Avenida Treze de Maio (IV)

IV

À proporção que foi sendo aterrada a antiga lagoa de Santo Antônio, surgiam lentamente as edificações da Rua da Guarda Velha (lado ímpar) e das travessas adjacentes.

Isto foi feito com muita lentidão; de sorte que, quando pelo alvará de 27 de junho de 1808 teve de ser executado o lançamento para cobrança da décima urbana, verificou-se o seguinte: a rua supra dita tinha do lado direito três prédios e do lado esquerdo 21; o Beco do Propósito (hoje Barão de São Gonçalo) do lado direito nove casas e do esquerdo uma em construção; o Beco do Manuel de Carvalho, duas do lado direito e 21 do esquerdo. Não me foi ainda possível conhecer o motivo do nome Propósito, dado a essa via pública, em lugar da designação de Conde de Bobadela, hoje completamente esquecida.

A saída da Cloaca Maxima no Rio Tibre, em Roma, Itália, via Wikimedia Commons

Quanto ao nome de Manuel de Carvalho, parece ser devido a algum ilustre desconhecido apatacado, que ali teve propriedade, no lado ímpar.

Quem lança os olhos para o mapa, magistralmente executado na Imprensa Régia (1812), vê logo os grandes claros nas edificações dessa zona da Cidade, das quais ainda algumas existem atestando o gosto do tempo.

Em 12 de abril de 1792 o juiz de fora, presidente da Câmara, mandava lançar editais de três nove dias, cujo curioso registo é do teor seguinte:

“Dr. Balthazar da Silva Lisboa, Juiz de Fóra do geral desta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro e seu Termo, Presidente do Senado da Camara dela com alçada no civil e crime, etc.

Faço saber aos que a presente minha carta de Editaes de tres nove dias virem ou dela tiverem noticia que a requerimento do Procurador do Senado da Camara foy nos Passos do Concelho determinado perante mim se pasace Carta de Editaes respectiva ao chãos que se acham de Volutos, aonde chamam o beco do preposito ao pé das Casas do Vereador Antonio Pereira Lima de Vasconcellos afim de comparecerem com seus titulos os que se considerarem com dominio util nos ditos chãos pena de Serem pelo mesmo Senado rematados a quem por elles mayor foro derem etc.” (Doc. do Arquivo Municipal.)

Essa intimação, parece, não foi seguida de grande resultado, porque da leitura da obra de Haddock Lobo vejo que no ano acima, e no local indicado, apenas foi aforado um terreno, na Rua da Ajuda, esquina do beco do Propósito, a Francisco da Rocha Mendes.

Até 1840 não tinha nome a rua, a que foi dada a designação de Cairu em honra do emérito Brasileiro José da Silva Lisboa, visconde daquele título, falecido em 1835, e de quem o Marquês de Abrantes dizia:

“Soube aliar o saber de Cícero à constância de Sócrates, o talento de Sêneca à virtude de Catão.”

Lisboa, único homem ante quem, segundo própria confissão, se curvava o orgulhoso Mont’Alverne, residiu por alguns anos no antigo sobrado, hoje completamente modificado, onde por muito tempo esteve a conhecida Casa de Saúde do Dr. Eiras, primeiro teatro das glórias de Torres Homem e de outras sumidades médicas e cirúrgicas.

No lado oposto, sobre o telhado de antiga venda, depara-se com grotesco e acaçapado sótão, berço de uma das mais belas instituições que possuímos; em 5 de setembro de 1829, dez mancebos, cheios de entusiasmo e de esperanças, resolvem fundar a Sociedade Jovial Instrutiva, transformada, em 12 de maio de 1831, na mui conhecida e veneranda Sociedade Amante da Instrução, cujo grandioso passado histórico foi brilhantemente feito pelo ilustrado Dr. Alfredo do Nascimento, sob o título – Um átomo de História Pátria.

Agora que vai desaparecer este humilde cenáculo, onde aqueles beneméritos se grupavam para a sublime cruzada de ensinar os ignorantes e dar arrimo às pobres órfãs desamparadas, consignarei aqui os nomes de tais apóstolos do bem, hoje todos já falecidos; são eles: Luiz Antônio Goulart, Vitório José Barbosa Lomba, Luiz José Muraelly, José Lopes Xavier, Damaso da Fonseca Lima, Ludgero Bráulio Ferreira, Elias Afonso de Lima, Francisco Antônio Sobral de Carvalho, João Carneiro dos Santos e Joaquim Bernardo Leal.

