Avenida Treze de Maio (VI)

VI

Apenas preparados os materiais para o levantamento do edifício da nossa emancipação política, já os fautores e operários de tão patriótico cometimento se mostravam desconfiados uns dos outros e desunidos por inimizades, intrigas e calúnias.

A cisma teve por arena a Maçonaria, associação secreta, que nesse tempo prestou inolvidáveis serviços à causa da Independência e funcionava então no grande sobrado da Rua Nova do Conde (hoje Frei Caneca), habitado muito mais tarde pelo eminente clínico Torres Homem. Ali, Joaquim Gonçalves Ledo, Januário da Cunha Barbosa, Domingos Alves Branco Moniz Barreto, Dr. Manuel Joaquim de Menezes, José Domingues Moncorvo, José Maria da Silva Bitencourt, tenente-coronel Manuel dos Santos Portugal, José Joaquim da Rocha, os Andradas – José Bonifácio e Martin Francisco – Rui Germack Possolo, José Caetano Gomes, José Clemente Pereira, José Maria Pinto Peixoto, Albino dos Santos Pereira, Pedro José da Costa Barros, Manuel Joaquim de Oliveira Alves, Francisco de Paula Vasconcelos, frei Sampaio e tantos outros, ativaram o movimento tendente à separação do Brasil da antiga Metrópole.

Querendo acompanhá-los nessa faina, o príncipe regente D. Pedro, sem medir o alcance de alistar-se sob as bandeiras maçônicas, vivamente dissuadido por José Bonifácio, grão-mestre da Ordem, viu coroados seus ardentes e curiosos desejos, e, em sessão de 2 de agosto de 1822, foi admitido como aprendiz, com o nome de Guatimozin, sendo saudado, em longo discurso, por Domingos Alves Branco. Logo após, foi o futuro imperador admitido ao grau de mestre (5 de agosto), sendo este conferido pelo venerável da Loja Comércio e Artes, tenente-Coronel Portugal.

Uma noite, aproveitando-se Ledo da ausência de José Bonifácio e presidindo a sessão como 1º vigilante, propôs e foi unanimemente aclamado D. Pedro como grão-mestre da Maçonaria, e, em 4 de outubro, prestou ele o competente juramento. Segundo é fama, queriam Ledo e seus amigos apoderar-se do valimento do então já imperador e diminuir a influência política dos Andradas e seus adeptos. Estes não se deram por vencidos, e, empregando medidas de rigor contra os adversários, conseguiram, afinal, pô-los à margem como revolucionários, demagogos e perturbadores da ordem.

Dissolvido em 25 de outubro de 1822 o Grande Oriente, a 28 pedem os Andradas demissão do ministério, e a 30 são reintegrados, graças a numerosos abaixo-assinados, em que os ilustres Paulistas eram proclamados pais da pátria. Apesar dos ódios e calúnias espalhados pelos inimigos, José Bonifácio e seus partidários, senhores das boas graças do imperador, mandaram instaurar a célebre devassa conhecida por Bonifácia, na qual foram envolvidos os antigos próceres maçônicos, perseguidos e deportados.

É curiosa a leitura desse processo, publicado mais tarde com anotações de José Clemente Pereira, uma das vítimas da perseguição dos Andradas e acusado de ideias republicanas!

Para subtrair, porém, D. Pedro de toda a influência maçônica, resolveram José Bonifácio e os seus fundar nova sociedade secreta, com o nome de Apostolado. Com o título de archote-rei foi proclamado o Chefe da Nação presidente da nova grei, conservando José Bonifácio para si o cargo de vice-presidente ou lugar-tenente.

Com organização toda especial, composta de centúrias e decúrias, que celebravam sessões em diversas localidades, o Apostolado tinha por sede principal o edifício da Guarda Velha, onde hoje funciona o Liceu de Artes e Ofícios.

