Copacabana

Nessas praias de límpidas areias, trafegadas hoje pelos bondes da “Botannical Garden”, onde em pitoresco promontório se levanta a chamada Igrejinha, branca atalaia a dominar o futuroso bairro Ipanema, existiram, segundo referem cronistas, antigas tabas tamoias. Foram também morada predileta dos socós, e daí o nome, com que foram conhecidos tais sítios, – de Sacópenupan ou Sacupenopan – derivado, conforme opinião de Theodoro Sampaio, de çocó-pê-nupan – pancada nos socós – corrupção de – çoocó-apê-nupan – caminho batido dos socós. É bem cabida tal etimologia, e perfeitamente explicada pela vizinhança da lagoa Rodrigo de Freitas.

A denominação de Copacabana ou antes Copacavana é muito mais moderna; nada tem, cremos, com Sacupenopan e tem origem por mera coincidência, quando, ali, foi levantada pequena ermida em honra da Senhora, sob esta invocação, de origem peruana.

Desde os princípios da cidade foram procurados esses lugares, como vemos em antigas sesmarias concedidas em Botafogo, Gávea, Tijuca, nas quais vem mencionada a supradita lagoa.

Havia o Concelho em 1606 aforado a Afonso Fernandes 300 braças começadas a medir do Pão de Açúcar, correndo ao longo do mar salgado para a praia de João de Souza e para o sertão costa brava tudo o que houvesse. Em 1609 Domingas Mendes, viúva de Afonso, traspassa esta sesmaria, com o foro de 1.000 réis, a Martim de Sá, para benefício do engenho que o mesmo Martim possuía na lagoa (Arquivo Municipal, 2º vol.). Este engenho era chamado de N. S. da Cabeça, ou d’El-Rei, e fora mandado levantar por ordem régia, no tempo de Antônio de Salema. Beneficiado por Martim de Sá, e não deve ser confundido com outro de igual invocação, que esse governador possuía, em terras da Tijuca, passou a seu filho Salvador Benevides e deste aos Assecas, seus descendentes.

Em 1598 Diogo de Amorim Soares, tendo obtido sesmaria em terrenos próximos à lagoa de Sacupenopan, fundou um engenho de açúcar, sob o título de Nossa Senhora da Conceição. Tal propriedade passou mais tarde ao genro Sebastião Fagundes Varella, cuja assinatura autografa encontramos nos velhos livros da Misericórdia, Varella, mais tarde, em 1609, 1611 e 1617, obteve outras terras, tornando-se possuidor da grande fazenda ulteriormente conhecida pelo nome de Rodrigo de Freitas, a qual abrangia imensa zona com 1.700 braças de testada e 4.500.000 braças de área incluindo a lagoa, como foi verificado na medição feita em 1809.

Em curiosa memória, impressa no tomo 62º da Revista do Instituto Histórico, fundando-se em documentos existentes no arquivo do Tesouro Nacional, o erudito Sr. Luiz da França Almeida e Sá nos fornece curiosas minúcias sobre a fazenda da Conceição, comprada em 1809 pelo Governo. Pertencia a João de Freitas Castro e d. Leonor Maria de Mello Pereira Sampaio. Havendo falecido aquele em 1779, passou a seu herdeiro Rodrigo de Freitas de Mello e Castro. Em 1770 Rodrigo casou-se em Guimarães, onde sempre viveu, com d. Josefa Margarida Soares Tomásia Cardoso e Meneses, e faleceu em 1803, deixando por sucessores Ayres de Freitas Mello e Castro (morreu solteiro em Portugal em 6 de Março de 1811) e d. Maria Leonor de Freitas Mello e Castro, que vendeu por 42:193$430 ao Governo, sendo ministro o conde de Linhares, a importante fazenda da Conceição de Sacupenopan.

Como é sabido, o Governo, por escritura de 18 de Dezembro de 1869, comprou por 50 apólices à Câmara Municipal o domínio direto de todas essas terras, cuja planta havia sido levantada pelo tenente-general Carlos Augusto Napion, tendo por ajudante o capitão Jacques Augusto Conny.

