As Cadeirinhas

Les dieux s’en vont! – Tudo no mundo fenece! Tais as exclamações que soltei ao ver parada junto da escadaria da Santa Casa uma cadeirinha de cortinas de chita, muito suja e desconjuntada, da qual eram carregadores dois tipos vulgares e que fumavam cigarros permanentes, pensando naturalmente na morte da bezerra.

Não eram assim os Godos de Oeste, dizia o Herculano, no seu Eurico; não eram assim, repetirei, as cadeirinhas do meu tempo.

Essa que vi é um tipo degenerado; não tem o chic e a elegância das outras; só sai furtivamente à rua para conduzir doentes, esconde-se lá para as bandas da Rua da Imperatriz e nem deveria figurar no orçamento municipal.

Não tendo à mão o Larousse, não posso dizer se as cadeirinhas são invento dos Mouros, dos Fenícios, dos Hebreus, et reliqua.

Sei que existem há muitos séculos na Espanha e em Portugal.

Daí passaram ao Brasil, sendo usadas na Bahia, onde, até hoje, gozam do direito de cidade, e apesar de lá haver o célebre parafuso do Lacerda e outros.

Aqui na nossa cidade, usou-se e abusou-se das cadeirinhas, como ainda hoje se usa e se abusa dos bondes. Era o sestro da época.

Não havia família, mesmo remediada, que não tivesse a sua cadeirinha, a qual era guardada suspensa por meio de roldanas, no teto do corredor.

Em muitas casas desta capital se encontram vestígios dessa usança, como testemunhas desse luxo dos nossos maiores.

Havia dois tipos mais notáveis: um era a cadeirinha, ou antes palanquim, em forma de um coupé moderno, tendo varais levantados por meio de correias, que passavam pelo cogote dos carregadores. Delas podemos apreciar, como espécime, a luxuosa cadeirinha que figura em um dos grandes quadros que tem de aparecer no teto da Candelária, pintados pelo ilustre artista Zephyrino. Tais eram os ornatos de ouro e prata desses veículos, tais as cortinas de veludo e seda, que a pragmática do marquês de Pombal pôs embargos a tanta despesa, cortando-lhe as demasias. Bom tempo em que o Governo, como pai de todos, e como tutor do Zé Povinho, não queria que este gastasse muito cobre com coisas que prejudicavam a pureza de costumes.

Do segundo tipo de cadeirinhas, das que eram mais usadas e que chegaram aos nossos dias, encontramos exata cópia nos desenhos da obra de Debret sobre o Brasil. Eram carregadas ao ombro de valentes negros, escolhidos a dedo e vendidos como parelhas de bestas, que usavam exóticas librés e eram tratados a vela de libra pelos senhores. Havia-os tão peritos e certos na andadura, que uma pessoa sentada podia levar à mão um copo cheio d’água e esta, apesar do movimento cadenciado, não transbordava.

Casamentos e batizados, tudo era feito a cadeirinha.

Em uma, no primeiro caso, ia a noiva e em outra a madrinha. O noivo e os convidados iam a pé. Nos batizados, ia a ama com a criança dentro da tal história, e os progenitores e dindinhas caminhavam ao lado, com ar grave e solene.

Dizia a crônica que o humilde autor desta arenga foi levado à pia batismal conduzido em cadeirinha de cortinas de cetim azul, tendo na cúpula uma grande pomba de asas abertas.

Também a viagem era curta e não devia ter cansado os convidados. A igreja era ali a de São José; a data, (nota para os meus biógrafos) o ano da graça de 1847. Não sou pois muito velho.

Quem quiser ter melhor idéia do que eram as cadeirinhas no Rio de Janeiro é ler as Memórias de um sargento de milícias, do sempre lembrado Almeida, vítima do naufrágio do vapor Hermes.

Há nesse romance uma senhora Dona Maria, célebre demandista, que por dá cá aquela palha não dispensava a clássica cadeirinha. Apesar de ter sido moda, conheço senhoras velhas, que nunca se puderam ajeitar a esse meio de transporte e preferiam caminhar “calcante pede” a se meterem em tal caranguejola. Enjoavam e vomitavam, como se estivessem a bordo de qualquer embarcação.

Era uma idiossincrasia, como se diz hoje, em linguagem puxada á sustância. Também não havia muitas |s, nem seges, e as poucas que havia eram dos fidalgos ou de gente de sangue azul.

A propósito, é certo que os governadores e vice-reis tinham o seu coche.

Bobadela ofereceu o seu à madre abadessa que veio da Bahia, com algumas companheiras, para fundar o convento da Ajuda; isso no dia da inauguração, que foi, segundo li, dia de grandes festas, havendo até uma representação teatral em um palanque armado junto à porta, onde se vê ainda hoje um chapéu de bispo, o qual fazia parte das armas de Dom Antônio do Desterro, Luiz de Vasconcellos tinha também o seu carro, ou antes traquitana, puxado por quatro bestas, indo o cocheiro montado em uma delas.

