Au Jour Le Jour

Deixem passar o francesismo do título, que hoje começa a figurar nesta página… A nova seção será sempre uma crônica, que se relacione com um fato, ou que o exponha; e o leitor verá de experiência própria o valor dos seus colaboradores.

A Igreja da Penitência
A Festa das Chagas

Eamus ad montem[1] – Põe o chapéu e vamos, ali, ao Morro de Santo Antônio, apreciar a restauração da Igreja da Penitência e admirar o célebre painel do pintor José de Oliveira. É hoje o dia da festa das Chagas, e, antes que o templo se encha de povo, vamos lá num pulo.

Evitemos a Mme. Fauchon; o Fontenay e o Fernando seriam capazes de com suas amabilidades costumeiras demorar-nos a viagem.

Dobremos a esquina da Rua dos Latoeiros: ao longe verás o Palácio de Cristal[2], tão célebre nas crônicas de outro tempo. Conta-se que, chegando aqui uma família estrangeira e ouvindo falar deste estabelecimento desejara muito admirar as curiosidades que deveriam existir lá dentro. Por motivos muito decentes não foi possível satisfazer tão inocente desejo. Para mim, segundo um palpite, está ali o sobradinho em que morava o ourives Domingos Fernandes da Cruz e onde foi preso o Tiradentes.

Olha a casa das Bichas monstro[3]; dizem ter morado nela o mavioso poeta Gonçalves Dias, e por isso a rua mudou de nome; – também já não havia latoeiros. Vê a antiga casa do colégio Victorio, onde aprendi o a-b-c e tive a honra de ter como contemporâneo o Lulu Sênior. Atravessamos a Rua do Cano e o Largo da Carioca; – aqui existia uma coluna de pedra ou antes um chafariz, no qual tomavam água as célebres carroças de pipas. Eis-nos em frente da magnífica escadaria, que tem à direita o monumental Hospital da Ordem 3ª da Penitência[4]. Lá iremos algum dia; subamos.

No meu tempo a escada era menos larga e mais comprida, pois não havia o grande pátio logo em seguida ao portão; para compensar, a escadaria era bordada de um lado e de outro por pequenas grutas e fontes, bancos de mármore ornamentados de belos trabalhos de conchas, obras naturalmente do Xavier. Atravessemos este pequeno portão construído em 1800, e entremos na ladeira. Por aí descia a célebre procissão de Cinza, que levava treze andores.

Pergunta à tua sogra, que, naturalmente foi de anjo muitas vezes, o que era essa cerimônia religiosa, a qual faz vir lágrimas aos olhos dos devotos, que não se podem conformar com o positivismo de hoje e com a separação entre a Igreja e o Estado, sem lembrar que essa procissão já no tempo do Império, isto é, desde 1860 ou 1862, não fazia o costumado trajeto.

Nunca me lembro da quarta-feira de Cinzas, que não me venha à mente um episódio da minha vida de menino. Eis o caso: um parente meu, depois de encher-me de doces na confeitaria do Filipe José Gonçalves (que tinha de propósito decepado um dedo para não servir no exército da sua terra), e querendo obsequiar minha família, deu-me a segurar uma esplêndida empada de palmito e camarão.

Ali pela altura da igreja do Parto deu-me a tentação de com a unha furar a casca da referida empada, para tomar-lhe o gosto. Ao chegar à casa vi com surpresa que o caldo havia transmigrado para a minha calça e jaleco novos, feitos a capricho pelo velho Severo, ex-escravo da casa do avô do nosso amigo Juca Figueiredo.

De levar uma tunda escapei, mas fui condenado a não provar da petisqueira e ver os outros saboreá-la. Mais tarde compreendi que esse era o Suplício de Tântalo, e quando ouço ou leio empregada essa figura lembro-me sempre da célebre empada de quarta-feira de Cinzas.

O terreno em que está edificada a igreja da Penitência custou em 1653 a fabulosa quantia de 50$, e cada braça dessas muralhas a quantia de 5$, pagas ao construtor Paulo Ribeiro em 1714.

A Ordem 3ª foi fundada em 1618 na capela da Conceição, dentro da igreja vizinha de Santo Antônio por Luiz de Figueiredo e sua mulher.

A primeira festa teve lugar em 17 de Setembro de 1622, e a inauguração do novo templo em 4 de Outubro de 1773. Não te conto hoje a história dessa respeitável confraria cujos serviços à Religião e à Caridade são assaz conhecidos. O tempo é pouco para admirarmos o grande quadro da apoteose de S. Francisco, pintado pelo artista brasileiro José de Oliveira, cujo dia de nascimento e morte são completamente ignorados.

Diante desse quadro do discípulo de frei Ricardo do Pilar se extasiavam todos quantos visitavam outrora o templo do patriarca de Assis.

O grande pintor francês Debret aponta-o a seus discípulos como uma obra prima, e Manuel de Araújo Porto-Alegre não cessava de tecer encômiosà ciência da perspectiva, à valentia do claro escuro e à riqueza de imaginação poética que formavam o apanágio daquele grande quadro.

Em 1732 contratou a Ordem com Caetano da Costa Coelho a pintura da igreja, bem como todo o douramento dela, pela quantia de 6:100$, e é por isso que nos livros dessa corporação não figura o nome de José de Oliveira, conservado todavia pela tradição e pelo testemunho dos contemporâneos, como muito bem explica o referido Porto Alegre: o empreiteiro tomava a si a obra e convidava os outros artistas de que carecia. Sendo preciso retocar o grande quadro, foi chamado por João Antônio Turco o pintor João Gonçalves, o Aleijadinho, que no pensar de Moreira de Azevedo não ousou tocar no primor do grande artista e só se limitou a restaurar os painéis das paredes laterais do templo.

