Jardim Botânico do Rio de Janeiro

No círculo de montanhas, que separado da Baía de Guanabara pelo contraforte do Corcovado, formando a ponta extrema da Copacabana, se estende até os Dois Irmãos, vem se abrir um vale, o mais pitoresco daquelas cercanias. Um regato travesso, descendo do maciço da Tijuca, desperta os ecos com a sua garrulice e conserva a vegetação o viço e a frescura. Uma lagoa, ora comunicando com o mar, ora fechada pelas areias, como as suas irmãs da costa, vem completar o quadro.

Foi ali que, seduzido pela beleza do lugar, apesar do pouco amor instintivo às graças da natureza herdado da raça, Rodrigo de Freitas plantou uma fazenda, que pôs sob a proteção e padroado de Nossa Senhora, para a qual construiu uma capela sob a invocação de Nossa Senhora da Lagoa.

Jardim Botânico do Rio de Janeiro – P. G. Bertichem – 1856

Depois de vicissitudes diversas, o oratório servia de depósito para uma fábrica de pólvora estabelecida por D. João VI, quando lhe ocorreu a falta de um horto, que servisse à aclimação das riquezas vegetais, de que ainda carecia o Brasil.

Foram escolhidos esses terrenos; e, mais tarde, constituíram o nosso atual Jardim Botânico.

Apesar da interrupção causada pelos acontecimentos, que precederam e acompanharam a Independência, os princípios do Jardim Botânico foram úteis e gloriosos. Para consagrá-lo para assim dizer, D. João VI, que o visitava seguidamente, quis nele plantar uma palmeira, recentemente introduzida das Antilhas, com suas próprias mãos reais. E o Jardim ainda conserva, como relíquia histórica, a alterosa palmeira, mãe daquelas todas que hoje pululam no Brasil, e que bem merece, pela sua altura e porte, os nomes de Glória da Montanha (Oreodoxa) e de Palmeira Real, que lhe deram os naturalistas e os colonos que a descobriram, nome este que a cortesanice aplicara a D. João e mudara mais tarde em Imperial, em honra aos nossos monarcas.

Numerosos foram os serviços ali prestados, menos platônicos do que esse. Em meados deste século achamos no Jardim uma verdadeira colônia chinesa, cultivando e preparando um chá de excelente qualidade com as plantas, que importaram; é esse mesmo chá, apreciado e procurado pelo consumo local, e adotado pelo comércio.

Mirabile dictu!

Depois, seguiu-se um período de decadência. O Jardim, restituído à independência da mata, mas ai! sem virgindade, era principalmente célebre pelos gostosos piqueniques, que proporcionava.

A atual direção moralizou-o e sujeitou-o de novo à cultura. Os esforços feitos foram grandes, e o seu efeito visível. Por infelicidade o solo, esterilizado, não alimenta mais a magnífica vegetação de outrora. Os velhos troncos estão quase todos despojados da sua frondosa copa.

Chafariz das Musas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Em compensação, rica e viçosa coleção de palmeiras, senão única no mundo, pelo menos das mais completas, revela as simpatias justificadas do botânico, cujo nome é autoridade na matéria.

Sejam-nos, entretanto, permitidas umas ligeiras observações. A tendência atual da cultura, na parte franqueada ao público, de jardim florista, discorda, não tanto com as tradições, o que seria o menos, como mais ainda com o caráter de beleza que se pode esperar do logar. A nudez inevitável desses vastos espaços, mal semeados de moitas de plantas baixas, perdidas na sua chata imensidade e esmagadas pela grácil enormidade das Oreodoxas, dá, involuntariamente, a impressão do inacabado e do provisório, sobretudo com os batalhões de chapas brancas que, em muitos lugares, substituem mal as flores ausentes.

Parecia-nos que essa preciosa joia da coroa da nossa Capital devia dar, antes de tudo, uma ideia da nossa exuberante vegetação nacional, deixando as coleções de plantas, importadas ou não, muito preciosas para o estudo, insignificantes porém, na sua maioria, para uma horta especial, onde, colocadas por ordens e famílias, se prestariam melhor ao exame dos numerosos estudantes das nossas escolas superiores, que as ignoram hoje.

Tal é o desideratum do nosso Jardim Botânico, conhecido no mundo inteiro, e mais apreciado outrora, apesar, ou antes, por causa da sua inculta desordem, que tinha o grande mérito de lembrar, se bem que de longe, as nossas matas admiráveis.

Tal é a direção que ousamos propor imprimir às suas culturas, certos de sermos aprovados pelos verdadeiros amigos da Arte.

Note-se que, levados pelo assunto, não demos a projetada descrição do jardim.

Mas quem é que com frias palavras, pode pintar essa paisagem, que mal poderia descrever o pincel de um Corot?

Declaramo-nos impotentes para dar ideia das belezas que o público pode visitar, e mais ainda do que lhe é proibido ver: as margens incultas do regato.

Só podemos dar um conselho, que não se arrependerão de ter seguido: ide e vede.

