Desterro

Um dos cabeços desta cidade, o atual Morro de Santa Teresa, foi outrora denominado Monte Desterro, porque no ponto em que está hoje o convento existiu a ermida dedicada a Nossa Senhora do Desterro.

Até aí, dirá o leitor: morreu o Neves; mas há muita gente que pensa haver funcionado ali alguma cafua, alguma casa de degredo ou cadeia ou mesmo colônia correcional.

Esta explicação já a ouvi em um bonde entre dois sujeitos, que discutiam a origem do nome Lapa do Desterro.

Morro e Convento de Santa Teresa vistos da Lapa

Tem a palavra o autor do Santuário Mariano, que mais ou menos refere o seguinte: “pelas portas da igreja de Nossa Senhora da Ajuda se vai para o Santuário de Nossa Senhora do Desterro, que dista da cidade do Rio de Janeiro cousa de meia légua para o Sul. Vê-se este santuário fundado em um alegre monte pela larga vista que dele se descobre, aonde concorrem todos os moradores daquela cidade, não só pela grande devoção que todos têm com a Senhora, mas por ser o sítio alegre e delicioso. Foi fundador da capela um Antônio Gomes do Desterro, o qual pela grande devoção que tinha para com este título que também o tinha por apelido lho dedicou e a fazenda ou quinta em que o fundou, quis que para sempre fosse da Senhora e assim lhe fez doação dela e de outras fazendas; para que dos rendimentos delas se acudisse à fábrica da casa da Senhora e ornato de seu culto, como para sustento do Ermitão, que havia de ter o cuidado da casa e dos ornamentos e serviços dela e também de sustentar alguns escravos.

No tempo presente tem um ermitão, homem honrado, virtuoso e com muito propósito, o qual há muitos anos que assiste à Senhora e com o grande amor com que a serve lhe tem aumentado muito a sua casa e suas rendas, porque tem um curral de gado nos campos de Irajá, partido de canas, escravos, tudo em terras próprias”.

Tirem a tal meia légua, e a descrição de frei Agostinho é completamente exata. Quanto à probidade do ermitão ponho a mão no fogo, porque no Arquivo Público encontrei provas desse bom proceder.

Eis o caso: uma senhora, viúva de certo figurão, entendeu não pagar aluguéis de um prédio, sito na Rua do Rosário, esquina da Rua Direita e pertencente ao patrimônio do Seminário de São José. O reitor desse estabelecimento de instrução não se deixou levar por lamúrias e teve de propor a competente ação para pôr na rua a locatária recalcitrante. Esta aconselhada por hábil advogado, sustentava que o padre nenhum direito tinha no que alegava. Este recorreu aos cartórios e encontrou a escritura primordial provando que o prédio fora comprado em 1698 a Belchior da Fonseca Dória por Manuel Corrêa, ermitão do Desterro, com dinheiro de Nossa Senhora, para aumento do patrimônio dela.

Desse modo fica a posteridade conhecendo o nome desse homem honrado, e frei Agostinho absolvido da pecha de engrossador.

Em seguida ocupa-se aquele cronista com a narração das festas, novenas e romarias feitas à Senhora do Desterro, para o que existiam próximo à ermida casas para romeiros, que aí se aboletavam durante dias e dias. Serviram elas, como é sabido, de habitação, mais tarde, aos Capuchinhos italianos.

Quanto a milagres, o autor citado comemora longamente o operado em favor do conhecido historiador Simão de Vasconcellos, quando em 1650 caiu gravemente enfermo no Colégio dos Jesuítas, sito no Morro do Castelo. Curou-se graças a uma missa dita na ermida do Desterro pelo padre João de Almeida. Sempre grato ao seu companheiro, Vasconcellos na biografia que escreveu sobre o padre Almeida trata desse assunto com todas as circunstâncias e minúcias.

Que, em 1629, já estava fundada a ermida do Desterro, prova-o o testamento com que, a 8 de fevereiro desse ano, faleceu o prelado eclesiástico Matheus da Costa Aborim, o qual na verba n. 112 legava 40 cruzados para as obras da referida capela.

Nos autos da primeira medição (1667) da sesmaria da Câmara, vem assinalado, como por vezes tenho repetido, o Desterro como um dos pontos obrigados da testada.

Em 15 de outubro de 1714 chegaram ao Rio de Janeiro os religiosos Marianos frei Custódio de Jesus Maria, frei Manuel da Purificação e frei Affonso de Jesus, com intuito de fundarem, no Desterro, casa conventual. Ali estiveram até 10 de setembro de 1716.

Retiraram-se, ou por não convirem as circunstâncias da terra à realização do plano concebido, ou por não receberem do povo maiores agasalhos. Segundo Monsenhor Pizarro, entendiam os Cariocas que aqui já havia frades demais: Beneditinos, Carmelitas, Franciscanos, Jesuítas, etc.

Que, em ocasião de apuros, os frades sabiam dar exemplos de patriotismo e bravura temos a prova no procedimento de frei Francisco de Meneses, por ocasião da entrada dos Franceses, em 1710, comandados pelo desasado Duclerc.

Vinham os invasores caminho de Matacavalos, quando nas proximidades da Ladeira do Desterro, Meneses, à frente de alguns paisanos, infligiu-lhes severa lição, secundada depois por outros que determinaram a completa derrota dos aventureiros.

