Jardim da Praça da República

Este magnífico parque, tão mal apreciado pela nossa população, que lhe prefere a Rua do Ouvidor, é, como se sabe, devido à iniciativa do ex-ministro do império e conselheiro João Alfredo, e foi inaugurado em 1873. A área ocupada em sua grande parte por esse imenso horto, e que, segundo o Dr. Pimentel, tem 630 metros de comprimento e 341 de largura, é desmembramento do antigo Campo da Cidade[1], Campo de São Domingos, Campo de Santa Ana, Campo da Honra, Campo da Aclamação, hoje Praça da República.

Nos primeiros tempos da cidade a zona, que se estendia da rua hoje de Uruguaiana (antiga da Vala e antes de Pedro da Costa) para o interior, era vagamente conhecida, como se vê de documentos antigos, por sertão. Na direção da Rua da Alfândega (antiga do Governador), existia um sinuoso trilho – o caminho de Capueruçú, o qual se dirigia a buscar a lagoa da Sentinela e ia ter às propriedades dos Jesuítas, sitas no Engenho Velho, que faziam parte da grande sesmaria por eles obtida em 1567 de Estácio de Sá, e anterior à da Câmara Municipal. Nas questões havidas entre essa corporação e o governador Luiz Vahia Monteiro sobre o muro da cidade já essa superfície do terreno era conhecida por Campo da Cidade; isso se vê pela descrição de viajantes que estiveram no Rio de Janeiro nos princípios do século XVII, tais como os citados pelo barão do Rio Branco, e conforme consta das memórias de Duguay Trouin.

Campo da Acclamação – 1880, de Marc Ferrez, 1843-1923, via Biblioteca Nacional

Fundando-se a igreja de São Domingos, teve o nome desse santo o campo, de que nos ocupamos, e tanto era assim que no arquivo da Ordem do Carmo se conservam os documentos de uma grande chácara denominada do Campo de São Domingos, que se estendia do caminho de Fernão Gomes (hoje Rua do Senhor dos Passos) à Rua do Conde, sendo suas faces laterais por um dos lados a hoje Rua de São Jorge, e pela face oriental a praça hoje da República. Essa chácara foi perfeitamente descrita pelo Dr. Álvaro Caminha em muitos eruditos artigos escritos na Gazeta de Notícias, a propósito do lugar da execução de Tiradentes e em resposta ao Sr. Miguel Lemos.

Com a fundação da igreja de Sanct’Anna, e já se havendo retalhado em muitas chácaras o território apontado, ficou a parte sita nas proximidades desse templo com a denominação de Campo de Sanct’Anna, que em 1831 foi crismado com o nome de Campo da Honra, em memória dos acontecimentos de 7 de Abril. Cumpre todavia notar e lembrar a denominação de Acclamação, dada em 1822 em vista dos acontecimentos da nossa Independência e a coroação do primeiro imperador. O último nome dado ao antigo campo é por demais sabido e refere-se aos fatos de 15 de Novembro de 1889.

Não escrevendo para os eruditos, mas para leitores, que não podem fazer aquisição de obras caras e muito raras, nem frequentar as bibliotecas, cumpre-nos dizer que a ideia de ajardinar o Campo de Sanct’Anna cabe a Paulo Fernandes Vianna, o qual, em frente de seu palacete, na esquina da rua hoje de Frei Caneca (antes Conde d’Eu, Conde da Cunha e Quebra-Canellas), no edifício onde esteve a Câmara Municipal, mandou fazer um pequeno jardim que se estendia até à frente da Rua do Alecrim, ocupando o espaço, onde estão hoje o antigo Museu e as casas dos Araújos.

Escultura O Outono na Praça da República

Esse jardim era um lugar de passatempo para os nossos avós, mas foi destruído pela prepotência de Pedro I, o qual, não vendo com bons olhos o valimento de que dispunha junto de D. João VI o prestimoso Paulo Fernandes, logo que em 21 de Abril de 1821 regressou o velho rei para Portugal, veio ao campo e destruiu o jardim, ajudado por operários do Arsenal.

Foi tão grande o golpe sofrido por Vianna, que dias depois sucumbiu, sendo sepultado num carneiro da igreja de São Francisco de Paula. Paulo Fernandes foi um benemérito e prestou importantes serviços a esta capital, em que exerceu o cargo de intendente de Polícia, serviços esses que podem ser melhor apreciados no relatório por ele escrito e que se acha impresso em um dos últimos números da Revista do Instituto Histórico.

Por ocasião das festas da aclamação de D. João VI, construiu-se um palacete, que permaneceu por muitos anos e foi destruído completamente em 1841 por uma explosão, da qual muitos velhos ainda se recordam. Esse fato é narrado por Moreira de Azevedo com toda a minudência.

Houve para os lados da igreja de Sancta Anna um grande chafariz construído no tempo do rei. Foi destruído. Não falarei dos magníficos fogos do Espírito Santo, que se festejava na igreja supra mencionada, e tão bem descritos pelo Almeida no seu romance Memórias de um sargento de milícias, onde é protagonista o célebre Vidigal, que entretanto foi um militar distinto, foi um grande cooperador da nossa Independência. Miguel Nunes Vidigal era o seu nome, e não deve confundir-se com Francisco Pereira Vidigal, comandante da escolta que foi prender o Tiradentes, oculto no sótão da casa de Domingos Fernandes da Cruz, na Rua dos Latoeiros (atual Gonçalves Dias).

Não me ocuparei também do Teatro Provisório, depois Lírico, que daria assunto para largas observações, do Museu fundado pelo ministro Thomaz de Villa Nova Portugal, do Paço do Senado ou do conde dos Arcos, pertencente em tempos anteriores ao negociante Anacleto Elias da Fonseca, da igreja de São Gonçalo Garcia, fundada em terrenos do cônego Gomes Xavier, nem do edifício da Intendência Municipal, nem do Quartel General, em cuja esquina, junto à estação da Estrada de Ferro Central, se construiu o Império ou palanque, onde ficava o imperador do Divino e sua corte.

Deixemos a Casa da Moeda, o prédio donde saiu o marechal Deodoro para proclamar a República propriedade do meu amigo João Pedro de Miranda, as chácaras do Manuel Casado Vianna e outras particularidades, que ficarão para outra ocasião, bem como o sítio dos Cajueiros e das Pitangueiras.

Para concluir: o jardim que a cidade pode com orgulho mostrar aos estrangeiros e cuja descrição foi feita no artigo que precede a estas linhas, escritas currente calamo, foi em tempos passados um vasto esterquilínio, depósito de materiais fecais, onde à noite passeavam impunemente tigres, que foram suprimidos pela atual companhia City Improvements.

Que esse serviço lhe seja levado em conta.

1º de Outubro de 1896.

Nota do editor

  1. Chamava-se Campo da Cidade toda a vasta superfície compreendida entre o antigo fosso (Rua da Vala) e os mangues de São Diogo (hoje Cidade Nova). Ainda em 1711 toda esta imensa área era assim designada nas memórias que relatam a tomada da Cidade pelos franceses, apesar de se achar já por esse tempo retalhada e edificada em muitos lugares por diferentes chácaras. (Haddock Lobo, Tombo das Terras Municipais, pág. 10, 1863)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

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Praça da República