Largo da Carioca (IV)

IV

Entre volumosa papelada de questões do Convento de Santo Antônio encontrei, no Arquivo Público, os autos de vistoria e medição de todos os terrenos situados em redor do morro e pertencentes aos Franciscanos.

Com as solenidades da lei teve princípio essa diligência em 25 de outubro de 1735, estando presentes: o ouvidor Agostinho Pacheco Teles com seu escrivão Domingos Rodrigues Távora, o procurador da Câmara Amaro dos Reis Thibau, o procurador da Coroa Dr. Sebastião Dias da Silva Caldas, o arruador Domingos de Oliveira e o meirinho encarregado de andar com a corda de medir, Manuel Rodrigues Estimado, que prestou o respectivo juramento. Assistiram também por si, ou por procuradores, diversos proprietários de terrenos confrontantes.

Dando de mão a minúcias desse longo documento, julgado por sentença, mencionarei apenas em resumo o que se refere ao Largo da Carioca, na área ocupada hoje pelo hospital da Ordem.

Library of Congress Prints and Photographs Division – Largo da Carioca.

Começada a vistoria da quina da Fonte da Carioca, foram medidas 18 braças da base do morro até a vala, e daí correndo ao longo dela até à Rua do Piolho foram também medidas 27 e meia braças de testada.

“E todo este sítio (reza o auto) é pertencente ao convento de Santo Antônio para enterrar os escravos dos moradores desta cidade.”

Está isto de acordo com outro documento de data anterior, existente na mesma coleção, e do teor seguinte:

“Fazemos saber aos que a presente nossa carta de doação em forma virem, que por parte dos religiosos capuchos do Convento de Santo Antônio desta cidade, nos foi apresentada uma sua petição, dizendo nela que eles, movidos da caridade e amor fraternal do próximo, desejavam acrescentar o cemitério, que está ao pé da ladeira do dito convento, onde se enterram os pretos que morrem nesta cidade, e como eles crescem em número, fica o dito cemitério, além de ser pequeno, muito diminuto, pelo que nos pediam quiséssemos, por serviço de Deus, conceder licença para se poder alargar o dito cemitério; de sorte que possa bastar para se acomodarem os cadáveres dos muitos escravos que morrem nesta cidade… e receberiam mercê: a qual petição, sendo-nos apresentada e por nós vista com a atenção, que pede, o fim para que os suplicantes pretendem a dita terra e caridade fraternal com que é público se empregam todos no serviço do próximo, atendendo justamente à falta que há nesta cidade de lugares competentes em que se sepultem os cadáveres dos mesmos escravos, que morrem, do que se tem seguido, além da falta comum, consequências prejudiciais, com escândalo público; havemos por bem de doar aos ditos religiosos capuchos 18 braças de chão de testada, principiando no fim do muro da ladeira do dito convento e fazendo face pela rua que principia na própria ladeira e finda no outeiro de Nossa Senhora da Conceição, com os fundos que se acharem até a capela dos Terceiros, cordeando-se pela parte da base do alicerce da referida capela, cuja doação havemos outrossim por bem fazer-lhes, sem obrigação, foro, ou pensão alguma. E para do sobredito constar, etc. Rio, em Câmara, 14 de Novembro de 1709. E eu, Julião Rangel de Sousa, o escrevi. – Diogo Rodrigues de Faria. – Salvador Vianna da Rocha. – Domingos Ferreira.”

Essa doação dispensa comentários e explica perfeitamente a permanência, antes da fundação do hospital, de um cemitério no atual Largo da Carioca. Tal necrópole não deve ser confundida com o chamado Cemitério dos Mulatos, situado fora da vala, no local da Forca, compreendido entre a Praça General Osório e ruas adjacentes, nem com os dos largos de Santa Rita e São Domingos e do Valongo, como já mostrei, quando escrevi sobre enterros de escravos.

Além do mais, a medição de 1735 nos dá notícia da vala que, correndo pelo Largo da Carioca, seguia em direção da atual Rua Uruguaiana (antiga da Vala) e, voltando pela da Prainha, ia terminar na Praia das Farinhas junto das propriedades de André Pinto Guimarães.

Esse esgoto, constituído, nos primeiros tempos, por profundo fosso, que na ocasião de grandes chuvas dava vasão às águas pluviais, bem como servia de escoadouro às da Lagoa de Santo Antônio, era, então, descoberto em todo seu percurso, servindo, outrossim, de cloaca pública.

Pela carta régia de 21 de abril de 1725 fora a vala aproveitada para escoar também as sobras do chafariz.

