Engenho da Pedra

(Inhaúma)

De território desmembrado da freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, de Irajá, ficou constituída, em 1687, a nova paróquia de São Tiago de Inhaúma, servindo de capela curada o santuário levantado à Senhora da Conceição por Custódio Coelho, e depois cedido por Agostinho Pimenta de Moraes ao vigário geral Dr. Clemente Martins de Mattos. Este Dr. Clemente, segundo é fama, antes de abraçar o estado sacerdotal, formara-se em Direito e, sendo perseguido pela Inquisição por crimes contra a Religião, fugiu para Roma e ali se ordenou. Depois de perdoado pelo papa, regressou ao Rio de Janeiro, ocupando vários e importantes cargos da hierarquia eclesiástica.

Foi ele, como é sabido, o senhor da grande chácara de São Clemente, onde fundou uma capela, ainda existente, na atual Rua Humaitá. Além de ministro do altar foi grande industrial, pois possuiu a fábrica de anil no mencionado local. Tesoureiro-mor da Sé, à sua influência deveu o Rio de Janeiro a criação da freguesia de Inhaúma.

Conforme o erudito Theodoro Sampaio – anhumas, inhuma, inhúma, inhaum, anhyma são corruptelas das duas palavras – nhã-um, ave preta (Palmidia Cornuta), armada de um corno pontiagudo sobre a cabeça e habitante de lugares pantanosos.

Parece que em Inhaúma existiu antiga aldeia de Tamoios, a qual por diversas circunstâncias teve de ser abandonada; daí a denominação de tapera ligada a esses sítios. Segundo Beaurepaire Rohan, vem a palavra de tabapuera. O já mencionado Teodoro Sampaio opina ser o termo corrução de tab era, alterado em taguera. Ambas estas autoridades são de opinião que tapera quer dizer aldeamento, tabas abandonadas. Essa expressão ligada a Inhaúma é encontrada não só na carta de sesmaria concedida, em 1565, aos Jesuítas pelo capitão-mor Estácio de Sá, mas também na concedida por este primeiro governador, em 5 de setembro do mesmo ano, a certo Antônio da Costa: 700 braças ao largo do mar e 1.000 pela terra dentro na tapera de Inhaúma.

Em tempos idos, já teve dias de atividade e de florescimento a parte litoral desta freguesia: em suas plácidas enseadas estacionavam barcos e canoas, que transportavam à cidade o açúcar, a aguardente, o anil, e, mais tarde, muito café.

Segundo um manuscrito que tenho à vista, os pequenos lavradores exportavam anualmente 2.986 alqueires de farinha, 587 de feijão, 482 de milho e 200 de arroz.

Nessa época (1779), contava a freguesia os seguintes engenhos: o de Inhaúma, com 79 escravos, produzia 35 caixas e 20 pipas; o da açúcar anualmente e cinco pipas de aguardente; o do Campinho, pertencente a Francisco Felix Corrêa de sociedade com o tesoureiro dos ausentes, José Frutuoso Moreira, 20 caixas de açúcar, 10 pipas; o de Inhaúma, com 79 escravos, produzia 35 caixas e 20 pipas; o da Pedra, do sargento-mor José Dias de Oliveira, com 36 escravos, exportava 20 caixas e 20 pipas.

Existiam três bons portos: o da viúva e filhos de Felix de Sousa Castro; o da Olaria, do capitão Luiz Viana, e o da Mangueira, de Joaquim Rodrigues da Silva.

Todas estas informações podem ser melhor apreciadas no Arquivo Público, nas notícias ministradas ao Marquês de Lavradio pelo comandante do distrito miliciano, Fernando Dias Paes Leme.

Servia de orago ao Engenho da Pedra Santo Antônio de Lisboa, cuja antiga capela fora edificada antes de 1638, visto que nesse ano aí se realizou um batizado, conforme consta, segundo Monsenhor Pizarro, da folha 29 do livro 1º dos assentamentos de batismo da freguesia da Candelária. Até 1648 essa capela, como todas as do recôncavo, eram sufragâneas desta última paróquia.

Criada a freguesia de Irajá, passou o Engenho da Pedra a fazer parte com outros da freguesia da Senhora da Apresentação. Só depois de 1687 ficou sujeita à jurisdição do pároco de Inhaúma. Arruinada pela ação do tempo, foi a capelinha, em 1738, reedificada por D. Cecilia Vieira do Bonsucesso, viúva de Francisco Luiz Porto. Em tempos mais próximos de nós, pertenceu o Engenho da Pedra ao padre David Simeão de Oliveira Mascarenhas, por herança de D. Leonor de Oliveira Mascarenhas. O padre David Simeão de Oliveira Mascarenhas vendeu, em 1883, parte das terras a José Joaquim Alves de Britto, e este, em 1885, a José de Oliveira Quito. Casas que não vêm a ponto mataram a antiga atividade destes sítios; veio a decadência e com ela o desabar das paredes da ermida de Santo Antônio.

Ainda há poucos anos, Moreira Pinto em seu Dicionário Geográfico e o operoso Agenor de Noronha Santos, em seus apontamentos para o Indicador do Distrito Federal, assinalavam o estado de completo abandono do santuário erguido em honra do grande taumaturgo português. Hoje isto não se dá, e para prova aí temos a bela festividade realizada no dia 13 de maio, já largamente descrita pela imprensa diária.

Eis o caso: tornando-se possuidor de parte de terras do antigo engenho o honrado industrial José de Oliveira Quito, doeu-lhe n’alma o abandono em que encontrou o antigo santuário, cuja imagem do padroeiro, sem braços e quase destruída, foi achada em um monturo. Está ela hoje completamente restaurada em um nicho da sacristia da ermida, apesar dos seus duzentos e sessenta e seis anos.

