Largo da Carioca (I)

I

Continuando a lembrança dos acontecimentos políticos, com relação à Avenida Treze de Maio, deveria narrar hoje o espancamento que, na noite de 5 de novembro de 1823, sofreu, por engano, David Pamplona Corte Real, estabelecido com botica, na casa n. 15 do Largo da Carioca. Dois oficiais do Exército, para se desafrontarem de injúrias publicadas na Sentinela da Praia Grande, por Francisco Antônio Soares, o Brasileiro resoluto, fizeram o pobre David carregar pecados alheios. Este verdadeiro caso do Holandês que pagou o mal que não fez – levantou nessa época de efervescência política grande celeuma, foi levado ao conhecimento da Constituinte, servindo ali de arma política contra o Governo, e apressou a dissolução dessa Assembleia e a deportação dos Andradas.

Mas… o largo da Carioca, além do que já escrevi sobre ele, está reclamando também recordações sobre suas antiguidades. Demais, no dia de hoje, 20 de março, fazem duzentos e oitenta e cinco anos da fundação da Ordem Terceira da Penitência, cujo importante hospital ocupa uma das faces da pequena praça, um dos pontos, hoje, de maior movimento desta Sebastianópolis. Fica, pois, adiado para mais tarde o caiporismo do Pamplona.

Chegando a esta cidade Luiz de Figueiredo e sua mulher Antônia Carneiro, noviços da Congregação de São Francisco da cidade de Lisboa resolveram instituir aqui uma confraria congênere. Dirigindo-se ao padre Custódio, do Convento de Santo Antônio, frei Paulo de Santa Catarina, manifestaram os dois cônjuges suas piedosas intenções, as quais também foram bem aceitas pelos outros membros da família franciscana, incluindo o guardião, frei Bernardino de Santiago.

Em 20 de março de 1619, ficou, pois, definitivamente inaugurada a Venerável Ordem da Penitência, cujos serviços à Religião e à Humanidade se foram avolumando, constituindo ela, em nossos dias, um dos mais importantes sodalícios do Rio de Janeiro.

Dizem alguns: esse tal Luiz de Figueiredo não era boa pessoa e viera fugido de Portugal; a origem da fundação da Ordem, narrada pelos cronistas, é falsa; existem documentos comprobatórios nesse sentido (os quais nunca apareceram), e, finalmente, que deve ser demolida a coluna comemorativa, levantada no alto da escadaria do hospital. Referem outros que Luiz de Figueiredo exercia a profissão de tamanqueiro, e por isso seus confrades e sucessores foram entre o povo conhecidos por – tamancos.

Mausoléu do Infante de Espanha Dom Pedro Carlos colocado na Capela da Conceição, pertencente aos Terceiros, ao lado da Epístola da igreja do convento.

Com o auxílio de esmolas o modesto instituidor da Ordem conseguiu fundar dentro da igreja de Santo Antônio a capela de Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje existe, e onde em artístico mausoléu de mármore estão guardados os restos mortais do infante de Espanha D. Pedro Carlos (genro de D. João VI), falecido de varíola.

Nesse pequeno santuário efetuou-se, em 17 de setembro de 1622, pela primeira vez, a festa das Chagas, sendo eleito ministro da nascente instituição o já citado Figueiredo, que ocupou o cargo até 1627, sendo substituído por André de Vila Lobos da Silveira. Na extensa lista dos chefes da Ordem encontram-se nomes de indivíduos, que representavam saliente papel na nossa vida colonial: sacerdotes, negociantes, proprietários e capitalistas, médicos, advogados e altos funcionários públicos.

Desejando os Terceiros fundar templo próprio, obtiveram dos religiosos, mediante a esmola de 50$000, os terrenos necessários para tal fim.

Segundo é fama, essas terras chegavam até à Rua do Parto, porquanto parte do chão, em forma de vela latina, em que foi edificado o prédio n. 121 da Rua de São José, e que pertenceu ao Dr. Luiz Bompani, é foreira à Ordem. Segundo tradição, era também foreiro o terreno onde está o Corpo de Bombeiros, e bem assim o do Chafariz, e parte do Largo da Carioca, que naturalmente foi desapropriado para edificação dessa fonte pública, levantada por Aires de Saldanha e Albuquerque.

