Covas e Catacumbas

Vinha de longe a propaganda científica contra o antigo sistema de enterramentos no interior dos templos e suas dependências.

As opiniões dos entendidos nulificavam-se ante preconceitos inveterados, usos e costumes, herdados da mãe pátria.

Já em Pernambuco, Ferreira da Rosa, por ocasião da primeira epidemia de febre amarela, clamava contra semelhante prática.

Mais tarde José Corrêa Picanço vertia para o nosso idioma o trabalho de Vick d’Azir, tradução por sua vez do italiano, de notável memória de Scipião Patrolli, e publicava – O Ensaio sobre os perigos das sepulturas dentro das cidades e nos seus contornos, dado à estampa em 1812 na Imprensa Régia desta cidade.

Antes dele e em 1800, o ilustre mineiro Vicente Coelho de Seabra Silva e Telles, dava à luz da publicidade notável estudo, a que deu o título – Memória sobre os prejuízos causados pelas sepulturas nos templos e método de os prevenir.

Os práticos consultados em 1798 pelo Senado da Câmara profligavam, una voce, tão condenável abuso, afinal proibido terminantemente pela legislação do tempo e sempre tolerado!

Com a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro nada mudou acerca desta matéria. Feita a independência, e mais tarde dada nova organização às câmaras municipais, tudo continuou no condenável statu quo, apesar das patrióticas reclamações da Sociedade de Medicina, vivamente apoiadas no seio da Representação Nacional.

Nem servira de bom exemplo a fundação do primeiro cemitério extra-muros, pertencente aos protestantes e fundado na Gamboa, por especial concessão do príncipe regente, mais tarde D. João VI. Ainda em 1847, em curioso opúsculo José Francisco de Paula e Silva, fiscal da Ilustríssima Câmara Municipal, proclamava, na Gamboa, a necessidade da criação, além de dois panteões: um em São Bento e outro na Ajuda para a Família imperial, de quatro cemitérios fora da cidade, com as denominações de Penitência, São Domingos, Santa Cruz, destinado aos homens notáveis, e o da Humildade, para os pobres e falecidos nos hospitais.

Em 1845 estavam de tal modo repletas as catacumbas de São Francisco de Paula, que a respectiva Ordem Terceira teve de procurar sítio conveniente para as inumações de seus confrades, desideratum que foi realizado anos depois, sendo fundado o atual cemitério de Catumbi, em o qual, por ordem do Governo, foram sepultados, em 1850, 2.945 cadáveres de indivíduos vitimados pela epidemia de febre amarela, não pertencentes à corporação dos Mínimos.

Nessa época, cheia de calamidades, os poderes públicos acordaram, enfim, do sono da indiferença: prontas e enérgicas providências foram tomadas proibindo o enterramento nas igrejas.

O que foi feito, então, consta dos jornais do tempo e de um livro – Legislação da Empresa Funerária –, mandado publicar pelo provedor da Misericórdia, o conselheiro Zacharias de Góes e Vasconcellos. Nunca poderá ser esquecido o nome de José Clemente Pereira, a quem a população desta capital deve o importantíssimo serviço do definitivo estabelecimento dos cemitérios extra-muros.

Seus esforços foram ainda há pouco lembrados no Senado, pelo ilustrado Dr. Barata Ribeiro, quando se tratou de renovar o privilégio da empresa, que desde 1850 havia sido concedido, em boa hora, à Santa Casa da Misericórdia, a quem desde épocas remotas e por força de seu Compromisso estava confiado o encargo de todo o serviço funerário.