Havia no Internato do Colégio de Pedro II uma aula de dança, de que era único instrumentista o Caravelli, italiano, baixo, gordo, pescoço curto, careca, muito vermelho e suando sempre em bica. Residia em um sobradinho, na esquina do Beco de Manoel de Carvalho, que apresenta ainda hoje uma única janela para a Rua da Ajuda.

Ao som de desafinada rabeca dançavam os colegiais: os “Lanceiros”, as “Provinciais”, a “Varsoviana”, o “Príncipe Imperial”, a polca “Lu-lu”, etc.

Em um belo sábado, à tarde, dia de aula, Caravelli não apareceu, nem mandou o seu substituto, o Caramujo, baixote, barbado, feio e cara de judeu de cartilha. Caravelli foi preso. Por quê?

Por economia, não tinha ele quem lhe fizesse o serviço de casa e entendeu ser a via pública ou os telhados vizinhos o receptáculo omnium purgamentorum[1]. Em uma sexta-feira, já meio na chuva, Caravelli errou o alvo, e a coisa foi cair em um lampião de gás, derramando-se também sobre o rondante. Este, ao sentir o perfume, dá o alarma e o nosso instrumentista foi parar à estação do Largo da Carioca.

Verificada a ausência, foi chamado o Melo (filho do Melo da Polícia), o qual, graças a papel fino e a um pente, salvou a situação e, o que é mais, excedeu ao próprio Caravelli.

Folgou com isso o professor, o velho Rocha, mulato bambalhão, pés muito grandes (calçava 44) e metido a saber francês. Nas marcações era impagável: em vez de “avant deux”, gritava com ênfase “avant dú” e em lugar de ‛‛changer les mains et les jambés!”, “changer de mané janges!”.

Voltando, porém, ao assunto principal, seria monótono citar aqui as concessões dadas pela Câmara para arruamento e edificações de 1800 a 1804, na zona, objeto desses apontamentos. Podem ser lidas, nos quatro volumes do Arquivo Municipal, publicação feita (1894-1897) sob a inteligente direção do distinto Dr. Melo Morais, filho.

Preferirei apresentar aos meus leitores a individualidade do patrono da nossa rua: o barão de São Gonçalo, e prestar ao mesmo tempo homenagem ao primitivo proprietário, dizem, da minha modesta habitação, ora pertencente ao patrimônio da Sociedade Propagadora das Belas Artes.

Belarmino Ricardo de Siqueira nasceu em Saquarema aos 8 dias de fevereiro de 1792. Era filho legítimo do coronel Carlos José de Siqueira Quintanilha e de D. Maria Antônia do Amaral, neto do tenente Carlos Correia de Siqueira Coutinho e de D. Jerônima Teresa de Abreu Rangel, do Capitão Antônio Dias Delgado de Carvalho e de D. Catarina Isabel Maria da Vitória; bisneto de Sebastião de Siqueira Lordelo Madureira e de D. Catarina Correia Coutinho, de João de Torres Quintanilha, dos mestres de campo Antônio Dias Delgado de Carvalho e João de Abreu Pereira, de D. Bárbara de Matos Lousada e D. Escolástica Ferreira Drumond, etc.

Tudo isso consta da carta de brasão de armas, existente no arquivo do Instituto Histórico. Consistiam essas armas, segundo Sanches de Baena, em escudo esquartelado, no primeiro, em campo de ouro, sete barras de azul lançadas ao viés; no segundo, também em campo de ouro, cinco estrelas de goles em aspa; bordadura de goles, e no centro um escudete azul, com uma colmeia e seis abelhas de prata. Coroa de conde, por ser Grande do Império.

Obtida a instrução elementar, foi destinado por seu pai à vida comercial, carreira que, mais tarde, abandonou, tornando-se fazendeiro em Cordeiro e Araruama. Sumamente econômico e regrado, conservou-se sempre solteiro. Bom filho e excelente irmão, foi o arrimo de sua velha mãe e amparo de seus irmãos.

Ardente e entusiasta patriota, tomou parte ativa nos sucessos prodrômicos da Independência, filiando-se às bandeiras da Maçonaria. Segundo o Dr. Macedo, Belarmino foi iniciado em 2 de agosto de 1822, na mesma noite que o príncipe D. Pedro. Penso ter havido engano nesse fato: o futuro barão de São Gonçalo era maçom antigo, e, em 24 de junho de 1821, tomou parte na reunião realizada em casa de José Domingues Moncorvo, bisavô do ilustrado Dr. Moncorvo Filho, no grande sobrado da Rua dos Andradas (Ilha Seca), o qual corre da Rua Teófilo Otoni (Violas) à estreita de São Joaquim.

Nesse tempo ficou o Grande Oriente constituído pelas três lojas: Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói. Desta última foi associado Belarmino, tendo por irmão José Bonifácio e outros ilustres Brasileiros. Mais tarde, desenvolvido o Grande Oriente, Siqueira passou-se para o Apostolado. Fazia parte da segunda palestra, com o nome de Palady, segundo os atos dessa associação secreta, guardados em um cofre que pertenceu a D. Pedro II e veio para o Instituto Histórico. Delas fez excelente extrato o Sr. Henrique Raffard, no seu já citado trabalho Pessoas e Coisas do Brasil.

Fundador do Banco Rural Hipotecário, foi dele presidente durante muitos anos, dando provas de muito bom senso e tino comercial e merecendo o respeito e consideração de todos.

Filantropo, protegeu várias associações religiosas, de beneficência e de instrução, e entre estas últimas o Asilo de Santa Leopoldina e a Imperial Sociedade Amante da Instrução.

Condecorado por diversas vezes e galardoado com o título de barão com grandeza, não se ensoberbeceu com essas vaidades, conservando sempre os seus modos joviais e pilhéricos.

Comandante superior da Guarda Nacional, teve sempre o respeito e simpatia de seus subalternos.

Deputado provincial em muitas legislaturas, pronunciou alguns discursos de oposição, cheios de espírito e de ditos epigramáticos, mas não ofensivos. No fim da última legislatura (diz o Dr. Macedo), que precedeu à eleição por distritos, o barão de São Gonçalo tomou a palavra e, a pretexto de despedida, pronunciou memorável discurso humorístico, riquíssimo de ironias e de aticismo fulminador da reforma eleitoral, e durante meia hora trouxe o auditório em constante hilaridade; de tal sorte que foi impossível ao taquígrafo tomar notas, porquanto, rindo a bandeiras despregadas, largava o lápis com que escrevia.

Nesse discurso, dado, mais tarde, em resumo, no folhetim do Jornal do Comércio, “A Semana” – O barão de São Gonçalo ridicularizou-se a si próprio, fazendo alusão a um defeito seu (era caolho).

Dele se contam muitas anedotas, conservadas por amigos e por admiradores de seu belo caráter jovial e brincalhão.

Sem grande instrução literária, nem fundo científico, era o barão repentista e improvisador; no gênero epigramático há produções suas tão boas como as de Nicolau Tolentino, Bocage, Laurindo Rabelo e Muniz Barreto.

Depois de 81 anos votados à Pátria, à Caridade e à família, faleceu Belarmino Ricardo de Siqueira em 9 de setembro de 1873. Seus restos mortais repousam em magnífico mausoléu, no cemitério da Ordem do Carmo.

Em seu testamento dividiu seus importantes haveres por parentes, amigos, afilhados, associações de beneficência, etc.

Não esqueceu também empregados, agregados, escravos, deixando a estes últimos, além da liberdade, dinheiro para comprarem terras e casas.

Em conclusão, o barão de São Gonçalo não foi um quidam; tratando-se de Memórias da Guarda Velha, tem nelas cabimento a personalidade desse patriota altruísta, genuíno representante dos Brasileiros da Velha Guarda.

(1 de março de 1904.)

Nota do Editor

  1.  [56] Intentus perficiendo templo, fabris undique ex Etruria accitis, non pecunia solum ad id publica est usus sed operis etiam ex plebe. Qui cum haud parvus et ipse militiae adderetur labor, minus tamen plebs gravabatur se templa deum exaedificare manibus suis quam postquam et ad alia, ut specie minora, sic laboris aliquanto maioris traducebantur opera foros in circo faciendos cloacamque maximam, receptaculum omnium purgamentorum urbis, sub terra agendamLivio – Ab urbe condita I, 56 (Tradução do trecho final: a ser implementado sob a terra, a Cloaca Máxima, o receptáculo de todo o esgoto da cidade.)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Rua da Guarda Velha no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

Mapa