Laranjeiras

Quem te viu e quem te vê, formoso rio sagrado desta terra, o qual, na frase de Rocha Pitta, tinha o privilegio de dar às damas mimosos carões e aos cantores vozes melífluas e arrebatadoras!

Beijando os pés das primitivas tabas tamoias, ensombrado pelos altivos jequitibás e corpulentos jacarandás, sobre tuas caudalosas águas deste passagem às ligeiras canoas dos nossos primeiros povoadores, que traziam ao mercado da nascente cidade os produtos da pequena lavoura!

Testemunha dos gloriosos feitos, narrados por frei Vicente do Salvador, assististe à derrota de intrusos estrangeiros e à fuga dos companheiros de Villegagnon.

Teu nome constantemente celebrado nas cartas dos discípulos de Loyola figura nos primeiros forais, dados ao Rio de Janeiro.

Manancial de linfa cristalina, saciaste a sede de destemidos nautas, que aqui aportaram. Perto de tua foz, foi construída a célebre Casa de pedra, que serviu de pousada ao escritor Lery, mais tarde ao primeiro juiz ordinário Pedro Martins Namorado, e destruída pelo embate das ondas, no tempo do sapateiro Sebastião Gonçalves.

Quantos anos, quantos sacrifícios, quanta soma de dinheiro a fim de encanar tuas águas para o abastecimento da cidade até o Largo, que por milagre conserva o teu nome, que ainda não foi mudado para o de algum João Ninguém! Delas o visionário Tiradentes pretendeu aproveitar-se para a construção de moinhos colocados em tuas nascentes. Nas ocasiões das grandes enxurradas, saías do teu leito de alvas pedras e inundavas as cercanias do Catete e do Campo das Pitangas! Fizeram-te o elogio Gabriel Soares, Jaboatão, Vasconcellos, Santa Maria, Pizarro, B. Lisboa, Fernandes Pinheiro e tantos outros historiógrafos, e foste cantado por poetas e trovadores.

Junto de tuas margens edificou sua casa de recreio o célebre governador Dr. Antônio de Salema, e mais além possuiu conhecida olaria outro governador – Martim de Sá. E hoje? Receptáculo de imundícies, vivenda de micróbios, espelunca de ratazanas, vala nojenta de esboroadas margens, patenteando em tudo a desídia dos ingratos filhos, a quem deste o nome! És pior que o Banana Podre – oh! legendário Nilo deste torrão! Porque – tão baixo caíste – famoso Carioca? Como pretender tratar das antiguidades do vetusto vale, constituído hoje em belo e opulento arrabalde e sem falar de ti, do teu passado? És vítima do eterno ceci tuera cela[1]. Consola-te; mataram-te, mas em compensação, velho e alquebrado, assistes silencioso ao progresso da tua cidade, que viste nascer e vai crescendo e crescendo sempre!

Sem aprofundar a origem etimológica da palavra Carioca, sobre a qual os autores divergem: – ou provenha de casa dos karis, tribo dos Tamoios, como quer Lery, ou de água corrente de pedra (Pizarro), – casa da fonte (Martius), – casa do branco (Varnhagen), – água corrente de pedra (Fernandes Pinheiro), corrente saída do mato ou do monte, – casa da corrente do mato (Valle Cabral), citaremos a “carioca o mesmo que carió ou cariyó – cariboccari-uoc, descendente do branco, procedente do europeu, o mestiço de procedência do branco. Pode também ser cari-oca, casa do branco.” O pranteado Couto de Magalhães nunca dizia Cariocas, – mas sim os Caribocas.

Muito antes da transferência desta cidade do morro de São João ou Cara de Cão para o morro hoje do Castelo, já o bairro, objeto destes apontamentos, escritos para satisfazer a ilustre amigo nosso, era procurado pelos companheiros de Estácio de Sá. Este, doando a primeira sesmaria para patrimônio do Concelho, escolheu para começo dela a praia da ribeira da Carioca, dando posse ao procurador da Câmara, João Prosse.

