Convento da Ajuda (I)

Muito sofreu a velha casa claustral da Ajuda com a revolta de parte da Armada – em 1893.

Para exercer misteres da minha profissão entrei pela primeira vez no interior da Ajuda e pude observar os estragos feitos por uma bala no teto do templo e em várias outras dependências do Convento. Apresentava este o aspecto tristonho de imenso casarão dos tempos coloniais: grande, feio, pesado e forte.

Tempos depois lá voltei, a convite ainda de monsenhor Eduardo, para substituir o Dr. Cicioso, médico das religiosas, o qual se achava enfermo. Pasmosa transformação se havia operado, graças à atividade daquele digno e exemplar sacerdote, a cuja memória as religiosas da Ajuda votam perpétua e justa gratidão. Por toda parte: o conforto, luz e ar, corredores amplos, iluminação a gás, celas bem mobiliadas, e as grossas grades de cadeia substituídas por outras mais elegantes e não menos fortes.

Pelas colunas d’A Notícia publiquei então a descrição do notável chafariz das “Saracuras”, obra artística, construída com material das nossas pedreiras e ornatos de bronze fundidos no Arsenal de Guerra.

Fonte das Saracuras no Convento da Ajuda. Foto de Augusto Malta via Biblioteca Nacional.

Esta fonte foi erguida pela gratidão de uma abadessa ao Conde de Resende. Este vice-rei concedera às religiosas uma pena d’água derivada dos encanamentos da Carioca. O precioso líquido era conduzido do Morro de Santo Antônio por um cano, que ao alto atravessava a Rua dos Barbonos e ia terminar no interior da chácara do Convento. Bem sabido é que este logradouro foi muito mais amplo do que na atualidade. As religiosas foram forçadas a uma desapropriação, que deu em resultado a abertura da Rua Senador Dantas, no sítio em que existiam outrora casinhas compradas pelo bispo Dom João da Cruz, e terrenos dos frades do Carmo adquiridos em 1750 pelo bispo Dom Antônio do Desterro, tudo para maior extensão da chácara conventual.

Sem querer repetir tudo quanto tenho escrito sobre a Ajuda, em largos traços lembrarei o passado deste cenóbio. Convém, porém, recordar a entrada solene das primeiras freiras vindas da Bahia para a instituição da nova casa religiosa, as festas havidas por ocasião de se inaugurar o convento, nas quais tomaram parte a nobreza, clero e povo desta cidade, tendo à frente Gomes Freire de Andrada, governador e chefe supremo da Capitania do Rio de Janeiro.

Com a invocação a Nossa Senhora da Ajuda figura em nossos anais religiosos pequena capela com frente para o antigo caminho do Desterro (hoje Evaristo da Veiga). Situada nas proximidades das lagoas de Santo Antônio e do Boqueirão (hoje Passeio Público) e da ladeira do Poço do Porteiro. Esta ermida fora reconstruída em 1600.

Zelava o culto da Senhora uma Irmandade, a que pertenciam as pessoas mais gradas da nossa então embrionária cidade. Deste sodalício foram juízes e protetores vários governadores. Por esmolas adquirira bens patrimoniais, e entre eles fazendas e currais de gado, no distrito de Campos dos Goitacás, conhecido outrora pelo nome de capitania de São Thomé.

Em meados do século XVIII o povo desta cidade desejava ardentemente possuir um convento de religiosas.

Convento de Nossa Senhora da Ajuda em Vila Isabel

Tratou-se, por meio de esmolas, de levantar edifício adequado. A ideia não foi por diante. Sendo prelado eclesiástico Francisco da Silveira Dias, ele e seu irmão frei Cristóvão da Madre de Deus Luz, franciscano, reviveram o projeto e resolveram criar um simples Recolhimento.

Dona Cecília Barbalho desejava retirar-se do bulício do mundo.

Era esta senhora próxima parenta do ilustre Luiz Barbalho Bezerra, distinto Pernambucano, cujo nome foi ainda ontem recordado no Instituto Histórico. Depois de no Norte assinalar-se por muitos e relevantes serviços, veio governar o Rio de Janeiro. Aqui faleceu e foi sepultado na igreja do Colégio dos Jesuítas. Pois bem, para acolher D. Cecília, duas filhas e algumas moças foi construído um dormitório junto da ermida da Ajuda.

Criado o Recolhimento, trataram aqueles dois sacerdotes de erguer edifício de maiores acomodações, cuja pedra fundamental foi lançada em 9 de Julho de 1678. A concessão pela metrópole só foi dada em 30 de Outubro de 1694.

Pararam porém as obras, por embaraços criados pelo Conselho Ultramarino. Lembro-me agora do voto contrário dado sempre nas reuniões dos conselheiros, por Salvador Benevides que por três vezes governou a capitania do Rio de Janeiro. Era preciso, dizia ele um certo patrimônio para mantença das religiosas. Para não acontecer como na Bahia, que por falta de meios foi o Governo forçado a prover à subsistência das religiosas.

Não descansaram os devotos, e por intermédio do Bispo São Jerônimo e da Câmara dirigiram nova súplica ao Governo português. Em 1705, foi permitida a ereção de um convento para 50 freiras. Começaram as obras, mas ainda em 1741 estavam elas em muito atraso.

O bispo Dom João da Cruz abandonou o que estava feito e tratou de levantar novo e mais amplo edifício, segundo o risco do sargento-mor Alpoim. Com efeito, só foi a nova pedra fundamental lançada em 1745.

Abro aqui um parêntese. Custou a dissipar-se a primeira impressão por mim recebida ao penetrar pela primeira vez no parlatório do antigo convento. Não podia compreender então como uma senhora para fugir do mundo se metesse em uma casa cheia de grades, soturna e melancólica como a cadeia do Aljube, no princípio da ladeira da Conceição.

