Barbonos

Lograram, por quarenta anos, os Capuchos franceses o gozo de moradia certa.

Não assim os Capuchinhos italianos, Barbonos ou vulgarmente Barbadinhos, os quais reputados pela Câmara e povo, protegidos pelos governadores, não puderam conseguir durante muitos anos casa própria, de onde pudessem partir em cumprimento de sua árdua missão de catequistas.

Mal se compreende hoje, como tão cioso de suas possessões de ultramar permitisse o Governo português, sobretudo no Brasil, o ingresso de religiosos estrangeiros. Cheios os nossos conventos de regulares e confiadas principalmente aos Jesuítas as missões dos silvícolas, entendeu a metrópole entregar também essa difícil tarefa aos Capuchinhos franceses e italianos. Seria porque santos de casa não fazem milagres?

Que já em 1675 eram aproveitados os serviços do Barbonos no aldeamento dos índios dos campos dos Goitacás, vê-se pela leitura da importante monografia do Dr. Augusto de Carvalho – A Capitania de São Thomé – em a qual vêm detidamente narrados os serviços desses missionários, em benefício dos Guarulhos.

Em 1681, e pelo alvará de 9 de Dezembro, obtinham os Barbonos a ordinária de oitenta mil réis anuais, pagos pela Fazenda Real, como remuneração do muito que iam praticando em favor da catequese.

Parecerá, à primeira vista, de mau gosto entreter a atenção dos leitores com a noticia das mudanças dos frades Barbadinhos: mas dessa censura nos defenderemos alegando: ficará in albis quem ler a obra de Balthazar Lisboa, que fez verdadeiro imbróglio, seguido por todos quantos o imitaram, por não se quererem dar ao trabalho de manusear documentos inéditos, que não só lançam luz sobre o assunto, mas fornecem dados seguros sobre a topologia desta nossa cidade.

Na lista dos bons governadores do Rio de Janeiro se numera Aires de Saldanha e Albuquerque Coutinho Matos e Noronha, do qual não podemos dizer fosse maior o nome que a pessoa. Entre os seus muitos serviços prestados, deu grande incremento aos encanamentos da Carioca, construindo o antigo chafariz, menor, mas muito mais elegante que o atual. Devoto de Nossa Senhora do Terço, de cuja irmandade, ereta na igreja de São José, foi juiz, era pelo menos homem de probidade. No tempo de sua governação tomou por empréstimo grande quantia ao ricaço José de Sousa Barros. Falecendo este e instituindo a Misericórdia sua testamenteira e herdeira, Saldanha apresentou-se voluntariamente à Mesa da Irmandade, em 26 de Maio de 1725, declarando ir hipotecar seus bens para saldar o débito, do qual não havia documentos ou provas.

No tempo deste governador chegaram ao Rio de Janeiro os Capuchinhos italianos frei Antônio de Perusia e frei Jerônimo de Monte Real, saídos de Itália com destino à missão de São Thomé e que por força de tempestades aqui arribaram. Negando-se-lhes agasalho no Convento de Santo Antônio, Saldanha, de acordo com o Cabido, os acomodou no Palácio Episcopal da Conceição, vago por morte do bispo Dom frei Francisco de São Jerônimo. Os frades, parece, gostaram do lugar, e o superior deles representou ao rei que os Capuchinhos franceses tiveram ali um hospício e igreja, os quais, depois de sua partida, foram ocupados pelo Bispo que se obrigava a agasalhar nele os ditos Capuchinhos italianos todas as vezes que fosse necessário. Requeria mais lhes concedesse, para permanência nessa mesma terra, na mesma forma que o possuíam os ditos Padres Franceses, para cujo efeito se lhes devia entregar a Igreja e Hospício, que foi dos ditos Franceses, para que, com melhor cômodo, pudessem usar de suas missões.

Em data de 12 de Julho de 1723 ordenou D. João V informasse a respeito o governador, ouvidos a Câmara e Cabido, os quais declararam não ser exata a alegação, apesar de reconhecerem o procedimento exemplar e digno dos referidos religiosos.

Narrando o que já sabemos sobre o palácio episcopal negaram, in limine, houvesse o bispo tomado tal compromisso, e que se os Barbadinhos tinham sido ali hospedados fora por simples favor e por estar desocupada a residência diocesana, por falecimento do Ordinário.

