Charita

Fui à terra, que deu nome aos Jacobinos da Regência. Depois de velho, dei em passeador!

Quem não o será, tendo por amável companheiro o Dr. Pereira da Silva. Ao convite do meticuloso cicerone, não há resistir.

O tempo estava carrancudo. Grossas nuvens envolviam o Corcovado e as montanhas da Tijuca. Tudo pressagiava grande borrasca.

Audaces fortuna juvat. Metemos a cara à sorte, e, mediante três níqueis de duzentos réis, eis-nos em plena barca da Cantareira.

A formosa Guanabara não apresentava o garrido aspecto dos nossos esplêndidos dias tropicais. O céu parecia forrado de folhas de zinco.

O sol apareceu vermelho uma só vez, qual imenso olho de papagaio; espiou e foi-se. Navios embandeirados em arco; lanchas cruzavam o salso elemento. Saíram em direção à barra dois grandes vapores. Pareciam vir sobre nós. Dura ilusão: a barca passou-lhes pela popa.

A baliza tropical, como lhe chamou Porto Alegre, isto é, o Pão de Açúcar, estava limpo. No cimo flutuava faceira a bandeira Nacional, beijada pelas brisas do mar alto.

Vinte minutos depois saltávamos na terra da Arariboia, cuja descendência fora publicada no Jornal do Commercio da véspera.

Tomamos o elétrico. Levou-nos até o Canto do Rio. Este é o Icaraí, que, segundo Macedo Soares, quer dizer rio dos acarás, peixe escamoso de água doce.

Pizarro assevera que nas sesmarias de Pedro Martins Namorado e de José Adorno (1565) leu Guarahy. (Entende que a palavra seja Cari-y). Seja que santo for. Não sou forte em Etimologia dos selvícolas, que agora estão em moda.

Não pretendo, falta-me estro para celebrar as belezas dos sítios percorridos.

Já foram cantados em prosa e verso, e até por poetas de meia tigela.

Capela de São Francisco Xavier, no saco da Charita, na antiga fazenda de gado, pertencente aos Jesuítas.

A nossa meta era a Capela de São Francisco Xavier, no saco da Charita, na antiga fazenda de gado, pertencente aos Jesuítas. Estas terras foram antes de um certo Lucas Antunes, que pelo não não perca.

Outrora, no frontispício da ermida estava gravada a palavra Charitas (Caridade); o povo corrompeu o dístico e transformou em Charita.

Saltamos, e toca a caminhar, a caminhar sempre, pedibus calcantibus[1].

Todavia, existe já, ao longo da extensíssima praia, linhas de bondes, postes elétricos, e até pontos marcados de parada. Tudo está pronto. Só falta a inauguração.

Apesar da longa caminhada, o passeio é supimpa, a paisagem deslumbrante. O mar sereno beija com suas amorosas vagas as praias de límpidas areias. A vegetação das montanhas, luxuriante, comunica às águas tons esmeraldinos. Faltou-nos um bom binóculo.

Distinguem-se, porém, perfeitamente a olho nu, as sinuosidades do saco ou enseada da Jurujuba, limitada de um lado pela montanha do Pico, e do outro, pelo Morro do Cavalão.

No primeiro está o forte, mandado construir pelo Marquês do Lavradio. Serve de padrasto à Fortaleza de Santa Cruz.

O segundo, célebre pela Garganta do Inferno, foi covil de ladrões e assassinos. Contam-se a seu respeito histórias tétricas, conservadas pela tradição dos vaqueanos, no local. Hoje, já não há disto. Atravessamo-lo, na volta, sem medo. O Cavalão regenerou-se. Galgando-o, encurta-se a distância.

Que dizer das enseadas do Botelho, da Jurujuba, propriamente dita, da várzea de Sambabaya, de Santo Antônio, da ponta do Peixe Galo, das calhetas da Areia Grossa, Charita, Santo Antônio, etc.?

Toda esta nomenclatura nos foi fornecida pelo velho Salustiano, octogenário residente in loco.

De sítios tão aprazíveis tirou Pereira da Silva chapas fotográficas. Previdente, levara a competente máquina. Dava-lhe o aspecto de vendedor de joias, ambulante.

Acolá, vê-se o Hospital fundado em 1851. Tem prestado grandes serviços, principalmente em época de epidemias, que nunca mais nos devem voltar.

Além está a capela da Conceição, fundada em 1716, pelo padre Manoel Araújo, em terrenos mais tarde pertencentes a Dona Maria da Assumpção, que os legou aos padres do Carmo, com a condição de festejarem a Virgem, no dia 8 de Dezembro.

Há por ali também uma fazenda pertencente ao Seminário de São José. Foi legada, se não me falha a memória pelo Bispo Desterro, que a comprou ao irmão, o mestre de campo João Reimão.

Eis-nos em frente ao moinho, onde se ergue a almejada capela. Na praia brincavam seminus alguns petizes, tendo à cabeça amplos chapéus de palha. Tratavam de fazer flutuar velhas latas de querosene, puxadas por barbantes.

