Convento da Ajuda (II)

Freiras e o vetusto casarão edificado em terras compradas ao célebre demandista Manuel Fernandes da Costa e aos frades do Carmo, constituem presentemente o prato do dia.

Assim como em 1750 chamaram as religiosas a atenção de nossos antepassados com uma entrada principesca, estão elas agora em foco por haverem deixado a antiga residência ocupada por espaço de cento e sessenta e um anos.

Muito se tem escrito, nestes dias, a respeito desse êxodo, que tanto tem excitado a curiosidade do clero, nobreza e povo desta heroica e maravilhosa cidade. Sobre as antiguidades da Ajuda tem vindo à baila o que escreveram Pizarro, Moreira de Azevedo, Mello Moraes, o padre Perereca e primeiro de todos frei Agostinho de Santa Maria.

Nada disto, porém deve ser novidade para os meus leitores, os quais por meu humilde intermédio conhecem desde 1902, além do que escreveram aqueles mestres, as sesmarias de 1573, a compra de terrenos, a demanda a 60 anos com os herdeiros do ermitão da Glória (boa pessoa que soube levar água a seu moinho), a história das saracuras e cágados, do escândalo de um hortelão que lá entrou com chave falsa, e das três freiras deportadas pelo Conde da Cunha, etc., etc.

Voltar ou repetir tudo isto seria verdadeira sabatina. Tenho ainda horror às do meu tempo. Faziam a gente perder o sono e ter cólicas.

Mais modesta é minha missão: confiar à publicidade documentos que vem ao pintar da faneca. Parece ser correspondência dirigida desta cidade e reza assim: – “(Rio de Janeiro – S. Sebastiam – 30 de Janeiro). Esta cidade, que no ano de 1720 contava mais de 102 famílias sem meter neste número as do seu recôncavo, se tem feito tão populosa que se estende perto de uma légua ao longo da ribeira a sua povoação; e havendo nela Mosteiros de várias Religiões Claustrais e Mendicantes carecia muito de um de religiosas em que se pudessem asilar oferecidas a Deus as filhas de seus habitantes, que merecessem ao céu esta vocação e se vissem precisadas a ir buscar o da Bahia ou os do Reino, com o perigo de padecerem a escravidão dos Bárbaros, que com seu corso infestam os mares.

Avenida Rio Branco, vendo-se o Obelisco, o Convento da Ajuda e o Palácio Monroe. Foto de Augusto Malta, via Biblioteca Nacional.

“Supriu esta falta o grande zelo do nosso grande prelado o Excelentíssimo Senhor Dom Frei Antônio do Desterro, merecedor das mais eminentes dignidades, que à sua custa (sic) mandou edificar em distância de um quarto de légua desta cidade um convento, que dedicou à puríssima Conceição de Nossa Senhora e depois de primorosamente acabado procurou para fundadoras algumas religiosas mais beneméritas deste crédito no Mosteiro do Desterro da cidade do Salvador da Bahia, donde com efeito chegaram e inteiramente se recolheram no Hospício intitulado de Jerusalém, onde habitaram até o dia 30 de Maio deste ano, em que as foram buscar nas suas carruagens os ministros da Justiça, dignidades e oficiais eclesiásticos com um riquíssimo coche tirado por seis soberbos cavalos e metidas nele as Madres fundadoras, as conduziram para a igreja de São Bento fazendo-lhes retaguarda o Governador com todos os seus oficiais maiores, montados em formosos cavalos preciosamente ajaezados.

“Chegando à porta da referida igreja, acharam da parte exterior do mesmo, o Excelentíssimo Bispo, que as esperava, acompanhado de toda a comunidade dos monges daquele Convento.

“Entraram a fazer oração e assistiram ao Te Deum; que se cantou com dois coros de Música e revestindo-se Sua Excelência com os paramentos pontificais se deu princípio a uma grande procissão, em que tiveram primeiro lugar as Irmandades e Confrarias, todas as Comunidades Religiosas, logo o Clero e depois o Cabido, entre o qual iam as Madres fundadoras com os rostos cobertos e dez noviças riquissimamente trajadas, mas todas com imagens do Santíssimo Sacramento nas mãos como retratos do Esposo a quem consagravam a sua virgindade.

“Seguia-se Sua Excelência Reverendíssima com Mitra e Báculo e logo o Governador, o Senado da Câmara e a mais nobreza da terra.

“Todo o caminho desde São Bento até o novo Mosteiro (que bem medido é em quarto de légua como acima se disse) estava bordado de soldados de infantaria e de cavalo e retinindo nele a harmonia festiva dos instrumentos bélicos, havendo levado cada mestre de campo uns dez ou mais pretos vestidos todos à trágica mas de diferentes cores.

“Chegados ao Mosteiro entregou sua Excelência as da clausura à Reverendíssima Madre Abadessa, com um discurso breve mas cheio de ternura, recomendando-lhe o bom governo de suas súditas.

Convento de Nossa Senhora da Ajuda em Vila Isabel

“Estava a Igreja armada com toda a sua magnificência. Celebrou-se nela um tríduo que principiou no dia imediato em que fez de Pontifical o M. Reverendo Abade do São Bento e pregou um Monge Mestre na sua religião de manhã, porque de tarde fez um sermão um Religioso Capuchinho Italiano.

“Cantou no segundo dia a missa, o Reverendíssimo padre Guardião de São Francisco. O pregador foi um religioso da mesma Ordem e de tarde um da ínclita Ordem Carmelitana.

“No terceiro celebrou Pontifical Sua Excelência Reverendíssima, pregou o Mui Reverendo Doutor tesoureiro-mor da Sé e coroou esta festividade com um elegante e erudito sermão um padre da Sagrada Companhia de Jesus.

“Foram estes três dias de Júbilo para os moradores desta cidade pelo grande bem que se lhe segue desta fundação, manifestando todos o seu contentamento com as inumeráveis luminárias com que desmentiram a tenebrosidade das noites e com as discretíssimas Poesias que se recitaram nos Outeiros Apolíneos.” Gazeta de Lisboa, n. 40, de terça-feira, 1º de Dezembro de 1750 (947-949).

No livro do Tombo do Convento d’Ajuda estão copiadas várias notícias acerca da inauguração: uma de Francisco de Almeida Jordão e outra incompleta de frei Manuel de Nossa Senhora do Monte do Carmo.

Com esta correspondência da Gazeta de Lisboa ficam as Religiosas com mais um documento para conservar no seu velho Archivo. E isto de mão beijada.

Domingo, 29 de Outubro de 1911.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Antigo Convento da Ajuda na Cinelândia, por P. G. Bertichem, Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg, Rio de Janeiro, 1856.

Mapa – Convento de Nossa Senhora da Ajuda na Cinelândia (atual Cinema Odeon) e na Praça Barão de Drumond em Vila Isabel