Avenida Treze de Maio (III)

III

O antigo prédio da Rua Evaristo da Veiga, situado junto à igreja dos Ingleses e em cujas lojas esteve conhecido armarinho (A Figura Risonha), foi propriedade e residência dos antepassados do bispo do Rio de Janeiro, D. José Joaquim Justiniano Castello Branco.

Ali nasceu, segundo é fama, este nosso prelado e a essa circunstância deveu o pequeno largo, atualmente Praça Ferreira Vianna, a denominação de Mãe do Bispo, por que ainda hoje é vulgarmente conhecido.

Largo da Carioca, com o Chafariz da Carioca na frente e o Convento de Santo Antônio no fundo (1844) por Eduard Hildebrandt, via Kupferstichkabinett der Staatlichen Museen zu Berlin

Narrando os acontecimentos da invasão francesa de 1710, o cronista Duarte Nunes menciona com elogio o procedimento dos Mascarenhas, que das janelas da casa mencionada fizeram vivo fogo de fuzilaria contra os companheiros de Duclerc, os quais, pela antiga Rua dos Barbonos, se encaminhavam ao centro da cidade.

Junto desse imóvel existia grande chácara, que vinha até o antigo caminho da Guarda Velha, ocupando a vasta superfície do quarteirão, ora demolido. Da área deste terreno dá perfeita notícia a medição de 1735, feita a requerimento dos Franciscanos, e unida aos autos, de que já falei, quando em 1821 frei Joaquim de Santa Leocádia pedia ao príncipe regente permissão para vender terras nas abas do morro de Santo Antônio.

Por morte de D. José Joaquim, passaram tais bens a seus sobrinhos e herdeiros; em documento do Arquivo Público li o requerimento de Jacinto Furtado de Mendonça pedindo licença ao príncipe regente para vender a uma comissão de negociantes ingleses algumas braças de terreno, onde pretendiam eles levantar o pequeno e modesto templo, substituído em nossos dias pelo elegante e artístico edifício elogiado pelos competentes.

Tem aqui cabimento o resumo de uma petição anexa ao relatório do encarregado do tombamento das terras da Ilustríssima Câmara Municipal (1872), cujo contexto é o seguinte: Antônio Gomes Jacome da Costa, por si e como tutor dos órfãos, filhos do mestre-de-campo Fernando José de Mascarenhas, dizia que sendo senhor e possuidor de um terreno contíguo à sua casa, sito na Rua Nova do Conde, da Ajuda para Carioca, e tendo nela edificado uma nova propriedade com portas e janelas místicas ao portão da cerca dos Religiosos de Santo Antônio, com servidão e saída para o pequeno vão do mesmo terreno, em conformidade e correspondência de outra antiga casa, que já ali havia e fora de Gonçalo Gonçalves Chaves e hoje de seus herdeiros, a qual também fazia frente para o dito vão, por ser ele público e de servidão comum, sucedeu que os religiosos compraram a casa de Chaves para a incluírem na sua cerca, e pouco satisfeitos com a dissimulação e diligência de trazer o mesmo portas à rua, trataram de chamar a si aquele pequeno vão da cidade, não obstante o incômodo e considerável prejuízo da casa do suplicante, privado da servidão pública e posse. Embargada a obra dos frades, recorreram estes ao Senado da Câmara com motivos que pareceram ao suplicante menos justos, e que se não deviam esperar de uma comunidade tão exemplar e virtuosa. Depois de muito palavreado conseguiu Jacome da Costa que o Senado lhe aforasse por uma pataca o tal vão, com duas braças e meia de largura e quatro braças e meia de comprido.

Esta carta de aforamento tem a data de 16 de junho de 1787, e da leitura dela resultam notícias exatas sobre as antiguidades da nova avenida: pelo menos fica se sabendo ter ali existido um muro, e um portão que dava entrada ao carro dos Religiosos de Santo Antônio, os quais, como mendicantes, recebiam valiosas esmolas em diversos gêneros, inclusive pipas de vinho, caixas de açúcar, etc. Para tal fim possuíam até pequeno trapiche para as bandas da hoje Rua Dom Manuel.

Afinal, em 1807, obtiveram os religiosos o que tanto ambicionavam: pelo auto de arruação de 9 de março conseguiram 23 palmos de terreno na Rua da Guarda Velha para o “fim de puxar um portão que ali se acha à frente da rua pela cordeação do muro e partem por um lado com um edifício que tem portais de pedra e um telheiro pertencente aos herdeiros do mestre de campo Fernando José de Mascarenhas, etc.”

Para corroborar o que afirmei, quanto às propriedades dos Mascarenhas, basta ler o auto de arruação de 13 de maio de 1801, pelo qual a Câmara concedeu “a D. Anna de Lemos Mascarenhas Castello Branco 29 braças e meia de testada pela rua que vai para os Barbonos, que partem com casas de José Fernandes e vem acabar na esquina, onde volta para a Rua da Guarda Velha da Carioca, e correndo desta esquina ao canto do muro que faz com o dos Religiosos de Santo Antônio, também se arruaram 70 braças e fazem ambas as frentes 99 braças e meia. E na esquina do Oratório do Monte do Carmo a correr para a Rua dos Barbonos se lhe arruaram 8 braças e 3 palmos até fazer canto, que volta para a Rua da Guarda Velha e parte por um lado com casas do coronel André Alves e pelo outro vai formar canto, do qual partindo para a dita Rua da Guarda Velha, se lhe arruaram mais 8 braças até unir com o quintal do coronel André, acabando em ponta aguda para levantar edifício, na forma do prospecto do Senado.”

Esse documento do Arquivo Municipal explica a origem do grande sobrado n. 46, ora demolido, prédios vizinhos e mais as construções do lado oposto ou ímpar da atual Rua Treze de Maio.