Mas é bom escolher o dia; porque, por uma exceção um tanto incompreensível, em vez de abrir todos os dias as suas portas ao público, como os seus congêneres do resto do mundo, o nosso Jardim Botânico, mais aristocrata, recolhe-se à solidão duas vezes por semana. – Germano Vert.

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Thomas Ender – Fábrica de pólvora no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, vendo-se a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Capela de Nossa Senhora da Conceição.

Pondo-se em contribuição os trabalhos do infatigável investigador das coisas pátrias, o finado Dr. Mello Moraes, e os documentos antigos, existentes no arquivo da nossa Municipalidade, dados à imprensa pelo não menos ilustrado Dr. Mello Moraes Filho, Herculano dessa pequena Torre do Tombo, que maior seria se não fosse o incêndio de 23 de Julho de 1790, nos primeiros tempos de vice-reinado do conde de Resende; tendo-se, finalmente, em vista os antigos mapas desta cidade e suas circunvizinhanças, resulta que as cercanias da hoje Lagoa de Rodrigo de Freitas foram povoadas desde os fins do século XVI, e aí se estabeleceram vários engenhos: entre eles o da lagoa de Sacopenapan ou de Diogo de Amorim Soares ou de Sebastião Fagundes Varella ou de Rodrigo de Freitas Mello e Castro. Esse estabelecimento rural, conhecido por Engenho de Nossa Senhora da Conceição, abrangia uma grande área de terreno, na qual estava compreendido o lugar do atual Jardim Botânico.

Da compilação de leis, decretos, regulamentos sobre as sesmarias municipais, organizada pelo velho Navarro de Andrade, resulta o seguinte:

“Tendo a Ilma. Câmara Municipal, por ofício numero 944, de 12 de Novembro de 1884, reclamado do Ministério da Fazenda sobre o aforamento dos terrenos que marginam a Lagoa de Rodrigo de Freitas, recebeu a corporação em resposta à portaria de 24 de Janeiro de 1885, pela qual se vê que o Governo havia comprado à Câmara por cincoenta apólices o domínio direto desses terrenos, que em virtude do decreto de 13 de Janeiro de 1808 foram incorporados, quanto ao domínio útil, aos próprios nacionais para ali se erigir uma fábrica de pólvora e outra de fundição e torneação de peças de artilharia”.

Segundo o testemunho de alguns escritores foi também ali fundado um horto botânico; de sorte que ao príncipe regente D. João se deve o princípio do atual Jardim Botânico, tão conhecido por nacionais e tão visitado por viajantes estrangeiros, entre os quais se contam sábios conhecidos do mundo inteiro, que não cessam de tecer encômios a esse belo Horto, cujos diretores como o atual, o meu amigo João Barbosa Rodrigues, têm continuado as belas tradições de seus antecessores: entre eles se destaca o venerando nome de frei Leandro do Sacramento, falecido em 19 de Julho de 1829, e pertencente à Ordem Carmelita.

Não há quem não conheça a magnífica aleia de palmeiras plantadas por Bernardo José de Serpa Brandão, conforme nos afirma o Sr. Dr. Moreira de Azevedo. Segundo é fama, entre elas uma existe, cujas sementes foram lançadas pelo príncipe regente. Segundo li algures cultivou-se no Horto Botânico, com grande vantagem, o chá da Índia, prática que muito mais tarde foi seguida de brilhantes resultados pelo visconde de Sepetiba em sua fazenda de Paquequer, a qual depois veio a pertencer ao conhecido clínico de Niterói Dr. Frougeth, falecido há poucos anos.

Não temos em mente, por não comportar o espaço, dar notícia circunstanciada da história moderna do Jardim Botânico; outros mais habilitados a farão com mais utilidade.

Fulminado por um ataque de apoplexia cerebral, faleceu em uma das ruas do Jardim Botânico, em 1830, o tão citado monsenhor Pizarro (José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo). Tendo ido passear ao Jardim Botânico, depois de ter jantado comeu a fruta carambola; isso perturbou-lhe a digestão. – Monsenhor Pizarro é autor das Memórias Históricas do Rio de Janeiro e das províncias anexas à Jurisdição do vice-rei do Estado do Brasil: esta obra não obstante a crítica do visconde de Porto Seguro, tem grande merecimento, pois apesar de muitos erros é o manancial onde vão beber notícias e informações todos aqueles que desejam estudar o passado desta Capital Federal. Essas Memórias constituem hoje um trabalho raro e seria conveniente fazer-se delas uma nova edição correta e aumentada.

Para essa tentativa não faltam entre nós pessoas que com vantagem poderiam pô-la em obra. Basta citar Capistrano de Abreu, Felix Ferreira, Mello Moraes, Pires de Almeida, Moreira de Azevedo, Homem de Mello, Augusto de Carvalho, Cesar, Marques, Teixeira de Mello, Ramiz Galvão e tantos outros.

5 de Outubro de 1896.

Texto original

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

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Jardim Botânico do Rio de Janeiro