Cinzas

Depois dos folguedos carnavalescos e das bárbaras tropelias do famoso jogo do entrudo, seguia-se, como ainda hoje em todo orbe católico, a chamada Quaresma. O nosso povo, em sua inata ingenuidade, marcava os sete domingos desta quadra do ano com os nomes seguintes: Anna, Bagana, Rabeca, Suzano, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos.

É o tempo da penitência, dos jejuns, dos sermões e das vias-sacras. Nesses dias pouca carne se comia no Rio de Janeiro. Passava então, para marchantes e açougueiros, período de crise ou pindaíba, como hoje acontece aos oficiais de justiça com as férias forenses. Em compensação pescadores e peixeiros tiravam o ventre da miséria. O peixe fresco, o salgado, o camarão, a sardinha e o bacalhau tinham o seu São Miguel. Às vezes espertos atravessadores aumentavam o preço desses comestíveis, contra o estipulado nas posturas da Vereança. Caía-lhes em cima o juiz almotacé, e os infratores, além da multa e perda do pescado, iam caminho das cadeias da Relação: queda e coice.

Inicia-se, pois a quaresma em quarta-feira de cinzas. Esta cerimônia realizava-se a princípio no domingo da Sexagésima. Foi o papa Gregório o Grande quem marcou a quarta-feira seguinte ao domingo gordo ou da Septuagésima.

Como todos sabem, na missa do dia o celebrante metendo o dedo indicador em um pouco de cinzas, faz o sinal da cruz na fronte dos devotos.

Os sacerdotes a recebem na tonsura ou coroa.

A igreja quer com isso dizer que todos somos pó e em pó havemos de voltar. O fato de lançar pó ou cinzas na cabeça em sinal de tristeza ou arrependimento é notado em vários pontos da Bíblia. Como os Hebreus, Gregos e Romanos usavam desse meio, quando combalidos por desgraças particulares e calamidades públicas. Os eruditos apontam até a Ilíada, em que se encontram passagens dessa antiquíssima usança.

As cinzas usadas aqui são o produto da queima das palmas que salvaram do Domingo de Ramos do ano precedente.

Pinheiro Chagas, em seu Dicionário Popular, diz que para tal fim se usam das toalhas dos altares. Em vários lugares de Portugal queimam-se as folhas de oliveira ou ramos de videira. Entre o povo carioca corria antigamente a notícia de que as cinzas eram produtos da incineração de ossos de defuntos. Era uma balela inventada pelas amas secas e mucamas para engazoparem a curiosidade da criançada.

Ainda hoje ver-se-ão muitos devotos conservando, até à noite, cruz preta feita de cinzas. São os felizes que conservam intactas as crenças religiosas, herdadas de seus antepassados. Mas o clou destas quartas-feiras de cinzas era aqui antigamente a procissão realizada à tarde pela Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, cuja igreja é mista, termo antigo da Igreja de Santo Antônio e respectivo convento. Esta Ordem foi instituída por Luiz de Figueiredo e sua esposa Antônia Carneiro. Não eram de pouca roupa, como dizia frei João Costa, nem vieram para aqui desterrados. Prova-se com apontamentos que li e foram reunidos pelo meu amigo e mestre o Dr. Felisbelo Freire.

A primeira procissão de cinzas realizou-se em 1647. Constava a princípio de vinte andores, depois de 15 e mais tarde de 13. No meu tempo de menino lembro-me dos de Nossa Senhora da Conceição, dos Bem Casados, São Benedito, Santa Isabel Rainha de Portugal, São Roque, São Luiz Rei de França, Santa Isabel de Hungria, Santo Ivo, São Vicente Ferrer e o grande de São Francisco de Assis, de joelhos, braços abertos ante a imagem de Cristo crucificado. Descrevendo esses andores, Debret admira-se do considerável peso suportado pelos irmãos carregadores. Não era tanto assim, como adiante se verá de um trecho de Dr. Araripe Junior. O de São Francisco, sim, era pesadíssimo. E os irmãos que o carregavam caprichavam em não deixar o seu posto. Também no dia seguinte apresentavam os ombros equimosados e até feridos!