Muito antes de 1567, o mesmo governador concedia terras no sítio da Carioca e ao longo da praia de Leripe, compreendida entre os atuais morros da Glória e da Viúva, este assim denominado por ser possuído em tempos muito posteriores por D. Joaquina Figueiredo Pereira de Barros, viúva de Joaquim José Gomes de Barros.

Isto é cabalmente provado pela lista das primeiras sesmarias dada à imprensa na Revista do Instituto Histórico, 1ª parte do ano de 1900, e tirada por Pizarro dos cartórios dos respectivos tabeliães.

O atual bairro das Laranjeiras faz parte do grande vale do Carioca ou do Catete, cujos limites, como é sabido, são: os morros da Viúva, do Bastos, do Conde d’Eu, costão das montanhas das Laranjeiras, Corcovado, D. Marta, Pedreira da Glória, do Quintanilha, a da Candelária, o morro do Pinheiro, do dentista Carvalho, o morro da Glória o do Barão de Monserrate, terminando no morro do Sisson.

Confessa o Dr. Mello Moraes não lhe ter sido possível, nas investigações que fez, saber quem fosse essa senhora, que deu nome ao penhasco das Laranjeiras e Cosme Velho. Quanto a nós, trata-se de D. Marta Antunes, benfeitora da Misericórdia, rica proprietária que deu o nome a uma rua do Rio de Janeiro, conforme lemos em uma antiga escritura, pertencente ao arquivo do Rosário.

Cumpre aqui refutar a opinião desse ilustre historiógrafo, quanto ao nome de Cosme Velho. Segundo M. Moraes – “em tempos remotos, morava, ali, um velho chamado Cosme, e como era morador antigo, para se discriminar as localidades, ficou o fim do caminho das Laranjeiras com a denominação de Cosme Velho.” Isto não nos parece exato: trata-se de Cosme Velho Pereira, que viveu nos princípios do século XVIII, foi negociante na Rua Direita, proprietário de terrenos junto ao Carioca e exerceu o cargo de juiz da Irmandade de São José, da qual foi grande benfeitor, doando-lhe um órgão, que foi em 1860 substituído pelo atual, que custou seis contos de réis.

A existência de um rio perfeitamente navegável explica bem a expansão territorial do Rio de Janeiro, desde 1660. Prova-o o livro mais antigo da Edilidade, que tem por título – Aforamentos da Câmara. Toda esta extensão (Valla das Laranjeiras), diz Inocêncio Maciel, foi dividida em grandes sesmarias, das quais a menor tinha 100 braças de testada e a maior 600. Conseguintemente, acrescenta o antigo contador, todo este lugar é foreiro, sem exceção de um só palmo; é talvez o lugar que está mais regular nos seus assentos – perfeitamente reconhecidos como foreiros.

Quando se tratou de aproveitar as águas do Carioca, a Câmara suspendeu a concessão de terrenos, nas margens do antigo rio, pelo dano que causavam os moradores à pureza das águas.

Seja-nos lícito citar os nomes dos antigos povoadores do hoje opulento arrabalde, os quais primeiro souberam aproveitar-se das vantagens do solo: Estevão Gomes Coutinho, Antônio Francisco, Cristóvão Mendes, Amador Jorge, Manuel Caldeira, Manuel Gomes Bravo, Gonçalo de Barros, Balthazar Coutinho, Salvador Peixoto, Manuel Fernandes Baldaia, Francisco Viegas, Francisco Gomes, Pedro Pina, Francisco Machado, Álvaro Pires, Francisco Fernandes Godinho, Francisco de Pina, Antônio de Almeida, Amaro de Barros Pereira, Francisco Ramires, João Migueis, Amaro Simões, João de Sousa, Mathias de Almeida e muitos outros, sendo para notar o aforamento, que lemos no Archivo Municipal, dado a Dio Fernandes, tambor! Muito conceituados deviam ser os tambores daquele tempo, para obterem 150 braças de terras concedidas mediante ridículo foro ou quase de mão beijada!

