Praça do Curro

Para comemorar a aclamação de D. João VI e os desposórios do príncipe D. Pedro havia o Senado da Câmara feito construir um grande anfiteatro, no antigo Campo de Santana.

Ali realizou a elite em dias de outubro de 1818 pomposas festas populares: cavalhadas, touradas, alardas e danças figuradas.

A todas elas assistiram o rei, a Família Real e o corpo diplomático, altos funcionários e imensa multidão de todas as classes sociais, inclusive o clero.

Tinha o anfiteatro seiscentos e um palmos de extensão, trezentos e cincoenta e três de largura e setenta e sete de altura.

No centro apresentava um largo espaço de forma elítica, destinado propriamente aos festejos.

Uma tela, rezam os jornais do tempo e repete o padre Luiz Gonçalves, de seis e meio palmos de altura, defendia a grande bancada, a qual, dividida por quatro coretos, torneava toda a praça, começando e terminando em um majestoso pórtico representando um arco triunfal.

Este estava firmado sobre quatro colunas, por cima das quais pousava a cimalha geral, que dali circundava toda a praça.

No alto do mesmo pórtico notava-se o carro do Sol, levado por quatro etontes. Ao lado direito via-se a figura de Hércules a subjugar o touro de Creta, e do esquerdo Mercúrio domando a vaca Io.

Uma platibanda almofadada corria por cima da cimalha geral, descansando sobre cento e quarenta e oito colunas, que formavam o contorno da praça. No vão delas contavam-se duzentos e noventa e seis camarotes em duas ordens.

Na face oposta ao arco destacava-se a magnífica tribuna real.

Abreviando extensa e minuciosa descrição, cumpre dizer que o desenho da monumental praça foi de Grandjean de Montigny, e a execução devida a José Feliciano de Oliveira, mestre de obras, dirigido pelo arquiteto Manuel da Costa.

Às quatro horas da tarde do dia 12 de outubro tiveram princípio as grandes festas, cuja memória por muito tempo perdurou entre os nossos antepassados: tais o luxo, a pompa e a grandeza então ostentados.

Milhares de foguetes anunciaram a chegada da régia comitiva. O Senado deu os vivas do estilo secundados por todos os assistentes e correspondidos pela multidão, que enchia bancadas e camarotes. Soaram os instrumentos músicos, ao mesmo tempo mais foguetes espocavam, marcando o início da festa.

Serenadas as aclamações, entrou na praça o carro da América. Era este formado por grandiosa concha de madrepérola, conduzida por dois hipocampos lançando água pelas ventas, governados por Netuno, que além dos atributos próprios vestia riquíssima capa de veludo carmesim. Rematavam a mesma concha, na parte superior, dois golfinhos de ouro, os quais com suas grandes caudas ajudavam uma bela tarja a ornar as armas reais de ouro e prata. Tais golfinhos lançavam também água pelas ventas, por meio de quatro repuxos.

Em um pedestal de esmalte cor de pérola estava a América, ricamente vestida de uma túnica de cetim branco bordada a ouro e orlada com um grande franjão do mesmo, envolvida num manto real de veludo vermelho. Sustentava na mão direita um estandarte com as armas reais, e com a esquerda como que depunha aljava, setas e arco.

Este carro representava rodar sobre as águas com rodas movediças, que giravam entre as ondas, mostrando fazer o movimento sobre o mar pelos mesmos cavalos marinhos.

Esta rica e engenhosa peça, executada por Sebastião da Costa Maia, foi ofertada pelos oficiais de caldeireiro e latoeiro.

Na frente do precitado carro vinham vinte e quatro indivíduos vestidos a caráter. Pararam em frente da tribuna real e ali executaram diversos e difíceis dançados.

Retirado o carro, seguiu-se a dança dos Ciganos, composta de seis homens e outras tantas mulheres, vestidos todos de veludo e ouro. Em um estrado fronteiro à tribuna real executaram vários dançados espanhóis.

Durante estes encheu-se a praça de grande número de mascarados, que giravam por toda a parte formando engraçados grupos.

Seguia a tudo isto interessante cavalhada, formada por trinta e dois cavaleiros, divididos em quatro seções, que se distinguiam pelas cores dos seus riquíssimos vestuários.

Passando por alto as escaramuças, o torneio e outros jogos muito ao paladar da época, direi que – nobreza e povo saíram contentíssimos da Praça do Curro. Anoiteceu e a Família Real, depois de um profuso dessert, como então se dizia, dirigiu-se ao Teatro de São João.

É fácil imaginar o que se passou, falta-nos espaço para resumir o muito que contou o padre Luiz Gonçalves. Foi representado o drama Camilla, composição de Paer. No intervalo do segundo ato, houve um dançado. Começou o espetáculo por um elogio dramático, terminando por quadros alegóricos aos celebrados sucessos.

