Largo da Carioca (V)

V

Devia, dando de mão ao Largo da Carioca, apresentar notas sobre a bernarda ou rusga de 17 de abril de 1832.

Desse propósito fui demovido por honrosa cartinha assinada por um antigo morador da Rua dos Latoeiros. O amável missivista pedia com urgência notícias sobre o antigo chafariz, a procissão de Cinzas e o violento incêndio, que em 1849, mais ou menos, devorou importante prédio daquela praça, nas proximidades da antiga confeitaria do Filipe José Gonçalves.

Largo da Carioca, com o Chafariz da Carioca na frente e o Convento de Santo Antônio no fundo por Eduard Hildebrandt (1844), via Kupferstichkabinett der Staatlichen Museen zu Berlin

Quanto à primeira questão agarrei-me ao padre Luiz Gonçalves dos Santos, vulgo Perereca, que com facilidade satisfará ao meu anônimo admirador. À pág. XXX da introdução das Memórias para Servir à História do Reino do Brasil – deparei com o seguinte que vem a talho de foice:

“A Fonte da Carioca (1808) está situada entre dois lanços da ladeira sobre um plano elevado do chão, para o qual se sobe cinco degraus; é toda de pedra a sua fachada, que não é muito alta; tem onze bicas de bronze na frente, que lançam água com abundância sobre o tanque, onde se recebe a mesma água nos barris, e potes dos aguadeiros; o frontispício desta fonte é coroado pelas reais Armas Portuguesas; abaixo delas está uma inscrição já ilegível e inferior a esta as Armas do Governador Gomes Freire de Andrade. Por baixo do lanço esquerdo da ladeira corre um cano, que despeja a água supérflua do tanque da fonte em outro tanque, que fica do outro lado do mesmo lanço, onde bebem os cavalos, e deste passa para outro tanque mais largo e extenso onde se lava a roupa.”

Tudo isto está, mais ou menos, de acordo com a estampa do Ostensor Brasileiro, e serviu de assunto – O velho e novo chafariz – a minucioso artigo de I. A. Cordeiro, colaborador daquele jornal literário, publicado em 1845-1846.

Depois de ligeiro exórdio, provando que em qualquer construção se devia atender à analogia, harmonia e economia, entra em matéria.

“O antigo chafariz (prossegue Cordeiro), embora de forma grosseira e por assim dizer, aborto arquitetônico, é airoso e talvez belo, relativamente às linhas curvas de que abunda; a pequena altura de seus andares; a disparidade que reina entre o seu complexo e qualquer ordem das conhecidas… talvez fossem causadoras de sua destruição, ou então o limitado escoamento devido ao número de bicas e à pequenez da caixa contígua.”

Dá umas catanadas no Governo do tempo, lamentando todavia a destruição da antiga fonte taxando-a de erro imperdoável.

“Porque as nações cultas da Europa, (diz ele) guardam respeitosamente as construções antigas; e quando o arquiteto as rasga ou modifica, um brado se eleva contra ele, e esse brado é o dos sábios.”

Quanto ao moderno, chama-o chafariz monstro e comunica-nos que houve ideia de o ornar com estátuas e armas – o que parece não se realizou até hoje. Refere mais que um Sr. Guillobel tinha modificado o primeiro plano e de uma maneira agradável: “o chafariz seria subordinado à ordem dórica, teria uma forma semelhante à do atual, com as seguintes diferenças: haveria o mesmo número de colunas circulares, o que sacaria (sic) o entablamento; nos intercolúnios três estátuas: uma de cabocla no centro, a qual despejaria água pela boca de um jacaré, que estaria deitado debaixo de um de seus pés; as outras seriam tigres deitados, etc.”.

Largo da Carioca visto do Convento de Santo Antônio

Ficaram de pé, até nossos dias, as considerações de Cordeiro; e o chafariz da Carioca aí está verdadeiro casarão de pedra, atestando o nosso mau gosto, máxime em um dos pontos mais frequentados por nacionais e estrangeiros. Estou a invadir a seara alheia; mas não seria fora de propósito lembrar agora qualquer modificação, que desse a esse ponto público aspecto mais agradável e artístico.

O velho chafariz foi demolido em 1830, sendo em seu lugar levantado um de madeira, cuja pintura fingia granito – com 40 bicas. Foi mandado construir às pressas pelo intendente da Polícia Luiz Paulo de Araújo Bastos, cuja biografia será escrita por alguém, que se está ocupando com os presidentes da antiga Província da Bahia, onde, aquele magistrado, como nesta Capital, prestou inolvidáveis serviços.

Para concluir, a atual Carioca foi inaugurada em 7 de abril de 1834, tendo começado as obras em 3 de fevereiro de 1833. É de nossos dias, como todos sabem, a ideia de transformar a Carioca em estação de bondes aéreos. O projeto da Metropolitana, ou antes do Salvador Nicossia foi por água abaixo.

A procissão de Cinzas! Quem poderá jamais esquecer esse imponente e sugestivo préstito religioso, que depois dos treze dias de desenfreado entrudo descia lentamente a ladeira de Santo Antônio, anunciando aos fiéis chegada a época da quaresma e da penitência? Instituída em 1647, era organizada pelos Terceiros de São Francisco, e só deixou de sair de 1861 em diante, por motivos apresentados pelo ministro da Ordem Manuel José Gonçalves Machado Júnior.

