Largo da Carioca (II)

II

Os agressores do boticário Pamplona, estabelecido no Largo da Carioca, foram o sargento-mor José Joaquim Januário Lapa e o capitão Zefirino Pimentel Moreira Freire. Este último, em documento impresso em 1861, dá desse fato explicações, as quais podem ser resumidas do seguinte modo: os oficiais contra quem se levantava a oposição (capitaneada pelos Andradas) eram Brasileiros adotivos: tinham trabalhado em favor da Independência, batendo-se até com as tropas do general Madeira e resistindo às do chefe Jorge de Avilez.

José Bonifácio de Andrada e Silva. Óleo sobre tela, 1914. Quadro de Décio Rodrigues Vilares (1851 -1931). Acervo: Museu Histórico Nacional / IBRAM / Ministério da Cultura.

Nesse tempo de maior efervescência dos partidos andavam os ânimos exaltados, propagando-se de propósito a discórdia entre Brasileiros e Portugueses. À barra do Rio de Janeiro apareceu uma embarcação de guerra, trazendo a seu bordo o marechal Luiz Paulino Pinto da França, brasileiro que nas Cortes de Lisboa se havia manifestado contrário à separação prestes a dar-se entre o Brasil e a antiga Metrópole.

Pinto da França (isto está hoje provado) vinha em missão secreta arranjar um modus-vivendi entre Dom Pedro I e seu pai Dom João VI.

O Governo manda prender o marechal, conduzindo-o para terra, sendo hospedado por estar gravemente enfermo, em casa do desembargador Garcez, à Rua da Lapa.

Para guardar o emissário eram escalados os capitães da guarnição, os quais faziam o serviço durante 24 horas. Lapa e Moreira Freire, ao chegarem seus substitutos, declararam com franqueza ser aquilo tudo grande patacoada, porque o marechal poucos dias tinha de vida.

A folha da oposição – Sentinela da Praia Grande – publicou veementes artigos, acusando os oficiais de quererem dar escapula ao pobre França e asseverando que aqueles conspiravam contra a Independência, etc.

Essas verrinas eram escritas, segundo voz pública, por certo Francisco Antônio Soares, conhecido pelo Brasileiro Resoluto.

Éramos moços – diz Moreira Freire – e entusiastas pelo serviço que tínhamos feito; ofendidos na nossa honra, decidimos que o primeiro capitão que encontrasse o Brasileiro Resoluto lhe desse umas bastonadas, para ele respeitar uma classe que não o tinha ofendido.

Aconteceu que, na noite de 5 de novembro de 1823, vindo juntos para o teatro Lapa e Moreira, ambos à paisana, este mostrou ao primeiro um homem de casaca, que estava na botica do Largo da Carioca, dizendo: “ali está o Soares”. Parando Lapa dirigiu-se ao ponto e deu no referido homem umas bastonadas. Reconhecendo neste conflito o capitão Moreira o engano, pois não era quem apanhava o tal intitulado Brasileiro Resoluto bradou em altas vozes, acudindo e segurando o major Lapa; reconheceu-se depois que a vítima fora o boticário David Pamplona, sem que ficasse com lesão alguma.

Até aqui o capitão Zefirino, cujo depoimento parece ser verdadeiro. Que ele serviu ao Brasil com sinceridade e patriotismo prova sua fé de ofício.

O major Lapa, porém, regressou a Portugal, foi Miguelista, passou-se para os Constitucionais, serviu sob as ordens de Saldanha, foi titular, governador da Índia, ministro da Marinha em Portugal, falecendo envenenado por um medicamento (beladona) que devera ser fornecido por farmácia homeopática e por engano o fora em uma pertencente a profissional alopata.

Sugestionado naturalmente por algum pescador de águas turvas, o Pamplona dirige uma representação assinada de próprio punho, cheia de exagerações, dizendo ser vítima de tentativa de assassinato, mas, sem querer, confessando ter recebido apenas uma contusão no braço esquerdo e outra na orelha direita. Esse documento pode ser lido nos Anais da Constituinte, sessão de 6 de novembro de 1823, dia seguinte ao do conflito.

Além da Sentinela da Praia Grande, outro jornal havia de oposição, o Tamoio, muito bem escrito e do qual eram colaboradores os Andradas e o Dr. França Miranda, e principal redator Vasconcelos de Drumond. Os inimigos do Governo, do qual desde julho estavam afastados José Bonifácio e Martim Francisco, puseram a boca no mundo; declamavam que tudo ia por água abaixo, pois dois oficiais portugueses haviam brutalmente espancado um Brasileiro; que a pátria estava em perigo e a Independência era já coisa morta, fingindo ignorar que o tal Pamplona não era Brasileiro nato, mas adotivo, que nascera em uma das ilhas dos Açores.

Após a leitura da queixa do David, pede a palavra o constituinte Carneiro de Campos e diz, que tudo aquilo é devido à demasiada liberdade da Imprensa; que a Constituinte quanto antes devia estabelecer leis repressivas contra tais abusos, devidos à linguagem (carambolava por tabela) de certos periódicos contrários ao Governo.

Enviada à Comissão de Justiça a queixa do boticário, é lido, na sessão de 8 de novembro o respectivo parecer, assinado por Veloso de Oliveira, José Antônio da Silva Maia, Rodrigues de Carvalho (relator), Fonseca Vasconcelos e Bernardo Gama. A Comissão opinava que o fato era caso ordinário, e que Pamplona se dirigisse ao Poder Judiciário.

Montezuma opõe-se e pede o adiamento da discussão, o qual é aprovado.

