As Festas de Natal

Porque queres, meu caro leitor, escreva eu sobre assunto já tão magistralmente tratado por escritores nossos de primo cartello? Qual Monte Alverne, te poderia dizer: é tarde; é muito tarde!

Não seria possível reproduzir, hoje, alguns dos belos artigos de Mello Moraes sobre o Natal, os quais têm e terão sempre o tom de novidade e são como as sempre-vivas? Pedes-me porém com tão bom modo, que não posso recusar, e como quem conta um conto acrescenta um ponto, tradução fora da letra, aí vai o que aliquid adjiciendi oculi mei viderunt.

Para não amolar deixo-me de estudos antiquados, para no velho Portugal ir buscar, pela tradição, a origem destas festas que ainda hoje conservam lá, sobretudo nas aldeias, a feição característica. Deixemos, pois, as rabanadas, o bacalhau com ovos, as papas, as castanhas, os jogos de pinhas, os formigos, o vinho verde, a água-pé, a jeropiga e o suculento sarrabulho.

Tratemos do que é nosso e figuremos, pela imaginação, o Rio de Janeiro de quarenta a cincoenta anos atrás.

Como se sabe, as festas duravam de 24 de Dezembro a 6 de Janeiro, e o dia 7 era, como já disse algures, o mais triste da nossa vida de meninos, exatamente como vai ser insípido para os atuais conselheiros municipais o 7 de Janeiro próximo futuro, graças à não reeleição.

Muitos dias antes do dia de Natal era grande a azáfama nesta boa cidade; era o tempo de mandar as festas aos parentes e amigos, e deles receber as étrennes, como se diz hoje em linguagem alambicada.

Viam-se grandes bandejas de doces, carregadas por pretos e pretas, cestos de galinhas, leitões, atroando os ares com seus grunhidos, perus amarrados com fitas encarnadas ou verdes, compoteiras de doces cobertas por guardanapos rendados.

Os escravos davam o cavaquinho para ser os portadores de festas, pois era certa a gorjeta mais ou menos gorda para o mata bicho.

Hoje a coisa muda de figura e é mais barata; cifra-se na monomania das folhinhas, dos cromos e dos blocks, que se vendem nas lojas de papel, ou nos almanaques de anedotas, vindos de França (os quais, podem ser encontrados no Fauchon), nos marrons glacés, o sonho dos anjinhos de procissão, as nossas antigas amêndoas, já não têm cotação na praça.

Eis-nos em plena noite da missa do galo. Ia uma balbúrdia pelas casas, havia uma inferneira pelas cozinhas, onde se preparava a ceia ou consoada para depois da missa e parte do jantar do grande dia.

Escuso-me de contar-vos que quem menos se divertia eram os donos da casa, sempre cuidadosos para que não houvesse faltas, e a gente da cozinha; eis porque nas minhas aspirações de criança desejei ser frade, pedestre, sacristão, pedinte de almas; mas nunca quis ser cozinheiro.

Que havia porco em casa sabia-o toda a vizinhança pelos protestos da vítima prestes a morrer com uma certeira facada; jorrava o sangue cuidadosamente guardado para diversas petisqueiras. As galinhas mostravam-se tristes e abatidas, prevendo o próximo fim, tais quais candidatos derrotados em eleições.

O peru, ao qual se tinha dado cachaça para tornar a carne mais macia, desconfiado de tanta esmola, preparava-se para o sacrifício, e bêbedo como estava não devia sentir muito a passagem desta para outra vida.

Ali a preta de confiança tratava do peixe, lá os moleques ralavam o coco para o doce, negrinhas areavam os talheres ou punham palitos no paliteiro. Aqui um preto velho aposentado depenava as galinhas depois de um banho de água fervendo, e mais além a mulata velha tirava os ossos às mãos de vaca para fazer o apetitoso mocotó recheado com ovos e farinha de trigo (um verdadeiro quitute, desterrado, não sei porquê, dos cardápios ou menus dos nossos burgueses jantares).

Nessa noite não se pregava olho. Das 10 horas em diante, depois do Aragão, começavam a repicar os sinos das igrejas, de maneira a ensurdecer.

As ruas iam-se pouco a pouco enchendo, e às portas dos templos desde as 9 horas já havia devotos para pilhar lugar, baseados no direito do primi capientis.

Os capadócios afinavam os cavaquinhos e violões. Os gaiatos atravessavam as ruas arremedando o cocorocó dos galos, e, de quando em vez, foguetes no ar anunciavam que estava perto a hora solene.

As igrejas mais concorridas eram São Francisco de Paula, Misericórdia, São José, Carmo, a Catedral, Santo Antônio, São Bento e Ajuda, e em tempos anteriores a Capela do Menino Deus, em Matacavalos, cuja história poética é contada em muitas páginas pelo Balthazar Lisboa.