Não entrarei em particularidades que, por extenso, estão comemoradas no Resumo histórico relativo ao patrimônio da Venerável Ordem Terceira da Penitência do Rio de Janeiro, seguido do Tombo Geral da Ordem, por Joaquim Augusto da Cunha Porto (1881). Conheci pessoalmente o autor deste trabalho: baixinho, ativo, inteligente, poeta e escritor. Abriu colégio, com o nome de São Caetano, na Rua da Ajuda n. 42. Tinha, porém, um defeito: não pagava aos professores, que certo dia fizeram greve e deixaram in albis o distinto diretor. Entre os rebeldes contavam-se o Moncorvo de Figueiredo sênior, o Caetano, irmão dos distintos farmacêuticos Silva Araújo, e o abaixo assinado.

Já narrei, há tempos, a cisma havida entre os irmãos da Ordem divididos em duas parcialidades, uma pró e outra contra os frades, fatos que constam da correspondência do governador do Rio de Janeiro Luiz Vahia Monteiro, o qual declarava ao rei ficar doido com tantas questões de frades e com tão frequentes intrigas da sacristia. Somente em 1732 terminaram as contendas.

Como é sabido, o ministro Francisco Seixas da Fonseca separou-se dos seus confrades, parciais dos religiosos, e comprando a igreja, hoje chamada do Hospício, ali estabeleceu a sede da Ordem. Fica assim provado serem as duplicatas coisa de origem antiga e não devida só aos progressos do século das luzes.

Deixando para outra ocasião o histórico da Penitência, concentremos a atenção sobre a origem do hospital, assunto das presentes notas. Junto à antiga igreja do Hospício, se nos não falha a memória, teve começo o estabelecimento da instituição hospitalar. Em uma das muitas escrituras lavradas nos diferentes livros de Tombo da Santa Casa da Misericórdia tenho lembrança de haver lido alguma coisa a tal respeito. Na impossibilidade de agora verificar esse ponto passarei adiante.

Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência no Largo da Carioca, demolido em 1906 – Livro Memorial do Rio de Janeiro de Ferreira da Rosa.

Em 14 de maio de 1748, sendo ministro o irmão Dr. Francisco Cordovil de Siqueira e Melo (era provedor da Fazenda Real e escreveu uma relação histórica sobre impostos cujo original está no arquivo do Instituto Histórico), efetuou-se com grande solenidade o lançamento da primeira pedra para o edifício do hospital, achando-se presentes o diocesano D. frei Antônio do Desterro com o Cabido, Gomes Freire de Andrade, governador, o Dr. Francisco Antônio Berquó da Silveira, ouvidor da comarca, Luiz Antônio Rosado da Cunha, juiz de fora, e o mestre de campo, Matias Coelho de Sousa. Conduziram em padiola a referida pedra com o cerimonial do estilo.

Não consta se houve profusa mesa de doces nem discursos; o tal Rosado era para fazê-los e até para recitar poesias. Haja vista o que escreveu por ocasião da entrada solene do bispo Desterro, um dos poucos trabalhos impressos no Rio de Janeiro, na tipografia de Antônio Isidoro da Fonseca, mandada inutilizar pelo Governo da Metrópole.

O hospital está edificado sobre parte dos chãos cedidos em 1653 pelos religiosos Franciscanos, confinando com os que a Ordem comprou em 28 de março de 1748 por 1:000$000 à Ordem do Carmo e com os comprados depois por 800$000 a D. Bárbara Correia de Sá. Concluídos os alicerces em 5 de novembro de 1748, procedeu-se às divisões internas; segundo o risco do mestre Antônio Francisco Azeitão, teria o edifício um só andar.