A procissão saía às 5 horas, descia a ladeira, percorria diversas ruas e recolhia às 8 horas. Quando chovia podia ser transferida. Em 1798 foi o préstito surpreendido por violenta carga d’água. A procissão debandou: alguns andores ficaram guardados em algumas igrejas, e o Santo Senhor ficou no oratório de uma Senhora Dona Joanna Maria, à Rua dos Pescadores.

Um pequeno parêntese topológico. Dizem alguns cronistas que a Rua de São Pedro tivera o nome de Antônia Carneiro por ter ali residido a esposa de Luiz de Figueiredo. Não é exato. O primitivo nome dessa via pública foi de Antônio Vaz Viçoso ou também Travessa de João Mendes o Caldeireiro. Quem ali morou foi o cirurgião Antônio Carneiro, facultativo da Santa Casa da Misericórdia e por isso, em alguns documentos, leio Rua do Carneiro, e não do Desembargador Carneiro, como se tem escrito.

Creio que em 1849, os irmãos da Ordem não quiseram carregar o santo preto São Benedito. Era uma falta de dignidade: brancos levarem a imagem de um negro! No fim desse ano invadiu o Rio de Janeiro pela primeira vez a febre amarela. Foi castigo, disseram os devotos do santo, e todos o acreditaram. No ano seguinte os recalcitrantes se submeteram e o santo apresentou-se com resplendor novo, hábito de veludo adrede feito, muitas flores e luzes.

Para a procissão de cinzas não se punham colchas nas janelas nem folhas de mangueira e canela nas ruas. Em compensação havia descarga da tropa na saída e entrada da procissão; era coisa que muito assustava a meninada do meu tempo. A de hoje já se habituou até aos tiros com bala. Tenho um afilhado travesso e espirituoso. Quando ouve salvas no mar começa a correr e a gritar: olha a nova encrenca!

Era para a criançada de antanho que a procissão tinha um encanto particular, great attraction; principalmente para os petizes convidados para irem de anjo. Logo pela manhã começavam a ensaiar como deviam marchar aos pulinhos, como tico-tico de galho em galho. Quem não fazia isto com graça era um anjinho sem sorte.

Jantava-se ao meio dia. Comia-se pouco, com a esperança no grande cartucho de amêndoas, que a Ordem distribuía à infância convidada. Às duas horas marchava-se para casa do armador. Havia muitos, mas o preferido era o Sr. Joaquim Carlos da Fonseca, andador da Penitência, casado com Dona Maria Jacinta da Purificação, residentes em um 2.º andar da Rua do Piolho (hoje da Carioca).

Competentemente uniformizado, o anjinho não ia logo à igreja. Era preciso ser admirado pelo papai, pela mamãe, pelos padrinhos e parentes e por toda a vizinhança. Era exibido como verdadeiro mascarado, pois tinha as faces coloridas pelo carmim e as sobrancelhas pintadas com rolha queimada!

Tudo ia muito bem, mas no dia seguinte eram certas as indigestões, devido às amêndoas, ao chocolate confeitado e às pastilhas de licor! Não escapava a gente do óleo de rícino, chá de camomila, etc. Nesse tempo não havia ainda a Magnésia de Murray; nem os estomáquicos maravilhosos, profusamente hoje anunciados pelos jornais.

Do que em outras terras se passava relativo à referida procissão, pouco sei. No Folk Lore Pernambucano do ilustre Dr. Pereira da Costa encontro a notícia de que principiou em Pernambuco em 1720. Refere-se o Dr. Costa a um estudo da lavra de Pacífico do Amaral e cita um soneto de certo frade carmelita que metia à ridículo tal solenidade.

Termina assim:
E pensam que com cena tão visível
Incutir podem n’alma a penitência!
Gerar a fé? Oh, não, não é possível.

Também o célebre poeta satírico Gregório de Mattos ridiculizou a procissão de cinzas que saía em Pernambuco, com o caráter de verdadeira mascarada indígena, diz o eminente Dr. Araripe Júnior, que cita por extenso o soneto de Gregório.

