Funeral da Imperatriz

(1826)

Às 10 horas e um quarto da manhã de 11 de Dezembro de 1826, faleceu no Paço de São Cristóvão a imperatriz Dona Maria Leopoldina.

Achava-se ausente seu esposo Dom Pedro I. O monarca havia ido ao Sul, afim de, no teatro da guerra, dirigir as necessárias operações.

Durante a longa moléstia da ilustre senhora, o povo não cessava de dar provas do mais sincero interesse pelo restabelecimento da boa e generosa imperante.

Nas vizinhanças do palácio da Boa Vista, sucediam-se diversos grupos de homens e senhoras ávidos de notícias. Os boletins, publicados duas vezes por dia pelos médicos do Paço, eram lidos com sofreguidão. Houve por vezes esperanças de restabelecimento. Desapareceram, como nuvens que passam, ao saber-se do fatal desenlace do dia 11.

Durante os dias da moléstia, a população desta cidade assistiu consternada e triste a espetáculo nunca visto. Ao badalar incessante dos sinos de todas as igrejas, viam-se longos préstitos caminhando ao clarão de tocha e círios, e ao som plangente dos cânticos da liturgia católica. Eram as procissões de preces. Santos tirados de seus altares iam em visita de umas para outras igrejas. Nestes dias de ansiedade, imagens que nunca foram vistas em préstitos religiosos, apareciam pela primeira vez. Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora do Carmo da Ordem Terceira, Nossa Senhora do Bom Sucesso da Misericórdia, São José, São Francisco de Paula e tantos outros recebiam do povo súplicas em pleno ar livre.

Morta a imperatriz, havia no ambiente do Rio de Janeiro um ar de tristeza e melancolia. Surgiam aqui e ali boatos sinistros. Dizia-se que a imperatriz havia sido envenenada. Uns esperavam com devoção os funerais e as exéquias que deviam ser suntuosas. Os apreciadores da Oratória sacra preparavam-se para ouvir o cônego Januário, frei Sampaio e Mont’Alverne. O Senado da Câmara ordenara luto rigoroso, três meses pesado e três aliviado. Ficaram suspensos os espetáculos.

As costureiras não tinham mãos a medir. Os fabricantes de cera tiravam o ventre da miséria; muitos enriqueceram. Durante três dias consecutivos à morte da Imperatriz, foram ditas em todas as igrejas e capelas missas pagas à razão de três patacas, pela mordomia da Casa Imperial. Todos, pois, nesta metade do citado mês de Dezembro concentraram a atenção na infausta morte da princesa, falecida na flor da idade e deixando cinco órfãos privados das carícias maternas.

Que a morte do Dona Maria Leopoldina foi considerada pública calamidade provam os jornais do tempo. Os escritores que se ocuparam desta triste ocorrência são unânimes em por em evidência a espontânea consternação do povo e o respeito e simpatia, que a todas as classes sociais merecem os despojos da imperante no longo trajeto do paço da Boa Vista até à igreja do convento da Ajuda. Tais provas de condolência foram as mesmas dadas pela nossa população no dia 9 de Novembro do ano corrente, por ocasião da transferência dos despojos da virtuosa imperatriz, – da Ajuda para o Convento de Santo Antônio.

Não deixa, pois, de vir a propósito narrar os fatos passados, há oitenta e cinco anos, com relação aos funerais da nossa primeira imperatriz. Pondo de parte o muito que então se escreveu em prosa e verso, procurarei resumir o que consta da folha oficial o Diário Fluminense.

Durante o dia 11, como era da pragmática, salvaram de dez em dez minutos os navios de guerra e as fortalezas. Os sinos de todos os templos da cidade não cessaram de dobrar a finados. Às 6 horas da tarde os médicos ligaram (sic) o corpo da imperatriz. Vestido de grande gala foi o cadáver reposto no leito em que exalara o último suspiro, sobre uma riquíssima colcha da China, cor de pérola, e encostado em duas almofadas de seda verde e ouro.

No dia 12, ao meio dia, teve lugar o beija-mão. Cumpriram este doloroso dever Dom Pedro, futuro imperador, e suas irmãs. Com vivas cores descreve o Diário as lágrimas e suspiros de Dona Maria da Glória, ante tão lancinante catástrofe. No dia 13, às 10 horas da noite, foi o corpo metido em um caixão de cedro, forrado de lhama branca e por fora de veludo preto com galão de ouro.

Este caixão foi posto dentro de outro de chumbo e ambos em um terceiro forrado de seda branca e coberto de veludo com galões de ouro fino, tendo na parte superior uma cruz branca bordada a ouro. Dali foi o corpo levado para a sala do dossel e colocado sobre riquíssima peça, ladeada por vinte e dois tocheiros de prata.

Alonga-se o Diário na descrição dos ornatos da câmara ardente, nas alcatifas de seda e ouro, no altar e no sólio destinado ao bispo.

Ao amanhecer do dia 14, começou o clero secular e regular a celebrar missa em sete altares armados na varanda do Paço.