A não ser algum rolo de capoeiras, algumas cabeças quebradas, algumas navalhadas, o resto corria bem, e acabada a missa cada qual se recolhia à casa para comer, descansar e esperar o dia 25. Muitas vezes havia danças e cantatas, que se prolongavam até de madrugada.

De manhã, abriam-se de par em par as portas dos oratórios, enriquecidos de obras de primorosa talha, onde se via deitado entre folhas verdes o menino Jesus, cercado de jarras de flores e alumiado por velas de cera postas em castiçais de prata, de vidro ou latão. Tudo isso era para mim de um efeito mágico; eu trocaria o pouco que sou para voltar aos meus antigos tempos e permanecer embasbacado, por compridas horas, junto ao berço do Menino Deus, sem pensar na peteca, no pião, no jogo da cabra-cega ou no chicote queimado.

Era para mim um sacrifício ser chamado para comer melancia, não dessas raquíticas, vendidas pelos ilhéus da Penha, mas verdadeiras melancias capazes de refrescar um batalhão e que custavam a módica quantia de quinhentos réis! Ao jantar reuniam-se os parentes e aderentes, vinham de fora e de longe os filhos e filhas casadas, todos se juntavam nesse dia solene, em que se apertavam os doces laços da família, essa célula da vida social. Compareciam também os compadres e comadres, os amigos do peito e até à mesa dos patrões eram admitidos os caixeiros, que neste dia gozavam das honras de filhos da casa.

Contados! Só saíam três vezes por ano: no Natal, na Glória e na Páscoa! Eram tais os costumes do tempo, em que os patrões, para tomar fresco no Passeio ou no Largo do Paço, nunca levavam chapéu, para que os caixeiros não soubessem se eles (patrões) estavam perto ou longe!

Bons tempos em que a jaqueta era de rigor, e a gravata só usada por quem já tinha alguma coisa de seu. Pouco trabalhavam nestes dias os barbeiros, não por força de postura municipal, mas por não terem tempo de ir à cara dos fregueses.

Iam tocar nas portas das igrejas em palanques ou coretos preparados.

As bandas militares nunca saíam para esse fim; era contra a disciplina. Quem não conhecia a música dos barbeiros, agremiação digna de um poema, e que desapareceu com o progredir da civilização? Na minha meninice conheci dois tipos dessa raça de heróis, dois últimos Abencerrages que viviam ali na Rua do Carmo, pacata e silenciosamente, contando aos pósteros as suas brilhaturas não só na Música, como nas sangrias e aplicação de sanguessugas.

A propósito; que diferença entre os barbeiros antigos e os de hoje! Os primeiros tocavam flauta, cavaquinho ou rabeca; os segundos atormentam os ouvidos do próximo falando na Política, na guerra de Cuba, na morte de Maceo, na baixa do câmbio ou recitando pedaços dos Dois Proscritos ou do Pedro Cem!

E a visita aos presépios? Os mais afamados eram os do Convento da Ajuda, o da Ladeira de Santo Antônio, tão bem descritos ambos no romance de Macedo As Velhas de mantilha, e o do cônego Filipe, na Ladeira da Madre de Deus. Este teve a honra de ser visitado pelo rei D. João, o qual, como se sabe, gostava muito de festas de igreja e era inimigo de teatros; obrigado a ir a espetáculos, dormia a bom dormir e, de quando em vez, acordava estremunhado, perguntando aos cortezões: já se casaram estes bêbedos!

Cesse agora o que a antiga Musa canta, que eu vou falar do presépio do Barros, ali na Rua dos Ciganos, presépio que foi para mim a suma da arte, o meu Eldorado, o cúmulo de tudo quanto havia de sublime, peripatético e esplendoroso.

Fui quase assinante efetivo e isso de meia cara, graças a uma circunstância que em breve vou salientar.

Imaginai em uma pequena loja de carpinteiro a cidade de Belém, onde nasceu o Cristo, transformada em cidade moderna, construída em anfiteatro, com casas de janelas de grades de ferro, com vidraças de cutelo, igrejas com torres e sinos, saloios e saloias dançando, gatos, cachorros, coelhos, pescadores, caboclos, jardineiros, toureiros espanhóis, anjinhos de barriga para baixo, pendurados no teto recamado de estrelas de papelão dourado. O sol e a lua ao mesmo tempo no horizonte, e no meio do firmamento uma grande estrela d’alva, cujos raios guiavam caravanas de camelos, que faziam parte da comitiva dos três reis magos, que pareciam vir descendo com ar sério e majestoso de uma montanha colocada no fim do panorama. Tudo isso alumiado por velas que saíam de castiçais pregados no meio das ruas, onde existiam lampiões de gás só para inglês ver.

Havia também no centro um tanque pequeno d’onde jorrava a água de um repuxo e onde peixinhos vermelhos saracoteavam de um lado para outro.

