Incêndio da Câmara

(20 de Julho de 1790)

Há cento e doze anos, na madrugada do dia de hoje, violento incêndio reduziu a cinzas o prédio, onde provisoriamente funcionava o Senado da Câmara, nas casas chamadas dos Telles, na praça hoje Quinze de Novembro.

As chamas consumiram o precioso arquivo da cidade, sendo salvos apenas alguns poucos livros e documentos.

Observando o quadro do fogo do Parto, conservado na igreja desta invocação, devia ser muito deficiente, naqueles tempos, o serviço de extinção de incêndios: consistia em umas bombas de espirro e nas carroças dos aguadeiros. Água havia-a, em profusão, no próximo chafariz transferido do meio da praça para a borda do mar, por Luiz de Vasconcellos, e nas torneiras de bronze colocadas ao longo do muro do cais.

Hoje, temos um corpo de bombeiros magnificamente organizado, e quase nunca existe água nos encanamentos! Somos, enfim, tal qual o ferreiro da maldição: quando tinha ferro faltava-lhe o carvão, se tinha carvão faltava-lhe o ferro.

Melhor do que nós descreve a terrível catástrofe o auto lavrado e assinado pelo juiz de fora Dr. Balthazar da Silva Lisboa e mais oficiais do Senado da Câmara, Francisco Pinheiro Guimarães, José Marianno de Azevedo Coutinho, o procurador Manuel de Sousa Meirelles e o escrivão Antônio Martins Pinto de Britto. Desse documento consta: “que sendo na madrugada de vinte de julho, pelas duas horas, fora inteiramente incendiada, e reduzida a cinza, a casa do Dr. juiz de órfãos, Francisco Telles Barreto de Meneses, a qual servia de Paços do Conselho, pelo fogo rapidamente ateado na loja, onde morava Francisco Xavier, por antonomásia – o c… negócios – sendo tão veemente que, apesar das eficazes e prontas diligências do Exmo. Sr. vice-rei do Estado com assistência de sua pessoa, jamais se pôde atalhar, antes ficaram reduzidos a cinza os móveis e todos os bens pertencentes ao Conselho, com a irreparável perda de seu precioso arquivo, restando apenas alguns livros e autos, que eu escrivão declarei pararem em o meu cartório, e uns fragmentos meios queimados pertencentes à Dedução Cronológica jesuítica, que se achavam no mesmo arquivo, em um cofre de três chaves, na forma da Ordem de Sua Majestade, sendo o mesmo cofre consumido pelo mesmo fogo, aparecendo somente a fechadura e juntamente sete pesos entre grandes e pequenos, duas balanças com três conchas, e nove medidas, tudo quebrado e danificado”.

Não nos aproveitou essa terrível lição, e ainda hoje o Arquivo Público e a Biblioteca Nacional estão em prédios cercados de habitações particulares e casas de negócio e, portanto, sujeitos à mesma sorte do arquivo da Câmara, cuja perda irreparável é origem das muitas e muitas dificuldades, com que luta a nossa Municipalidade para sustentação de seus direitos patrimoniais!

Segundo é fama, Francisco Xavier, por avareza, não quis salvar-se, sendo vítima do incêndio, bem como um menino, naturalmente seu caixeiro. Restaram, porém, de tanto estrago o pano do estandarte da Câmara, o qual estava em casa do procurador, afim de se regular o conserto de outro mais antigo, e a imagem do padroeiro São Sebastião, que servira na procissão, e que se achava na residência de Antônio José Castrioto, para onde fora a encarnar para o dia da solenidade. A Câmara em vereação de 24 de Julho tomou todas as providências com referência ao fatal acontecimento, solicitando permissão do conde de Resende para copiar das secretarias todos os documentos de que houvesse mister.

Não citaremos a lista dos livros que estavam fora da Câmara; consta ela da página 176 do trabalho de Haddock LoboTombo das Terras Municipais. Conquanto em pequeno número, esses velhos códices têm grande valor, e serviram de muito na publicação dos quatro volumes do Archivo Municipal, importantíssima revista, impressa de 1894 a 1897, sob a direção do ilustrado Dr. Mello Moraes filho, competente chefe da respectiva repartição. O Archivo Municipal, por motivo de economia, foi suspenso, e isto quando a nossa Municipalidade tem gasto grandes somas de dinheiro em verdadeiras coisas de nonada.

