Fortaleza da Conceição

Em um dos cabeços desta cidade, haviam em 1634 fundado Miguel Carvalho e Maria Dantas modesta ermida, dedicada a Nossa Senhora da Conceição.

Junto do santuário foi também, tempos depois, construído um pequeno hospício ou convento, onde por muitos anos viveram Capuchinhos franceses. Expulsos esses religiosos por ordem do rei D. João V, o Bispo Dom Frei Francisco de São Jerônimo agradou-se do local e, obtidos 8.000 cruzados do Erário Régio, ampliou o hospício e nele fixou a residência episcopal.

Teve razão o prelado, porque: além da beleza do sítio, a chácara e horta da Conceição eram vastas e bem plantadas: a cerca, segundo refere frei Agostinho de Santa Maria, era feita de limoeiros, cujos espinhos fizeram tão perfeito tapume, que até das galinhas da vizinhança estava vedada, tanto aquelas árvores (que lá é mato) se unem, que seguram melhor as fazendas do que as paredes.

Estavam as coisas neste pé, quando em 1711, como é sabido Duguay-Trouin invadiu o Rio de Janeiro; e enquanto, amedrontado, Dom frei Francisco se refugiava nas – furnas – da Tijuca, o almirante francês ocupava o morro e aboletava-se na bela vivenda prelatícia. Serenada a crise, voltou o bispo aos seus penates; mas tal horror tinha o virtuoso varão ao cheiro da pólvora, que começou a queixar-se de achaques, pedindo sua remoção.

O Conselho Ultramarino consultado negava o pedido, dizendo que as taboas do fígado eram perfeitamente curáveis no Rio de Janeiro, onde havia tão bons clínicos como em Lisboa. D. Francisco resignou-se à sua sorte, e aqui permaneceu até 1721, ano em que faleceu, sendo sepultado na capela da Conceição.

Imaginemos, porém qual não foi a desagradável surpresa do diocesano, quando aqui chegou D. Francisco de Távora, com ordens de melhor fortificar a cidade. O novo governador, não contente de tirar terras da chácara da Mitra e de apropriar-se de uma pedreira para obter material que servisse à edificação da projetada muralha, a qual devia ligar a Conceição ao morro do Castelo, edificou uma fortaleza mesmo na parte posterior da residência de Dom Frei Francisco de São Jerônimo! Este protestou, alegando que as salvas da fortaleza fundada há pouco por Dom Francisco de Távora abalavam as paredes do palácio, e pedia como indenização das terras tomadas uma lâmpada de prata para a capela, do custo de 130$000!

Ouvido o provedor da Fazenda, achou justo o pedido, e o Conselho Ultramarino foi de opinião que a fortaleza não desse salva nos dias de gala e ficasse reservada para ocasião de guerra. Deram-se estes fatos em 1717 e 1718.

Consta isto de um códice, n.º 207, pertencente ao arquivo do Instituto Histórico. Por este documento devem cessar as incertezas de Monsenhor Pizarro e de todos quantos o seguiram sobre o fundador da fortaleza da Conceição. Foi, não há dúvida, o governador D. Francisco de Távora; e o engenheiro, sob cujo plano se levantou esta fortificação, não é muito difícil de adivinhar (os manuscritos o dizem), foi João Mace.

Começada em 1715, já em 1718, segundo a carta do governador Antônio de Britto Meneses em data de 2 de Março, estava a fortaleza quase acabada com seu armazém de pólvora, corpo de guarda e cisterna; necessita acabar o fosso, parapeitos e alguns quartéis. Nesta obra as paredes interiores, que formam o parapeito, estão pouco seguras, e a cisterna esvaída… Nesse tempo estava a Conceição guarnecida por 36 peças de ferro, com 1.000 balas de diferentes calibres.

No tempo da governação de Luiz Vahia Monteiro, foram por este propostos à metrópole novos meios de defesa do Rio de Janeiro, por parte de terra, consistindo no abandono do muro da cidade, então ainda não concluído, por um grande canal, que principiando no sítio da Ajuda terminasse na Prainha. Pouco caso fez Vahia da fortaleza da Conceição, que, no seu conceito, era inútil à defesa da cidade.