Mas o domínio dos Castros era muito mais antigo; porquanto na Gazeta de Lisboa, n. 34, de 28 de Agosto de 1748, se encontra (segundo uma nota que nos foi oferecida pelo Sr. senador Manuel Barata) a notícia de “haver falecido em 12 de Julho de 1748, em idade de 61 anos, na quinta de Suariba, da freguesia de Sam Payo de Visella, termo da Vila de Guimarães – Rodrigo de Freitas Castro, fidalgo da Casa Real, cavaleiro de Cristo, senhor do engenho da Lagoa e da mesma lagoa, padroeiro da igreja da Conceição na cidade do Rio de Janeiro; e neste Reino, senhor das quintas de Suariba, Ribeira, Laje, Germonde e Carral, que serviu a sua Majestade com as patentes de capitão de cavalos e tenente-coronel no Estado do Brasil, e no socorro da Nova Colônia (do Sacramento) sempre com grande valor e bom procedimento.” Foi pois este Rodrigo, sucessor de Fagundes Varella, quem deu o nome à lagoa, pelo qual é ainda hoje conhecida. Tinha ele casa de residência nesta cidade, à Rua de São José, como podemos depreender de uma escritura da Misericórdia, em que Castro figura como fiador.

Não é fora de propósito lembrar aqui a portaria de 24 de Janeiro de 1885, do Ministério da Fazenda, em resposta ao ofício n. 944 da Câmara Municipal, em que esta corporação protestava contra o aforamento de terrenos que marginam a lagoa Rodrigo de Freitas, dos quais o Governo se considerava senhor alodial em virtude da transação feita em 1869.

Entre outros possuidores de terras em Copacabana, lembraremos André de Leão, Bartolomeu de Seixas, Francisco Caldas, Manuel Pinto e seus sucessores, que todos eram considerados foreiros da Câmara, em virtude da segunda medição, feita em 1753.

Para completar, como é sabido, a légua e meia de testada da primeira sesmaria concedida por Estácio de Sá e Mem de Sá, e havendo para isso encontrado embaraços pelo mar do Valongo, entendeu o juiz Dr. Manuel Monteiro de Vasconcellos fazê-lo pelo lado da Copacabana, partindo de novo da Casa de pedra.

Esta medição compreendeu o morro da Viúva, morro do Secretário, a chapada entre as montanhas da Urca e Babilônia, Cruz das Almas e Outeiro de N. S. de Copacabana. Em todo esse trajeto, diz Haddock Lobo, atravessam com diferentes empréstimos as terras dos Religiosos de S. Bento, as cabeceiras do lago de Botafogo, o princípio da Rua de São Clemente e praia da Copacabana.

Eduard Hildebrandt, Lagoa Rodrigo de Freitas, 1844, via Kupferstichkabinett der Staatlichen Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz.

Cumpre nestas notas declarar que tais terrenos foram mais ou menos aproveitados; os produtos da pequena lavoura eram em canoas transportados a esta cidade por fora da barra ou conduzidos às costas de muares até o rio, hoje denominado Berquó, então perfeitamente navegável, e daí em pequenas embarcações, que demandavam o saco de João de Sousa (Botafogo) e dele, por via marítima, vinham à cidade. Tinham grande fama os ananases de Copacabana, e disso nos dá noticia Debret em sua obra – Viagem ao Brasil.

Para se chegar à capela havia antigamente três caminhos: o primeiro, a travessa da praia Funda, que cortava a fazenda Copacabana, mais tarde terras do Fialho, e comunicava o Campo de Leblon com a praia do Arpoador e Copacabana. Nesse caminho, em ocasião em que se procedia ao esgoto da lagoa, faleceu afogado o avô do conhecido farmacêutico João Luiz da Silva, morador na Gávea.

Em casa dos Silvas recebeu digna hospedagem a comissão encarregada, em 1838, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de estudar os pretendidos caracteres fenícios gravados na pedra da Gávea, como consta do 1º volume da Revista do mesmo Instituto.

A segunda via de comunicação era constituída pelo prolongamento da Rua da Real Grandeza, aberta em terrenos de José Martins Barroso, cujos antecessores foram o padre Jacinto Pires Lima, Antônio Pires Afonso, d. Tereza Ferreira de Carvalho, João Pereira Cabral, Ana Joaquina de Almeida Castelo Branco, brigadeiro Manuel de Almeida Castelo Branco e sua mulher Helena da Cruz Pinto, Ana de Faria, Domingos Gomes Freire e Rodrigo de Freitas (1718).

A terceira, denominada Estrada Geral ou do Leme, começava na praia de Botafogo, encostada ao morro do Matias ou do Secretário, constituindo hoje a Rua da Passagem, antiga Copacabana e também do Pasmado. Não seguia direção reta, nem em um só plano. Fazia diferentes quebrados e da altura da hoje Rua Guapimirim subia até o forte do Leme, daí corria em linha quase reta e paralela à costa do mar, formava um arco até findar na praia de Copacabana.