Os livros acima mencionados figuraram em uma exposição organizada há anos pelo Dr. Pires de Almeida, que escreveu bem elaborada memória acerca da completa organização do arquivo desta importantíssima capital.

Tais documentos nunca devem sair da repartição e andar por mãos particulares, para que a todo tempo, salvos desse tremendo sinistro possam ser consultados pelos futuros historiógrafos. Seria medida patriótica, se o atual Sr. Dr. Prefeito mandasse examinar a ver se do inventário feito em 1790 existem, hoje, faltas de um ou mais desses antigos livros. Cremos, piamente, que eles lá devem existir em número de 48, segundo reza o inventário supra mencionado.

Em apontamentos anteriores já dissemos o motivo por que a Casa do Conselho estava em 1790 nas chamadas casas dos Telles, em cuja família era privativa a vara de juiz de órfãos. Não nos propomos aqui fazer a história da criação desse juízo, que já existia nesta cidade em 1609, como verificou Duarte Nunes no inventário de Antônio de Leão e sua mulher Maria das Candeias, sendo juiz Luiz Cabral de Távora. Hoje sabemos ter sido 1º juiz Manuel Freire e 2º Aires Fernandes (1568).

Em 1790, era juiz dos órfãos Francisco Telles Barreto de Meneses, que foi mais tarde substituído pelo Dr. Antônio Telles de Meneses, obtendo este confirmação dessa mercê, em 1797. Depois da Independência e com a nova organização judiciária cessou este antigo privilégio. O primeiro membro dessa família que o obteve foi o capitão de infantaria Diogo Telles de Meneses, em remuneração de importantes serviços prestados á metrópole, passando desse tempo em diante (1639) de pais a filhos.

A princípio usavam os Telles de vara vermelha, mas depois foi-lhes concedido o uso de vara branca. Essa vara era a insígnia ou distintivo, que os juízes e oficiais traziam, em sinal de jurisdição, para que de todos fossem conhecidos. O alvará de 30 de junho de 1632 e o decreto de 14 de Março de 1665 ordenavam que os juízes deviam trazer as referidas varas ao alto, quando andassem a cavalo, não devendo ser delgadas. Aos juízes leigos era concedida a vara vermelha, e aos letrados a vara branca. Não lhes era permitido fazê-las de rota ou de outra coisa semelhante, salvo de pau, da grossura costumada. Não as podiam trazer abatidas, mas sempre direitas na mão, levantadas em proporção do corpo. Não obstante ser proibida a rota ou junto de atar, como a chibata, no Brasil, diz Cândido Mendes. Os juízes usavam uma meia lua de vime envolvida em pano de seda branca ou vermelha, senão pintada dessas cores, pregada na aba direita da casaca. O decreto n. 1.326 de 10 de Fevereiro de 1854 determinou o vestuário dos diferentes juízes, modificado nestes últimos tempos. Todavia o alvará de 11 de Novembro de 1833 exigia dos juízes de órfãos dignidade e decência no trajar, de acordo com a gravidade dessa alta função, cujos requisitos fazem parte do livro I das Ordenações – Título LXV.

Mas, como se arranjaram os Telles para passar a vara branca de juiz de órfãos de pais a filhos? Casando-se, quer quisessem, quer não.

A lei era casamenteira, e os sujeitos nomeados para juízes e escrivães tinham um ano para se poderem ligar pelos doces laços do himeneu, e se o não fizessem perdiam o emprego. Demais, as nomeações deviam recair em indivíduos maiores de 25 anos, que quisessem servir empregos ou ofícios de justiça, fazenda e governança de cidades, vilas e lugares.

Essa salutar exigência, diz Pizarro, foi caindo em desuso em sujeitos de estado livre que muitas vezes esquecidos de seus deveres principais, podem facilmente prostituir os empregos, que ocupam, obsequiando as suas paixões menos acordadas, cujos precedentes insensatos trazem consigo o escândalo e a ruína pública! De sorte que, para o ilustrado escritor, só os casados são isentos de tais paixões? Que lhe respondam as crônicas dos tempos coloniais; será a melhor desforra, que os solteirões, como o humilde signatário destas notas, podem tirar das expressões do autor das Memórias Históricas do Rio de Janeiro.

