Nova Fachada (Convento do Carmo)

Dos angitos Carmelitas do Rio de Janeiro escreveram cobras e lagartos o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa e o bispo D. José Justiniano Mascarenhas Castello Branco.

Em verdade, muito daqueles religiosos bem podiam ser chamados “fradinhos da mão furada”. A desordem, a indisciplina e as irregularidades pareciam querer dar cabo da antiga casa claustral da primitiva Praia de Nossa Senhora do Ó.

Radical reforma fora ordenada pela metrópole.

Para levá-la a cabo foi mister empregar a força pública, a fim de chamar à ordem os recalcitrantes.

Houve desterros, cárcere privado e outros castigos postos em prática por D. José Joaquim, nomeado reformador. Este, segundo uns, foi severo em demasia, e provocou representações da própria Câmara, em prol dos perseguidos.

Deixo de parte, agora, essa questão para me lembrar de um benefício de que somos devedores aos religiosos do Carmo. Entusiasta pelas glórias de Napoleão, escreveu o poeta da Confederação dos Tamoios: “nós um bem lhe devemos que gozamos”; aludia à emigração forçada da Família Real e à independência do Brasil. O mesmo, servatis servandis[1], podemos (os Cariocas) repetir com relação aos citados religiosos.

Sem eles, não teríamos hoje esse importante logradouro conhecido outrora por vários nomes: refiro-me à Praça Quinze de Novembro, considerada a sala de visitas desta mui heroica e leal cidade.

Sem a tenacidade dos frades, não admiraríamos os melhoramentos começado pelo Xavier da Silveira e ultimados pelo Passos. Nem Bernardelli teria ocasião de patentear seu talento com a estátua do invicto guerreiro – o legendário Osório. Ali no meio da praça está a sepultura do valente cabo de guerra no mesmo local onde, em 1752, Gomes Freire começou a construir o antigo chafariz.

Se não fossem os Carmelitas, Luís de Vasconcelos não poderia ter beneficiado o antigo Largo do Carmo, calçando-o convenientemente e levantando o novo chafariz, auxiliado pelo Valentim.

Monumento ao General Osório na Praça XV de Novembro

Demais, como já tenho referido, foi este vice-rei quem ali, junto à praia fez construir um magnífico cais de cento e cinco braças de comprimento, todo de pedra lavrada, com peitoris e assentos de mármore, apresentando três escadas para o mar e uma extensa rampa.

Sem eles (os frades) o Conde de Resende não teria lugar para mandar fazer ensaio dos primeiros lampiões de azeite…

Explique-se, dirá com razão, o leitor. Prove com fatos. Aboletados no antigo hospício deixado pelos Beneditinos, os Carmelitas, por meio de esmolas e legados, resolveram erguer maior templo e mais amplo convento. Para isso obtiveram do governador Ruy Vaz Pinto (1619) permissão para tirar da Ilha das Enxadas toda a pedra necessária.

Durante as obras, viram os religiosos que o mar ia pouco a pouco recuando. Já se havia erguido a antiga ermida de São José; começava-se a construção da cadeia, e à beira-mar alguns particulares tinham obtido do Conselho os acrescidos, tais como João de Castilho Pinto e Cláudio Antônio Bezançon.

Os do Carmo pediram (1642) e obtiveram quarenta braças em frente ao convento (de testada) e sete para o lado da praia à razão de quinhentos réis a braça.

Em 1667, porém, ficaram eles isentos de foro, tais foram as lamúrias empregadas. Desse modo se tornaram senhores do domínio dessa área de terreno, e isto de mão beijada.

Naqueles tempos, porém, quem governava comia queijo e com facilidade se esquecia de antigas deliberações.

Deu-se o seguinte: os vereadores de 1683 entenderam repartir os referidos chãos e aforá-los, por dez réis de mel coado, a parentes e protegidos. Os frades protestaram e enviaram ao rei enérgica representação, dizendo que, além de tudo, construções em frente ao convento tiravam a vista deste e devassavam a clausura.

