Baleias – I

O excepcional aparecimento de uma baleia nas águas da nossa baía, dá, em falta de coisa melhor, assunto a estas notas, que têm pelo menos o sal da oportunidade.

A nossa visitante, mais fina que suas ilustres antepassadas, foi se pondo na picada, antes de deixar aqui couro e cabelo, ou melhor: gordura e barbatanas. As antigas muito gostavam da formosa Guanabara; entravam, mas não saíam, eram consideradas prisioneiras, esquartejadas a machado, e à custa de seus corpos deram nascimento a florescente indústria, muito lucrativa aos cofres da Metrópole, servindo indiretamente até para pagamento de subvenções a altos personagens civis e eclesiásticos.

Que houve quem comesse carne de baleia não há dúvida: dela provou o mui conhecido João de Lery, que chegou a mandar salgada ao almirante Coligny, como apreciável petisqueira, a língua de um desses cetáceos, que dera à costa nas redondezas do Rio de Janeiro.

Na narração de sua viagem (1591) ao mar do Sul, em companhia de Thomaz Cavendish, Antônio Knivet, que chegou a ser guarda-porcos de Salvador Corrêa, conta o seguinte: “abandonado na ilha de São Sebastião, sem recurso algum, e não ousando permanecer em certo sítio fui no seguinte dia mais para dentro, e encontrei na praia, a modo de um navio de quilha para cima, uma baleia coberta de uma sorte de musgo, por ali se achar desde algum tempo. Construí nesse lugar uma cabanazinha e VIVI QUATORZE DIAS NA BAHIA”.

O útil cetáceo tem menção especial nos primórdios de nossa História: do encontro por Vasco da Gama, em sua rota para índia, tiram os sustentadores da não casualidade do descobrimento do Brasil poderoso argumento.

O venerável Anchieta e seus companheiros regalavam-se vendo da janela do Colégio da Baía as baleias andarem saltando, tantos e tão grandes que é para ver.

O autor do Tratado Descritivo do Brasil dá-lhes, em sua minuciosa obra, lugar de honra com as seguintes palavras que melhor descrevem o viver delas: “entendo que cabe a este primeiro capítulo, das baleias que entram na Bahia (como do maior peixe (sic) a que os índios chamam pirapuan), das quais entram na Bahia muitas em o mês de maio, que é o princípio do inverno daquelas partes, onde andam até ao fim de dezembro que se vão, e neste tempo de inverno que reina até o fim de agosto parem as fêmeas à abrigada da terra da Bahia, pela tormenta que faz no mar largo, e trazem aqui os filhos, depois que parem, três e quatro meses, que eles têm disposição para seguirem as mães pelo mar largo, e neste tempo tornam as fêmeas a emprenhar, em a qual obra fazem grandes estrondos no mar.

“E enquanto as baleias andam na Bahia, foge o peixe do meio dela para os baixos e recôncavos, onde elas não podem andar, as quais às vezes, pelo irem seguindo dão em seco, como aconteceu no rio Pirajá, o ano de 1580, que ficaram duas em seco, macho e fêmea, às quais foi ver quem quis; e eu mandei medir a fêmea, que estava inteira, e tinha do rabo até à cabeça 73 palmos de comprido e 17 de alto, fora o que tinha metido pela vasa, em que estava assentada… a fêmea tinha a boca tamanha que vi estar um negro metido entre um queixo e outro, cortando com um machado no beiço de baixo com ambas as mãos, sem tocar no beiço de cima; e a borda do beiço era tão grossa como um barril de seis almudes… do ventre tiraram de dentro um filho do tamanho como um barco de trinta palmos de quilha, etc.”

Houve grande regabofe na terra, pois das duas o Zé Povinho tirou tanto azeite que fartou a gente por espaço de dois anos!

O mesmo aconteceu aqui, no Rio de Janeiro, – refere Frei Vicente do Salvador, – no governo de Affonso de Albuquerque, filho do conquistador do Maranhão.

Era nesse tempo a praia a rua principal, e ali defronte do Convento do Carmo (hoje Praça Quinze de Novembro) apareceu uma baleia morta, que de noite havia dado à costa.

Os pescadores do tempo foram-se a ela, e os cidadãos tiveram azeite por muito tempo. Nessas épocas para a iluminação particular (a pública não existia) era o suprassumo do luxo obter um pouco de azeite de peixe. Os velhos Cariocas conheciam bem o rifão: quem tem para candeia nunca se deita sem ceia.

Segundo Varnhagen, a indústria da pesca da baleia começou em 1603, permitida na Baía a certo biscainho Pedro de Urecha. Anos depois entrava o monopólio do azeite de peixe na lista dos contratos arrematados, rendendo para a Fazenda Real de 600$ a 700$ anuais. Para o provedor-mor Cordovil de Siqueira e Mello, no Rio de Janeiro, tal contrato começou em 1644. Monsenhor Pizarro contesta esta opinião, sustentando ter tido o referido contrato início antes de 1639. Argumenta citando a verba testamenteira de certo João Loureiro Coram, que legara a seu sobrinho Migue1 João 100$, do monte-mor do espólio por o haver servido alguns anos na armação das baleias.

Não vale a pena discutir aqui minúcias sobre esse fato que diz respeito à nossa História. Seja como for, está provado que anos depois de fundado o Rio de Janeiro, os habitantes entregavam-se com ardor à arriscada pesca das baleias, que em cardumes vinham refrescar-se nas águas da formosa Guanabara.