Às 10 horas da manhã, entrou o bispo Dom José Caetano da Silva Coutinho, que havia administrado à imperatriz os últimos sacramentos. Começou o ofício de finados. Terminadas as matinas, o diocesano acompanhado de todo o Cabido celebrou missa de pontifical. Tiveram inicio as absolvições. Terminaram à uma hora da tarde.

Das três horas da tarde até às 7, concorreram ao Paço as sete freguesias da cidade, as três ordens religiosas e as colegiadas da Misericórdia e São Pedro.

Terminadas as cerimônias das encomendações, deu-se princípio ao desfile do fúnebre préstito.

Pegaram no caixão até à porta do Palácio oito grandes do império, cujos nomes o Diário menciona. Às oito e meia punha-se em movimento a fúnebre procissão.

Seria longo enumerar os nomes dos personagens, que segundo suas graduações tomaram, conforme a etiqueta, os competentes lugares. Ao grande coche, puxado por oito machos cobertos de gualdrapas pretas, seguia-se o coche de Estado, e atrás deste a Imperial Guarda de Honra. Precediam estes dois veículos, dois outros coches: um levava a coroa, e outro conduzia o cura da Capela Imperial.

Dividiu-se a tropa em quatro brigadas de infantaria, uma de cavalaria e outra de artilharia.

A primeira de infantaria era comandada pelo brigadeiro Lázaro José Gonçalves, a segunda pelo brigadeiro João da Costa Brito Sanches, a terceira pelo coronel Francisco das Chagas Catete, a quarta pelo coronel Luiz de l’Hosti. Da brigada de cavalaria era comandante o coronel João Agostinho Barbosa, e da de artilharia, o coronel Francisco de Paula Vasconcellos. Quanto à disposição da tropa, foi ela dividida de modo a serem dadas as salvas de 21 tiros, e as descargas, desde São Cristóvão ao Passeio Público.

O imponente préstito seguiu do Paço da Boa Vista pela Rua de São Cristóvão, Mata Porcos, Catumbi, ruas do Conde, Lavradio, Mata-Cavalos (Riachuelo), das Mangueiras e do Passeio Público até a igreja do Convento da Ajuda.

Em todos esses lugares era imensa a multidão do povo.

Às 11 horas da noite chegou o séquito à porta do templo d’Ajuda, ora em demolição. Esperava no adro a Irmandade da Misericórdia. Estava a igreja armada com a maior suntuosidade. Notavam-se três pousos: o primeiro tinha um degrau e seis tocheiros, o segundo dois degraus e dez tocheiros e o terceiro, três degraus e doze tocheiros. Na capela-mor estava preparado o espaldar e dossel para o bispo e quadratura para o Cabido. Retirado do carro o féretro pelos Grandes do Império, foi aquele levado pelos irmãos da Misericórdia até o 1º pouso, onde entoavam cânticos os sacerdotes da Colegiada da Santa Casa; pelo peso do caixão não pôde ser ele levado como de praxe aos dois outros pousos. Junto, pois, ao primeiro ultimaram-se as cerimônias do ritual.

Findas as cerimônias religiosas, o Marquês da Palma descobriu o caixão, dando o pano à Misericórdia. Em seguida, foi o féretro conduzido para o outro pouso junto à grade do coro eram, então, lavrados dois termos da entrega do cadáver, assignados pelos ministros, mordomo-mor, grandes do Império, Corpo Diplomático e pela abadessa do Convento d’Ajuda.

Colocado o cadáver da imperatriz no sarcófago de jacarandá, que servira até 1821 para guardar os restos mortais da rainha Dona Maria Primeira, a 4ª brigada deu mais descargas, alternando com as salvas do parque de artilharia de posição.

A estas se seguiram as salvas das fortalezas.

Era mais de meia noite, quando findaram todas essas cerimônias. “Mas, diz o Diário Fluminense, o que não ousaremos jamais descrever é o sentimento profundo, que se desenhava nos rostos de todos, as sinceras lágrimas tributadas ao merecimento, quando finda a dependência e quando a lisonja servil não abre a porta ao interesse. Este é o prêmio que resta na terra, à virtude, enquanto na eternidade goza tranquila de paz inalterável e de uma glória perenal”. Dom Pedro I regressou do Sul e a 15 de Janeiro de 1827 chegava ao Rio de Janeiro. Recebendo o imperador no Rio Grande a notícia da morte da esposa, escreveu um soneto. Será mesmo da lavra de Dom Pedro?

Eis os versos:

Deus eterno porque me arrebataste
A minha muito amada imperatriz?
Tua divina vontade assim o quis?
Sabe que o meu coração dilaceraste.

Tu de certo contra mim te iraste;
Eu não sei o motivo, nem que fiz,
E c’o aquele direi, que sempre diz
Tu m’a deste, Senhor, tu m’a tiraste!

Ela me amava c’o maior amor,
E eu nela admirava a honestidade:
Sinto. o meu coração quebrar de dor:

O mundo não verá mais n’outra idade
Modelo mais perfeito, nem melhor
D’honra e candura, amor e caridade.

Domingo, 17 de Dezembro de 1911.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Monumento e cortejo fúnebre da Imperatriz Leopoldina no Rio de Janeiro, por Jean Baptiste Debret, via NYPL.

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