Entre as propriedades desapropriadas por utilidade pública poderíamos falar da casa dos Britos, representantes de honrada e importante família do Rio de Janeiro; de uma célebre estalagem n. 22, cortada em 1884, quando foi aberta a Rua Senador Dantas; da fábrica de cerveja do Machado, ativo e conhecido negociante, falecido vítima de inesperado desastre; dos afamados bailes e maxixes que terminavam sempre por desordens e pancadaria.

Deixando tudo isso de parte, concentrarei a atenção do leitor no único prédio, que ali possuía a Santa Casa de Misericórdia, legado no testamento com que faleceu Antônio Cicconi, em 28 de outubro de l870, com o ônus de dar mensalmente 30$ a seu escravo José e 10$ ao seu outro escravo Sabino, bem como mandar rezar dez missas, todos os anos, no mês de novembro.

Conheci Cicconi de vista; mas há ainda muitas pessoas que com ele privavam e atestam sua bondade, seu trato cavalheiro e seu amor pelos desamparados da sorte. Frequentador de uma das antigas farmácias da Rua Direita, era ali visto quotidianamente em agradável palestra com alguns antigos amigos, entretendo-os com anedotas e recordações da mocidade, e com o perfeito conhecimento dos homens do tempo de D. João VI e dos dois imperadores. Retirava-se, quando via chegar certo médico seu patrício, o Dr. Pena, cujo gênio folgazão e ditos dúbios não se coadunavam com o caráter sério de Cicconi.

A grande altura, o tronco curvado, a tez macilenta e já enrugada pelos anos davam a esse ancião aspecto respeitável, aumentado pela comprida sobrecasaca preta, sempre abotoada.

Fora gentil rapagão em tempos idos, e, segundo é fama, tivera rosto e voz pela alcunha de Capado.

Segundo Pereira e Sousa (Dicionário Jurídico), a avareza e o interesse de algumas famílias italianas levavam-nas a praticar em seus filhos a operação da castração, com o fim de que eles sempre tivessem vozes de soprano e pudessem, com vantagem, ganhar a vida como cantores, no tempo em que era vedado às senhoras a entrada nos coros dos conventos e de muitas catedrais.

Para provar a aberração da espécie humana, narram historiadores a existência de duas seitas, compostas de fanáticos: uma de indivíduos que para se penitenciarem defeituavam-se a si mesmos. Estes, ao menos, realizavam o anexim – quem morre por seu gosto, acaba por seu regalo. A segunda, porém, mais monstruosa e bárbara, percorreu vários países da Europa, e sob pretexto de evitar futuros perigos da carne, todo o menino que lhe caía nas mãos era vítima desses selvagens.

Verdadeiros eunucos e inaptos para a procriação, eram os castrati contratados como prima-donas. A esses predicados deveram Cicconi, um seu irmão e outro patrício a circunstância de virem para o Rio de Janeiro, então transformado em sede da monarquia portuguesa pelos acontecimentos de 1807.

Ao príncipe D. João, depois D. João VI, não passara pela ideia empunhar o cetro e cingir a coroa. Filho segundo, – somente a morte de seu irmão D. José fê-lo ter o título de príncipe do Brasil e herdeiro do trono. Educado entre frades e com eles convivendo, o príncipe, que conhecia perfeitamente o cantochão, conservou sempre grande entusiasmo pelas solenidades da Igreja.

Chegado ao Rio, elevou logo a igreja dos Carmelitas à categoria de Capela Real. Obteve de Roma a criação de monsenhores mitrados. Graças ao numeroso cabido, composto de cônegos de prebenda inteira e meia prebenda, ao numeroso pessoal de capelães cantores, mestres de cerimônias, músicos instrumentistas, alunos dos seminários, tudo isso presidido pelo prelado, puderam todas essas festividades ser celebradas com luxo e esplendor, com todas as exigências do ritual.

Dessas festas dá cabal e exata notícia o cônego Luiz Gonçalves dos Santos. Ao púlpito da hoje arqui-catedral subiam os mais notáveis pregadores brasileiros, que, em vez de receberem como espórtula qualquer quantia – para lenço de seda, – eram obsequiados pelo rei com caixas de rapé (de ouro, cravejadas de brilhantes). Nos teatros D. João cochilava; nas igrejas nunca. Estava atento e acompanhava em voz baixa e com o breviário na mão os cânticos dos sacerdotes.

Mandados vir Cicconi, seu irmão e o terceiro, cujo nome não me ocorre, realçaram esses três castrati com suas vozes argentinas as grandes solenidades da religião e da pátria.

Verdadeiros inofensivos, tinham entrada franca no Paço; eram estimados das damas e sobretudo mereciam especiais favores do rei.

Retirando-se D. João VI, em 1821, para Portugal, permaneceram aqui os três, figurando nas festividades do 1º Império. Amigo dos Brasileiros Cicconi, último sobrevivente dos três, falava com entusiasmo do grande José Maurício, de frei São Carlos, Sampaio, Januário, Monte Alverne, Francisco Manuel e outros.

Sem poder constituir família, dedicou-se sempre ao amor do próximo. Como amigos, eram tratados seus dois escravos, ou antes, fiéis companheiros. Cicconi, enfim, foi um bom.

Para terminar estas Memórias da Guarda Velha, falta-me ainda algo dizer sobre as edificações do lado ímpar, o circo do Bartolomeu, a Imprensa Nacional, os bondes de Botafogo e a associação secreta o Apostolado, dissolvida brutalmente por Pedro I, e que funcionou por algum tempo no edifício hoje ocupado pelo Liceu de Artes e Ofícios.

(22 de fevereiro de 1904.)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Rua da Guarda Velha no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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