A princípio levava 20 andores, depois um e ultimamente 10. Destes, nos lembramos da Senhora da Conceição sobre um globo de prata, os Bem Casados, São Benedito, São Roque, São Luiz, rei de França, Santa Isabel de Hungria, Santa Isabel, rainha de Portugal. O mais importante era, porém, o da impressão das Chagas, cuja cruz passava acima dos primeiros andares das casas; tão alto que, até a porta do templo, era arrastado por meio de roldanas e depois carregado aos ombros de 12 irmãos, que faziam questão de ter a honra de levar o andor da Ordem, havendo todos os anos empenhos e até oferecimento de avultadas quantias. Era do programa ninguém fraquear, e todos caprichavam em, depois de grande percurso pelas ruas da cidade, levar São Francisco recebendo as Chagas de Cristo Crucificado ao mesmo ponto, de onde o tinham trazido. Apesar dos acolchoados e das forquilhas para descanso, os hercúleos condutores mostravam com orgulho, no dia seguinte, os ombros equimosados, sujeitando-se por algum tempo às aplicações de água vegeto– mineral e de panos molhados em vinagre ou arnica.

Conta J. Manuel de Macedo:

“Em 1849 foi excluído da procissão o andor de São Benedito. Devia certamente haver motivo forte para essa exclusão; porque não admito que, também nas procissões e ofícios religiosos, se misturem certas prevenções e privilégios, que enchem o mundo de vento e de bolhas de espuma. Mas o certo é que São Benedito foi posto à margem e que, ofendido por isto, dizem velhas beatas, resolveu punir o Rio de Janeiro, e fez imediatamente entrar a tremenda epidemia de febre amarela. Podia eu pregar dez anos neste sentido, que não conseguiria com toda a minha retórica convencer as velhas beatas do prejuízo que as leva a ofender o santo; tempo perdido. Diriam e jurariam, como ainda hoje dizem e juram, que foi São Benedito que nos trouxe à cidade do Rio de Janeiro a febre amarela.”

E tinha razão o provecto professor; hoje, 1904, depois da descoberta do mosquito, ainda muita gente boa acredita que o santo anda ressentido da ofensa, apesar de nos anos seguintes acompanhar o cortejo, cercado de todas as honras de muitas luzes e flores em abundância!!

Segundo Moreira de Azevedo, em 1798 a procissão em trajeto debandou por força de repentino aguaceiro. O Santo Lenho foi recolhido ao oratório particular de D. Joana Maria, à Rua dos Pescadores, e os andores entraram nas igrejas da Cruz e Candelária. A ordem sofreu grande prejuízo; mas no ano seguinte não deixou de sair a procissão com o mesmo brilhantismo, graças às providências tomadas pelo ministro Manuel José da Costa Rego.

Eis o que me ocorre de momento sobre a procissão de Cinzas, da qual não me posso esquecer, além do mais, por haver saboreado as apetitosas amêndoas, que a Ordem em colossais cartuchos distribuía pelos anjos, quorum pars magna fui, os quais, como é sabido, eram pela mão levados pelos sisudos Terceiros, de hábitos pretos e cordão branco à cintura, com os três clássicos nós.

Para responder ao amável-antigo morador da Rua dos Latoeiros, faltou-me tratar do tal incêndio. Deu-me isso, confesso, grande trabalheira; mas em boa hora apelei para a “Crônica Fluminense” da Folhinha de Laemmert. Tirou-me esta do apuro, e reza o seguinte:

“1849, Julho 7. – Incendiou-se a padaria da viúva Pfaltzgraff & C., sita no Largo da Carioca n. 18. O incêndio começou, pelo meio dia, no pavimento superior; ignora-se a sua origem, mas supõe-se que foi comunicado por uma fenda da chaminé. Apenas começaram os sinos a tocar, imensas labaredas romperam pelo telhado, e o fogo lavrou com extraordinária violência. Acudiram o Sr. inspetor das Obras Públicas com a bomba da Inspeção e as bombas dos arsenais; os Srs. chefe de Polícia, inspetor do Arsenal de Marinha, etc., etc. Apesar, porém, de todos os esforços e da proximidade do chafariz, não foi possível salvar a padaria e tornou-se necessário, para circunscrever o flagelo no foco do desastre, abater com machados parte dos telhados das casas contíguas. A padaria ficou reduzida a um montão de ruínas; continha 400 barricas de farinha; a casa estava segura em 15:000$000.”

Nesse tempo não haviam ainda aparecido o Mal das Vinhas com seus inventos, o Murga, infalível e benemérito apagador de incêndios, e os Zuavos Carnavalescos, nem o coronel Carvalho com a crioula, e muito menos a peça do Gabizo, o aparelho aplicado ao sino grande de São Francisco de Paula. Apesar de todo o progresso havia então o que hoje ainda se dá, a falta de água – condição sine qua non para o serviço de extinção de incêndios.

Tudo isto iria muito longe, e até fora dos três quesitos propostos.

Creio ter satisfeito a curiosidade do meu assíduo leitor, ainda que para isso tivesse de recorrer a alheias fontes. Nesta emergência, além da prata de casa, salvaram o caso o Perereca, o Cordeiro, o Macedo, o Moreira de Azevedo e o Laemmert, aos quais me confesso agradecido.

Poderia ter calado seus nomes e dar de minha lavra, a exemplo de muita gente, o que a outros pertence.

Mas… acima de tudo a consciência.

19 de abril de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Largo da Carioca no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

Mapa – Largo da Carioca

Largo da Carioca