No dia 13 continuaram os festejos no Campo de Santana.

Apareceu o carro Triunfo à Romana, oferecido pelo Corpo do Comércio e executado pelo maquinista do teatro, Luiz Xavier Pereira.

Tinha esse carro quarenta palmos de comprimento, quatorze de largura e trinta e cinco de alto, todo guarnecido de talha dourada, tendo vários quadros moldurados, dos quais uns mostravam as iniciais J. VI, e outros as dos príncipes consortes.

O seu balanço tinha de largo dezoito palmos e era guarnecido de talha com duas figuras de meio relevo; a do lado direito representava D. Afonso Henriques e a do esquerdo o rei D. Manuel.

Na parte superior da frente sobressaíam em ponto grande as armas do Reino-Unido, as armas portuguesas com a esfera, tendo aos lados a bandeira portuguesa e a do Comércio.

Grandes festões de flores artificiais ornavam todo o abarracamento desta soberba máquina. Dentro desse carro vinham vários máscaras no traje dos antigos Portugueses, com capacete, lança e escudo. Trajavam todos calças e coletes de cetim branco bordados a ouro. Descidos do carro executavam danças mui graves e difíceis, ao som de uma banda de música, vestida com grande riqueza, e que fazia parte do séquito.

Seguia-se o terceiro carro oferecido pelos oficiais de ourives e executado por Antônio José. Conduzia dezesseis dançarinas e dezoito músicos ricamente vestidos, que por sua vez executavam dançados.

É impossível entrar em todas as minúcias descritas pelo já citado padre Luiz Gonçalves, não só a respeito desse carro como dos que se seguiram: o oferecido pelos marceneiros e pelos sapateiros e alfaiates. Tudo neles era bom gosto, riqueza e excessivo luxo.

Terminadas as danças, houve corrida de touros, que se efetuou com grande animação.

Mas, pelo fim da tarde, diz o autor citado, “sentindo-se perto da varanda das mulheres cheiro de fumo de coisa queimada (que se verificou ao depois ser uma toalha que ardera em um botequim inferior às bancadas), às vozes de fogo começou o povo a sobressaltar-se e a precipitar-se desatinadamente das trincheiras na praça, apesar de andar nela um touro, sem saberem quase todos o motivo de tanto reboliço e confusão”.

Acalmado o incidente, continuou a corrida. Assim terminou o festejo do segundo dia.

Na tarde seguinte lá estavam o rei e toda sua família. Prova isso que D. João VI não deixava de ser folgazão, sobretudo quando se via no meio de seu povo, recebido com todo o entusiasmo.

De novo se apresentaram os Ciganos montados em formosos cavalos com as ciganas à garupa. Apeando-se no meio da praça, entregavam os cavalos aos pajens. Feitas as devidas vênias, deram princípio às engraçadas danças espanholas. Começou depois a chover, e durante alguns dias ficou suspensa a festança. Não há gostos perfeitos!

Melhorando o tempo, no dia 21 de outubro realizou-se a terminação das festas na Praça do Curro. Chegadas as pessoas reais, entraram os carros alegóricos e as danças que os acompanhavam, como também a dos Ciganos, todos ao mesmo tempo e em diferentes lugares executavam com apurado esmero as suas agradáveis evoluções, fazendo um espetáculo encantador a entrada simultânea dos carros, a variedade dos vestuários e a diversidade dos dançados, como também o som das diferentes músicas.

Por último, conclui o padre Gonçalves, se apresentaram os cavaleiros, sendo precedidos da sua brilhante comitiva, como nas tardes antecedentes; nesta última, como por despedida, executaram novos e mui vistosos torneios e justas com geral gosto e satisfação.

Terminadas as corridas, começaram os cavaleiros uma bela escaramuça com os lenços na mão direita enrolados sobre o ombro em sinal de despedir-se; e mudando diferentes vezes de lugar e de figura ultimaram esta agradável perspectiva pondo-se em linha.

Logo o Senado deu os vivas ao rei, vivas que logo foram repetidos pelos cavaleiros e por todo o numerosíssimo concurso, suprindo as senhoras com os seus lenços as vozes.

Não se mostrou insensível o coração de D. João VI diante de tantas provas de afeto, fidelidade e amor.

Recompensou dando honras e privilégios, tais como hábitos, postos e outras graças, a todos quantos entraram ou concorreram para tão esplêndidos festejos.

E naquele tempo possuir uma condecoração equivalia a alguma coisa.

19 de novembro de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Galeria de Imagens

Imagem destacada

  • O Campo de Santana, no centro do Rio de Janeiro (1818), de Franz Josef Frühbeck, via Wikimedia Commons.

Mapa

Praça da República