Grande surpresa nos aguardava no princípio da ladeira!

Nada menos que modesto monumento arqueológico. Só por si constituía o clou[2] da nossa romaria.

Trata-se de uma coluna de quase três metros de altura, feita de pedra e cal e encimada por uma espécie de coruchéu:

Está em parte destruída a inscrição da face anterior.

Lê-se, porém, ainda:

Peão das Terras
… S. Xer. tombadas…………
da Costa Mimoso…………
o M. R. P. Antonio…………
      Anno…

Em um dos lados, lê-se bem: Rio.

Taubaté (nome do ribeiro, que vem de Pendotiba e servia de divisa ao terreno).

Este marco pertenceu aos Jesuítas: provam-no as armas da Companhia ali esculpidas. Dele se tirou uma chapa fotográfica: se sair boa, o Pereira pretende levá-la à Careta, contando com a bondade do Schmidt e do Bhering.

Não se perderá assim a memória desse marco, arriscado a desaparecer, graças ao vandalismo de muita gente.

Ao subir a ladeira solitária, íamos meio desconfiados; poderíamos ser tomados por gatunos ou gente de arrelia, e ter pela frente algum cérbero.

Voltando à casa, verifiquei que o peão foi chamado nos primeiros tempos do século XVIII. Manoel da Costa Mimoso aqui esteve como ouvidor geral, no tempo do Onça. Nomeado em 14 de Dezembro de 1726, foi substituído por Fernando Leite Lobo, nomeado em 11 de Janeiro de 1731.

No adro da capela, contemplamos a fachada da Charita, modernamente reconstruída.

Já não tem a palavra Charitas, que devia ter sido conservada; a torre pequena, sino pequeno, janelas e portas pequenas, tudo homeopático.

Ouvimos sons de piano.

Bom, dissemos com os botões dos nossos sobretudos: aqui há gente, que tomou chá em criança. O sacristão trata-se. Não é nenhum quidam.

O Pereira da Silva meteu a cara a uma janela e bateu palmas. Apresentou-se respeitável senhora, e em seguida vimos as carinhas de moças, todas espantadas da nossa audácia, naquele ermo, onde só se ouvia cantar o sabiá, em frondosa mangueira.

Altar da Capela de São Francisco Xavier, no saco da Charita, na antiga fazenda de gado, pertencente aos Jesuítas.

Nova e agradável surpresa: todos, gente nossa conhecida! Quem não conhece o Cândido do Bonsucesso, o Candinho do Carmo? Era a família do Candinho, composta de sua esposa, duas filhas e duas cunhadas. Candinho tinha ido à cidade, naturalmente para ver a parada.

Escuso contar que nos foram abertas todas as portas, inclusive a da capela, pequena e asseada, com três altares, coro, púlpito, etc.

Na sacristia, deparamos com um armário feito com madeiras do país, embutido na parede e com muitos escaninhos. Tem na parte superior a data 1696.

Esta antiga obra de marcenaria foi restaurada em 1906, por distinta senhora da família Froes, dona da antiga fazenda dos Jesuítas.

Deste velho armário fala monsenhor Pizarro. Daí conclui que os da Companhia de Jesus tomaram posse dessa propriedade anos antes daquele ano.

Nas várias dependências da casa tudo indica antiguidade.

Basta ver as paredes, as pesadas portas e as almofadas desta, do estilo do século XVII.

Tomamos saboroso café, coado em saco.

Formou-se um grupo, que foi logo fotografado pelo Pereira, com seu aparelho instantâneo. Houve animada palestra. Deixamos lembranças ao Candinho, e partimos, levando gratas recordações de um dia tão bem passado.

Subimos o Cavalão, – outro surpreendente panorama mais de se imaginar do que de descrever.

Tomamos o elétrico na Rua de Mem de Sá e, em seguida, a Barca. Chegamos a estação às 5 ½. Aqui havia chovido torrencialmente. Em Jurujuba nem um pingo de água. Escapamos de boas.

E foi assim que festejamos modestamente o grande dia 7 de Setembro de 1910.

E que mais sugestiva comemoração: lembrar durante o grande passeio os nomes de Mariz, do Arariboia, de Salvador Corrêa, de Dom João VI, de José Clemente, de Dom Pedro I, de Jorge Avilez, de Paulo Cândido, dos presidente Pedreira e Domiciano, de Floriano Peixoto, de Nilo Peçanha e do grande patriarca da Independência José Bonifácio, que morreu em São Domingos?

Só não pudemos ver a casa em que faleceu o mano Joé, como lhe chamavam os seu dedicados irmãos Martins Francisco e Antônio Carlos.

Não há prazeres completos!

Domingo, 11 de setembro de 1910.

Notas do Editor

  1. Caminhando, a pé. (Babylon)
  2. Foco de interesse ou atração. (Babylon)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

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