O monarca (D. Pedro II), ouvidos os competentes, mandou lavrar o decreto de 26 de Novembro de 1868.

Vista da Praça do Palácio e Vista Geral da Cidade, de Jean Baptiste Debret, via NYPL

Por essa deliberação era proibida a edificação em frente ao Convento, ainda que esta fosse intentada pelos próprios religiosos.

O rei, naturalmente, disse com os seus botões: os Jesuítas, Beneditinos e Franciscanos ocupam montes e têm fresco em primeira mão; os Carmelitas ficaram na planície e precisam de ar e luz; logo, há toda a razão, e como eles são viventes como os mais, têm direito ao que pedem.

Em 1719 a Câmara voltou à carga e deliberou estabelecer, no logradouro o curral do gado, o açougue e a quitanda dos pretos ou praça do mercado!

Os frades não se contiveram diante de tanto sacrilégio. Puseram a boca no mundo e escreveram ao rei.

Com efeito, dar-lhes vizinhança tão barulhenta era obra do tinhoso.

O governador deu boa informação. Ainda desta vez os peticionários cantaram vitória, e o largo ficou livre e desimpedido.

Corria o ano de 1730, e de uma das janelas o prior do Convento viu uns sujeitos colocarem um marco no local, onde caiu ferido, há meses, o senador Olympio de Campos. Frei Domingos Rodrigues de Santa Úrsula cismou com o caso e pelos seus familiares mandou arrancar a pedra. Daí a dias recebeu ofício da Câmara, declarando que ele prior havia cometido um desacato, pondo por terra um marco com as armas do rei; que esse marco não era mais do que a demarcação do Rocio ordenada em 1686, para tranquilidade dos próprios religiosos.

A Câmara, retorquiu frei Domingos, devia avisar-me. Dou as mãos à palmatoria e, se for preciso, eu e toda comunidade, tomando a pedra sobre os ombros, iremos repô-la no lugar.

Devemos ou não ser gratos a tais frades de cabelinho na venta?

O Convento, disse o padre Luiz Gonçalves, pela frente da praça é vistoso, com duas ordens de dormitórios, cujas janelas têm balcões de ferro, com rótulas de madeira; mas interiormente é tristonho, sem regularidade, e pela maior parte muito velho.

Convento e igrejas do Carmo

Desalojados os frades, o imenso casarão foi anexado ao Palácio Real. Era tão velho o edifício que D. João VI, temendo o desabamento da parede que olha para a Rua do Carmo, mandou, por segurança, construir dois arcos gigantes.

Volvidos anos, foi concedida ao Instituto Histórico parte do segundo pavimento. Obteve depois todo o segundo andar, sendo ministro da Fazenda o conselheiro Araripe.

Apesar de consertos e remendos realizados no 1º e 2º Império, era indecente o local, onde tinha sede essa veneranda instituição cientifica do Brasil. Visitada por notabilidades estrangeiras, teriam elas verdadeira desilusão, ao contemplar aqueles quartinhos escuros, paredes desaprumadas, com sinais de chuva e por toda a parte o aspecto tristonho de uma casa em ruínas. E isto para guardar tesouros de inestimável valor.

Em boa hora, os altos poderes da nossa governação compreenderam em 1905 que não podia continuar tão triste estado de coisas.

Graças a auxílios obtidos, o Instituto Histórico passou interiormente por uma reforma, e em falta de edifício, próprio, pode ser visto sem que sofra o melindre de seus ilustres associados.

Ainda ontem o Jornal do Commercio, em bem lançado artigo, escreveu com verdade e justiça o quanto ganhou a notável instituição, devido aos esforços do Exmo. Sr. Marquês de Paranaguá e do 1º secretário o Sr. Max Fleiuss.

