Ilha das Cobras

Para suceder a Aires de Saldanha e Albuquerque, foi Luiz Vahia Monteiro nomeado, em 24 de novembro de 1724, e, em 10 de maio do ano seguinte, tomava posse da governação da Capitania do Rio de Janeiro.

Militar de merecimento, enérgico, disciplinador, atrabiliário às vezes, pouco adstrito às conveniências sociais e, mais que tudo, à preponderância dos potentados do tempo, entre os quais sobressaíam os membros das diversas ordens religiosas, intentou desde logo o novo governador pôr paradeiro a inveterados abusos introduzidos na pública administração.

Um de seus primeiros cuidados foi tratar, segundo as determinações régias, de adiantar as fortificações da ilha das Cobras. Para tal fim teve, desde logo, de lutar com a má vontade dos Beneditinos, os quais não tardaram em a patentear.

A arribada ao porto do Rio de Janeiro de dois navios holandeses foi a origem dos conflitos, em que a Metrópole – ora dava razão ao governador, ora justificava o procedimento dos religiosos que, em Lisboa, por intermédio de procuradores, tinham excelentes advogados.

Trancados os portos do Brasil ao comércio das nações estrangeiras, não permitia o Governo português, de modo algum, relações mercantis, senão com as praças da Metrópole.

Ilha das Cobras, vendo-se ao centro no páteo interno, o Batalhão Naval em exercício, por Jorge Kfuri (1893-1965 ), via Biblioteca Nacional

Se por qualquer motivo, em busca de socorros, demandava às nossas praias alguma embarcação, não lhe eram negados recursos para se refazerem, consertar avarias, receber aguada ou mantimentos, é verdade; mas tudo isso era concedido, exigidas certas condições e postas em prática formalidades completamente vexatórias, as quais, cumpre confessar, não obstavam de maneira alguma o contrabando, que era feito, por modo escandaloso, em detrimento das rendas aduaneiras.

Fazia-se vistoria no navio, a ela assistiam diversas autoridades, lavravam-se diversos autos da carga e das declarações dos comandantes. Sentinelas eram colocadas a bordo, e os marinheiros, bem como os chefes e capitães, só podiam vir à terra escoltados.

O governador, sempre em atividade, tinha em vista obstar por todos os modos o desembarque clandestino de mercadorias, que, segundo ele, era feito nos termos adjacentes ao morro de São Bento. Pouco tempo depois de haver tomado conta do governo, chegavam ao Rio de Janeiro os navios holandeses D. Carlos e Mercúrio. Para fugir às exigências, alguns marinheiros e um cirurgião abalaram para terra e procuraram abrigo nos claustros de São Bento.

Luiz Vahia reclamou dos religiosos a entrega dos infratores, alegando que as imunidades de refúgio no interior dos templos e conventos só eram permitidas em casos de crime de morte. Ora, os marinheiros holandeses não estavam compreendidos nessa hipótese e deviam ser imediatamente entregues à justiça secular.

A resposta do d. abade não foi conveniente e, segundo consta, o governador pretendeu invadir o Mosteiro e dele tirar à viva força os refugiados. Os religiosos cederam, e foram mais tarde censurados pelo Governo em virtude da queixa enviada a Lisboa por Vahia, que, em muitos pontos de sua correspondência, nunca se cansava de clamar contra as intrigas e questões de frades, as quais lhe tiravam o sono, tantas e tão continuadas eram elas.

Deste fato se originou o motivo por que Vahia ressentido procurou sempre demonstrar não terem os Beneditinos direito algum à ilha das Cobras, chegando até ao ponto de os considerar falsificadores de documentos.

Em carta de 27 de julho de 1726 (documento do Arquivo Municipal), enviando o mapa da situação da cidade e das fortificações que deviam ser construídas, com referência à ilha das Cobras, diz o seguinte:

“Esta ilha é tão pequena como se vê no mapa, e toda de penha firme, coroada de terra; e em muitas partes é a penha por natureza inacessível, e em todas se pode fazer do mesmo modo, cortando a penha, cuja obra fiz na Puebla de Cinabria, com felicidade e em breve tempo, e neste terra se conseguirá facilmente, se Vossa Majestade mandar proibir todas as pedreiras, donde se tira pedra para o fabrico de muitos edifícios; e não será necessário muito rigor, tanto que Vossa Majestade desenganar os Monges de São Bento, que não têm nada na dita ilha, porque com seu temor deixam de ir muitos.
Depois que principiei a experiência, que prometia a Vossa Majestade, para a qual me vali do capitão Domingos Francisco de Araújo, sabendo que tinha arrematado um dormitório dos frades do Carmo, e porque tinha uma grande fábrica de negros cavouqueiros, que se ocupavam na fortaleza da Lage, para que ali tirassem pedra para a dita obra, facilitando aos mais cavouqueiros este caminho, o que com efeito fez, zeloso de se empregar no serviço de Vossa Majestade, tem mostrado com evidência a facilidade da obra, tendo já inacessível um pedaço de penha e muitos em termos de se aperfeiçoar brevemente.”

