Hospício de Jerusalém

Quem, há poucos anos, passasse pela antiga Rua dos Barbonos veria, ao lado ímpar, acanhado Sobradinho de janelas de peitoril, tendo à ilharga pequena Capela dedicada a Santa Anna.

O prédio foi demolido para dar lugar a uma edificação de aspecto moderno.

O modesto santuário, convenientemente restaurado, ainda permanece atraindo a atenção pela elegante obra de talha e por ter o lugar da porta principal ocupado por uma janela gradeada, a qual substituiu os velhos e grossos varões de ferro.

Foi ali o antigo Hospício de Jerusalém, pertencente aos padres da Terra Santa, esmoleres dos Santos Lugares ou do Santo Sepulcro, cuja missão, segundo B. Lisboa, consistia em arrecadar as ofertas e esmolas, com que a piedade dos povos de boa-mente concorresse para a sustentação do culto dos Santos Lugares, em que existem os constantes monumentos dos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, e para a edificação de hospícios, onde se recolhessem os sacerdotes ou leigos.

Desde tempos remotos, gozavam esses religiosos do privilégio de poder perlustrar as Capitanias do Brasil, no intento de cumprir aquela santa missão.

Tinham a prerrogativa de cobrar judicialmente as esmolas, na forma do alvará concedido por D. João V e confirmado por provisão do Desembargo do Paço em 6 de outubro de 1719.

Por provisão de 26 de abril de 1760, foi-lhes concedido juiz privativo na pessoa de um dos corregedores do cível da cidade de Lisboa.

Pelas provisões de 20 de novembro de 1760, 23 de maio de 1766, 11 de maio de 1778 e 13 de março de 1781 foi determinado que todas as câmaras e vilas do ultramar, que tivessem 400$ de renda deviam dar 4$000 anuais para esmolas dos Lugares Santos, e as que tivessem menos de 100$ concorressem apenas com a quota de $400.

Tal era o fervor religioso desses tempos, que, segundo estatísticas vistas por Pinheiro Chagas, até 1796 haviam Portugal e suas colônias contribuído para os Santos Lugares com a quantia de 1.329:328$640.

Essas esmolas consistiam em dinheiro ou gêneros, que eram guardados em trapiches ou armazéns apropriados, antes de serem reduzidos a moeda.

Possuíam os padres bens de raiz e também escravos, ou comprados diretamente ou deixados em testamento.

Disse-nos distinto cavalheiro, antigo morador da Rua dos Barbonos, que os desta cidade possuíam, junto ao Hospício, oficina de ferreiro, cujos operários eram escravos de Jerusalém, e mestre um irmão leigo, que fazia o risco e os desenhos das obras encomendadas.

Aos primeiros padres vindos ao Rio de Janeiro deram hospedagem os religiosos de Santo Antônio.

Chegando, porém, em 1727, o vice-comissário com alguns donatos, não foram recebidos, indo o primeiro para o palácio do bispo e os segundos para a casa do síndico, espécie de tesoureiro, cargo ocupado quase sempre por pessoa de importância social ou negociante rico.

Entre os documentos do Arquivo Público encontramos o aviso de 15 de março de 1727, ordenando se desse todo o auxílio a frei Manuel de Santo Antônio para tirar esmola em benefício dos Santos Lugares. Requerendo ao provincial dos Franciscanos cômodos para si e seus companheiros, obteve o vice-comissário para morada dos esmoleres o dormitório novo, do lado da Rua do Piolho (hoje Carioca), com a condição de, à custa das esmolas, concluírem as obras desse lanço do edifício.

Foi isto aceito com condições que não foram admitidas, refere o Dr. Mello Moraes (pai), pelo definitório reunido em 16 de outubro de 1733.

Replicando, o vice-comissário pediu licença para fazer casas para os esmoleres e arrecadação das esmolas, o que lhe foi concedido em 17 de Dezembro do mesmo ano.