Salvo melhor juízo, pensamos que todos ou alguns destes homens bons cultivavam laranjeiras, e daí o nome por que foi e é, ainda hoje, conhecido o antigo bairro do Carioca. Se non é vero é bene trovato, como dizem os italianos. A ideia dos moinhos, apresentada em 1788 à Câmara pelo Tiradentes, não era nova, pois já em 1576 a marquesa Ferreira, viúva de Cristóvão Monteiro, teve nas terras do Carioca casa com roça de legumes e um moinho de vento para arroz e milho; depois ficou conhecido pela denominação de Moinho Velho. Esta fazenda, que a marquesa herdara de seu marido, passou a Maria Soares, dona viúva, em 17 de Agosto de 1610 (Mello Moraes). Entre parênteses, Cristóvão Monteiro foi o primeiro ouvidor do Rio de Janeiro, por nomeação de Mem de Sá. Foi grande benfeitor dos Jesuítas, bem como a marquesa, que a eles legaram terras em Santa Cruz, sendo secundados por seu filho Irineu Monteiro, se não nos falha a memória.

Parece que as primitivas sesmarias tinham a testada na praia, por onde se fazia a comunicação da cidade para Botafogo. É o que podemos depreender da carta passada em 3 de Setembro de 1606 a Sebastião Gonçalves; de sorte que a estrada chamada do Catete foi aberta muito mais tarde. Na medição da primeira sesmaria da Câmara nestas localidades, em 1667, só se mencionam pequenos caminhos: um que está defronte da olaria de Joana Coutinho, outro para a olaria de Domingos Coelho. Já na segunda medição (1753) o rumo atravessou terras entre a praia e estrada, chamada do Cattete, até que se chegou a esta com quinhentas e sessenta braças e prosseguindo, atravessada a dita ESTRADA, se chegou á que della vai para a pedreira.

Esta última julgamos ser a atual Rua Pedro Américo.

Até 1831 o atual bairro das Laranjeiras fazia parte da freguesia de São José; mas por decreto de 9 de Agosto desse ano foi criada a nova paróquia de Nossa Senhora da Glória, cujos limites foram marcados pelo decreto de 30 de Outubro do mesmo ano. Até então só existiam duas capelas: uma muito antiga na Rua Conselheiro Pereira da Silva com a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres, citada nas pastorais dos antigos bispos e possuída em 1835 por Antônio Joaquim Pereira de Nolasco, sargento-mor e juiz de paz de São José, (3º distrito); e outra construída em 1720, pertencente depois à casa da rainha Carlota Joaquina, nos chãos do prédio n. 9 da atual Rua Conselheiro Delamare, e foi comprada em praça por Antônio José de Castro e sua mulher D. Leonarda Angélica de Castro, na execução que o Banco do Brasil promoveu à rainha de Portugal D. Maria II. Esta segunda capela foi adquirida pela Irmandade do Sacramento da Glória, e nela esteve provisoriamente a sede da paróquia, durante as obras da nova igreja. Tudo isto pode ser, com vantagem, lido em minuciosa monografia do Dr. Marques Pinheiro, impressa em 1899.

Falta-nos espaço para minudências acerca das antiguidades das Laranjeiras.

O largo do Machado (segundo Mello Moraes) recebeu este nome do apelido de um açougueiro, que tinha talho de carne, onde está, pouco mais ou menos, a estação da “Botannical Garden.” Esta praça havia sido grande lagoa entretida pelas enchentes do rio Carioca.

Nesse largo, além do templo, encontramos a Escola Pública, ereta em terrenos de D. Maria Ignez da Cunha Marques, comprados pelo Governo em 1871. Os do lado oposto, conforme lemos no tombamento de Inocêncio Maciel, foram possuídos pela supracitada rainha de Portugal. No centro da praça está hoje a estátua do benemérito duque de Caxias objeto de estudo prestes a aparecer, escrito pelo diligente investigador Dr. Cunha Barbosa, cujos progenitores foram grandes proprietários na zona, assunto destes apontamentos.