Estando aqui de passagem, em 1730, o célebre Jesuíta e geógrafo Diogo Soares levantou a planta da fortaleza, planta que deve existir no Arquivo Militar.

Em 1735 era pequena a guarnição comandada pelo alferes Manuel de Assumpção e Sá.

Em carta de 20 de Dezembro de 1737 (documento do Arquivo Público) o governador Gomes Freire de Andrade dizia que a Conceição não tinha governador, e que era necessário ser nomeado para tal cargo um sargento-mor.

De Lisboa mandaram dizer que as urgências do Estado não permitiam tal despesa e que o forte continuasse a ser comandado por um capitão: pois os artilheiros que aqui existiam eram poucos para guarnecer as fortalezas da barra e que em tempo de guerra se providenciaria.

No tempo desse mesmo Gomes Freire caía em ruínas o palácio episcopal, e as obras de reparação estavam orçadas em 20 contos de réis. Houve o alvitre de mudar a residência do bispo para junto da nova Sé, que ia ser levantada no hoje largo de São Francisco de Paula. As urgências, ainda, do Erário não permitiram esse melhoramento, pois, dizia o governador, ficaria, arrasados o palácio e capela, amplo espaço para alargar o forte, construindo nele quartéis para a guarnição. Tudo isto ficou em projeto; foram feitos os reparos no palácio, e a fortaleza continuou quase abandonada (documento do Arquivo Municipal).

É, aqui, lugar para uma reflexão: eram tais as delongas nas deliberações tomadas com referência à defesa da cidade, tais as mesquinharias da metrópole, a falta de providências acertadas, de um plano definitivo de fortificações, que, se os inimigos de Portugal quisessem, podiam a são e salvo reproduzir as proezas do famigerado Duguay-Trouin. A Providência velava pelos antigos Cariocas, abandonados aos próprios recursos, graças às despesas de guerra, às intrigas diplomáticas e às somas gastas sobretudo com a célebre Colônia do Sacramento, para a qual a metrópole fazia convergir todas as vistas e cuidados.

Empunhando em 10 de Outubro de 1763 o Conde da Cunha o bastão de vice-rei, tratou de aperfeiçoar o que seus antecessores não tinham podido pôr em obra; as fortificações mereceram-lhe cuidado, e de sua Correspondência resulta grande a convicção de ter algo realizado em benefício das coisas de guerra. Em minuciosa conta justificou-se das grandes despesas feitas.

Dando melhor destino à fortaleza da Conceição, mandou levantar dentro de suas muralhas a casa de armas, cuja descrição feita em 1844 encontramos em uma memória impressa na Revista do Instituto Histórico, tomo 25º, firmada por J. de Sousa Pereira da Cruz:

“Construída de pedra e cal, diz ele, com a grossura de 5 palmos de parede em quadro, com quatro pés direitos de cantaria nos cantos atracados com 6 braçadeiras de ferro, tem um pórtico na frente e duas janelas, e no fundo três: tem de largura 55 palmos de frente e outro tanto de fundo; seu comprimento é de 142 palmos guarnecido simetricamente com 5 janelas de cada lado, as quais tem 12 palmos de vão de altura e 6 em largura, e por baixo delas existem 12 grandes cofres de ferro para depósitos de objetos de guerra, hoje ocupados com canos de diversos adarmes e padrões em estado de servir, em sua altura por dentro encerram-se três ordens de cabides sustentados sobre grandes quartelas, obra de entalhador, e diferentes cavados, que formam a mais excelente vista; as três ordens tem 126 cabides para espingardas ou rifles e por dentro aproveitados com um cabide para espadas; por cima da 3ª ordem há um pequeno que serve para pistolas compridas; leva esta casa 9.416 espingardas, 3.328 rifles e 7.000 espadas.”

Segundo Mello Moraes filho, existia na antiga sala de armas uma almofada de madeira por cima da janela central, do lado de Leste, que parece ter servido de tela a alguma alegoria ou retrato, cujos traços são apenas perceptíveis. Quem sabe se tal quadro não seria devido ao pincel de Manuel de Oliveira que, conforme Porto Alegre, foi encarregado pelo conde da Cunha de decorar a casa das armas.

