Chegada da Família Real

Grande azáfama ia por esta pacata, leal e heroica cidade, durante os primeiros dias de março do ano de 1808: clero, nobreza e povo andavam em completa dobadoura.

A todo momento era ansiosamente esperada a esquadra, que conduzia a Família Real, que, fugindo à invasão de Portugal pelos Franceses, resolvera buscar asilo em terras brasileiras e fixar a sede da Monarquia na, até então, capital do Vice-Reinado.

O desusado movimento começara desde que positivamente aqui se soube, por intermédio do brigue Voador, comandado pelo Capitão de fragata Francisco Maximiliano de Sousa, que, em fins de novembro de 1807, o príncipe regente havia de fato descido as águas do Tejo e, rumo do Atlântico, viria abicar ao Rio de janeiro.

Como é geralmente sabido, formidável temporal dispersara, uns dos outros, os navios dessa importante esquadra, e aqui arribaram, em 17 de janeiro de 1808, as naus Rainha de Portugal, Príncipe do Brasil, Infante D. Henrique, as fragatas Minerva, Golphinho, Martim de Freitas, e várias embarcações mercantes repletas de milhares de fugitivos, além dos vasos ingleses LondonMalborough e Monarch.

Houve rebate falso, pois tais vasos de guerra conduziam apenas parte da Família Real, composta das princesas D. Maria Benedicta, princesa do Brasil, viúva de seu sobrinho D. José, e a infanta D. Marianna, irmãs de D. Maria I, bem como as infantas D. Isabel Maria e D. Maria Francisca, filhas de D. João, príncipe regente.

Recebida a notícia de que a parte principal chegara, sem novidades à Bahia e que, depois de curta demora, viria ter a esta nossa cidade do Rio, aumentou o entusiasmo de pobres e ricos, nobres e plebeus, que à porfia procuravam receber condignamente os foragidos representantes da velha Monarquia.

Dera o exemplo o Senado da Câmara, o qual, em 16 de janeiro, decretara o programa das festas civis e religiosas, das iluminações, das danças e divertimentos populares, dos arcos triunfais, coretos e arquibancadas, pirâmides, balaústres, galerias de madeira, etc. Os edis de então não se esqueceram de mandar fazer um pálio novo da melhor fazenda que se achar, para servir no dia da recepção régia.

O vice-rei, conde dos Arcos, multiplicava-se em cuidados; transferia os presos da Cadeia para o antigo Aljube e ligava o atual edifício da Câmara dos Deputados com a casa do Governo por meio de um passadiço, que existiu até 1823; por meio de outro pô-la em comunicação direta com o Convento dos Carmelitas, os quais foram aboletados no Hospício dos Barbonos, na rua, hoje, Evaristo da Veiga.

Ordenou que, em breve tempo, os proprietários dos melhores prédios lhe enviassem as competentes chaves para neles serem instalados os fidalgos da comitiva.

Escreveu aos governadores de Minas e São Paulo que, sem detença, mandassem víveres para abastecer a cidade, afim de que tão altos personagens e povo não sentissem faltas do necessário à vida.

Aumentava cada dia o fervet opuso zé povinho não cabia em si de contente. As costureiras escravas não tinham mãos a medir, cortando sedas e cetins para confecção de vestidos. Por toda a parte só se falava em fitas e veludos, damascos, nobrezas, chamalotes, rendas, joias, gregas, galões, escócias, et reliqua. Os homens bons, ou nobreza da terra, a toda a pressa, tomavam medida de novos vestuários para condignamente figurarem nas festas oficiais. As meias de seda, os sapatos rasos de fivela de ouro e prata, as cabeleiras de rabicho ou de bolsa, os espadins, os coletes de cetim bordados a matiz e os chapéus armados subiram de preço.

Todos se muniam de polvilho para o empoado dos cabelos. Varriam-se as ruas, pintavam-se as casas, reformavam-se móveis, tiravam-se das cômodas as velhas e custosas colchas da Índia.