“Prosseguia a Câmara (diz o cronista), nos objetos do seu governo econômico, e causando-lhe grande mágoa o ver tão desgraçadamente pelas mortíferas moléstias, de que toda a povoação se cobria, examinando por um lado a falta de providências que havia na cura das mesmas moléstias, pela falta dos precisos medicamentos, resolveu obrigar os boticários que tivessem sempre prontos os remédios necessários, não advertindo, porém, que as estagnações das águas, o ar podre que se respirava, dos charcos e de imensa podridão que os cercava, eram a mortal causa das enfermidades e febre malignas que reinavam, sobre cujos males foi tomado o acórdão da Vereança para serem notificados os armadores das baleias para que com pena de 2$ não desfizessem a tripagem das baleias senão mui longe da barra, para que o mau cheiro que exalavam não infecionasse a cidade, acrescentando os seus males nas multiplicadas moléstias de podridão.”

Ora, eis aí a tripa da baleia contribuindo com valioso subsídio para o estudo da etiologia das moléstias cá da nossa terra.

Passava-se isto em princípios do século XVII, e então como sempre as opiniões se dividiam. Para o cronista eram os charcos a causa de tudo, para o Conselho os miúdos dos cetáceos, sem se lembrar dos nauseabundos processos da falsificação do azeite. Mas… naqueles tempos quem falasse em micróbio iria para Angola, desterrado, ou parar aos cárceres da Santa Inquisição.

Por muitos anos houve nesta cidade um único depósito de azeite; no princípio da rua, hoje General Câmara. Mais tarde foi o armazém transferido para as proximidades da Lapa dos Mercadores, hoje Travessa do Comércio, (Arco do Telles). Em 1680, porém, o Conselho deliberou estabelecer outro armazém no Bairro de São José, porque uma só venda do azeite de peixe causara grande opressão ao povo assim PELA DISTÂNCIA como pelo pouco aviamento que se dá ao povo.

Dando cumprimento a essa vereança o provedor da Fazenda, Francisco de Brito Meirelles, que anteriormente também fora provedor da Misericórdia, mandou intimar a um inquilino da Santa Casa despejasse o prédio, pois dele precisava para depósito do azeite de baleia do contrato real. A Misericórdia recalcitrou, fundada em seus antigos privilégios, e, sem esperar por mandados de manutenção nem competências de juízo, dirigiu-se por ofício ao Governo da Metrópole. De lá foi respondido: entregasse a Misericórdia a casa, porquanto na interpretação da lei em vigor se devia entender que essa ocupação não abrangia o SERVIÇO PÚBLICO, como o de que se tratava. A casa, – diz Felix Ferreira, – que ficava em frente à igreja, foi, pois entregue para depósito; mais tarde, porém, restituída, foi no terreno edificada a primeira Casa dos Expostos, que hoje está ocupada pela Biblioteca da Faculdade de Medicina.

O segundo depósito funcionou mais tarde, e por muito tempo, no prédio hoje n. 115 da Rua da Misericórdia. Há poucos anos, por baixo do soalho, viam-se as grandes cavas onde era depositado o azeite, e as borras aderiram às paredes tornando-se tão duras como pedra.

É sabido: os antigos construtores serviam-se dessa borra (gala-gala) ligada à cal do Reino para as edificações, e é por isso que nas demolições de antigos edifícios é preciso muitas vezes empregar a dinamite. Um rico contratador ofereceu ao vice-rei, Marquês de Lavradio, os resíduos do azeite para as obras da Casa do Trem em vez de lançá-los fora da barra. Deram as experiências bom resultado, e o marquês recomendou à munificência régia esse benemérito, que de graça ofertava o que poderia vender por bom preço. O ilustre cidadão da República contentar-se-ia com pouco: não queria dinheiro, mas tão somente algum agradecimento manu regia ou uma comenda da Ordem de Cristo!

Do conflito entre a Misericórdia e o provedor da Fazenda não resultaram, ao que parece, ressentimentos; pois a filha, e não esposa de Brito, como quer Felix Ferreira, D. Francisca de Brito Meirelles, legou por sua morte à Santa Casa várias propriedades, principalmente nas ruas Padre Manuel Ribeiro, Alecrim, do Bocão, do Jogo da Bola, Bento Esteves ou, em uma palavra, na rua do Hospício.

Tempo seria de algo dizer em que consistiam os contratos do azeite de baleia, as cláusulas com que eram celebrados e suas formalidades, as deduções que os arrematantes tinham de pagar, e as propinas entregues aos funcionários do Conselho Ultramarino; bem como dar ligeira ideia da exportação do azeite e barbatanas e quanto rendia para a Fazenda Real essa indústria, e o que ficava para os arrematantes, alguns dos quais deram com os burros n’água e foram declarados falidos, pagando os prejuízos os respectivos responsáveis, sob pena de sequestro e cadeia!

Falta-me espaço para tanto, assim como para falar da Armação de São Domingos, o que ficará para depois. Apenas, para provar a verdade de uma das primeiras asserções destes apontamentos (quando disse que da baleia vivia muita gente boa), lembraremos duas leis: a de 1º de agosto de 1668, que ordenava fossem pagas pelo contrato do azeite de peixe as côngruas do bispo, cônego e mais beneficiados da Catedral. Nos primeiros tempos a chamada folha eclesiástica importava em 2:336$000. O prelado recebia por ano a quantia de 1:000$000 !

Pela carta régia de 7 de janeiro de 1694, tinham uma lambujem do supradito contrato os próprios governadores. Para perfazer o cômputo dos seus soldos ordenava a Metrópole o acréscimo de um vintém em cada medida de azeite, além dos cem réis por que se arrematava, e como nos contratos estava estabelecido pela Câmara!

E por hoje basta de tanto azeite e de tanta baleia.

11 de julho de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Leandro Joaquim (circa 1738-circa 1798) – Pesca da Baleia na Baía do Rio de Janeiro. Museu Histórico Nacional.

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