Na sessão de 10 fazem veementes discursos Antônio Carlos e Martim Francisco. O povo aplaude os oradores, invade o recinto. A sessão é suspensa por Maciel da Costa (presidente), e os dois oradores são levados em charola pelos populares.

Em 11, a Constituinte declara-se em sessão permanente, reina a agitação em toda a cidade, por desusado movimento de tropas concentradas pelo imperador em São Cristóvão. São recebidos ofícios do monarca explicando os fatos. É chamado à Assembleia o ministro do Império Vilela Barbosa, cujas explicações não satisfazem os oposicionistas; Rodrigues de Carvalho sustenta o parecer da Comissão, impugnado pelos contrários.

Fala José Bonifácio dizendo que não devem ser só acusadas as folhas da oposição, mas também as do Governo, cuja linguagem é desrespeitosa contra patriotas, dos quais alguns são membros da Assembleia.

É impossível em poucas linhas narrar os acontecimentos do dia perfeitamente descritos na excelente monografia do ilustrado doutor Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo (hoje barão) – A Constituinte perante a História.

Em resumo, Pedro I fez cercar por tropas a Constituinte, que foi dissolvida, à 1 hora da tarde de 12 de novembro.

Em oposição às ideias do Dr. Homem de Melo saiu a campo o exímio José de Alencar, procurando provar ter sido a dissolução um ato justo e digno de aplauso. Viva e brilhante polêmica estabeleceu-se entre os dois contendores, acompanhada com entusiasmo pelos apreciadores da História nacional. Dava-se isto em 1863.

No Internato do Colégio Pedro II a rapaziada dividiu-se também em dois grupos: Melistas ou Andradistas e Alencaristas ou Pedristas. Entre os primeiros distinguia-se o José Silvério Gomes dos Reis (hoje falecido). Paulista de papo amarelo, fanático pelos Andradas, cujos retratos tinha pregados na parede interna da estante onde guardava os livros. Rapaz de força; – ai de quem por pilhéria dissesse a menor coisa para deprimir José Bonifácio ou os irmãos. Era capaz de matar o imprudente. Seguia-o com muito mais moderação alguém de Pindamonhangaba, cujo nome não digo, paulista da gema, e defensor dos constituintes.

Para amofinar os contrários, os Alencaristas sustentaram até que os Melistas eram uns engrossadores, porquanto o autor da Constituinte era professor do Colégio! As coisas chegariam a mau resultado, se não fora a disciplina rigorosa do Internato e o receio da privação de saída ou de dar com os ossos na solitária, quarto escuro, cheio de ratos, colocado por baixo de uma escada.

Nesse tempo, ainda não tinham vindo à publicidade as Anotações, de Drumond, as quais, sobre a prisão dos Andradas e seus amigos, nos ministram hoje curiosas informações.

O imperador à frente da tropa, ornadas as barretinas de folhas de café, fez alto no Campo de Santana e daí destacou uma brigada para marchar sobre a Constituinte, que foi cercada, sendo contra o edifício assestadas peças de artilharia. O general Morais, seguido de alguns oficiais e soldados, pôs sentinelas na porta principal. Fechou as outras e mandou evacuar as galerias. O general entrou só no recinto e apresentou ao presidente o decreto da dissolução. Ao saírem tiveram voz de prisão: Antônio Carlos, Martim Francisco, o capitão-mor Rocha, Montezuma e Belchior Pinheiro; embarcaram no cais do Largo do Paço, seguindo em direção ao Arsenal de Marinha. Foram também presos dois jovens filhos do capitão-mor José Joaquim da Rocha, de nome Inocêncio e Juvêncio, os quais no ano antecedente haviam dado as mais decididas provas de patriotismo, por ocasião do 7 de setembro, 12 de outubro e 1 de dezembro de 1822!

Drumond escapou e pode fugir para a Bahia, e daí para a Inglaterra. José Bonifácio foi preso em sua residência, no Catete, e levado em sege para o Arsenal, sendo vaiado pela capangada. Entre os gritos de viva o imperador e morram os anarquistas – diz Drumond – que é o que lhes tinham ensinado, vociferavam outras parvoíces, que faziam nojo. José Bonifácio, ao som de semelhante música, disse ao general Morais que o esperava à porta: “hoje é o dia dos moleques”.

Os presos políticos ficaram no Arsenal até à noite, e daí em direção à Lage foram levados em um escaler armado com tropa e escoltados por outras quatro embarcações também cheias de soldados.

Chegaram à fortaleza depois das 9 horas. Ali todos ignoravam os hóspedes que iam receber. Os presos (tanto pode o ódio político) foram recolhidos a um armazém subterrâneo, imundo, e que vertia água por todos os lados. Nesse lugar deviam ficar à noite, sem ter nem sequer uma pedra para descansar a cabeça. Só José Bonifácio havia jantado naquele dia, – continua Vasconcelos de Drumond; os outros até aquela hora estavam com a xícara de café que haviam tomado pela manhã. Na fortaleza nem pão se podia obter. A vontade do imediato e dos soldados era boa; mas eles não podiam fazer aparecer o que não havia. Um soldado tinha um galo; era por aquela noite o único recurso; o galo foi vendido, morto e posto ao fogo em uma marmita. Com uma pouca de farinha de péssima qualidade da ração dos soldados foi feito o jantar, que comeram à meia noite!

Dias depois foi José Bonifácio removido para Santa Cruz, de onde saiu em companhia dos outros presos para terras do exílio, transportados todos no calhambeque Lucônia.

Mas, é tempo de fazer ponto, diante de tanta miséria, e regressar ao Largo da Carioca, teatro de triste acontecimento, ocorrido em 1833.

28 de março de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Largo da Carioca no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

Mapa – Largo da Carioca