Contra tal procedimento, aliás aprovado pelo Governo, representaram os Beneditinos em carta dirigida ao rei, a 26 de fevereiro de 1726, respondida pelo Conselho Ultramarino, em 18 de Setembro de 1726.

Nessa ocasião, os monges levaram a melhor, porquanto a Metrópole declarou, terminantemente, que eles recorressem ao governador, a quem se ordenava mandasse pagar ao Mosteiro toda a pedra que se liquidasse e achasse dever o referido Domingos Francisco.

A essa resolução fez ouvidos de mercador Vahia Monteiro. Não foi ela cumprida, apesar de reiterada pela ordem de 20 de março de 1728, dirigida ao ouvidor Manuel da Costa Mimoso, ordem que, – segundo Balthazar Lisboa, – foi registada no cartório da Ouvidoria, da qual era escrivão Domingos Rodrigues Távora. Acrescenta, porém, o autor dos Anais do Rio de Janeiro: “de tudo se abusou, porquanto ainda depois de concluída a fortaleza segundo a direção de José da Silva Paes, os que o sucederam prosseguiram em desprezo da propriedade do Mosteiro e contravenção das reais ordens no usufruto e possessão da ilha, espoliado o Mosteiro de toda sua propriedade”. Nesse tempo, – confessa Garcez Palha, – decidiu o Governo opor-se a toda e qualquer pretensão, que sobre o domínio da ilha manifestasse a Ordem de São Bento.

Em bem do serviço público não cessava o governador de reclamar da Metrópole ordens terminantes para que os monges fechassem a cerca do convento, por onde, à noite, se fazia contrabando. Por provisão de 3 de maio de 1726, o rei escrevia ao abade fizesse cessar tais escândalos, e que o governador tivesse todo o cuidado em ser tal ordem executada.

Por muitas vezes instara Vahia Monteiro pela necessidade de ser murada a Chácara do Mosteiro. O Governo dava razão ao seu representante, mas por sugestões dos religiosos cedia, atendendo às grandes despesas alegadas com a construção dos referidos muros. Tudo isso consta da correspondência dos governadores e daria margem a muitas considerações, das quais se infere pouca energia e tolerância das supremas autoridades do Reino.

Entre os muitos incidentes, que se prendem ao assunto destas notas ou apontamentos, destacaremos, a título de curiosidade, o conflito travado entre Vahia Monteiro e os frades de São Bento, a propósito de um cavalo.

Possuía o governador um bucéfalo de estimação, o qual, por ordem de seu dono, foi mandado pastar em terras da ilha, fora das fortificações.

Para fazer companhia a esse animal o Mosteiro enviou outro cavalo, que viera a bordo de um navio chegado de Angola. A fim de desgostar o governador e obstar às passeatas dos dois rocinantes mandaram os religiosos levantar, a toda pressa, um grande curral. Sabendo disso e exacerbado por tal desfeita, o irascível sucessor de Aires de Saldanha mandou por soldados destruir o cercado.

Como era de esperar, Luiz Vahia queixou-se amargamente ao rei, e, em 12 de Setembro de 1727, à vista de informações daqui remetidas, era expedida provisão ordenando que de modo algum o governador consentisse na construção de currais, que pretendiam os monges estabelecer na ilha das Cobras, e que se exigisse deles a apresentação dos títulos que comprovassem a posse da referida ilha.

Ainda em 20 de setembro do ano seguinte, recomendava a Metrópole não se intrometessem os religiosos em negócios de parcialidades, fechassem os muros de seu convento e apresentassem títulos de propriedade.

Nesta ocasião aproveitou-se Vahia para dizer dos frades cobras e lagartos, chegando, como vimos, a indicar que os documentos apresentados não podiam merecer fé pública porque, além de carecerem dos requisitos legais, a compra da ilha não tinha sido autorizada de acordo com a legislação referente às corporações de mão morta – a confirmação régia.

Os religiosos não se deram por vencidos, e tais medidas tomaram, que obtiveram a provisão de 3 de março de 1729. Nela D. João V faz saber a Luiz Vahia, que viu a carta de 23 de julho de 1728 e os documentos apresentados pelos monges – “aos quais não deveis impedir o cobrarem de seus colonos a renda da ilha das Cobras, que são obrigados a pagar-lhes, nem também impedir-lhes o uso e posse da mesma ilha, que lhes pertence e de que justamente não podem ser privados, mas somente naquela parte que for preciso para que a mesma ilha se reduza à perfeita defensa”.

Surpreso, calou-se Luiz Vahia Monteiro e não tardou muito em aproveitar-se de ocasião azada para tirar desforra dos monges de São Bento. Queremos falar da ordem dada pelo governador ao abade frei Matheus da Encarnação Pinna e a frei Paschoal de Santo-Estevão, para saírem da cidade.

Esse extermínio na distância de 80 léguas, – como lhe chama Balthazar Lisboa, – não foi bem estudado pelo notável historiógrafo e teve por motivo circunstâncias que se ligam à história do Convento de Santo Antônio. Citá-las agora nos levaria muito longe.

Fica o assunto adiado para a próxima semana.

21 de julho de 1903.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Ilha das Cobras com o Navio Escola Sagres ancorado.

Mapa