pontificando o atual sr. arcebispo.

O muito que falta nestes apontamentos será fartamente suprido por alguém muito habilitado, que, segundo sabemos, está escrevendo a história completa da igreja e convento de Nossa Senhora da Conceição d’Ajuda.

15 de Julho de 1902.

Nota

  1. Os despojos da Imperatriz Leopoldina que estavam no convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, foram transladados em 1954, nas comemorações dos 400 anos da Cidade de São Paulo, para a Cripta Imperial do Monumento à Independência. Fonte: Cripta e Coração Imperiais, por Giane Brandão – Equipe Cemiteriosp.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

Mapa – Convento de Nossa Senhora da Ajuda na Cinelândia (atual Cinema Odeon) e na Praça Barão de Drumond em Vila Isabel