Segundo Pizarro, – ciente o conde da Cunha dos frequentes danos, que sentia o público, não só porque a vala destapada era ruinosa à saúde da povoação, pelo depósito imundo que, infeccionando o ar ambiente, sustentava aluviões de mosquitos… mandou ao Senado da Câmara que a cobrisse. Atravessando-se então largas lajes cessou o mal maior. Em tempo do conde de Resende traçou o mesmo Senado calçar toda a travessa, e dando princípio ao trabalho desde o Largo da Carioca, fez ponto na igreja do Rosário, deixando a rua em pior estado, como se vê, abaulada e até intransitável quando as águas sem pronta correnteza a alagam.

É fácil, pois, de imaginar o que seria em tempos anteriores o Largo da Carioca, por ocasião das enxurradas, mormente nas inundações de abril de 1756 e das águas do monte, em fevereiro de 1811: um lagamar.

Contra a cobertura da vala protestou o erudito carmelita frei José da Costa Azevedo em sua Memória filosófica e patológica sobre o Rio de Janeiro, do seguinte modo: “mas quando a vala estava descoberta, o ar livre acelerava a putrefação; e à medida que se desenvolviam os maus vapores, se difundiam na atmosfera e se dissipavam sucessivamente, entrando na economia geral da natureza, ficando assim menos daninhos, por estarem menos condensados ou por não obrarem com forças unidas ou simultâneas. Porém, com a vala coberta havia, sem dúvida, menor quantidade de matérias putrescíveis; mas há quanto abunde para fazer o malefício; porque não havendo remoção abundante de ar dentro (o que não evita a putrefação, como hoje se sabe) os vapores mefíticos se letem (por falta de saídas francas) e se espessam; e tendo se aumentado em massa e volume, rompem por qualquer fenda ou furo e vêm com forças unidas danar a atmosfera.”

Vá esse palanfrório com vistas aos sabedores de Higiene!

Em 1735 deviam ainda existir vestígios do célebre muro da cidade levantado por João Macé em 1711. Como sabemos, serviu esta fortificação de motivo de desavença entre a Câmara e o governador Luiz Vahia Monteiro. Partindo do morro da Conceição a muralha, em cuja construção foram gastos muitos mil cruzados, corria na direção da atual Rua dos Andradas, passava por detrás da Igreja do Rosário, cortava a vala, e o largo da Carioca, dirigia-se pelos fundos da Ermida do Parto e terminava na encosta do Morro do Castelo.

Não atingia o muro a grande altura, mas – conforme diz Pizarro – no seu tempo dela havia vestígios no antigo Largo do Capim ou do Chafariz Novo, hoje Praça General Osório.

Para não repetir o que já escrevi sobre o assunto lembrarei apenas: entre as razões apresentadas pela Câmara contra as opiniões de Vahia dizia ela que fora do muro ficava a fonte da Carioca e extramuros da cidade o Bairro da Ajuda, já então bastante povoado.

Seria para causar sono reproduzir as sesmarias concedidas pelos governadores nas proximidades do Largo da Carioca, na direção da Vala e da Rua do Egito (do Piolho e hoje da Carioca). Constam elas de documentos do Arquivo Público e já foram por mim reproduzidas neste jornal, quando tratei do Patrimônio Municipal.

Para terminar, por hoje, as velharias do Largo da Carioca, lembrarei ainda, em tempos remotos, a existência de um fortim, levantado no local em que está hoje a Igreja da Ordem da Penitência.

Tomando posse de governador do Rio de Janeiro, Rodrigo de Miranda Henriques (13 de junho de 1633), referem os Anais manuscritos, existentes na Biblioteca Nacional, e repete o Dr. Baltasar Lisboa:

“Como não cessassem de correr boatos de invasão deste tão ambicionado país e se repetissem os avisos de que estivessem prevenidos para frustrarem qualquer agressão do inimigo, quis o novo Governador, apenas instalado no governo, ocularmente examinar os lugares nos quais se tinham levantado as obras de defesa que aprovou e julgou conveniente levantar outras fortificações, como o fossem o Padrasto da Candelária, onde o Convento de Santo Antônio, chamado de Nossa Senhora da Ajuda que o levantou, construiu e fortificou Antônio Corrêa, à sua custa, com o serviço de seus escravos, sendo por isso nomeado pelo governador capitão dele.”

Diante da benemerência do tal Correia, que com pouco se contentou, é caso de fazer ponto, citando, como o de um bom patriota, seu nome, ligado à história do largo da Carioca.

12 de abril de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Largo da Carioca no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

Mapa – Largo da Carioca

Largo da Carioca