De posse da concessão, deliberou frei Manuel de Santo Antônio levantar Hospício próprio em terrenos de uma Chácara, no Caminho da Ajuda para Nossa Senhora do Desterro, com 31 braças de frente e 66 de fundo, e comprados com o dinheiro das esmolas. Aí deram começo à construção de um pequeno eremitério, sem aparências de convento, com forma de casa secular.

As obras só ficaram terminadas em 1735.

Se a vida dos religiosos da Terra Santa nada apresentou de notável, a não ser as questões com os frades de Santo Antônio, não acontece o mesmo ao histórico dos terrenos, em que edificaram residência.

Todas as escrituras com relação ao assunto foram cuidadosamente copiadas pelo Dr. Mello Moraes (pai) e impressas na Crônica Geral e Minuciosa do Império do Brasil (1879).

Preciosos documentos para a topografia dessa parte da cidade, por eles podemos estudar o verdadeiro sítio da antiga ermida da Ajuda, os rumos dos caminhos do Boqueirão (hoje prolongamento da Rua Chile) e do Desterro, a direção dos antigos arcos da Carioca que passavam na hoje Rua do Passeioos restos da lagoa grande, aterrada por Luiz de Vasconcellos à custa do outeiro das Mangueiras, e a existência da antiga caixa d’água da Carioca, no local em que está hoje o Convento. Ali existiam as chamadas casas de el-rei, armazéns onde eram guardados os materiais dos encanamentos, e onde havia um pequeno destacamento de soldados. Por essas escrituras temos também perfeito conhecimento da crescente valorização dos terrenos da cidade.

Para tal fim tentaremos reunir esses testemunhos que devem merecer toda a confiança por serem firmados por tabeliães.

Os terrenos em questão confinavam, pelo lado do Castelo, com a antiga sesmaria concedida ao sargento-mor Luiz da Motta Leite e que passou a seus herdeiros, entre os quais figuram os antigos donos do Trapiche da Cidade, na hoje Rua do Mercado.

Pertenciam em 1700 a Manuel Velloso Doria e passaram à sua esposa, D. Anna Catharina de Alarcão, por partilha de sentença de divórcio. Falecendo D. Anna, tocou a chácara a seu filho, Antônio da Fonseca Rondon, que a vendeu, por escritura de 5 de abril de 1714, a Antônio Martins Meira, pela quantia de 100$, recebendo à vista 42$ e o restante com pagamento de juros, o que foi satisfeito em 1° de abril de 1716.

Casando, porém, Meira (B. Lisboa erradamente diz Mira) uma filha com Estevam Nunes, deu em dote a referida chácara. Nunes, sujeito extravagante, contraiu dívidas e teve de ver sua propriedade levada à Praça por Manuel da Silva Leitão.

Em juízo apareceu Meira e arrematou o que já havia sido seu pela quantia de 324$000.

De plena propriedade da chácara do Caminho do Desterro, ele e sua mulher, Paula Pinto, venderam-na a Manuel Barbosa Pereira por 350$000.

Em 1730, porém, Barbosa declara que fizera a compra com dinheiro, que lhe dera o vice-comissário da Terra Santa, frei Manuel de Santo Antônio, e por escritura pública tomaram os religiosos posse dessa grande zona de terreno, que chegava até ao canto da atual Rua Barão do Ladário, com fundos para a Rua do Passeio!

Encetadas as obras do Hospício, parece, excederam os padres da Terra Santa os limites da concessão dada pelos Franciscanos. Houve dúvidas entre uns e outros, chegando-se a acordo pela opinião do procurador da Coroa, e assinando em Lisboa os do Santo Sepulcro termo, em que se obrigavam a não alterar as obras das casas, sem capela nem igreja.

Desse acordo fez ciente D. João V ao governador do Rio de Janeiro por intermédio do Conselho Ultramarino (13 de junho de 1735).

Nesse intervalo ficaram as obras embargadas, tendo-se feito nelas vistoria, cujo termo está também na citada obra do Dr. Mello Moraes.

Ignoramos, hoje, o motivo por que depois de tantas questões conseguiram afinal os esmoleres da Terra Santa construir a capela de Santa Anna e obter permissão do bispo Desterro (12 de abril de 1749) para nela poderem ser celebradas missas.