A Rua Carvalho de Sá, que começa na antiga Praça da Glória, ou campo das Laranjeiras, e vai terminar na Rua das Laranjeiras, hoje Conselheiro Delamare, formando um ângulo reto, foi aberta em 1837, na maior parte através da chácara de Domingos Carvalho de Sá e dos terrenos possuídos por Francisco Marques Lisboa.

Grande extensão do lado ímpar da antiga Rua das Laranjeiras pertenceu à grande chácara de Domingos Francisco de Araújo Roso e sua mulher D. Leonor Alves de Castro Roso, cujos descendentes, por vendas sucessivas, dividiram essa importante zona em muitas propriedades, abrindo-se nela novas ruas, hoje ornadas de magníficos prédios, dando fácil comunicação para o Caminho Novo de Botafogo e a Praça do Catete, ou antigo Campo das Pitangas, em cujo centro existe a estátua de José de Alencar.

Deste lado mencionaremos a antiga Bica da Rainha, cuja bela água era muito apreciada pela esposa de D. João VI. Sobre esse lugar ouvimos, em menino, contar umas histórias de almas de outro mundo, muito parecidas com os modernos fantasmas da ladeira do Ascurra, perto da qual tem magnífica vivenda o nosso bom amigo Dr. Francisco Pinto Ribeiro, em terras outrora do Capitão-mor Manuel José de Sousa, no Cosme Velho.

No lado oposto desta rua, hoje Conselheiro Otaviano, houve um pequeno largo chamado do Boticário, por ali ter propriedade Joaquim Luiz da Silva Souto, que exercia essa profissão.

Quem não conhece o antigo Caminho do Inglês, assim denominado, por ter Jorge Butaim edificado grande casa em terrenos hoje de propriedade do Estado, e onde está a Caixa d’água?

Quem fala hoje nas Águas Férreas tão procuradas pelos nossos antepassados que sofriam de pobreza de sangue e não tinham à sua disposição os preparados ferruginosos, que nos vêm da Europa. Há cerca de sete anos vimos a fonte em completo abandono, quando alguém teve a lembrança de pedir ao Conselho Municipal aquele logradouro, para edificar um botequim. O Areal, o jardim das Laranjeiras, o morro do Pendura-Saias e o morro do Balaio ou Gongá foram perfeitamente descritos pelo velho Mello Moraes em sua Chronica Geral. Já hoje ninguém canta a Saudade do pau grande, musica motivada por ter sido derrubado um imenso jequitibá, nos terrenos da Ilha Seca, pertencentes ao Piolho Viajante.

Nada diremos sobre os antigos caminhos do Leite e do Peixoto, pelos quais os primitivos excursionistas subiam ao Corcovado. Hoje os modernos o fazem pelo caminho de ferro, cuja estação está perto de terrenos do velho Francisco Nogueira da Luz.

A Rua de Paissandu, antiga Santa Tereza do Catete, foi aberta em 1853 em terras pertencentes aos Guedes Pinto. Teve o nome atual, pela resolução da Câmara de 2 de Março de 1865; a de Guanabara também o foi em 1853 através da grande chácara do Roso, da qual a entrada era na rua hoje Conselheiro Delamare; a do Ipiranga, em 1856, onde hoje reside o venerando visconde de Barbacena, que em 20 de Julho próximo comemorará o seu centésimo aniversário.

Ponto em boca – e ao concluir repitamos com o personagem da Nova Castro, no ato da coroação da mísera e mesquinha:

“Esta é a pompa, senhor, que a brevidade permitiu de tempo.”

Nota

  1. Victor Hugo, em O Corcunda de Notre-Dame, mostrou-nos um padre, Claude Frollo, apontando seu dedo primeiro para um livro e, então, para as torres e as imagens dessa amada catedral, dizendo “ceci tuera cela”, isso matará aquilo. (O livro matará a catedral, alfabeto matará imagens). Origem: Tradução, para a Língua Portuguesa Falada no Brasil, da Conferência From Internet To Gutenberg de Umberto Eco.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Águas Férreas, Laranjeiras, de P. G. Bertichem. Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg, Rio de Janeiro, 1856.

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