Mas não foi tudo. Graças à perseverança deste, vai ser reformado, com auxílios novamente obtidos do Congresso, a antiga fachada do edifício. Este seria vistoso, no tempo do padre Luiz Gonçalves, quando a praça, desde o velho cais demolido em 1840, até o convento, tinha setenta e cinco braças de comprimento e quarenta e cinco de largura. Não agora, depois dos grandes e importantes melhoramentos, incluído o magnífico cais levantado em nossos dias.

A planta da nova fachada é do engenheiro civil, da nossa Escola Politécnica, Dr. Hermann Fleiuss. O estilo é puramente clássico. 12 colunas de ordem coríntia ornam a face do edifício dividido em três corpos. O ático e tímpano ornamentados conforme o estilo grego. Para dar luz e ar, haverá 35 janelas e três portas. O telhado será todo reformado e coberto por telhas francesas. A escada do primeiro pavimento do Instituto será modificada, e toda a frente de cimento para evitar a ação do tempo.

A nova construção ficará de perfeita harmonia com a elegante torre, que vai ser erguida junto a nossa arqui-catedral.

Visto do largo, deve ser agradável o aspecto do edifício, o qual, por seu pé direito, dará magnifica aparência ao fundo da Praça Quinze de Novembro.

Perde-se, é verdade, um espécime da nossa arqueologia local. Vai desaparecer o portão da célebre Ucharia, verdadeira Petite Pologne, tão cheia de recordações para os velhos Cariocas. Será destruída a porta, pela qual a rainha Maria I saía a dar seu passeio vespertino, bem como a que serviu à loja de livros do velho Maciel; esta era tão escura, que o filho deste vinha para a rua receber lições de latim de um sacerdote há pouco falecido. Ambos sentados em bancos, no meio da calçada!

É preciso acompanhar o progresso: pela frente do antigo casarão trafegam os bondes e os fon-fons. Ali o Telégrafo; trabalha aqui pela frente a teia dos telefônicos, e na calçada onde existiu um cemitério, a “Light” prolonga seus fios para atestarem que o Rio de Janeiro é uma cidade hors ligne[2]

Contentemo-nos: do velho Convento do Carmo sempre existirá lembrança em estampas reproduzidas nas revistas – Kosmos, Renascença, Século XX e Rio Atlas.

Ainda bem. Poderá dizer como o outro: non omnis moriar[3].

4 de Fevereiro de 1907.

Notas do Editor

  1. Servatis servandis. – Latim; “Conservado o que deve ser conservado.” – XAVIER, Ronaldo Caldeira. Latim no Direito. Rio de Janeiro: Forense, 1988.
  2. Hors ligne técnicamente é terreno que ficou de fora do traçado da construção da via pública (Infopédia), ou off-line (Linguee), mas neste caso o sentido é de excepcional (Treccani, Enciclopédia Italiana).
  3. Non omnis moriar. (Horácio, Odes, III, 30, 6) – Latim; 1. “Não morrerei de todo.” (XAVIER, Ronaldo Caldeira. Latim no Direito. Rio de Janeiro: Forense, 1988.); 2. “Frase de Horácio em que o poeta exprime a sua fé na imortalidade da própria obra.” (P.R.).

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Uso Atual do Convento do Carmo

A Universidade Candido Mendes tem como mantenedora a Sociedade Brasileira de Instrução, a mais antiga instituição particular de ensino superior do país, fundada em 1902 pelo Conde Candido Mendes de Almeida, juntamente com a Academia de Comércio do Rio de Janeiro. Em 1919, foi criada a Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro, a primeira escola superior de Economia do Brasil.

A Academia transforma-se, nos anos 50, na Escola Técnica de Comércio Candido Mendes, dedicada exclusivamente ao ensino médio. Na mesma década, Candido Mendes de Almeida Junior cria a Faculdade de Direito Candido Mendes, sediada no Convento do Carmo, na Praça XV de Novembro, instaurando um padrão de excelência na área das ciências jurídicas e sendo precursora no ensino da prática forense.

Fonte: Universidade Candido Mendes

Texto original

Mapa – Convento e Igrejas do Carmo