Os recipiendários, ao ser iniciados, prestavam o seguinte juramento:

“Juro aos Santos Evangelhos guardar escrupulosamente o segredo do meu grau, não comunicando a pessoa alguma paisana qualquer coisa que na qualidade de recruta me for confiada, nem tão pouco instruir alguém do sinal da O ∴ dos C ∴ da S ∴ C ∴, toque, senha e contra senha correspondente. Juro obedecer aos meus superiores na Ordem. Juro finalmente promover com todas as minhas forças e à custa da minha vida e fazenda – a Independência, Integridade e Felicidade do Brasil, como Império Constitucional, opondo-me ao despotismo que o altera, como à anarquia que o dissolve. – Assim Deus me ajude.”

Conta Drumond que tal era o entusiasmo de D. Pedro pelo Apostolado, que teve, a pedido do imperador, e reiteradas instâncias dele, de ali filiar-se. Declara mais Drumond que, perseguido inocentemente como maçom em 1817, nunca mais quisera fazer parte de Sociedades secretas. Afinal, cedeu; mesmo porque no Apostolado estavam os Andradas, de quem até os últimos dias foi fiel amigo esse mais tarde representante do Brasil junto à Corte de Lisboa.

Para o Apostolado entraram os amigos de José Bonifácio, os descontentes da Maçonaria e os que nela haviam sido recusados.

Na citada memória do Sr. Henrique Raffard, Pessoas e Coisas do Brasil, vem por extenso a lista dos membros ou camaradas dos três grupos ou palestras, extraída das atas guardadas em um cofre, o qual, como já referi, existe no Instituto Histórico e pertenceu ao finado imperador. Dessa relação extrairei alguns nomes de pessoas, que mais tarde representaram papel notável no nosso mundo social, sendo para notar os de muitos sacerdotes: D. Eugênio Lóssio, padre José Luiz de Freitas, Francisco de Paula Sousa e Melo, padre José Antônio Caldas, José Pedro de Carvalho Morais, Bento Antônio Vaía, José Antônio Lessa, Domingos da Silva Oliveira Botafogo, frei Leandro do Sacramento, frei Pedro de Santa Mariana, padre Narciso da Silva Nepomuceno, padre Manuel Rodrigues da Costa (implicado na Conjuração mineira), Antônio Teles da Silva, José Joaquim da Rocha, frei Antônio de Arrabida, Clemente Ferreira França, Manuel Inácio Cavalcanti de Lacerda, Luiz da Cunha Moreira, José Alexandre Carneiro Leão, padre Renato Boiret, Antônio de Meneses Vasconcelos de Drumond, Belarmino Ricardo de Siqueira, padre Paulo Tilbury, Francisco Carneiro de Campos, João Paulo dos Santos Barreto, Inácio Accioly e muitos outros.

Segundo refere Melo Morais sênior, ainda em 1871 existia o salão, onde trabalhava o Apostolado, ocupado, então, pela seção central, subordinada ao diretor geral da Secretaria do Império.

Hoje, com as obras feitas no edifício que hospedou o Liceu, não me foi possível verificar esse local, que poderá ser mostrado por algum antigo empregado da Secretaria.

Vencidos os retrógrados de São Paulo (os da bernarda de Francisco Inácio, assunto magistralmente tratado no volume  da Revista do Instituto Histórico de São Paulo), subjugados os ultra liberais do Rio de Janeiro, estavam os Andradas e seus partidários senhores da situação.

Mas como não há bem que sempre dure, José Bonifácio não via com bons olhos a ascendência que tomara sobre o coração do príncipe jovem e gentil senhora paulista, protetora declarada dos companheiros de Francisco Inácio, e o predomínio de certa camarilha formada de criados do Paço, muito do peito do jovem imperante. Este, se conhecesse a comédia traduzida pelo Pires de Almeida aos 14 anos, poderia também cantar:

“Ao Deus de amor
Nada é impossível,
Todos no mundo
Têm corda sensível.”

Em 3 de maio de 1823 foi aberta a Assembleia Constituinte, e em junho o imperador foi vítima de um desastre, fraturando costelas, devido a queda de cavalo (as más línguas do tempo disseram ser isso causado por tremenda sova de pau). Retido por muitos dias no leito e não podendo tomar parte ativa nos negócios públicos, eram estes decididos por José Bonifácio, que, com seus amigos e partidários, estudavam no Apostolado as várias questões que deviam ser assunto da ordem do dia na Constituinte.