Eu (ainda menino) em companhia dos meus fui visitar na Ajuda respeitável matrona já entrada em anos. Moça e bela acolhera-se ao Convento para fugir ao marido, seu tio, homem de mau procedimento. Ali viveu ela por mais de trinta anos, e só saiu quando soube ter falecido o esposo. Esquecida do passado e perdoando tudo quanto sofrera, prestou ao marido todas as homenagens, como se sempre tivesse sido a mais feliz e amada das mulheres.

Tinha o Convento esta vantagem. Servia também de abrigo a infelizes. E estas na solidão do desamparo e nos excessos da aflição não careciam de lançar mão do suicídio ou se prestarem a cenas de tragédias ou de vergonheiras agora tão em moda. A esta proteção prestada pelas religiosas da Ajuda decorrem para elas justos encômios.

Continuo. Foi o bispo Desterro quem em menos de quatro anos concluiu a parte principal do convento, a qual é a que pode ser visitada. A planta primitiva nunca foi executada. Este prelado mandou vir da Bahia quatro freiras professas para o início do noviciado, as quais aqui chegaram às 3 horas da tarde de 21 de Novembro de 1749.

Houve alvoroço na cidade. Salvaram as fortalezas da barra. O governador interino Mathias Coelho de Sousa mandou o filho capitão Paulo Caetano cumprimentá-las em companhia do militar José Pereira Pinto Alpoim e do juiz de fora Luiz Antônio Rosado da Cunha.

Estava Dom Antônio do Desterro em seu palácio do Rio Comprido. Foi avisado. Ordenou o desembarque das religiosas, o qual teve lugar em um cais existente no fundo da Casa dos Governadores, na Rua Direita, no local em que está hoje o edifício da terceira Praça do Comércio.

Seguem as professas, à noite para o , no lado ímpar da atual Rua Evaristo da Veiga (antiga dos Barbonos). Ia a abadessa de cadeirinha e as outras em seges. As escravas em número de 30 seguiam a pé acompanhadas por soldados. Iluminaram as casas das ruas Direita, Misericórdia, São José, Ajuda e Barbonos.

Em alguns prédios, na sala de visitas improvisou-se orquestra de amadores, que executaram harmonias durante o trajeto das recém-vindas. Crônica manuscrita que li há anos menciona entre estes virtuosi os parentes do futuro bispo Dom José Joaquim Justiniano Castello Branco, cuja residência, como é sabido, era junto do atual templo anglicano. Chegadas ao termo da viagem foram saudadas pelas maiores personagens da terra.

Em 3 de Maio de 1750 começou o noviciado.

Em 28 de Maio de 51 teve lugar a primeira eleição. Foram eleitas: abadessa, a madre Maria Leonor do Nascimento: vigária, a madre Marianna da Penha de França; mestra de noviças, a madre Catharina dos Anjos, e porteira, a madre Francisca Custódia das Chagas.

Esperou-se para a inauguração do convento a chegada de Gomes Freire. O que se segue é resumo de duas crônicas manuscritas e de um artigo da Gazeta de Lisboa número de Outubro de 1750. Narram as pomposas festas do sábado, 30 de Maio de 50. Desde a manhã engalanou-se a cidade: colchas nas janelas, areia e folhas de mangueira e canela nas ruas, bandeiras, foguetório, etc. Formaram em alas todas as tropas da guarnição, estendendo-se pelas ruas, por onde devia passar a procissão. A esta, saída de São Bento, acompanhavam todas as Irmandades e Ordens terceiras, clero regular e secular, o Cabido e o bispo.

A Ordem da Penitência apresentou dois grandes andores lindamente ornados. Na esquina da Rua de São Pedro e Direita, onde havia o oratório de Nossa Senhora do Amparo, parou o préstito. Ali apareceram meninos vestidos de anjo, que espargiram flores sobre as freiras, o bispo e o governador. Houve também as competentes três descargas festivas ao sair e ao recolher do imenso e luzido préstito.

Seguiu-se um tríduo, em que foram celebrantes Jesuítas, Beneditinos, Carmelitas e Franciscanos, sendo pontificante Dom Antônio do Desterro, que permaneceu no Seminário de São José, onde houve mesa franca para gente, já se sabe, de gravata lavada. Em uma das noites, foi em grande tablado representada por ordem de Gomes Freire uma comédia de Metastásio. A parte não ocupada pelas freiras esteve, bem como a igreja, em exposição durante muitos dias.

Ou isto, ou a saída das religiosas d’Ajuda na madrugada de 19 do corrente, atravessando em automóveis as ruas da cidade ainda não de todo despertada!

Foram para longe. Não verão mais as festas do Monroe. A seus ouvidos não chegarão os ruídos de uma grande cidade em movimento, nem as cenas satânicas do Carnaval ou as fanfarras de manifestações do mais puro chaleirismo!

Para compensá-las da falta de seu antigo ubi, terão o silêncio das matas da Tijuca, o murmúrio sonoro dos regatos que por ali serpeiam, ou o cantar das aves a saudarem o sol no horizonte. Que sítios mais próprios e propícios a meditações, às preces e à penitência! Lucraram, pois, cento por cento!

Domingo, 22 de outubro de 1911.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Antigo Convento da Ajuda na Cinelândia, por P. G. Bertichem, Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg, Rio de Janeiro, 1856.

Mapa – Convento de Nossa Senhora da Ajuda na Cinelândia (atual Cinema Odeon) e na Praça Barão de Drumond em Vila Isabel