De fato, pelo capitulo 35 da lei orgânica dessa venerável e benemérita instituição, vemos que para o serviço de enterros deveria haver três tumbas com três bandeiras e suficiente número de tocheiros. Uma serviria para enterrar os pobres e pessoas ordinárias, a segunda para as pessoas de maior qualidade, a terceira para os irmãos e mais pessoas que houverem de ser acompanhados da Irmandade; – e todas estas tumbas terão sua coberta de veludo com uma cruz no meio de brocado, e um pano de veludo com o mesmo feitio; e crescendo o numero dos defuntos, que de ordinário se enterram na cidade, se armarão as mais tumbas que forem necessárias para que não haja falta em seus enterramentos. Tanto que se der aviso para a Casa enterrar algum defunto, a que não haja de sair a Irmandade, se assentará a hora, e o Mordomo da Capela mandará pôr as coisas em ordem.

Diante irá um homem do serviço da Casa com sua capa azul à maneira de balandrão e levará uma campainha manual; junto dele irá um irmão oficial com uma vara preta na mão, e logo irá a bandeira da Misericórdia com doze tocheiros às ilhargas, levados por homens tomados para este efeito com suas vestes pretas; depois irá um irmão nobre com sua vara preta, em traje comum, com um capelão da casa com sobrepeliz; no remate irá a tumba levada por seis homens com vestes pretas do mesmo feitio que as outras, de que forem vestidos os que levarem a bandeira e tocheiros, e a tumba irá acompanhada com quatro tocheiros, levados por quatro homens vestidos da mesma maneira.

Detrás da tumba, a distância conveniente, irá outro homem do serviço com capa de pano azul do mesmo feitio que o do da campainha, com uma caixinha na mão, pedindo para as obras da Misericórdia, em voz alta; e nesta mesma forma irão no enterramento, dando somente lugar a bandeira e tumba aos clérigos, regulares, confrarias e pobres, que com cera acompanharem o corpo do defunto.

Se o falecido pertencia a várias confrarias, o préstito tomava o aspecto de uma verdadeira procissão, despertando a curiosidade dos viajantes, que por vezes visitaram o Rio de Janeiro.

Faziam parte do cortejo as célebres carpideiras, que mediante pequena retribuição derramavam verdadeiras lágrimas de crocodilo atroando os ares com suspiros e ais.

Ilustre amigo nosso disse-nos ter conhecido no Maranhão uma mulata velha, a Angélica Piranhas, a qual em verdes anos exercera esse abnegado emprego! Quando se tratava do enterramento de irmão da Misericórdia o cerimonial era mais complicado: comparecia a corporação com o provedor e Mesas. As minuciosidades, quanto ao préstito, vêm detidamente explicadas nos parágrafos 4º, 5º, 6º, 7º e 8º do supracitado capítulo. Não as mencionaremos para poupar espaço. Demais vêm elas mencionadas em longo artigo publicado no Jornal do Comércio de 12 de Setembro do ano corrente pelo Dr. Pires de Almeida. Quanto ao enterro dos escravos já apresentamos alguns apontamentos nesta folha, em dias da semana passada.

Com referência à procissão dos ossos que se realizava na tarde de 1º de Novembro, já há tempos algo dissemos, – o que nos permite não voltar ao assunto.

Compulsando velhos livros do arquivo da Misericórdia, sobretudo os de testamentos, vemos que, por excesso de humildade, indivíduos ricos de fortuna pediam para ser levados à sepultura na tumba dos pobres, a qual na linguagem do tempo era conhecida por “lancha” e hoje “rabecão”: deixavam grandes quantias para celebração de missas, ofícios de corpo presente; estes para os pobres do hospital, aqueles para patrimônio das irmandades e confrarias, a que pertenciam, e outros para cerimônias religiosas, como Inácio da Silva Medella, instituidor do lava-pés, para os presos da Cadeia, para as órfãs e enjeitados.

Ninguém dispunha para que lhe fossem levantados túmulos, e daí a nossa pobreza em relação a monumentos de arte!

A dois tipos únicos podemos reduzir as sepulturas das nossas antigas igrejas; as covas, e mais tarde, as catacumbas.