Tal era a balbúrdia, diz um contemporâneo, que muitas casas não lembraram, outras não se fizeram e muitas se suspenderam já principiadas, na incerteza de se não concluírem a tempo, ignorando se o momento em que chegaria a Real Família!

Enquanto era geral a ansiedade e todos tinham os olhos fitos na barra, velejavam em demanda do nosso porto, partidos da Bahia, os seguintes navios: nau Príncipe Real, trazendo a seu bordo a rainha D. Maria I, o príncipe regente D. João, o príncipe da Beira, D. Pedro de Alcântara e os infantes D. Miguel e D. Pedro Carlos: nau Affonso de Albuquerque, em que vinha a princesa D. Carlota Joaquina com a princesa D. Maria Teresa e infantas D. Maria Isabel, D. Maria da Assumpção e D. Anna de Jesus Maria; nau Medusa, fragata Urânia, nau inglesa Belford, trazendo grande número de fidalgos e pessoas particulares, seguidas todas essas embarcações de muitos navios de comércio.

Avalia-se em cerca de mais de vinte mil pessoas o aumento da nossa população nesses três primeiros meses de 1808!

Finalmente, na manhã de 7 de março, fizeram-se da barra os competentes sinais, anunciando estar ainda, ao longe a tão suspirada e esperada esquadra. Foi um delírio: todos abandonaram as casas, o comércio fechou imediatamente, os moradores, em enormes bandos, procuravam as praias ou subiam os morros do Castelo, São Bento e Conceição, para melhor apreciar o grandioso espetáculo. Os milicianos (Guarda Nacional de então) corriam apressadamente para os pontos de parada, a fim de formarem nas fileiras de seus regimentos. O entusiasmo e contentamento eram gerais, e todos à porfia, procuravam ser testemunhas desse fato excepcional, que devia abrir novos horizontes à vida do Brasil inteiro.

Logo que a esquadra se foi pouco a pouco aproximando, todos os navios, surtos no porto, se ornaram de bandeiras, flâmulas e galhardetes de muitas e variadas cores. Salvaram as fortalezas com 21 tiros, repicaram todos os sinos da cidade e do alto dos morros subiram ao ar milhares de girândolas.

Às 2 horas da tarde deu fundo a esquadra, sendo renovadas as salvas e prorrompendo dos lábios de todos vivas aclamações, pois desatinados corriam pelas ruas – homem, mulheres velhas e meninos, ansiosos de ver a brilhante entrada. Seguiram-se os cumprimentos do estilo, e todos os funcionários, civis e militares, magistrados, alto clero, Senado da Câmara e os engrossadores de todos os tempos foram a bordo beijar a mão das pessoas régias.

Determinou o príncipe regente que desembarcaria na tarde seguinte (8 de março) e que desejaria fazer oração na igreja que servia de catedral, isto é, o Rosário.

Estava, de antemão, convenientemente ornada para tal mister a igreja dos Carmelitas (depois Capela Imperial), mas, à vista da determinação de D. João, foi preciso desmanchar o que estava feito. Durante o resto do dia 7 e toda a noite trabalhou-se com o fim de satisfazer os desejos de sua alteza, que, no dia seguinte, viu suas ordens cumpridas à risca. Eis por que a igreja dos pretos teve a honra de ser a primeira a receber em seu seio o príncipe, seus filhos e filhas, esposa, tios e sobrinho. Naquele tempo não se havia ainda inventado o clássico não pode, e quem ousasse proferi-lo seria acusado e punido como criminoso de lesa majestade! Tão grata ficou a Irmandade do Rosário, não só por esta honraria, mas por outros favores devidos ao príncipe, que ainda hoje conserva, no consistório, o retrato do que foi mais tarde o rei D. João VI.