Isso vê-se ali nos quadros do Fogo do Parto, no coro inferior dessa igreja, Rua de São José, esquina da Rua dos Ourives, onde se diz missa todos os dias de preceito ao meio-dia. A coisa é digna de ser vista e vale a pena.

O conde de Resende dava-se ao luxo de andar de carro, e para ir à Ópera de Manoel Luiz, que distava poucos passos do palácio, mandava dar uma volta pelo largo, sustentando a dignidade do cargo.

Era uma mania como qualquer outra.

Pois hoje não há sujeitos que mandam parar o bonde no largo da Carioca para saltar no largo do Rocio, mostrando assim aos outros que eles podem e sabem gastar um nicolau?

Voltemos, porém, às cadeirinhas, e já que estamos com a mão na massa, contemos um fato característico desses bons tempos de outrora.

Carregado em rica cadeirinha por dois possantes Etíopes, que suavam em bica, subia a ladeira da Conceição um rico proprietário, que pelo nome não perca. Em sentido inverso descia a pé o conde da Cunha, o qual andava administrando as obras da fortaleza e tomando o ponto aos operários. Ao avistar a cadeirinha mandou parar e ordenou ao proprietário que saísse.

Pôs um dos negros no lugar do branco e mandou este carregar com o outro a cadeirinha.

O sujeito não tugiu nem mugiu, obedeceu: apanhou muito sol, e dias depois morria, ou apaixonado ou vítima de uma congestão cerebral.

Isso corre sob a responsabilidade de um tio meu, morto há vinte anos, o qual, apesar de tudo, não cessava de dizer que o seu tempo era o melhor de todos que no seu tempo não se fazia isto ou aquilo, que, no seu tempo os rapazes andavam de camisola até aos quinze anos e brincavam com as raparigas a cabra cega ou a Senhora Madeira, portando-se com toda a compostura e inocência!

Se algum dia houver quem queira estudar a história dos veículos do Rio de Janeiro e tiver de falar em cabs fluminenses, tumbas, andorinhas, bangulas, tílburis, nas antigas gôndolas e ônibus, nos Alabamas, bispos, caleças, meias caleças, e tutti quanti, não pode nem se deve esquecer das clássicas redes, dos carros de bois, e sobretudo das cadeirinhas.

Tiveram estas a sua idade de ouro no tempo do príncipe regente, e isso devido a um carrapato.

Eis o caso: estando o filho de Dona Maria I na fazenda de Santa Cruz, um desses bichinhos teve a audácia de se agarrar à canela de sua real senhoria, e Dom João, sem maior cautela, arrancou o carrapato. Teve uma formidável erisipela e em seguida no lugar se formou uma úlcera, devido a ter ficado na perna o ferrão do supradito carrapato.

O mal agravou-se; foi chamada a mestrança médica, houve juntas ou conferências, boletins, discurseira velha, que não foi estenografada por não haver ainda a Taquigrafia.

Grandes prêmios foram prometidos; chamaram-se práticos estrangeiros; mas a coisa ia de mal a pior; e, depois de muito tempo, a úlcera de fundo carrapatoso cicatrizou quando bem quis.

O mesmo acontece hoje com o micróbio da febre amarela; todos o conhecem, grita-se contra ele; está aqui, está ali, está em toda a parte, mas ninguém ainda descobriu a toca do tal malvado, que ri e zomba de todos nós.

Quando ia melhorando, e para dar os seus passeios, servia-se Dom João de uma cadeirinha carregada por negros robustos, espécie de guarda negra. Eram doze e andavam vestidos de seda vermelha, levando à cabeça formidáveis barretinas, tendo como tope as armas da Casa Real.

Muito estimados do príncipe, cantavam e dançavam um fado que dizia assim:

Nosso Sinhô chegô,
Cativeiro já acabô.

Desde que o primeiro magistrado da nação começou a andar de cadeirinha, nobres e plebeus trataram de imitá-lo, e só faltou que uns e outros usassem também de muleta, da qual se servia o real enfermo, que ficou sempre coxo ou capenga da tal perna, mas nunca deixou de formar.

O filho não o imitou, e deixou-se de cadeirinhas; guapo cavaleiro montava perfeitamente e tinha a mania de saber bolear, andando à disparada, o que lhe valeu partir por duas vezes as costelas.

Aí ficam estas mal traçadas linhas como monumento erguido à história dos nossos usos e costumes, tão diferentes hoje do tempo de dantes.

26 de Novembro de 1896.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

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