As primeiras eram cavadas no solo dos templos e capelas, separadas ou não por meios fios de pedra. Ainda hoje podem ser apreciadas no corpo principal da igreja do Convento de Santo Antônio, cobertas por tampos de madeira, competentemente numeradas. As catacumbas vieram mais tarde; consistiram em verdadeiros nichos abertos em grossas paredes; nelas eram depositados os caixões e depois tapados com tijolos. Ainda hoje notamos vestígios delas na botica velha da Misericórdia e em uma das dependências da igreja da Ordem Terceira da Penitência. Em geral estas sepulturas não tinham epitáfio, a não ser por exceção; daí a pobreza da nossa epigrafia tumular. Na Sé Velha do Castelo e na igreja de Santo Antônio poderão ser encontrados alguns jazigos com dísticos ocultos pelo assoalho, quando em épocas posteriores foram feitos trabalhos de reconstrução.

Na igreja de São Bento existem ainda as sepulturas de alguns benfeitores, bem como, no claustro, os jazigos dos monges, com simples dizeres. Lá está o bispo Dom frei Antônio do Desterro, tendo na campa extensa inscrição.

Na de Santo Antônio, na quadra dos religiosos, só a sepultura de Mont’Alverne tem epitáfio, e na casa do capítulo a do general Forbes. Na Capela Arquiepiscopal da Conceição foram inumados os bispos; Dom frei Francisco de S. Jerônimo, D. José Justiniano Mascarenhas Castello Branco, D. José Caetano da Silva Coutinho, D. Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, e em nossos dias D. Pedro Maria de Lacerda e D. João Esberard. Nos primeiros tempos as igrejas mais procuradas foram, além da Misericórdia, as dos conventos de Santo Antônio, Ordem da Penitência, Candelária, igreja dos Carmelitas (hoje arqui-catedral), São Bento, São José, Santa Luzia Rosário, sobretudo quando serviu de Sé, São Pedro, a da Ordem Terceira do Carmo e mais tarde São Francisco de Paula, onde foram sepultados muitos dos fidalgos que acompanharam a Família Real. Na antiga igreja do Colégio tiveram sepultura os antigos governadores Luiz Barbalho Bezerra (1644), Duarte Corrêa Vasqueanes (1650), Antônio Paes de Sande (1695), Antônio Britto Freire de Meneses (1719) e Rodrigo César de Meneses (1738). No Carmo, Martim de Sá (1632) e Salvador de Britto Pereira (1651). Thomé Corrêa de Alvarenga, por pedido feito em testamento, foi enterrado junto à porta principal da Misericórdia (1675). Os restos mortais de Gomes Freire de Andrade (1763) devem existir no Convento de Santa Tereza em sepultura rasa junto ao arco cruzeiro.

Sob o título “Necrographia” publicaram, no Brasil Histórico, o Dr. Mello Moraes e comendador José Luiz Alves extensas listas de pessoas enterradas em Santo Antônio e São Francisco de Paula.

Mas porque de tantos homens notáveis em armas, virtudes, letras, artes e ciências, os quais faleceram no Rio de Janeiro, salvo muito diminuto número, não conhecemos os lugares onde jazem seus despojos mortais? O pequeno espaço das igrejas e capelas, a abertura das covas para dar lugar a novos enterramentos explicam, até certo ponto, este aliás lamentável fato. Sabemos, por exemplo, que o célebre Valentim foi sepultado no Rosário; mas em que lugar? Onde estão os restos desse amigo de Luiz de Vasconcellos?

Com inauditos esforços descobriu o Dr. Moreira de Azevedo o lugar em que dorme o sono derradeiro o poeta mineiro Silva Alvarenga. Em São Pedro. Onde estão, onde param seus ossos? O mesmo acontece com Diniz da Cruz e Silva. Sabemos vagamente ter tido sepultura na capela dos Capuchinhos italianos ou Barbonos no lugar do atual quartel da Brigada Policial, Rua Evaristo da Veiga.

Só por um acaso providencial se conservou a sepultura de Estácio de Sá na igreja de São Sebastião do Castelo, sepultura guardada pelos Capuchinhos e objeto (1862-63) de cuidados do Instituto Histórico e do imperador.