Chegando, em 1725, o novo bispo, Dom frei Antônio de Guadalupe, foram os Capuchinhos despedidos da Conceição e, em falta de casa melhor, aboletaram-se nas dependências de uma pequena ermida (hoje igreja da Conceição e Boa Morte), erguida por Francisco Seixas da Fonseca. É por esta razão que, ainda hoje, uma das nossas ruas conserva o nome de Hospício.

Por antigas questões entre os religiosos de Santo Antônio e a Ordem da Penitência teve lugar, em 1720, um verdadeiro cisma. Os terceiros do partido dos frades permaneceram na antiga sede, no morro; outros, porém, tendo à sua frente o ministro Francisco Seixas da Fonseca foram estabelecer-se em uma capela feita de pau a pique em terrenos comprados pela Ordem a João Machado Pereira por 3.000 cruzados em 6 de Dezembro de 1719. Não entraremos em minudências sobre essa divisão ou briga, na qual interveio até o Governo da metrópole, censurando o governador Luiz Vahia Monteiro que, afeito ao partido dos irmãos do morro, chegara até a desterrar para Pernambuco o ministro Seixas da Fonseca. Este protestou e foi atendido, regressando ao Rio de Janeiro. Afinal serenaram os ânimos, houve a reconciliação e tudo voltou ao estado anterior.

Não tendo mais a Ordem da Penitência necessidade da capela, vendeu-a por 3:160$ à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pardos, em Janeiro de 1729.

Em presença dos novos donos tiveram os Capuchinhos de abandonar o hospício e buscar nova pousada. Lá se foram em busca de umas velhas casinhas, emprestadas pelo bispo e situadas nas proximidades da antiga capela, fundada por Antônio Gomes do Desterro (hoje Convento de Santa Teresa).

Foi nesse tempo que, tendo de assistir aos atos religiosos celebrados ali pelos Barbadinhos, e passando pelo caminho de Matacavalos, teve Jacinta de São José a ideia de comprar a chácara da Bica e nela levantar o Recolhimento do Menino Deus, origem do atual Convento dos Carmelitas.

Nas tais casinhas, porém, chovia como na rua, e os frades suplicaram de Gomes Freire o favor de construir morada conveniente, mesmo junto à capela do Desterro.

O governador, que era o primeiro a fazer justiça ao zelo desses missionários e a aquilatar seus bons serviços, conferenciou com o Governo da metrópole.

De Lisboa veio a ordem régia de 16 de Abril de 1738, declarando não ser possível satisfazer ao pedido dos religiosos, porque o rei havia feito mercê da capela do Desterro e terras vizinhas ao bispo, para patrimônio de um seminário em via de construir-se. Que, entretanto, pusesse à disposição dos Capuchinhos o recolhimento então desabitado, junto à ermida da Ajuda; porém, fosse isto feito, ouvidos os oficiais da Câmara, Nobreza e Povo, e com a condição de não apresentarem eles dúvida atendível.

As pessoas consultadas responderam ser inconveniente a estadia dos Capuchinhos na Ajuda, cujo recolhimento era destinado a ser convento de freiras, como era desejo de todo o povo, e que passando os religiosos para tal lugar cessaria o fervor e o zelo de se continuarem as obras do projetado convento, cuja licença era ansiosamente esperada.

No meio de tantas delongas apareceu, enfim, a ordem régia de 23 de Outubro de 1739, ordenando ao governador a compra de um terreno para construção do Hospício dos Barbonos: “desde o quintal do capitão João Antunes até a última coluna de pedra, que está no caminho, que vai para o Desterro, façais tomar, por avaliação, três casas térreas que ocupam um pedaço de morro baldio, e neste sítio mandareis edificar para os ditos padres Barbadinhos um pequeno e humilde hospício com sua capelinha, mas sem forma de convento, que na pobreza da fábrica, corresponda à humildade e pobreza com que tanto edificaram os ditos padres”.

Concluídas as obras em 1742, o provedor da Fazenda Real, Francisco Cordovil de Siqueira e Mello, deu posse aos frades, achando-se presente o governador Gomes Freire de Andrade e muitas pessoas gradas, como hoje se diria.

Desde então a atual Rua Evaristo da Veiga, antigamente Caminho dos Arcos da Carioca, foi conhecida pela Rua dos Barbonos.