Que os Telles, fazendeiros em Jacarepaguá, foram homens de importância, de fortuna e de serviços temos sobejas provas em muitos documentos. Um deles, Luiz Telles Barreto, comprou ao general Salvador Benevides a grande casa da Rua Primeiro de Março, esquina da Rua da Alfândega, lado ímpar, residência do mesmo Benevides, e por isto a Rua da Alfândega foi conhecida pelo nome de Rua do Governador.

Esse prédio passou a Antônio Telles Barreto, e mais tarde a Manuel Pimenta Telles, com o ônus de 8$ anuais para o culto de Nossa Senhora da Carioca, conforme o testamento de Martin de Sá, pai de Salvador. Estava situado no lugar chamado – Quitanda velha.

Foram os Telles padroeiros e grandes protetores do Convento dos Franciscanos desta cidade, como consta do carneiro, ainda existente na capela do atual Asilo de Inválidos da Pátria na qual foi inumado em 28 de Abril de 1757 Antônio Telles de Meneses, e mandado construir por seu filho Francisco Telles Barreto de Meneses.

O estabelecimento do Asilo está no antigo Convento Franciscano, na ilha da Coqueirada, também chamada do Bom Jesus ou dos Frades, célebre, além de outros muitos fatos, pelo cruel assassinato de Antônio Gomes Liberal, de cujos assassinos, três se mataram na prisão e só um subiu ao patíbulo no largo do Moura.

Por escritura de 12 de Março de 1704, doou aos Franciscanos a referida ilha D. Ignez de Andrade, viúva do capitão Francisco Telles Barreto de Meneses, o qual a comprara a Antônio Coelho Cam, situada fronteira à ponta de pedra de Inhaúma, vizinha de outra (ilha) que fica da banda desta Cidade, Chamada de Domingos Manuel, que hoje é dos filhos de João Ferreira e Polônia (sic) Rodrigues, conforme reza a escritura lavrada pelo tabelião Manuel Rodrigues de Moraes.

Este documento e os seguintes estão copiados no livro do tombo do Convento de Santo Antônio.

Mais tarde D. Ignez, em 28 de Maio de 1715, revogou, em parte, a doação, legando a seu neto Dr. Antônio Telles de Meneses a porção da ilha não aproveitada pelos religiosos. O Dr. Antônio Telles doou-a de novo, mas os religiosos, que só precisavam do terreno, onde haviam edificado o hospício, desistiram da doação, em 14 de Novembro de 1719, em favor de Telles. Este declarou-se padroeiro do convento, dando de esmola anualmente 60$. Para muitos misteres tem servido o pequeno

Hospício do Bom Jesus, e a quem quiser conhecê-los basta ler a recente e importante publicação de Agenor Noronha – Guia do Distrito Federal, ou a memória do cônego Manuel da Costa Honorato, ou dirigir-se ao Sr. Barão da Taquara, descendente por linha materna dos Telles de Meneses, ou ainda subir a ladeira de Santo Antônio e procurar o digno prelado dos Franciscanos, o ilustre carioca D. frei João do Amor Divino Costa, que ainda há dias comemorou o seu jubileu sacerdotal com o digno vigário da Lagoa, monsenhor Monte.

Das casas dos Telles proveio o nome de Arco do Telles dado antigamente à hoje travessa do Comércio, no ponto onde teve tenda de trabalho o Ferreiro da Polé, o qual andou em luta com a Câmara, por não querer pagar foro. Não há muitos anos era o Arco do Telles lugar imundo e asqueroso – por ali não se podia passar sem precauções. Hoje está muito melhorado e não serve mais de asilo a mendigos e vagabundos.

Era o Arco o gabinete predileto do Filósofo do CaisGeneral Bonaparte e outros tipos da rua.

Em 1769, segundo o mapa de Roscio, já existia essa travessa.

Muito antes (1730) da edificação da Igreja dos Mercadores, era a travessa conhecida por Beco da Praia do Peixe Nova e, segundo parece, não tinha comunicação com a Rua da Cruz (Ouvidor). Infere-se isto de escrituras da Misericórdia, Ordem do Carmo, Lapa e São Bento.

Tal assunto nos levaria muito longe e é tempo de terminar.

22 de Julho de 1902.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Arco do Telles na Praça XV de Novembro.

Mapa – Arco do Telles na Praça XV de Novembro