Com grandes sacrifícios, mas animado da mais profícua perseverança, conseguiu Oliveira Quito ver a realização de seus mais ardentes desejos: a restauração da capela do santo seu compatriota e a entrega ao culto religioso, para o que obteve as necessárias licenças do prelado desta arquidiocese.

Foram anos de luta e de trabalho: aos domingos lá ia o velho Quito com alguns conhecidos carpinteiros e pedreiros, e todos eles, alegres e contentes, entregavam-se à faina. Da pintura encarregou-se o artista Heitor Nather, que se desempenhou brilhantemente, não só em todos os ornatos como na decoração do teto, o qual denota muita arte, perícia e bom gosto.

Reconstruída a parte principal, Oliveira Quito ora comprava paramentos, ora castiçais; agora fazia aquisição de um lustre, dias depois de serpentinas, mais tarde de outros objetos indispensáveis à celebração da missa, de sorte que no dia da inauguração nada faltava e tudo estava no seu lugar, e para os sacerdotes que oficiaram nenhuma dificuldade houve. Nesse memorável dia Quito estava doido de alegria, e quando, ao levantar a Deus, bimbalhavam os sinos da capelinha e espocavam os foguetes, o velho chorava como uma criança!

Convidado com muita antecedência, às 8 ½ horas achava-me no cais do antigo Largo do Paço, e em meio da mais amável companhia tomei lugar em ligeira lancha a vapor. Esta pôs-se ao largo e por estar de vazante a maré seguiu em direção à Ilha do Governador contornando a face do lado da cidade até à ponta do Galeão para mudar de rumo. O dia estava chuvoso, e de longe víamos todas as grossas e negras nuvens vindas da Tijuca envolverem a cidade como em um imenso véu de luto. Impertinentes rajadas de vento zuniam por entre as hastes da tolda da lancha, que sem disso se aperceber lá ia seguindo o caminho, singrando, cabeceando e levantando espuma, como dizia o poeta.

Se não foram estas circunstâncias, a viagem teria sido magnífica, pois poderíamos melhor apreciar as belezas da nossa esplêndida baía descrita por tantos viajantes, e elogiada e cantada por prosadores e poetas.

Depois de uma hora de percurso abicamos ao ponto de desembarque constituído por grosseiros degraus nos restos de uma pedreira, que deu nome ao engenho. Seguindo estreito trilho, verdadeiro caminho na roça, chegamos, depois de quinze minutos, à capela, situada em uma elevação, e toda pintada de branco, embandeirada, tendo o chão da pequena escadaria atapetado de folhas de mangueiras, canela, etc.

Enquanto o vigário de Inhaúma procedia à benção da pia e dos altares, quedei-me absorto na porta da ermida a contemplar o imenso panorama que se desenrolava a meus olhos.

Ao longe, muito ao longe, o Corcovado, cercado de nuvens, e mais embaixo o Pão de Açúcar como atenta sentinela a fiscalizar os domínios de que é senhor. Aqui o formoso grupo das ilhas do Fundão, Baiacu, Bom Jardim, Cabras, Catalão, Pinheiro, Pindais e a do Bom Jesus em frente à pedra do Thibau, como marcam as escrituras de doação feita por D. Ignez de Andrade e seus sucessores, os Telles de Menezes, aos frades de Santo Antônio.

Para o Norte, os portos de Maria Angu, da Fazenda Grande e ilhas Cambambis, Forra Semanas, Raimundo, Comprida e Saravatá, célebre por suas frutas de conde. Mais para dentro, a Igreja da Penha, toda enfeitada, à espera dos peregrinos que nesse dia, em numerosa romaria, deviam visitar o antigo santuário levantado por Balthazar de Abreu Cardoso.

Em frente à famosa Ilha do Governador, a antiga Paranapuan, do Gato Bravo, dos Sete Engenhos, Maracajá, onde Salvador Corrêa de Sá levantou o primeiro engenho que houve no Rio de Janeiro e os Beneditinos tiveram grande extensão de terras, doadas em 1695 pelo capitão Manuel Fernandes Franco. Em espaçosa vivenda, cedida pelos frades ao rei D. João VI, residiu por muitas vezes esse monarca.

Todas essas recordações históricas perpassaram por meu espírito, tão rápidas como as lufadas de impetuoso vento que faria vergar os paus das bandeiras, as árvores e os capinzais.

Era tempo, porém, de fugir a tanta fascinação: entrava a missa, que foi cantada com todas as minúcias do ritual, sendo os coros entoados por gentis mocinhas, nossas companheiras de viagem, as quais conservaram sempre a nota alegre da comitiva. Houve sermão ao Evangelho, pregado com toda a eloquência por quem o sabe fazer, aliando o brilho de imagens à profunda erudição.

Seguiu-se opíparo almoço servido na velha casa dos tempos coloniais, onde residiram os antigos donos da fazenda do Engenho da Pedra. Foi pena não estar lá o erudito e distinto Dr. Araújo Vianna, para nos dar a descrição técnica dessa antiga vivenda.

Gratos à gentileza do anfitrião, o Sr. Quito, e de sua ilustre família, os convidados deitaram discurseira, e satisfeitas as exigências da cortesia todos se dirigiram ao ponto de embarque, levando n’alma saudosa recordação deste agradável dia.

O que eu não vi, nem ninguém da comitiva, foi um só espécime das tais aves cornutas, que deram o nome a Inhaúma.

16 de maio de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Ilha da Pedra em Albernaz II, João Teixeira, Atlas do Brasil, 1666?, Aparência do Rio de Janeiro com todos os baixos e ilhas, via Biblioteca Nacional.

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