Quem conhece, por exemplo, o paradeiro das cinzas de Januário da Cunha Barbosa e tantos outros?

Retirados os ossos das covas e catacumbas, eram guardados em pequenas urnas de madeira, a que o povo chamava caixinhas, e sobre as quais figuravam as competentes inscrições gravadas em pequenas chapas de prata ou metal amarelo. Conservadas em depósitos especiais eram dali retiradas e limpas para figurarem no dia da comemoração dos defuntos, em 2 de Novembro. Apesar do maior cuidado, muitas das caixinhas estragavam-se com o tempo, abriam-se pelas juntas e deixavam cair as ossadas. Estas eram pouco a pouco reunidas, e, se não havia reclamantes ou pessoas interessadas, eram lançadas em ossários gerais ou em valas comuns.

O fato seguinte explica melhor o que levamos referido:

Anunciou-se em 1859 por parte do Convento de Santo Antônio que, se as urnas, que ali existiam com ossos, não fossem reclamadas dentro de três meses seriam inutilizadas e os ossos lançados em uma vala comum. Está isso à página 656 da Revista do Instituto Histórico, tomo 22º.

Sabendo que ali deviam existir os restos mortais do poeta padre Antônio Pereira de Sousa Caldas, sobre cujo nome José Eloy Otoni gravara duas eloquentes inscrições, uma em português e outra em latim, resolveu o Instituto Histórico salvar do esquecimento as cinzas de tão ilustre Brasileiro, fazendo levantar à memória do tradutor dos Psalmos singelo, mas duradouro monumento. Foi nomeada ilustre comissão, da qual fazia parte como relator Joaquim Norberto de Sousa Silva. Na sessão seguinte, isto é, 15 dias depois, declarava o ilustre literato, com surpresa de todos, que os restos mortais de Caldas estavam irremediavelmente perdidos!

Em artigo exarado no tomo 8º da Revista Popular, e que supomos ser da lavra do mesmo Norberto, conta ele as peripécias ocorridas e o seu desengano, apesar das maiores averiguações e dos bons ofícios do então provincial frei Antônio do Coração de Maria e Almeida. Nesse mesmo artigo narra o ilustre escritor o seguinte, que tem relação com o dia de finados e será o fecho destas notas: “em 1849, num dos últimos dias de Novembro percorria a cavalo a extensa, solitária e melancólica praia de Piratininga. O sol sumia-se no oceano como um globo iluminado. O horizonte sem fim, diáfano e belo e a sublime grandeza dos penhascos da barra do Rio de Janeiro me levaram à alma a sua emanação, porque até mesmo o desengano da vaidade humana se patenteou a meus pés.

Horrível quantidade de ossos humanos juncava aquelas areias, e sobre eles esvoaçavam bandos de corvos. Interroguei aos pescadores, e eles me explicaram o mistério de tão inqualificável profanação: – todos os anos por este tempo, disseram eles, as, irmandades da Corte mandavam lançar os ossos de seus defuntos ao mar, a fim de prepararem as catacumbas para a solenidade dos finados!”

A ser isto exato, quantos ilustres finados não tiveram esse triste e incrível fim!

Mais felizes do que eles foram por certo os escravos sepultados em Santa Rita e no Valongo. Ao menos estes descansaram anos e anos em paz e só têm sido despertados do eterno sono, acidentalmente, pelas alavancas, picaretas e alviões dos trabalhadores da “City Improvements”, da Companhia do Gás, das Obras Públicas e ultimamente da Telefônica.

4 de Novembro de 1902.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Cemitério de São Francisco Xavier no Caju.

Mapa – Cemitérios da Cidade do Rio de Janeiro

O arquivo GPX (GPS eXchange Format) gerado encontra-se no GitLab em geonames_cemiterios_rio.gpx. Veja também Dados do GeoNames.

Fonte: GeoNames geographical database