Já em Minas este Meneses, religioso Trino, pintara a manta na luta entre Paulistas e Emboabas. Negociava como qualquer mortal e, segundo dizem, para ali partira em 1708 depois de haver obtido no Rio de Janeiro o monopólio de todos os açougues das Minas Gerais, tendo como sócio Francisco do Amaral Gurgel, cujas proezas tanto deram que fazer ao Governo da Metrópole e ao Conselho Ultramarino.

Ora, eis aí uma beleza do tempo: um frade com privilégio de marchante, metido em comércio de carnes verdes!

Segundo creio, os Paulistas, residentes em Minas, puseram embargos à negociata e foi esse mais um motivo para a continuação da luta.

Os historiadores não explicam porque, em 1734, os bens patrimoniais do Desterro, adquiridos por esmolas, legados e zelosa administração de Manuel Corrêa, foram considerados devolutos à Coroa, apesar das representações do bispo Dom Antônio de Guadalupe e da brilhante defesa do vigário geral Dr. Gaspar Gonçalves de Araújo, em favor do Juízo Eclesiástico.

Por esse tempo o mencionado prelado tinha em mira a fundação de um seminário, obedecendo às prescrições do Concílio de Trento. Pelas provisões de 27 de outubro de 1735 e 6 de agosto de 1738 obteve afinal Dom Antônio depois de muito pedir, que os bens pertencentes a Nossa Senhora do Desterro fossem entregues ao Ordinário, sob a condição de servirem de patrimônio ao instituto que se devia fundar, com o ônus único de uma missa celebrada todos os sábados.

Em mão do atual e digno síndico do Seminário Arquiepiscopal vi, há dias, certidão antiga dessas propriedades, que do Desterro passaram ao Seminário, fundado à direita da Ladeira do Poço do Porteiro confinando com terras do antigo Forte de São Januário, no Morro do Castelo. Entre esses prédios, além do comprado a Belchior Dória, figuram dois na Rua das Flores ou Nova do Ouvidor, nos quais, por muito tempo, funcionou a tipografia do Apóstolo, e um na Rua do Sucusará (Quitanda), notável hoje, porque nela teve escritório de advogado o Dr. Ferreira Vianna, de honrada memória.

Assim auxiliado, o Bispo Guadalupe, em 3 de Fevereiro de 1739, comprou por 2.000 cruzados ao alferes Manuel Pereira da Silva e sua mulher, Maria da Conceição, o terreno onde foi fundado o Seminário. Da escritura lavrada pelo tabelião Francisco Xavier da Silva consta que as terras eram próprias, sem ônus nem hipoteca, e sitas junto à Igreja de Nossa Senhora d’Ajuda para banda da Fortaleza de São Januário – que de uma banda partiam com terras do Convento do Carmo até onde se acha a valada, e da outra banda parte com a chácara do ermitão da Glória, João Caminha, fazendo testada com a rua que vai sair ao Campo de Nossa Senhora d’Ajuda, correndo os fundos a entestar com o monte da Fortaleza de São Januário. Os vendedores declararam que os haviam comprado a Margarida de Mattos Filgueiras, por escritura feita em 8 de abril de 1738 na nota do tabelião Custódio da Costa Gouvêa.

Até o tempo da fundação do Convento de Santa Teresa gozou o Seminário de São José dos rendimentos das propriedades do Desterro; diz, porém, Monsenhor Pizarro que muitas delas voltaram ao domínio da casa conventual fundada pela valiosa proteção de Gomes Freire de Andrade, onde até hoje jazem seus despojos mortais.

Assevera ainda Pizarro que em compensação dessa perda o Bispo Dom frei Antônio do Desterro comprara a seu irmão, o mestre de campo João Malheiros Reimão, uma fazenda na Jurujuba, e dela fizera doação ao Seminário de São José. Esse Reimão, parece, era militar apatacado: foi dono de terrenos, onde mais tarde foi fundada a Igreja de São Francisco de Paula e de dois sobrados no Canto de Marcos da Costa (Rua da Assembleia, esquina da Rua da Quitanda), pertencentes hoje ao patrimônio das Religiosas da Ajuda.

Demolida a velha ermida do Desterro e fundado o Convento, perdeu o monte o antigo nome, e de 1750 em diante passou a ser conhecido por Morro de Santa Teresa.

Em memória, porém, do santuário ereto por Antônio Gomes do Desterro, as Religiosas conservam em sua igreja e em lugar de honra a família sagrada em peregrinação para o Egito.

Diz Mello Moraes pai que o atual Morro do Pinto foi também conhecido com a denominação de Santa Teresa.

Segundo o ilustre historiador, esse monte foi uma sesmaria que passou ao capitão-mor Antônio Ramos dos Reis, que ali fez casa de vivenda e capela dedicada à matriarca dos Carmelitas. Os herdeiros de Reis venderam essas propriedades a José Velloso do Carmo, em 19 de abril de 1762, e Velloso, por escritura pública, a 2 de setembro do mesmo ano, fez doação ao Conde de Bobadela, para patrimônio das Religiosas de Santa Teresa.

Logo, houve dois morros com o mesmo nome: mais uma duplicata… em assuntos de topografia da cidade de São Sebastião, cuja data de fundação, há 337 anos, é oficialmente festejada hoje.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Imagem destacada

  • Corpo da Guarda no Morro de Santa Teresa de P. G. Bertichem. Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg, Rio de Janeiro, 1856. (O Corpo da Guarda era um posto no caminho do Aqueduto (Rua Almirante Alexandrino), a cujos funcionários competia zelar pelo aqueduto, não permitindo que estranhos o sangrassem ou cometessem qualquer forma de vandalismo)

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