Apesar de todas as alegrias, diz o cronista, nunca houve noite tão comprida e fastidiosa, tal era o desejo, que todos tinham, de que amanhecesse o afortunado dia em que esperavam ter o doce prazer de gozar da “Real Presença do Nosso Amado Príncipe e Senhor”.

Que seria o desembarque no dia 8, às 4 horas da tarde, a solene procissão e tudo quanto aconteceu, é fácil de julgar; quem melhor conhecimento desejar leia as páginas escritas pelo padre Luiz Gonçalves dos Santos, que tudo conta, tim tim por tim tim, sem esquecer a menor circunstância. Ele próprio comemora as lágrimas sentidas que derramou por tão faustoso acontecimento!

No cortejo, os membros da Família Real iam uns alegres, outros indiferentes, estes apreensivos, e a princesa D. Carlota vivamente contrariada. Contou-nos testemunha ocular, que a viu passar na Rua do Rosário, que ia ela vestida simplesmente de preto, cabelos cortados e não empoados, sem joia alguma e sem mais ornato. D. João caminhava com dificuldade, mostrando-se alegre e correspondendo às aclamações do povo. Trajava casaca comprida, de gola muito alta, colete branco bordado, calções de cetim, botas curtas, dragonas, e levava à cabeça enorme chapéu armado, ornado de arminho, e grande espadagão pendente de cordões de fios de ouro, com as competentes borlas.

Às varas do pálio de seda encarnada pegavam o juiz de fora, presidente do Senado da Câmara Agostinho Petra de Bittencourt, os vereadores Manuel José da Costa, Francisco Xavier Pires, Manuel Pinheiro Guimarães, José Luiz Alvares, o procurador Antônio Martins Britto, escrivão, e os cidadãos Anacleto Elias da Fonseca e Amaro Velho da Silva. Levava o estandarte da Câmara alto funcionário da Edilidade.

Formaram em alas toda a tropa de linha e os quatro regimentos de milícias.

O imenso préstito caminhou pelo centro da atual Praça Quinze de Novembro, Rua Primeiro de Março e Rosário a entrar na Sé. Conta-se que, ao chegar o cortejo à igreja, alguns engrossadores quiseram impedir fosse a Irmandade dos pretos de Cruz alçada ao encontro do príncipe. Embargada a porta principal do templo, os pretinhos não fizeram cerimônia, saíram pela porta lateral e, incorporando-se à procissão, entraram com ela pela casa, que era deles e edificada à sua custa. Dizem que D. João soube do caso e riu-se do desembaraço e resolução dos confrades de São Benedito.

Houve muitos vivas, flores, muita música, muito foguetório, e o badalar incessante de todos os sinos da cidade. Folhas de mangueiras pelas ruas, casas ricamente ornadas, coretos e arcos triunfais.

No interior da igreja tiveram lugar as cerimônias religiosas do ritual. Na volta vieram os membros da Família Real em carruagens. Houve ainda beija-mão, novas salvas de artilharia e descarga da infantaria. Continuou a iluminação de toda a cidade: as casas ricas e edifícios públicos apresentavam velas de cera, e as pobres de carnaúba e sebo; bem certo é o ditado: cada um enterra seu pai como pode. Foi um regabofe completo, que durou por nove dias sucessivos.

No dia seguinte (9) desembarcou a rainha D. Maria, conduzida sob o pálio, em cadeiras de braços. Seguiu logo para o palácio, hoje Repartição Geral dos Telégrafos Paço Imperial.

Encheríamos estas páginas se pretendêssemos, só, resumir o que a propósito encontramos nas Memórias do Brasil, do supracitado padre Luiz Gonçalves, e nas obras do Dr. Mello Morais, assim como em opúsculos e narrativas desses tempos, impressos mais tarde na Imprensa Régia.

10 de março de 1903.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Vista da Praça do Palácio e Vista Geral da Cidade, por Jean Baptiste Debret, via NYPL.

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