Nesta estrada ainda hoje se notam os restos da antiga fortificação, mandada levantar pelo marquês de Lavradio, como consta do relatório, com que passou o governo ao sucessor Luiz de Vasconcellos. Do lado de Botafogo ainda podemos ver o arco situado entre a garganta formada pelas duas séries de montanhas. Ao espírito organizador de Lavradio não escapou a vantagem de opor resistência a tropas inimigas que, conseguindo desembarque na antiga Sacupenopan, pudessem procurar o coração da cidade. Para isso, além de edificar a fortaleza do Leme, estabeleceu redutos em vários pontos da praia; disso nos dão provas as peças de artilharia, que ainda existem soterradas pelas areias, junto à Igrejinha. Desses canhões já deu sucinta descrição o ilustrado Dr. Pires de Almeida, na Gazeta de Notícias. A ideia de um desembarque em Copacabana foi tentada em 1710 por Duclerc, o qual foi facilmente batido pelas milícias do lugar. Dizem que o nome de Leme vem do primeiro comandante desse fortim; mas contra isto protestam escrituras antigas (1720), onde vem exarada esta denominação, em tempos em que se não cogitava de fortificações nesse desfiladeiro.

Pretendem outros que o nome vem da figura que representa a ponta da Vigia, semelhante ao leme de uma embarcação. O mesmo dá-se com a chamada ponta do Caju, em S. Cristóvão, a qual nos mapas apresenta perfeitamente a forma desse fruto.

Outros enfim asseveram que o nome se deriva de uma pedra que tem a figura de um leme, a qual é vista nas vazantes; mas esta pedra é também conhecida por Pedra do anel, e entre anel e leme há tanta diferença como d’água para o vinho! Foi o conde de Resende quem mandou desguarnecer o forte do Leme, apresentando razões de economias, as quais podem ser lidas no Archivo Municipal, tomo 1º (1894).

Em 1797 servia como comandante dos fortes do Leme e de S. Clemente (rua de Humaitá) o sargento-mor Luiz Sotero da Costa.

Do que era em 1819 a Copacabana, dá-nos perfeita ideia a cópia de um mapa, tirada do – Archivo Militar – com o título – Planta Topográfica do Terreno ao Sul da Cidade do Rio de Janeiro, compreendido Entre A Dita Cidade E O Oceano. Levantada em Outubro de 1819 pelo inspetor de engenheiros – com o projeto das Fortificações a fazer, para evitar o desembarque na Costa, e no caso deste se efetuar, poderem avançar os desembarcados para a cidade, esta planta figura, como anexo, em umas razões finais de notável e recente pleito apresentadas, sobre terrenos em Copacabana, aos tribunais desta capital. Comparando tal carta antiga com os melhoramentos introduzidos, há anos, nesse subúrbio, não podemos deixar de tecer elogios aos heróicos propugnadores do engrandecimento da antiga praia dos Socós.

Em vez das ruas e praças de hoje – azinhagas e bibocas, desfiladeiros e esconderijos, um dos quais tinha o nome de Caminho dos pretos quebra-bolos.

Entre os morros notamos os do Faria, Caeira, Coqueiro, Sapateiro, Desfiladeiro, Brocó, Matias, Babilônia, Telégrafo, etc. Entre as roças ou fazendas: as de Sanct’Anna, Francisco José, Preto Miguel, Suzano, Sobral, Boticário, Vigário Geral, da Viúva, Bicudo, Padre Jacinto, Domingos Lopes, D. Isabel, Escolástica, etc.

Do morro da Vigia até o promontório da Igrejinha estendia-se a grande praia dividida em duas pelas pedras do Inhangá: – praia da Vigia, do Leme e de Copacabana, e em seguida a esta a do Arpoador.

Fomos além do que desejáramos: mas não deixaremos de apresentar apontamentos sobre a capela de Nossa Senhora cuja festa se realizou no dia 3 do corrente, porquanto com eles buscaremos estudar a época da fundação desse santuário, ponto de mira para os navegantes, que em demanda das nossas plagas o encontram no leito de pedras do Gigante que dorme.

5 de Agosto de 1902.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Copacabana, Rio de Janiero, Brazil – American National Red Cross photograph collection (Library of Congress) – 3 October 1921.

Mapa – Bairro de Copacabana