Para estabelecimento do Hospital foi concedida por faculdade régia, segundo Pizarro, a provisão de 12 de março de 1720. Segundo Cunha Porto, em 1752 parece que se achava pronta parte do vigamento; pois procedeu-se à cobertura do edifício, resolvendo-se em 18 de novembro do dito ano que o síndico fizesse aprontar uma enfermaria para se recolherem alguns irmãos, a fim de que a Ordem pudesse entrar no gozo de 9:085$085, que para manutenção do hospital, logo que houvesse, legara em 1745 Antônio da Silva Pinheiro.

Continuando, porém, as dificuldades pecuniárias, ficaram as obras paralisadas desde 1754 até 1762, prosseguindo regularmente neste ano e nos seguintes. Gasta-se até então 53:538$498.

Em 12 de dezembro de 1763 foi aberta solenemente a parte prontificada, em cujo estado se conservou por muitos anos. Em 15 de junho de 1802 ficou resolvido tivesse o referido hospital dois andares. É certo que a entrada para o edifício não era, a princípio, no largo, mas sim por um portão, que deita para a ladeira, o qual ainda existe, com a escadaria completamente reformada.

Quando o Recolhimento do Parto foi destruído por violento incêndio, as recolhidas, por ordem de Luiz de Vasconcelos e Sousa, estiveram por algum tempo hospedadas no Hospital do Largo da Carioca.

Nos quartos deste estabelecimento, transformados em cubículos de cadeia, estiveram reclusos alguns dos réus implicados na chamada Conjuração Mineira. Segundo Joaquim Norberto, em 25 de outubro de 1791, estavam ali encarcerados Francisco de Paula Alvarenga, Gonzaga, José Aires, Luiz Vaz, Resende Costa (pai), Vieira da Mota, o Tiradentes e o tabelião Faustino Soares de Araújo. Era comandante da guarda o capitão João Pereira Duarte, pertencente a um dos regimentos de granadeiros.

Por ordem do conde de Resende, de 4 de dezembro de 1794 – diz Moreira de Azevedo – Mariano José Pereira da Fonseca, depois marquês de Maricá (alcunhado o Dr. Biscoito) e outros indivíduos estiveram reclusos no hospital da Ordem da Penitência durante dois anos, sete meses e 15 dias!

Eram eles membros de uma sociedade literária, que se reunia em um sobrado de dois andares, na Rua do Cano, pertencente ao poeta Dr. Manuel Inácio da Silva Alvarenga, e foram denunciados por um rábula de nome Frade, como Jacobinos.

O progressivo engrandecimento dessa casa hospitalar nem por sombra pode ser feito em rápidos apontamentos. Seria preciso fazer extrato de todos os relatórios que a Administração da Ordem Terceira distribui anualmente no dia 1 de novembro. Em poucas palavras, porém, se pode resumir o papel de tantos homens beneméritos, que, conservando as brilhantes tradições das gerações passadas, têm sabido erguer a Ordem ao ponto em que está: probidade, zelo, força de vontade e consciência do dever.

Entretanto, respondendo em 1798 ao programa apresentado pelo Senado da Câmara, com referência ao saneamento do Rio de Janeiro, dizia entre outras coisas o Dr. Antônio Joaquim de Medeiros: “que se arrasasse os morros do Castelo e de Santo Antônio, ficando por muita equidade o lugar do convento.

Bem vejo (continuava) que se lançará por terra o hospital militar e alguns outros edifícios insignificantes; porém Sua Majestade pode suprir esta falta, servindo-se para acomodar a sua tropa de um soberbo hospital, que a VAIDADE dos Irmãos confrades de Santo Antônio fez levantar para estar vazio e sem doentes”.

Se Medeiros ressuscitasse, veria que tudo até hoje se conserva no statu quo quanto aos dois morros; mas ficaria arrependido ao contemplar o edifício do Largo da Carioca, mantido pela venerável instituição, que em 20 de março de 1919 (daqui a 15 anos) pode com ufania celebrar seu glorioso tricentenário.

20 de março de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Galeria de imagens

Imagem destacada

  • Largo da Carioca no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

Mapa – Largo da Carioca