“Com todas essas licenças, – diz o Dr. Mello Moraes (pai), – para celebração dos ofícios divinos, rasgaram parte para a rua, e me disse o venerando e ilustre monsenhor Narciso Nepomuceno, de saudosa memória, que, tendo o vigário de São José ciência de que se ia celebrar missa e festa, se dispôs a ir de cruz alçada e cantando a ladainha, tomar conta da capela, como filial à matriz; mas sendo avisados os esmoleres, mesmo de noite, mandaram fechar a porta de entrada do templo, com grades de madeira, com largas aberturas, de modo que quando pela manhã o vigário apareceu com sua procissão, teve de retroceder, por não poder entrar no interior da igreja, visto se achar impedida a porta principal. Mais tarde foi substituída a grade de madeira pela de ferro, que ainda existe.”

Não pomos em dúvida o fato, que tem sido copiado por todos quantos têm seguido a narração do ilustre historiógrafo.

Mas, cumpre advertir, se houve logrado, não foi de certo o vigário de São José. Em 1749 ainda não estava instituída canonicamente esta freguesia, cujo primeiro pároco, o padre Antônio José Malheiros Reynão, sobrinho do bispo, só tomou posse em 31 de janeiro de 1751.

Em 1896 visitamos, em companhia do então intendente Júlio do Carmo, o antigo Hospício de Jerusalém.

Lá vimos a varanda, de onde, segundo é fama, ia todas as tardes o vice-rei Luiz de Vasconcellos, em companhia do mestre Valentim e de outras pessoas, ver o efeito do ajardinamento do Passeio Público.

Essas reuniões quotidianas motivaram as sátiras de um crioulo capadócio – o poeta siri – cantador de modinhas e que fazia versos de pé quebrado!

Falta-nos espaço para mencionar as subdivisões, por vendas sucessivas, da antiga chácara da Terra Santa.

Segundo me informam, os religiosos venderam em 1881 a um particular e por 36:000$, o Hospício, a Capela e duas casinhas. Conforme dizem, essa venda foi anulada, reavendo os padres o que era deles.

Esses religiosos residiram por algum tempo em Petrópolis, e agora vivem em Cascadura.

No Hospício de Jerusalém estiveram por algum tempo hospedados os religiosos, que da Bahia vieram inaugurar o Convento da Ajuda desta Cidade.

No tempo do rei D. João VI, segundo refere o padre Luiz Gonçalves dos Santos, residiu ali o esmoler-mor.

Na capelinha de Santa Anna foram sepultados vários benfeitores. Dentre eles destacaremos o notável Paulista conselheiro José Ricardo da Costa Aguiar de Andrada, cujos restos mortais estiveram ali guardados em uma urna de mármore branco.

Aguiar, sobrinho de José Bonifácio, era formado em leis pela Universidade de Coimbra e ocupou todos os cargos na magistratura até o de ministro do Supremo Tribunal.

Deixou importantes manuscritos sobre a história do Pará, onde por muitos anos ocupou os cargos de juiz de fora e ouvidor geral.

Notável por sua erudição, pois até conhecia as línguas orientais, empreendeu uma peregrinação à Palestina. Lá esteve durante 19 meses.

Membro do Instituto Histórico, era também cavaleiro professo da Ordem do Santo Sepulcro.

Falecendo nesta cidade, foi seu cadáver carregado pelos frades de Jerusalém, os quais, segundo Sigaud (Annuario do Brasil, 1846), iam, “como os Gregos acompanhando o corpo de Byron, ou como os Polacos espargindo terras da Polônia sobre os restos de Delavigne, murmurar suas saudades de gratidão sobre o corpo do viajante da Terra Santa”.

18 de janeiro de 1903.

Nota

  • O Comissariado de Cascadura foi entregue aos franciscanos holandeses de Minas por determinação da Comissão Geral da Terra Santa no Brasil. Este é o legítimo sucessor do antigo hospício do Rio de Janeiro, fundado na rua Barbônios, hoje Evaristo da Veiga, altura do nº 65 – 67. História do Comissariado da Terra Santa.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

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