Avenida Treze de Maio (I)

I

Quem, voltando do Monte do Desterro, se dirigisse ao coração da cidade teria de forçosamente contornar a Lagoa de Santo Antônio, formada pelas enxurradas dos dois morros vizinhos, as quais, estagnadas, permaneciam na parte plana onde acaba de ser aberta a Avenida Treze de Maio, e nas suas redondezas.

Foi exatamente por esse tempo, e sirva isto de comemoração aos patriarcas da sapataria no Rio de Janeiro, que ansioso esperava Philippe Fernandes o deferimento de uma petição dirigida ao Conselho, em 10 de janeiro de 1610.

Avenida Treze de Maio vista do Convento de Santo Antônio

Alegava o suplicante “que elle tinha huns pellames e hum chão seu ao pé do oiteiro á borda da Lagôa desta cidade em parte escuza e que os ditos pellames haveria trinta e cinco annos pouco mais ou menos que herão feitos e sempre se continuou nelles servindo­se da Lagôa para lavagem dos ditos couros por estar em parte escuza por onde não andava gente, ser a Lagôa que não corria e se ajuntava da chuva, estava longe donde se lavava o gentio e ninguem se servia della para cousa nehúa”.

Dizia mais, que seu pai (cujo nome não declara) já se utilizara da referida lagoa para o mesmo mister, pagando de foro do Conselho dois pesos, ou l$500. Que ele Philippe era casado, tinha família a sustentar e era filho de homem antigo na terra; que lhe fosse arbitrado o foro de duas patacas para as obras municipais.

Posto em pregão público e não havendo maior licitante, obteve Fernandes a competente carta, lavrada pelo escrivão da Câmara, Gonçalo de Aguiar, em 8 de fevereiro do mesmo ano. E tudo foi em menos de um mês!

Nesse documento eram impostas diversas condições, que seria longo enumerar. Entre elas, porém, salientarei: – “não tolherá nem tapará a dita água a nenhuma pessoa nem ao gado vacum, nem a outra qualquer criação”.

A concessão era feita por uns nove anos e devia findar em 1619.

Não diz a crônica se Fernandes e seu ilustre progenitor sofreram de maleitas, tábuas do fígado ou opilação, nem se foram importunados pelos mosquitos. Se estes existiam, eram inofensivos; porque nas proximidades da lagoa houve diversas roças e até pequeno santuário, levantado em honra ao taumaturgo português. Se tivesse boca o pantanal, como o sino de Santa Rita poderia dizer: de Santo Antônio sou, de Santo Antônio fui.

Entre os povoadores dessas redondezas convém citar, além de Salvador Correia, Crispim da Cunha Ferreira, Isabel de Mariz, Fernão Affonso, Balthazar Cardoso, Simão Jorge, Domingos Pereira, André Lopes, Anna Maia, os Mascarenhas, João Antunes, Francisco Rodrigues Ferreira, Gonçalo Gonçalves Chaves e muitos outros, que ali tiveram propriedades e que nunca se queixaram da vizinhança da lagoa.

Fizeram exceção à regra os Carmelitas, que desistiram da doação feita por certo devoto do morro o qual por isso foi também denominado do Carmo.

Mais tarde, como veremos, serviu o monte para fundação do Convento de Santo Antônio, segundo se depreende dos seguintes documentos:

O primeiro é a carta de doação, pela qual em 1592 Salvador Corrêa de Sá com a Câmara e povo da cidade cedia aos Franciscanos a ermida de Santa Luzia com toda a fábrica, edifício e bens da dita capela e é do teor seguinte:

“Salvador Corrêa de Sá, Capitão e governador nesta cidade do Rio de Janeiro e os oficiais da Câmara, que este ano servimos, etc. Fazemos saber aos que esta carta de doação para sempre viram e o conhecimento dela com direito pertencer, que vindo a esta terra os muitos reverendos em Cristo frei Antônio dos Mártires e frei Antônio das Chagas, seu companheiro da Ordem dos frades menores do Seráfico Padre São Francisco, capuchos da Custódia de Santo Antônio do Brasil, por mandado de seu prelado frei Belchior, comissário da dita Custódia pelo reverendo padre geral para verem o sítio de Santo Antônio, que lhes havia oferecido para edificarem o seu mosteiro, e não sendo conveniente para isso aceitarem outro nesta cidade que mais acomodado lhe parecesse, assim para seu recolhimento como para se aproveitar o povo de sua doutrina e ofícios divinos: mostrando-lhes nós o sítio do Santo Antônio e outras partes que nesta cidade há, lhes pareceu suficiente lugar a ermida de Santa Luzia, sita abaixo do baluarte da Sé desta cidade, para o qual, nós, de consentimento do mui ilustre Sr. Bartolomeu Simões Pereira, administrador dela, com autoridade que nisso outorgou, e assim dos mordomos e Confrades da Confraria da dita casa, os quais juntos em casa do dito Sr. administrador, disseram que eles eram contentes de largar a dita confraria com todas as suas casas e bens que nela houvessem aos ditos religiosos, vivendo eles em a dita casa de nosso motu proprio, todos juntamente, cada um de per si; com todo o direito, jurisdição e ação, com que o podemos fazer, de hoje para sempre, damos e doamos aos sobreditos frades menores da Sagrada Religião do Bem-aventurado Padre São Francisco, capuchos da Custódia de Santo Antônio do Brasil, para sua morada, a ermida já dita de Santa Luzia, com toda a fábrica do edifício e mais casas, e bens da dita igreja anexos, obrigados pertencentes: e assim mais por seu recolhimento e cláusulas lhe damos todo o chão, que há começando de uma cruz, que está antes da dita ermida, vindo pelo caminho debaixo, partindo com os chãos de Gonçalo Gonçalves e daí irão correndo ao longo da cerca dos Padres da Companhia, até o forte já dito, que está abaixo da Sé, deixando à mão direita o caminho e rua pública, e do dito baluarte irão correndo pelo trasto desta cidade, partindo com ele pela banda debaixo, até os chãos de Anna Barroso e daí rumo direito ao mar, ficando sempre o caminho livre, e serventia pela praia ao longo e irá correndo até dar em o chão do dito Gonçalo Gonçalves pela parte do mar e daí irá correndo diretamente à cruz donde começando a demarcação; e assim mais lhes damos todas as águas assim de poços, como de fontes que no dito sítio houver, e as pessoas, que dentro deste sítio tiverem chãos, não havendo isto por bem, se satisfará e de todas estas coisas lhes fazemos doação da maneira, que eles podem ter, segundo suas regras e declarações delas feitas, pelos sumos pontífices Nicolau III e Clemente V.