Com o andar dos anos o quadro de José de Oliveira estava completamente enegrecido, bem como todo o dourado.

Tinha-se quase completamente perdido a esperança de ressuscitar as belezas primitivas desse grande trabalho, quando em boa hora a Mesa Administrativa da Ordem, tendo à sua frente como irmão ministro o Sr. Rodrigo Venâncio da Rocha Vianna, e tendo conhecimento das habilitações provadas do conhecido artista Thomas Driendl, cometeu-lhe a empresa de restaurar tantos primores. Por escritura lavrada em 8 de Julho de 1895, aceitou Driendl a difícil quanto honrosa incumbência, da qual se saiu por maneira brilhante, e da qual é testemunho tudo isto que estás devorando com olhos de quem sabe apreciar essas coisas.

Confesso que na Europa poucas coisas há equivalentes à igreja da Penitência da minha terra; tal é pelo menos a opinião do nosso ilustrado Ferreira Vianna, que, como tu, também tem viajado muito.

Armados os andaimes, deu começo Driendl ao seu trabalho; sobre eles colocou trilhos, por onde corria um grande tablado, onde o pintor tinha a sua caixa, tinha o seu atelier, para o qual encanou o gás. Aí passava longas horas do dia em incessante trabalho, e mesmo de noite se levantava inspirado e como por milagre parecia ser o próprio José de Oliveira, que, passados tantos anos, recompunha o que fizera, fazendo reviver a sua querida obra, o mais belo sonho da sua mocidade de artista.

Tanta dedicação caro custou ao Driendl.

Uma noite sentiu-se vivamente incomodado; tal era a força dos ingredientes empregados, que o artista julgou ir morrer envenenado. Descer anelante da sua jigajoga, abrir a porta da igreja, e vir respirar cá fora um ar mais oxigenado, foi obra de um instante.

Depauperado por algum tempo, Thomas abandonou o trabalho, a conselho do médico, e foi retemperar as forças longe desta capital. Voltou mais forte; com força de vontade tomou de novo os pincéis e deu por finda a sua gloriosa tarefa.

Tantos sacrifícios foram plenamente coroados pelos aplausos dos entendidos, pelos elogios da imprensa e pela admiração do povo desta cidade, o qual em continua romaria tem vindo aqui apreciar o que pode o talento unido a uma singeleza de espírito e a uma modéstia ultra-franciscana.

Por processos químicos conseguiu dar ao dourado da igreja, o primitivo brilho, e ela ostenta hoje os primores esculturais do estilo barroco em voga nos nossos templos. De escuro, que dantes era, o templo tornou-se claro, e, quando aberta a porta principal, a luz entra a jorro, é indescritível: não se descrevem as impressões sentidas, e a gente curva-se maravilhado diante da realidade – do belo e do sublime. O que admira é o fato de, não havendo escolas nos tempos passados entre nós, o Brasil tenha produzido artistas como os que figuraram na galeria da antiga Escola de Pintura fluminense.

Com José de Oliveira produziram obras notáveis: Muzzi, Raimundo, Leandro Joaquim, Manuel da Cunha, José Leandro, João de Sousa, e tantos outros.

Não nos faltam nem faltarão aptidões, como bem no-lo provou o meu amigo Pires de Almeida ainda há pouco, em todos os ramos das artes, das letras e das ciências, em um longo e bem elaborado estudo estampado nas colunas do Jornal do Commercio.

Confessa, meu caro leitor, que não perdeste o teu tempo, e orgulha-te de ser brasileiro.

Dizem que no Brasil tudo é grande, exceto o homem; eu direi que ele é pequeno, porque quer.

Não mais, Musa, como disse o Camões.

Basta; ficam para outra vez os dados históricos, acerca da Ordem da Penitência e de seu grande hospital.

A festa vai começar, promete ser brilhante, e as harmonias instrumentais me fariam não ser ouvido por ti; mesmo porque, se continuássemos a palestra, corríamos o risco de ser postos no olho da rua como dois gyras ou perturbadores da ordem. Nada disso. Nada de conflitos.

Notas

  1. Vamos ao monte.
  2. Prostíbulo. Baú de ossos, de Pedro Nava, pg. 60.
  3. L. I. Stassin, estabelecida a Rua Gonçalves Dias n.º 46, com o comércio de sanguessugas e outras miudezas, usa e continuará a usar em seus preparados e artigos de seu comércio, a marca e denominação “As Bichas Monstro”, acima estampada. Consiste a marca em duas bichas (sanguessugas) encruzadas quase na ponta das caudas: uma bicha seguindo para a direita e outra para a esquerda, ambas volvendo circularmente para baixo até quase encontrarem-se pelas cabeças, formando assim, desde a encruzilhada das caudas até as cabeças das bichas, uma disposição semelhante a uma elipse, dentro da qual existem as palavras As Bichas Monstro – L. I. Stassin, sucessora de G. Belaché, 46 Rua Gonçalves Dias 46 – Rio de Janeiro. Finalmente, as pontas das caudas das bichas formam um ângulo muito aberto em cima da elipse traçado pelas próprias bichas. Essa marca continuará a ser usada nos artigos, impressos, envoltórios, etc., de sua indústria e comércio, impressa a fogo e a tintas, em tamanhos e cores várias. Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1918. – L. I. Stassin, sobre estampilhas de 600 réis. Origem: DOU de quinta-feira, 5 de dezembro de 1918, seção 1, pg 25 e 26 (14343 e 14344).
  4. O Hospital da Ordem no Largo da Carioca foi desapropriado em 1906 para atender ao projeto do Governo de alargamento das ruas. No início da década de 30 ele ressurgiu na Tijuca. Origem: Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Galeria de Imagens

Mapa – Convento de Santo Antônio e Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência