Avenida Treze de Maio (V)

V

Feliz como os Lobatos, diziam os capadócios do tempo de D. João VI, porque os tais figurões, além de ocupar vários e importantes empregos, gozavam de todo o valimento do rei e ainda por cima recebiam cada um do erário a soma de dois contos de réis anuais.

Eram quatro irmãos e, em 1808, haviam chegado ao Rio de Janeiro com a Família Real: Matias Antônio de Sousa Lobato – Joaquim José – Francisco José Rufino e Bernardo José.

Edifício da Typographia Nacional (Imprensa Nacional) na Rua da Guarda Velha, atual Av. Treze de Maio.

O primeiro, barão de Magé e mais tarde visconde, do Conselho do rei, seu guarda-roupa, escrivão da Câmara de sua majestade, do Registo Geral das Mercês no Rio de janeiro, nasceu a 30 de janeiro de 1768 e faleceu em Maio de 1826. Foi casado duas vezes: com D. Maria Inácia da Gama Freitas Berquó e D. Maria Carlota, irmã da precedente, ambas filhas de José Maurício da Gama e Freitas e irmãs de José Maria, marquês de Cantagalo.

Morava Matias Lobato no Paço da cidade, do lado da igreja de São José, em vasto aposento contíguo ao dormitório de D. João, e não longe do oratório do monarca. Ajudava o rei a despir-se e acompanhava-o, antes de dormir, na leitura do breviário.

Tinha o filho de D. Maria I grande horror às trovoadas, e por ocasião delas rebentarem, agarrados um ao outro, D. João e seu válido, velas de cera acesas, entoavam a magnificat e as orações à Santa Bárbara e São Jerônimo.

O segundo sucedeu ao irmão no título de visconde de Magé, foi alcaide-mor do Castelo de Vide, Conselheiro do rei, seu guarda-roupa, porteiro da câmara da infanta regente D. Isabel Maria, conselheiro da Fazenda no Brasil e em Portugal, escrivão da Fazenda do tribunal no Rio de janeiro, e proprietário do ofício de escrivão das marcas na Alfândega de Lisboa. Nasceu em 20 de outubro de 1770 e morreu em 1837. Tinha a honra de assistir às régias refeições, que quase sempre consistiam, tanto ao almoço como ao jantar, em quatro ou cinco franguinhos.

O terceiro, 1º visconde, 1º barão e 1º senhor da Vila Nova da Rainha, Senhor do Moxão de Esfola-Vacas, oficial-mor da Casa Real, alcaide-mor de Castro Marim, conselheiro de D. João VI, seu guarda-roupa, porteiro da Real Câmara, manteeiro, tesoureiro do real bolsinho, guarda-joias e tapeçarias, apontador dos foros dos reposteiros, secretário de Estado, dos negócios da Casa e Estado do Infantado, secretário deputado da Mesa de Consciência e Ordens, no Brasil, governador da fortaleza de Santa Cruz, tenente-genera1, nasceu em 30 de julho de 1773 e faleceu em maio de 1830.

O quarto, enfim, também guarda-roupa e escrivão da Câmara de sua majestade, da mesa do Desembargo do Paço no Brasil e em Portugal, nasceu em 14 de agosto de 1774 e faleceu em 1834. Todos os Lobatos muito condecorados.

Para justificar este exórdio aí vai o que escreveu o Dr. Melo Morais Sênior:

“Com a mudança da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, não havendo abundância de casas para as acomodações do grande pessoal, que veio de Portugal, construiu-se o sobrado de dois andares denominado da Guarda-Velha, que serviu de Secretaria do Império por muitos anos, e hoje serve de Liceu de Artes e Ofícios. Este sobrado foi feito em 1815 ou 1816 por José Rufino de Sousa Lobato, guarda-joias da Casa Real, para sua morada e por conta do erário régio; e como fosse a casa pequena para sua residência e acomodação das joias e alfaias da Casa Real, principiou a edificar outro contíguo e que faz canto para o beco do Cairu (aqui o eminente historiador enganou-se; devia ter dito beco do Propósito ou Barão de São Gonçalo) com o mesmo plano de dois andares, casa que não concluiu porque el-rei se retirou para Lisboa em 26 de Abril de 1821; e vindo este prédio ao domínio nacional – no sobrado ficou o quartel-general, e o outro por acabar por muito tempo ficou sendo o quartel do regimento de cavalaria. Depois foi habitado por diversas famílias de militares e de empregados públicos, que nada pagavam ao Estado.”

Está tudo isto de acordo com o que também escreveu o padre Luiz Gonçalves dos Santos.

A descrição minuciosa desses dois próprios nacionais pode ser lida no contrato de casamento da 3ª imperatriz, pois eles, como outros bens pertencentes ao Estado, foram dados em garantia.

A parte não concluída em 1821, e onde hoje funcionam as aulas do Liceu destinadas ao sexo feminino, foi devorada por pavoroso incêndio em 30 de junho de 1852, descrito nos jornais do tempo e na folhinha de Laemmert – “Crônica Nacional” (1853).

Ficaram, porém, as paredes em bom estado, e em galpões às pressas construídos eram guardados, em depósito, diferentes objetos da antiga Repartição de Obras Públicas.

“Conta-se (diz o Sr. Dr. Paula Freitas) que nele (edifício) se alojou uma antiga guarda, a que popularmente se chamava dos morcegos, e que corresponde à guarda urbana atual (1877).”

“O ministro Ângelo Moniz da Silva Ferraz (refere ainda o Dr. Mello Moraes) mandou demolir as paredes e fez o célebre edifício para a Typographia Nacional unicamente com óculos nas paredes, para dar escassa luz para o interior, a qual, pela umidade e falta de ventilação, se tornou museu de cupins, que devoraram os impressos ali depositados, ou, antes, por desleixo (sic) do administrador da mesma Typographia.”

Dessa casa saiu o primeiro número do Diário Oficial do Império do Brasil, criado em 1 de outubro de 1862.

Antes de ocupar o novo edifício, junto à Carioca, inaugurado em julho de 1878, andou a Tipografia Nacional de Herodes para Pilatos. Durante quase dezoito anos teve sede, como vimos, em um dos edifícios construídos por José Rufino de Sousa Lobato; porém, de 1808, época da criação com o título de Imprensa Régia, até 1860, ocupara vários prédios, os quais aqui lembrarei. Foi estabelecida, a princípio, nas lojas da grande casa da Rua do Passeio (hoje Pedagógium), comprada por Antônio Araújo de Azevedo, Conde da Barca, por 9:700$, a José Luiz Alves, testamenteiro de D. Maria Francisca Braga.

Mais tarde fez o Governo aquisição desse imóvel aos herdeiros do conde. No 1º volume dos Anais da Biblioteca Nacional podem ser lidos todos os documentos com relação a esse assunto, coligidos, se nos não falha a memória, pelo Dr. Menezes Brum.

Dali saiu, em 10 de Setembro de 1808, o primeiro número da folha oficial, sob o título de Gazeta do Rio, a qual era publicada às quartas e sábados.

Da Rua do Passeio passou para a Rua dos Barbonos, esquina da Rua das Marrecas, em frente ao quartel, estabelecendo-se em uma casa, propriedade de Lourenço Antônio do Rego. Junto havia uma oficina de cartas de jogar, pertencente a Jayme Mendes de Vasconcelos, incorporada à Imprensa Régia por decreto de 31 de outubro de 1811. Para melhor conhecimento desses fatos podem ser lidos os trabalhos de Vale Cabral, Paula Freitas, Pires de Almeida, Cunha Barbosa, Moreira de Azevedo e José Veríssimo.

Com o título já de Tipografia Nacional foi a antiga Imprensa Régia de novo transferida, em 28 de dezembro de 1822, para o seu primitivo habitat na Rua do Passeio.

Em 1831 teve ela ainda ordem de mudança, e ocupou, até 23 de abril de 1836, alguns salões da Academia das Belas-Artes.

Da Academia foi removida, em 23 de abril de 1836, para o pavimento térreo da Câmara dos Deputados, onde fora outrora a Cadeia. Desse lugar, em 1860, foi ainda transferida para o edifício da Guarda Velha, esquina da hoje Rua Barão de São Gonçalo, construído pelo Senhor de Esfola-Vacas.

Em tempos não mui remotos era a curiosidade pública dirigida para um velho octogenário, alto, cabelos como algodão, tez macilenta, ar tristonho, sempre de casaca e colete fechado até à gravata. Esse ancião, trôpego, quer fizesse sol ou chuva, era visto a caminhar em direção ou à antiga Tipografia Nacional, ou então de pé na grande porta, por onde saem, hoje, em alegres bandos, os jovens alunos dessa grande instituição, da qual tem sido por longos anos pontífice sustentáculo o benemérito Bitencourt da Silva, auxiliado por brilhante plêiade de desinteressados professores, para os quais não existe a palavra cansaço.

Anos depois ficou patente: o infalível velho era José Manuel Manso, crônica viva da nossa imprensa, patriarca dos nossos melhores tipógrafos. Admitido como aprendiz em 1808, fora nomeado em 1818 mestre das oficinas régias de compositores. Contando mais de meio século de serviços, foi-lhe abonada a metade dos vencimentos: 1$300 diários! quando, por seu estado de velhice, não pudesse comparecer à Tipografia. Mas o pobre velho tinha família – e que poderia fazer com tão exígua remuneração? Para não perder os 2$600, ia se arrastando até à Guarda Velha, para ainda ler as provas das obras que ali eram compostas. Morreu tão pobre – diz o velho Dr. Melo Morais – que foi necessário pedir esmolas para o enterro desse verdadeiro benemérito, cuja vida foi, com assiduidade, consagrada ao culto do dever, ao serviço do Estado e ao bem estar de numerosa família!

Depois disso é caso de dizer: viva a pátria e chova arroz, como cantava o antigo palhaço do circo em frente, no tempo em que o amável Bartolomeu era esbelto rapagão e dirigia a companhia de cavalinhos, na qual as jovens Rosinha e Agostinha faziam as delícias da nobre classe caixeiral e do rapazio de jaqueta; o de casaca veio depois e foi inventado pelo Ludgero.

(8 de março de 1904.)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Rua da Guarda Velha no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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