Via-se em uma lapinha deitado o menino Jesus, tendo perto de si São José; Nossa Senhora e São João Baptista, bois, cavalos, porcos, sapinhos e até leões – uma verdadeira arca de Noé. As pretas lá de casa diziam que aquilo era a cidade do Rio de Janeiro no tempo em que Cristo andou pelo mundo; aquelas torres, umas eram da Candelária, esta a de Santo Ignácio do Castelo, e aquela outra a da Penha; a montanha é Corcovado, e o lago era o do Passeio Público!

E eu acreditava em todas essas patranhas e me considerava, oh sancta simplicitas, o ente mais feliz do mundo.

Só mais tarde, quando comecei a estudar a História Sagrada, compreendi ser aquilo tudo um mistifório, um angu de quitandeira, onde se misturava, como nas epopeias, o profano ao sagrado!

Desse presépio posso falar de cadeira. Tinha o Barros um oficial de nome Paulino, da casa de meu padrinho o Comendador… que quando morreu me deixou duzentos mil réis que me souberam à gaita, pois gastei-os frequentando com assiduidade o Teatro São Pedro e o Alcazar (nas torrinhas já se sabe). Vamos porém ao caso.

O tal Paulino, como mais tarde verifiquei, namorava inocentemente uma mucama da nossa casa, mulatinha jeitosa que era sempre a primeira a me lembrar as visitas ao presépio do Barros.

Enquanto os dois em doce colóquio conversavam de amores, admirava eu o pandemônio, e ao sair o Paulino satisfeito enchia-me os bolsos de doces e no dia seguinte lá estávamos rente que nem pão quente. Isso durou muito tempo; do Natal foram as recordações mais queridas e que nunca se apagaram.

E tu Paulino, se ainda vives, recebe no dia de hoje os meus votos de gratidão; se soubesses latim, te repetiria os versos do poeta – Semper honos nomenque tuum, laudesque manebunt.

Que importa teres me feito servir de pau de cabeleira? Quanta gente boa tem exercido sem querer esse mister! O dia seguinte do Natal era o dia das indigestões, e os boticários não tinham mãos a medir vendendo camomila, óleo de rícino e noz vômica.

A meninada ficava de cama e de dieta um ou dois dias, findos os quais estava-se pronto para a patuscada. Continuavam as cantatas ou trovadores da rua; mais tarde aparecia o bumba meu boi, as danças dos pastores e entrava-se no Ano Bom e Festa dos Reis.

Dos trovadores desse tempo conheci o Anselmo, que ao som do violão era capaz de cantar um dia inteiro modinhas, todas diferentes. São de seu repertório: A saudade roxa, mimosa flor – Qual quebra a vaga do mar – A gentil Carolina – Dizem que vejo e não vejo – Se os meus suspiros pudessem – Mandei um terno suspiro – Os mandamentos da lei do amor, etc., etc., etc.

Havia um grupo de artistas que eram insignes nas serenatas desse tempo. Era seu chefe o Goiano. Certa noite para poderem sair era preciso arranjar quem tocasse o bumbo. Por acaso apareceu um estudante de Medicina, hoje médico velho e respeitável que conhecia sofrivelmente Música e por isso era membro honorário do tal grupo. Aceitou, com a condição de não entrar em casa conhecida.

Apesar de nunca se ter visto em tais apuros o nosso futuro doutor ia indo menos mal; percorreu o grupo de foliões várias ruas e ele, meio oculto entre os companheiros, obedecia à batuta do mestre; entraram e tocaram em várias casas, sendo muito aplaudidos.

Ao subir, porém, o farrancho as escadas de um sobrado, na Rua Larga de São Joaquim, oh horror! estava sentado no sofá da sala, rodeado por muitas moças, um professor da Escola de Medicina!

Tirar a correia do pescoço, atirar com o zabumba e fugir pela escada como cão danado, vendendo azeite às canadas, foi obra de um minuto. Na rua um polícia quis agarrá-lo. Para livrar-se embarafustou por uma casa, no fundo da qual, em um quarto, estava uma velha… tomando banho! O infeliz via por toda a parte o bumbo transformado em bomba, e uma reprovação certa, se tivesse sido reconhecido.

E tinha razão. Um seu contemporâneo havia sido reprovado, porque tocava rabeca em novenas, para poder estudar; outro, porque um lente em um teatro o tinha visto vestido de roupa de cor; outro, porque ao avistar o professor não tirou o cigarro da boca. Cachimbar, como dizia o velho Jobim, era o maior de todos os delitos, e quando se queria chamar um moço de mau e de perverso “até dizem que já fuma” era a última, era a suprema injúria.

Acabou-se o papel! E eu, como estudante a que em prova escrita cai um ponto difícil fiz um grande nariz de cera e nada disse sobre a matéria!…

Desta feita levo nota má se não me valer a benevolência dos caros leitores.

Queixem-se do chefe!

24 de Dezembro de 1896.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Antigo Convento da Ajuda na Cinelândia – P. G. Bertichem – 1856

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