Em 15 de julho Plácido Antônio Pereira de Abreu recebeu uma carta anônima, com outra dentro sobrescritada ao imperador e para ser a este entregue em mão própria e imediatamente. Plácido, sectário do seguro morreu de velho, no dia seguinte anunciou pelo Diário do Rio de Janeiro que dera cabal cumprimento ao pedido do oculto missivista. Segundo dizem, a carta dirigida ao imperador, e escrita em alemão, avisava-o não fosse à sessão do Apostolado do dia 16 de julho, pois seria assassinado. Ao entardecer chegou ao Paço José Bonifácio, a convite de D. Pedro. Este, com o seu ministro conversou por algum tempo e, sob pretexto de que ia renovar os aparelhos, retirou-se para seus aposentos, dizendo a José Bonifácio fosse conversar com a imperatriz e o esperasse.

D. Pedro saiu do palácio, e apesar da noite chuvosa, foi ao quartel do Campo de São Cristóvão acompanhado – diz Melo Morais – do comandante do esquadrão de cavalaria Pardal, alguns oficiais e 50 soldados do mesmo esquadrão (indo os cavalos desferrados), às 8 horas da noite, dirigindo-se todos para o edifício do quartel-general da Guarda Velha; surpreendeu os Apóstolos, tomou assento na cadeira presidencial, ocupada por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, apoderou-se dos papéis, entre eles o projeto da Constituição que ali se discutia, e dissolveu o Apostolado. Todos os membros que se achavam presentes retiraram-se por entre alas de soldados; D. Pedro, mandando fechar a porta do edifício, levou consigo as chaves.

Esta porta, hoje histórica, felizmente ainda existe e é a mesma onde depois das aulas do Liceu, o velho Bitencourt da Silva fiscalizava a saída da rapaziada, lembrando-se com saudade dos bons tempos em que pintava o padre lá para as bandas da Lapa do Desterro.

No dia seguinte, 17 de julho, é demitido o ministério Andrada.

Segundo a versão de Drumond, esse ato foi devido à franqueza de José Bonifácio, que lançou em rosto ao imperador seus escândalos com a referida senhora, protetora dos réus políticos de São Paulo, dos quais ela até havia recebido dinheiro.

Em 1 de setembro foi representado à Assembleia o projeto de Constituição que o vulgo alcunhou – Constituição da Farinha de Mandioca.

Porque conspirariam os do Apostolado, quando os Andradas, à frente do poder, davam as cartas e pela flor da gente empenhavam, segundo dizem, a todos suas vontades?

Eis um ponto histórico, que ainda está para ser elucidado. Se a tal carta anônima foi intriga política ou pilhéria forjada pelos inimigos dos Andradas, cumpre confessar obtiveram eles o desejado fim, graças ao gênio trêfego e inconstante do 1º imperador.

Verdade é que, ao apresentar-se o archote-rei à porta do edifício, o porteiro, dizem, o reconheceu e quis vedar-lhe a entrada.

Subjugado pelos soldados, como também o foram os guardas do primeiro e segundo pórticos, fácil foi ao imperador entrar no recinto do Apostolado.

Ao vê-lo, os Apóstolos sacaram dos punhais, o que levou os oficiais a desembainharem as espadas. O imperador tranquilizou-se e ordenou nada fizessem: aquilo estava nos usos da casa, e era cerimônia obrigada quando algum membro mais ou menos graduado se apresentava à porta do Templo.

Os acontecimentos políticos que se seguiram tiveram por principal causa um fato ocorrido no Largo da Carioca, e como este não dista da moderna Avenida mais que um passo, exatamente como a rocha Tarpeia do Capitólio, entrarei em breve no dito largo.

Lembrarei, desde já: neste caso, o Capitólio era a Constituinte, onde estavam as esperanças do Povo Brasileiro; e a tal rocha a dissolução da mesma, em 12 de novembro, e o consequente desterro dos Andradas e de seus amigos!

14 de março de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Rua da Guarda Velha no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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