E porquanto os ditos religiosos não são capazes, por sua regra de propriedade no domínio de coisa alguma, como por eles nos foi declarado, queremos, que a tal propriedade e domínio de tais coisas logo seja traspassado, e de feito traspassamos em o Sumo Pontífice e igreja Romana, etc., etc.

Está assinada pelo escrivão da Câmara Balthazar da Costa e mais por Salvador Corrêa de Sá. – O administrador, Simões Pereira, – Pedro da Costa. – André de Leão, – João de Bastos. – Estevam de Araújo. – Pedro Guilherme. – Domingos Machado. – Julião Rangel, – Gonçalo de Aguiar. – Álvaro Fernandes Teixeira. – Pedro Gomes – João Dias. – Clemente Pires Ferreira – Manuel de Brito. – Manuel de Torres.”

Apesar de tão ampla e liberal concessão, parece os Franciscanos mudaram de opinião e aceitaram por fim o que a princípio haviam recusado. É o que melhor explica a carta de doação, firmada em 9 de abril de 1608 pelo governador Martim de Sá, à Câmara e homens bons.

Reza assim esse documento, que descreve perfeitamente a topologia da parte da cidade objeto destas notas:

“Fazemos saber aos que esta nossa carta de doação para sempre virem, que vindo novamente a esta terra o Revdo. padre frei Leonardo Jesus, Custódio desta Custódia de Santo Antônio do Brasil, dos Capuchos da província de Santo Antônio de Lisboa, com cinco religiosos mais para edificarem casa assim a nosso requerimento, e demais pelo desta capitania, como de outros governadores e oficiais passados, e achando para o dito efeito tomado o sítio de Santa Luzia, de que haviam tomado posse os Revdos. padres frei Antônio das Chagas, a quem se passou carta de doação para se fazer o dito convento, com a ermida de Santa Luzia e coisas pertencentes a ela, não parecendo ao dito padre Custódio o sítio lugar conveniente assim para seu modo de recolhimento, como para ficar acomodado ao serviço deste povo, nem outrossim que lhes foram apontados, elegendo o sítio e lugar, que se acha em o outeiro do Carmo, defronte da vargem debaixo, de Nossa Senhora, sobre a Lagoa de Santo Antônio por ser mais conveniente para o dito efeito e ficar os referidos no dito lugar algum tanto separados e mais recolhidos, nos pediu lhes quiséssemos fazer doação do dito sítio para nele edificar casa do título e invocação de Santo Antônio… não pareceu bem fazer-lhes doação do dito sítio e quanto deles lhes for necessário para cima como de fora dele, correndo para uma e outra banda, assim para a de Santo Antônio como para a de São Bento de redor do mato, o qual sítio lhes damos com todas as pedreiras e águas, assim de poços, como de fontes, que nele se acharem, sem que a isso lhes possa alguém contradizer, e em caso que no dito sítio e lugar haja pessoa alguma que tenha partes ou chão algum, que seja necessário para o edifício da dita casa, cerca e bem dela, querendo dele alguma coisa, ficaremos obrigados a sair a isso e defender a dita doação, para que os ditos religiosos não sejam molestados em coisa alguma.”

Segue o traspasse de tudo ao sumo pontífice e continua:

“e outrossim mandaremos desabafar o mato que tem por toda a vargem e lhes daremos uma rua direita da largura de trinta passos conforme às mais que vá responder da dita casa com a que mais direito for ao mar, e faremos uma vala em forma que a água da lagoa, que fica mais perto do dito sítio, vá responder ao mar e não seja prejudicial aos referidos religiosos”.

Termina essa longa e importante carta proibindo, de acordo com o prelado eclesiástico, a permanência de confrarias e irmandades de invocação de São Francisco e Santo Antônio.

Quanto à ermida desse último nome, situada ao pé do monte e perto da alagoa, e que devia ser aproveitada interinamente pelos religiosos até à conclusão do convento no alto do morro, ficavam autorizados o prelado, governador e Câmara a colocaram outro santo, que melhor lhes parecer.

Já agora daremos as assinaturas dos que referendaram esse auto: Martim de Sá, Antônio Pinto de Larredo, Pedro Homem Albernaz, Pedro Netto de Mello, Belchior Tavares, Gonçalo Corrêa de Sá, Diogo Alves, Pedro de Azeredo, Sebastião de Sampaio, Diogo Teixeira de Carvalho, Francisco Vaz Ferreira, Balthazar da Costa, João de Aruhaja, Fernão Godinho de Franca, Francisco Caldas, Thomé de Alvarenga, João de Sousa Ferreira e Ignácio de Sá.

Estudadas assim ab ovo as antiguidades dessa parte da cidade, em outra crônica tratarei, e sobre o mesmo assunto, a nova avenida, de coisas menos soporíferas e mais da atualidade.

(27 de janeiro de 1904.)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Rua da Guarda Velha no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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