E a propósito, não me posso furtar a transcrever a nota da página 101 do estudo completo, que sobre Mattos escreveu, em artigos, o Dr. Araripe, em 1893, no Jornal do Brasil, e reunia em volume, no ano seguinte:

“Criança era eu ainda nessa época. Uma vez levado pela curiosidade, finda a cerimônia e recolhidos os andores ao depósito do Convento de Santo Antônio de Pernambuco, ousei penetrar nesse recanto. Os santos tinham sido despojados de suas ricas vestimentas; e como a maior parte deles não era destinada senão a servir no ato de quarta-feira de cinzas, o imaginário encarnara apenas a cabeça, as mãos e os pés e aqueles membros que apareciam desnudados, de sorte que o resto existia em forma de sarrafos. Este espetáculo horrorizou-me. Não haveria em tudo aquilo uma grande profanação? pensei eu, recordando-me dos bastidores do Teatro de Santa Isabel. Neste instante convergiram para mim os olhos de todas aquelas caras macilentas e terríveis, aparelhadas como cabeças de guilhotinados em sarrafos de pinho. Não pude por longo tempo suportar os olhares inquisitoriais, que me seguiam, e fugi do claustro para nunca mais voltar ao depósito dos santos.”

A mim aconteceu quase o mesmo, aqui na Ordem da Penitência.

Penetrei um dia em vasto salão meio escuro. Não vi os sarrafos, mas os santos estavam metidos em verdadeiros sacos brancos. Pareciam fantasmas. Não fugi porque estava prevenido.

A nossa procissão de cinzas terminou sendo Ministro da Ordem Manuel José Gonçalves Machado Júnior. Do trabalho do Dr. Moreira de Azevedo reproduzo as razões da supressão dessa solenidade. Dizia em seu relatório o precitado ministro:

“As procissões são, infelizmente, nesta época de impiedade e materialismo, motivo e ocasião para atos de revoltante irreverência e de escandalosa imoralidade da parte de muitos, que assistem ao solene trânsito das imagens por distração e divertimento, e como se presenciassem o mais profano e comum espetáculo, e da parte de alguns devotos que as acompanham, cenas burlescas e, ao recolherem-se, alarido, tumulto, confusão e desordem, que já tem sido preciso coibir com a presença de força armada, o que ofende a Deus, aflige, vexa e indigna os verdadeiros penitentes.”

Também, quando acabou, outras eram as aspirações do escrevinhador destas notas: envergar a jaqueta verde, com botões amarelos, de colegial do ex-Internato de Pedro II. O galão de ouro do boné, diziam, dava-nos honra de alferes. Pura mentira.

Falar no Internato é lembrar uma cena acontecida depois do carnaval de 61 ou 62. Houve um grande incêndio em uma farmácia da Rua Direita. Na extinção do fogo salientaram-se os Zuavos Carnavalescos e o devotado Murga, negociante na Rua das Violas: nesse prédio aboletava-se um colega nosso, hoje falecido, sobrinho do farmacêutico.

Sabíamos nada haver acontecido ao nosso condiscípulo.

Na quinta-feira, à noite, era a entrada no colégio. Por troça, combinamos ir um a um cumprimentar o companheiro por não ter ficado torrado. Esperamos que ele se deitasse.

Foi um, primeiro, dar-lhe os parabéns. Agradeceu. Seguiram-se outros com a mesma discurseira. Mas no décimo, o sujeito compreendeu a caceteação. Fica furioso e ataca a saboneteira na cabeça do manifestante. Felizmente não houve sangue. Muito barulho e o inspetor inquiriu do fato. Deu parte do agressor e no dia seguinte o vice-reitor condenava o delinquente a três dias de prisão. E lá foi para a cafua o pobre do Caetano pagar as custas por uma pilhérica manifestação não encomendada!

1 de março de 1911.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Popielec, de Julian Fałat (Tuligłowy perto de Lwów 1853 – Bystra perto de Bielsko 1929) – pintor e professor – um dos maiores artistas poloneses do final do século XIX e início do século XX.

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