A brocha do caiador, diz Moreira de Azevedo, fez desaparecer as produções do emérito artista, autor do quadro – Apoteose de São Francisco – pintado no teto da Penitência e felizmente restaurado, há anos, pelo distinto e modesto Driendl.

Foi primeiro inspetor e governador Álvaro Teixeira de Macedo, que teve sob suas ordens o mestre de espingardeiros Pedro Tavares Freire e o de coronheiros João Antônio, mandados vir de Portugal pelo conde da Cunha.

Em 1799, menciona o Almanak de Antônio Duarte Nunes, era este o pessoal da Real Fábrica de Casa das Armas da Conceição: inspetor e governador, Francisco Xavier dos Santos, escrivão, Antônio Luiz da Fonseca; mestre da fábrica, Pedro Tavares Freire; contramestre, Domingos Pereira Cardoso, mestre cozinheiro, Antônio Manuel; almoxarife, Manuel Travassos da Costa.

Xavier dos Santos é o habilidoso Xavier das Conchas, que muito coadjuvou Luís de Vasconcelos na ornamentação dos primitivos pavilhões do Passeio Público. Não deve ser confundido com o Xavier dos Pássaros.

Do governador da Conceição, natural de Santa Catarina, existem dados biográficos no “Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro” do Dr. Joaquim Manuel de Macedo.

Em 1791 houve crise na Conceição; o conde de Resende, em carta de 10 de Janeiro, comunicava que as oficinas deixavam de trabalhar por falta de pagamento e remetia um mapa do estado em que se achava a casa de armas (documento do Arquivo Público).

No tempo do príncipe regente, mandou o conde Linhares (1810) fossem admitidos, até o número de 100, aprendizes nas diferentes oficinas.

Tinham eles além do vencimento, conforme seu mérito, 25 réis diários, dois feixes de lenha e um alqueire de farinha por mês.

Deixemos de parte minudências, que podem ser lidas na memória de Pereira da Cruz. Tempos depois parou o fabrico de armas com o frívolo motivo de ser mais dispendioso tal fabrico do que compral-as ao extrangeiro; entretanto dali saíram ricas espingardas, que o rei D. João VI enviou de presente a vários soberanos da Europa.

Depois da Independência, e no ministério do conde de Lages, as oficinas da Conceição passaram por grandes melhoramentos, tendo-se tornado digno de elogios o inspetor Joaquim Caetano da Silva, falecido em 23 de Abril de 1831.

Por motivo de economia houve, no tempo da Regência, muitos cortes nas despesas da casa de armas, indo para o Arsenal de Guerra o restante dos operários.

Por decreto de 21 de Fevereiro de 1832 foram extintos o lugar de inspetor e o almoxarifado, ficando os armazéns da Conceição fazendo parte da 1ª classe do almoxarifado, do Arsenal de Guerra, conservando-se ali somente um fiel responsável e um guarda. Em 2 de Setembro de 1844 regressaram as oficinas do Arsenal para a mesma fortaleza, onde permaneceram até os nossos dias.

Falta-nos espaço para tratar, ainda que em resumo, do histórico dessa fábrica. A leitura dos competentes relatórios do Ministério da Guerra suprirá tais lacunas. Como é sabido, a antiga fortaleza e suas dependências estão presentemente ocupadas pelo 7º batalhão, tendo sido removidas para o novo Arsenal em São Cristóvão as antigas oficinas, criação do conde da Cunha.

Nas prisões da fortaleza da Conceição estiveram encarcerados vários dos implicados na Conjuração Mineira, como se colige da leitura da monografia de Joaquim Norberto de Sousa Silva. Se nos não falha a memória, lá também esteve preso o poeta mineiro Manuel Inácio da Silva Alvarenga, membro de uma sociedade literária, que funcionava em um sobrado de dois andares da Rua do Cano (hoje Sete de Setembro). Este grêmio foi dissolvido, e seus membros, suspeitos de “jacobinismo”, perseguidos pelo conde de Resende, graças às intrigas de certo procurador de causas, Fuão Frade.

19 de Outubro de 1902.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Galeria de imagens

Mapa – Contorno da Fortaleza da Conceição e do Palácio Episcopal