Quanto aos terrenos supra mencionados refere o Dr. Mello Moraes pai, o seguinte: “Contou-me o conselheiro Antônio de Meneses Vasconcellos de Drummond, que sendo seu avô senhor e possuidor da maior parte dos terrenos da Rua dos Barbonos, que se tomaram para se erigir o hospício desses frades, e não se achando bem com o governador, este lhe ofereceu pelos ditos terrenos uma quantia insignificante. Não se podendo resistir à ordem régia, cedeu de seu direito e propôs à Fazenda Real uma ação de lesão enorme; mas, falecendo antes de concluída a demanda, o filho não continuou; depois que a Corte portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro, seu pai, entendendo não haver prescrição de direito, reviveu a questão e teve sentença contra, dada pelo juiz da Coroa Amorim, fundando-a em se achar prescrita a ação. O chanceler Thomaz Antônio, vendo os autos em particular, achou haver razão no pleito por parte de Drummond, porém disse que ele perdera o direito; e que, pelo prejuízo sofrido, pedisse ao príncipe regente uma indenização honorífica, ao que não anuiu Drummond, por entender que nem prescreve e nem perde o direito aquele que tem a sua ação intentada com citação, e, julgando que não devia fazer mais questão por semelhante objeto, ficou tudo nisso”.

Até nisso foram caiporas os Barbadinhos; anos depois a fatalidade desencadeou-se sobre eles, privando-os do eremitério de que eram senhores e possuidores.

Com a chegada da Família Real em 1808, tiveram de abandonar o hospício para cedê-lo aos Carmelitas, cujo convento devia ser aproveitado para acomodar a comitiva régia. Foram os Barbonos aboletados nas casas dos romeiros pertencentes à Irmandade da Glória do Outeiro. Dois anos ocuparam os Carmelitas o Hospício dos Barbonos, sendo transferidos para o extinto Seminário da Lapa. Mas nem por isso voltaram os Capuchinhos italianos à sua antiga residência. Esta foi dada aos frades de Jesus da Terceira Ordem da Penitência, que deram ao hospício o título de Convento de Nossa Senhora do Patrocínio, convertido mais tarde em quartel de granadeiros, dos permanentes, e hoje da Brigada Policial Quartel General da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

“No Hospício dos Barbonos, refere o Dr. Moreira de Azevedo, existiu um pardo muito religioso, conhecido pelo nome de irmão Manuel. Era donato, cosia batinas e pedia esmolas para os santos. Gozava de tão boa fama que, quando faleceu, muitos indivíduos foram ao hospício pedir um pedacinho do hábito, que envolvia o cadáver do irmão Manuel.”

Dizem que na chácara dos Barbonos foram plantados os dois primeiros pés de café, trazidos do Pará pelo desembargador João Alberto Castello Branco. Este assunto está sendo objeto de aprofundadas averiguações, por parte do Dr. Caldas Britto, que em breve trará a público o resultado de seus estudos.

Mas acompanhemos ainda os Barbadinhos em suas peregrinações: por desavenças com a Irmandade da Glória foram eles residir em um prédio, junto à igreja de Santo Antônio dos Pobres, reconstruído à custa do Estado, por ordem do imperador D. Pedro I.

Ali permaneceram até 1831, segundo inferimos de um aviso firmado por Diogo Antônio Feijó, mandando entregar à Irmandade a capela de Santo Antônio dos Pobres, que os frades Barbadinhos haviam deixado. Daí se retiraram para a Europa os Barbonos, havendo-se invectivado contra eles, diz Balthasar Lisboa, de serem Jesuítas disfarçados!

Convidados pelo Governo em 1840, entraram de novo no Rio de Janeiro os Capuchinhos italianos e ocuparam, por escolha própria, a igreja da antiga Sé, no morro do Castelo. Desses fatos já nos ocupamos em dias do ano passado.

Desde 1842 ali vivem contentes e sossegados, tendo obtido, após tantas mudanças, o seu “habitat” definitivo.

Cercados do respeito e consideração de todos procuram manter os créditos de sua Ordem, a quem o Brasil tanto deveu nos tempos coloniais. Seria longo enumerar os nomes desses santos missionários, ilustres por letras, trabalhos, ciência e virtudes.

É de justiça lembrar: foi um Capuchinho italiano quem primeiro, nos sertões da Bahia, advogou a causa da emancipação dos escravos.

Como verdadeiro apóstolo sofreu perseguições e desterro.

Em 1794 – era muito cedo ainda para a definitiva vitória, felizmente ganha em 13 de Maio de 1888!

6 de Janeiro de 1903.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Igreja de Santo Antônio dos Pobres (agosto de 2018)

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